Aparte
Opinião - As mulheres e a política em Sergipe, em tempos de pandemia

[*] Eliano Sérgio Azevedo Lopes

Um fato, no mínimo curioso, está a acontecer nesses tempos de pandemia em Sergipe, notadamente na capital Aracaju, relacionado com as eleições de novembro para prefeito da cidade. Diga-se, de passagem, um fato bacana. Trata-se da presença maciça de mulheres, seja como cabeças de chapa, seja como candidatas a vice-prefeitas.

Mulheres participando de forma efetiva na política, reflete o avanço do processo de empoderamento delas nos últimos anos, entre outras conquistas que se afiguram como fundamentais para uma oxigenação partidária e uma visão mais sensível sobre problemas e questões sociais que afetam a maioria da população.

Protagonismo que pode ser visto tanto em partidos mais à esquerda do espectro ideológico, quanto passando pela direita e chegando até à chamada extrema-direita. É o caso, por exemplo, da ex-deputada estadual e professora Ana Lúcia (vice na chapa do PT), e das delegadas da polícia civil Katarina Feitosa (candidata a vice-prefeita do atual prefeito de Aracaju, do PDT) e Danielle Garcia, esta como candidata a prefeita de Aracaju pelo Cidadania.

Para além de suas visões de mundo - conservadora ou progressista -, o que deve ser ressaltado e aplaudido é a presença delas na cena política a disputar cargos majoritários de igual para igual com os homens ou com eles a compor as chapas. É um avanço inegável e prenúncio de um alargamento numa configuração que historicamente teve os homens como protagonista e as mulheres, no máximo, como simples coadjuvantes.

Nem o indesejável oportunismo de colocar mulheres na chapa apenas para supostamente mostrar-se aberto aos novos tempos ou visando a obter os votos femininos, retira ou diminui esse acontecimento importante, que veio para ficar. As mulheres cada vez mais influenciarão e participarão do jogo político, para desespero dos machistas e alegria dos que enxergam na presença delas, em todos os setores e campos da sociedade, o farol a iluminar um futuro com menos desigualdade e com maiores oportunidades para todos, independentemente de sua origem de classe.

Das 11 chapas na disputa pela Prefeitura de Aracaju, 81,8% têm mulheres na sua composição, concorrendo como prefeitas ou vices, como mostra o Quadro I. Apenas o PRTB e o Avante têm suas chapas formadas exclusivamente por homens. O Partido da Mulher Brasileira – PMB -, curiosamente, tem um homem na cabeça da chapa (Juraci Nunes) e uma mulher (Alda Rejane), como vice.

Fato esse, assim como o da constatação da expressiva presença de mulheres nas chapas concorrentes à Prefeitura de Aracaju no dia 15 de novembro deste ano, já ressaltado, também, pelo jornalista Adiberto de Souza (Infonet, 16 e 17 de setembro de 2020).

Essa configuração atual do quadro eleitoral, visando à conquista da Prefeitura de Aracaju, demonstra uma mudança importante no que, até então, parecia ser uma marca da política local: a baixa ou nenhuma presença de mulheres na composição das chapas em eleições majoritárias para a Prefeitura da capital, nos últimos 20 anos.

Nas cinco chapas que concorreram às eleições para prefeito e vice-prefeito de Aracaju em 2000, não havia uma única mulher, seja como cabeça de chapa seja como vice. Quatro anos depois, uma situação inusitada: a presença de três mulheres nas seis chapas majoritárias (Vera Lúcia (PSTU) e Suzana Azevedo (PPS, atual Cidadania), candidatas a prefeita, e a Pastora Cláudia Helena (PT do B), como vice de Suzana.

Em 2008, das seis chapas concorrentes à Prefeitura de Aracaju, apenas uma delas tinha na sua composição uma mulher, a persistente Vera Lúcia, do PSTU. Essa situação começa a mudar a partir das eleições municipais de 2012, onde dobra o número de mulheres candidatas a prefeita ou vice, com as presenças de Vera Lúcia (PSTU) e Conceição Vieira (PT), esta como vice e aquela, mais uma vez, a prefeita.

Nas eleições de 2016 esse avanço continua, com três mulheres integrando uma das sete chapas que disputaram a Prefeitura da capital – Eliane Aquino (PT), como vice-prefeita e Sônia Meire (PSOL) e a persistente Vera Lúcia (PSTU), como postulantes ao mandato de prefeita.

Todavia, é em 2020 que a presença feminina na disputa eleitoral para a Prefeitura de Aracaju explode, com nove mulheres presentes nas 11 chapas homologadas para as eleições de 15 de novembro deste ano (Quadro I).

Quadro I

Estado de Sergipe Candidatas a prefeitas ou vices no município de Aracaju em 2020.

