Aparte
Jozailto Lima

É jornalista há 39 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Colaboração / Tanuza Oliveira.

Vamos lá Sheyla Galba e solte o “tapa na raba” dos moralistas da TFP
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Sheyla Galba, levanta a cabeça, dance mais, faça mais vídeos - que tal no plenário da Câmara?

Não há a menor dúvida de que vive-se no Brasil de hoje - e obviamente que Aracaju e Sergipe estão no pacote - um momento sombrio de criminalização máxima das atitudes comportamentais e políticas, mesmo que essas atitudes possam ser mínimas, pequenas, simbólicas.

Um vídeo com a vereadora de Aracaju Sheyla Galba, Cidadania, coreografando harmoniosamente o piseiro “Tchuco Nela”, cantado por Mc Rogerinho e Wesley Safadão, ganhou nesta sexta-feira, 10, status desse instante sombrio e da intolerância dessa criminalização máxima das atitudes comportamentais.

Num ato flagrantemente terno, de plena alegria e de máxima criatividade na improvisação corporal, Sheyla Galba aparece no vídeo bailando ao lado de um dos filhos dela que já a tornou avó, duas jornalistas que trabalham na Câmara, um assessor e mais um rapaz que é intérprete de libras daquela casa legislativa.

A “sensual e lúdica apresentação” da turma acontece numa rampa ao fundo das instalações da Câmara de Aracaju, no centro da Capital e, como se viu, não era o “Lago dos Cisnes”, o clássico balet do russo Tchaikovsky, o que eles estavam dançando.

Bastaram essas duas coincidências - ser nas imediações da Câmara e estar em pauta o piseiro sensual e de sentido duplo “Tchuco Nela” - para que os moralistas de almas sebosas, os egressos da velha TFP - Tradição, Família e Propriedade -  saíssem das suas catacumbas e viessem tentar estrangular a jugular de Sheyla.

Nem é preciso dizer que a tonalidade dos discursos criminalizadores foi a mais chucra e reles possível. Sempre ao rés do chão: da vilania moralesca.

Mas como é que uma vetusta senhora vereadora se dá ao desplante de empinar a bundinha bem ritmada e exibir um corpo em forma a serviço de versos como “Tô com vontade de fazer aquelas paradinhas / que eu só faço com você”?

Ou, com que ousadia essa senhora alegre, bonita, destravada, se predispõe, acompanhada de corpos mais novos e sensuais, a coreografar os versos do refrão de  “Tchuco Nela” - “A bebê já tá fazendo / Uma empinada louca / Tá descendo no veneno / Com o dedinho na boca / Mostrando o seu talento, que eu tô vendo”?

Ora, não há mal nenhum no gesto do bonde da Sheyla e seus alegres colaboradores dançantes à margem da Câmara Municipal de Aracaju. Nem mesmo na letra sensualizada da música.

O mal está na criminalização que a cabeça dos moralistas faz àquela atitude que tem muito de descontração e bastante de cadência artística. O mal está na falta de senso estético e lúdico dessas pessoas travadas, meio ocas.

O mais danoso nessa reação toda é que todo mundo, sobretudo os mais moralistas, mexe a raba, o corpo, o quadril e a alma diante de uma pisadinha qualquer, de um axé, de um xote, de um xaxado, baião ou iê iê iê. Todo mundo dança - só os mortos que não. E está valendo.

Mas o reacionarismo necessita interditar esse valor e esse valer desde quando entre os rebolantes esteja uma vereadora. Lógico que nessa interdição, nessa censura, há uma gama significantes de preconceito. Se a vereadora fosse um vereador tudo teria passado em brancas nuvens. Tudo estaria satisfatoriamente validado.

Os conservadores, ainda que subliminar e imperceptivelmente, preferem associar o nobre Legislativo a vereadores sisudos, negociosos, jabazeiros, obscuros, corruptos - não é que na Câmara de Aracaju os haja - e jogar na fogueira da inquisição uma vereadora de 46 anos, com espírito de 20, que, num instante glorioso de autoestima, bailou tão decentemente.

Sheyla está tão alegre, tão harmoniosa, é a primeira na fila do bonde a dançar, que inspira convite a que todos de alma leve caiam nos passos do grupo e encarem a alegria como um produto de primeira grandeza. Porque é isso que é a alegria - um produto de primeira grandeza que os eunucos não saem distingui-la.

Talvez não fosse necessário lembrar aqui aos que queiram preconceituosamente associar a imagem de Sheyla Galba a algo fútil por causa do seu altíssimo gesto dançante, mas é preciso dizer que há nessa professora uma real mulher de fibra e de valor.

Sheyla Galba é uma das que ajudam a comandar o Coletivo Mulheres de Peito, que tanto bem tem feito às mulheres que se deparam com o câncer em Sergipe - ela mesma uma mastectomizada. Uma pessoa que teve de refazer um dos seus seios.

Portanto, Sheyla Galba, levanta a cabeça, dance mais, faça mais vídeos - que tal um no plenário da Câmara?- e não dê ouvidos ao seres de libido social fossilizada, que não levantam e nem molham por nada suas sensibilidades atrofiadas.

E, como bem diz a letra de outra canção icônica do piseiro, “Tapão na raba”, do Raí Saia Rodada, solta o “tapa na raba” dessa gente moralista que emerge no túmulo da TFP.

 

PS - Na sexta-feira à noite, logo após a postagem deste texto, uma série de colegas jornalistas sergipanos dos que pensam bem entrou em contato com a Coluna Aparte com a seguinte ponderação: eles e a a maior parte das pessoas que criticaram o episódio do vídeo de Sheyla Galba não o fizeram contra a manifestação coreográfica em si da vereadora e seu grupo. O fizeram contra o fato de a Comunicação Social da Câmara Municipal de Aracaju, sobretudo o Instagram da TV Câmara, estar fomentando e acolhendo este tipo de vídeo tanto dela quanto de outros vereadores e até de servidores - o que teria se tomado uma prática corriqueira e uma espécie de "política editorial" das sextas-feiras.

O argumento desses jornalistas foi o de que o espaço institucional da Câmara deveria ser usado para a comunicação institucional do Poder na mediação da ação entre os vereadores e os cidadãos e não para essa, voltada ao mero entretenimento. Tem lá sua lógica e não tem - posto que o entretenimento também deve ser visto como algo de valor público. Mas esse discernimento de se deve ser ou não assim, quem deve tê-lo ou não tê-lo é a irascível e estranha senhora que coordena no Legislativo da Capital a Comunicação Social.

OBS: Informação acrescentada em 11-06, às 8h50min. 

 

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