Aparte
Opinião - Valadares Filho abandona protagonismo e arrega para Alessandro Vieira

[*] Rafael Galvão

Depois de exercer três mandatos de deputado federal e de ter chegado ao segundo turno na disputa para o Governo do Estado de Sergipe em 2018, Valadares Filho, presidente regional do PSB sergipano, rejeitou o papel de protagonista que o sobrenome familiar garantia à sua trajetória política e passou atuar como coadjuvante do projeto político-pessoal-eleitoral da delegada Danielle Garcia, Cidadania.

Ao desistir de concorrer à sucessão do prefeito Edvaldo Nogueira, PDT, para apoiar a incerta pré-candidatura de Danielle, nome nunca antes testado nas urnas, o filho do ex-senador Valadares demonstra não ter aprendido nada com os mais de 50 anos de vida pública do pai, que o colocou no Congresso Nacional quando tinha apenas 26 anos de idade e ainda é o responsável por avalizar suas decisões políticas.

Ao que tudo indica, as derrotas sucessivas cobraram um preço amargo a Valadares Filho. Prestes a completar 40 anos, e apontado por alguns como detentor de potencial real de liderar o agrupamento da oposição na capital nas eleições deste ano, Valadares Filho, covardemente, renegou o eleitorado que fidelizou, sobretudo nas três eleições a disputas majoritárias que disputou nos últimos oito anos, e se coloca a reboque do Cidadania, presidido pelo enfezado senador Alessandro Vieira.

Com essa decisão, o ex-deputado Valadares Filho não apenas rebaixa sua estatura política a coadjuvante de um outro projeto, aventureiro e inconsequente. Ele joga fora toda a sua trajetória política, coroando uma rota de decadência que se iniciou quando traiu todo o projeto do qual fazia parte, e do qual seu pai foi um dos artífices, em busca de um protagonismo artificial e insustentável.

Ao apoiar uma candidata oriunda das hostes do bolsonarismo e da extrema direita, que ganhou notoriedade apoiando a candidatura de Bolsonaro à Presidência, Valadares Filho dá as costas à história do Partido Socialista ao qual é filiado, de Miguel Arraes e de Eduardo Campos, e se encaixa, definitivamente, no que sempre insistiu em chamar de “velha política”.

Mas Valadares Filho faz mais do que isso. Diminui-se para se encaixar num figurino decorativo, e se resigna a ser mais um peão no jogo sorrateiro empregado por Alessandro. No bloco que tenta liderar, Alessandro não mede esforços para consolidar sua posição tendo em vista as eleições de 2022, ainda que tenha que recorrer aos métodos truculentos e autoritários típicos de alguns setores das forças policiais.

Para lançar a pré-candidatura da colega de profissão e de partido, Danielle Garcia, mais obediente por não ter trajetória política própria, rifou sem cerimônia a vereadora Emília Correa, Patriota, dando mostras de não respeitar acordos.

É verdade que cumprimento de acordos tampouco seja um ponto forte da família Valadares. Quando disputou o comando da prefeitura da capital pela segunda vez, em 2016, Valadares Filho se coligou com os irmãos Eduardo e Edvan Amorim, os quais indicaram o vice de sua chapa. Por essa aliança, os Valadares se comprometeram a apoiar Eduardo na disputa pelo Governo do Estado em 2018. A palavra foi dada, mas não cumprida.

Agora, junto a Danielle Garcia e sob o discurso inconvincente de renovação das práticas políticas, Valadares e os Amorim voltam a dividir o mesmo palanque, embora ambos não se tolerem, e Alessandro não os tolere - a menos que tenha deixado de vê-los como “as mesmas velhas figuras de sempre”, como afirmou em 2018 ao rejeitar uma parceria com o PSB do agora pré-candidato a vice da chapa majoritária do Cidadania.

Ao se aliar às “velhas figuras de sempre”, Danielle parte para um vale-tudo eleitoral e coloca em nova perspectiva o vazio de suas propostas - que se resumem a um genérico “combate à corrupção” e a uma necessidade, também genérica, de “renovação” - e a inconsistência de sua candidatura.

Ou seja, desde de que atinja seu objetivo pessoal, todos os meios que possam lhe garantir espaço de poder são bem-vindos, sejam eles quais forem. E, nesse jogo sem escrúpulos, Valadares Filho, que há pouco tempo lutava para se consolidar como uma nova liderança política, com luz própria, não passa de uma peça a ser mexida no tabuleiro de acordo com a conveniência política do senador Alessandro Vieira. Como diz o nordestino, Valadares Filho arregou.

[*] É marquetólogo político.