Nome Cargo Partido Coligação

Delegada Danielle Garcia Prefeita Cidadania “Unidos por Aracaju”: Cidadania, PL e PSDB.

Delegada Georlize Teles Prefeita DEM

Gilvani Santos Prefeita PSTU 

Missionária Simone Vieira Vice-prefeita DC

Bispa Vanilda Mafort Vice-prefeita PTB “Frente Conservadora” PTB, PSL, Patriotas e PMN.

Prof Ana Lúcia Vice-prefeita PT “Aracaju de todos nós”: PT, Rede, Pros e UP.

Alda Rejane Vice-prefeita PMB

Carol Quintiliano Vice-prefeita PSOL 

Delegada Katarina Feitosa Vice-prefeita PSD “Pela vida, pela cidade”: PDT, PSD, MDB, Republicanos, Progressistas, PV, PC do B, PSC e Solidariedade. Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, 2020.

Das nove mulheres candidatas, sete são neófitas na política; apenas duas, Ana Lúcia (PT) e Gilvani (PSTU), já participaram de outras eleições, sendo que Ana Lúcia foi deputada estadual pelo PT em quatro legislaturas.

Importante ressaltar que o fato de serem novas na política não significa, necessariamente, a garantia de que encarnam ou representam uma nova forma de fazer política, embora em suas manifestações públicas se apresentem como portadoras de tais intenções.

O mesmo vale para as já experientes no fazer político, muitas vezes ainda arraigadas em dogmas e posições passadistas, presas ao sectarismo e com visão estreita da realidade contemporânea.

Quatro das nove candidatas têm passagem pelo setor público estadual, com experiência em gestão em áreas do magistério e assistência social e da segurança pública, como é o caso da professora Ana Lúcia e das delegadas da Polícia Civil Danielle Garcia, Georlize Teles e Katarina Feitosa.

Duas são oriundas de denominações religiosas, a missionária Simone Vieira e a bispa Vanilda Mafort, uma do movimento sindical dos petroleiros, Gilvani, e as demais, de outras áreas de conhecimento e/ou atividades (Alda Rejane e Carol Quintiliano).

Dois outros pontos merecem comentário: a forte presença de mulheres oriundas de órgãos de segurança, representados pelas delegadas de Polícia Civil Danielle Garcia, Georlize Teles e Katarina Feitosa, que vêm na esteira da crescente militarização da política, a partir da eleição do Bolsonaro e sua pregação “conservadora nos costumes e liberal na economia”, como gostam de se autodenominar os seus seguidores e os arautos da “nova política”; e a sub-representação da mulher negra na composição das chapas concorrentes à Prefeitura de Aracaju, onde apenas duas (Alda Rejane e Gilvani), das nove mulheres candidatas a prefeita ou vice podem ser consideradas como tal.

Elas representam 22,2%, pouco mais de um quinto, do total de mulheres que pleiteiam as cadeiras de prefeita ou vice do município de Aracaju. Do ponto de vista estritamente ideológico, apenas três postulantes situam-se nos campos da esquerda e centro-esquerda - Gilvani, Carol Quitiliano e Ana Lúcia.

As demais tendem muito mais para uma posição centrista, de direita ou de extrema-direita - portadoras de uma visão moralista, conservadora, quando não reacionária. Resumindo, embora as eleições só aconteçam em novembro desse ano, de uma coisa já se pode ter certeza: no dia primeiro de janeiro de 2021, Aracaju terá uma mulher como vice-prefeita da capital.

As duas chapas compostas exclusivamente por marmanjos (PRTB e Avante), não passam de figurantes nessa disputa pela prefeitura do município. Não será uma coisa inédita, posto que o mandato já vinha sendo ocupado por outra mulher, Eliane Aquino (PT), eleita em 2016 com o atual prefeito de Aracaju, e que abdicou do posto para ser a vice-governadora de Sergipe, na chapa vencedora das eleições de 2018.

O que se espera, no entanto, é que a eleita em 2020 não seja uma mera espectadora ou figura decorativa na formulação e implementação de políticas públicas que venham a ser adotadas pelo executivo municipal. Se isto irá ou não ocorrer, só o tempo dirá.

Independentemente do que vier a acontecer, só o fato de cada vez mais as mulheres estarem a participar da política, deve merecer os mais efusivos aplausos. A presença delas, disputando os mais altos postos de governo, ajuda sobremaneira a democracia e ampliam os horizontes de compreensão dos problemas das cidades, para além do “economicismo” e da racionalidade estreita com que os homens, infelizmente, têm conduzido as coisas de Estado.

[*] É doutor em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pelo CPDA/UFRRJ, professor aposentado na UFS e avó da Liz e da Bia.

 

 

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