
Daniela Coelho: poeta que capta bem seu derredor e faz transmutação poética com precisão
Jozailto Lima
Jornalista e poeta
Nesta quinta-feira, 14, às 18h, na Biblioteca Epifânio Dórea, a poeta Daniela Coelho, 52 anos, estará lançado seu segundo livro de poemas, “Atávica”. Opa, peraí. “Atávica” não. Este é o primeiro livro dela, e já foi lançado há uma ruma de tempo. Precisamente lá em 2021, pela Editora Mondrongo.
Nesta quinta, em horário e local acima citados, Daniela Coelho vai receber um caeiro de amigos para lançar “Esse gato não é meu - versos ferinos”, este sim seu segundo livro de poemas. Agora está correto.
E que livro! “Esse gato não é meu - versos ferinos” é um livrim de 130 páginas lambuzado de poesia boa por todos os lados. De poesia de primeira. Que o leitor não se deixe preconceituar - essa palavra existe? - pela quase brincadeira do título.
Aliás, quem conhece Daniela Coelho mais ou menos de perto sabe que ela é tomada por uma enorme hiperatividade, mas que leva tudo-tudim a sério. A sério, ainda que evidentemente encastoado à brincadeira. A ironia.
Mas na hora de fundir palavras e dar-lhes a elas a categoria de poesia, saia da frente, porque esta moça, que é uma conceituada odontóloga - uma ortodontista, uma gente especializada a desempenar a boca das pessoas -, amalgama as coisas com precisão. Com exatidão. Com um bocado de ãos que são parelhas para boa qualidade.
Ela está madura como poeta e vem a ser de muitíssima boa qualidade tudo que Daniela Coelho concebe neste seu “Esse gato não é meu - versos ferinos” a partir da sua obsercriação, da sua obserinvenção, sobre o reino das coisas vivas que pululam ao seu redor.
Mas preste muitíssimo a atenção: engana-se que for compulsar o novo livro de Daniela movido pelo título, achando que esta poeta fez um manual sobre os gatos, ou que se dedica exclusivamente a estes seres misteriosamente encantadores. É óbvio e certo que os gatos e suas naturais encantações pululam com força na poética de Daniela neste livro.
Mas a poeta vai bem além dos felinos. A antena de Daniela Coelho capta de um tudo, e muito desse tudo está ligado à natureza. À vida selvagem - animais, pássaros, gatos, quelônios, cágados e jabutis, vegetais, jaqueiras, fenômenos naturais como chuva, rios e seus cursos. O sol. De tudo isso, Daniela tira métrica, ritmo, aliteração e nos devolve em forma de poemas que muito querem dizer e que muito de fato dizem.
Não é redundante dizer que de dizer no campo poético Daniela Coelho muito bem sabe. E quem leu “Atávica” sabe muito bem o que isso quer dizer. Mas eu traduzo, se acaso você não o leu: diz da vida, do barro de Vitalino, da pedra de Drummond, da roupa suja no varal, do amor, dos afetos, da ingratidão, das alegrias da família, da poesia não pela poesia, mas pela vida vivida e respirada.
Mas que enjoo, que insistência essa de ficar falando aqui de “Atávica” quando “Atávica” nem em pauta está. Voltemos ao que interessa, que é “Esse gato não é meu - versos ferinos”, da Editora Litteralux, composto de 86 poemas, todos sem título, mas todos bem perfilados com a boa causa da literatura. Da lírica profundamente canônica e contemporânea. O bom do livro de Daniela Coelho é que a qualquer página que você o abra vai encontrar com ele, o livro, “cumprindo o seu louco dever” de nos prover com aquilo que é obrigação de um livro de poemas. Ou seja: se nos entregar poesia.
Daniela Coelho e “Esse gato não é meu - versos ferinos” lhe esperam a partir das 18h na EpifânioEstarei aqui a grafar uma obviedade? Obviedade coisa nenhuma. Isto carece ser dito porque, infelizmente, estamos cansados de livros de poemas que não entregam poesia. Estamos cansados de livros de poemas que cospem na cara do leitor com uma constelação de versalhadas indigestas, sentimentalóides, que não têm nada a ver com o que se possa chamar de poesia.
Portanto, alvíssaras para essa tal de Daniela Coelho e seu “Esse gato...”, que passam ao largo e ao longe desse borralho e, em assim sendo, não cumpre mais do que suas obrigações de poeta e de livro de poesia.
De modo que n”Esse gato...”, você, leitor minimamente exigente, vai encontrar uns trenzins assim assaz bem-feitos. Bom de serem lidos e cumpridores de seus deveres de poema e de poesia. Quem, senão uma excelente poetisa, senão um ótimo poema, arrancaria poesia de profunda qualidade do complexo de raízes e de toda uma algaravia que sustenta uma jaqueira e a faz brincar, do alto em sua copa, com o vento, dando-lhe este função e existência?
Apois sinta isso, leitor, neste poema – que aqui vai por inteiro: “As raízes desenham/ Uma cordilheira/ Que avança com o dorso aparente/ Cercando a árvore/ Retorce, afunda/ Some por dentro/ Das entranhas da terra/ Fundando o alicerce que sustenta/ A arquitetura da jaqueira/ Tronco, galhos, folhas / Estampam o espaço/ Dando função ao vento”.
Daniela Coelho é assim. Assim quer dizer poeta que justifica o que toca. Que acende o que toca, como devem ser os que se dizem poetas. E ser assim valida essa condição num tempo em que há supostos coleguinhas por aí concebendo poemas - será isso seria um conceber? - se valendo da inteligência artificial.
Enquanto isso, Daniela Coelho vale-se de uma inteligência cognitiva que deve caminhar junto com todos os que são ungidos a captar imagens do mundo, seja através de um poema, de uma pintura, de uma peça musical, na construção e devolução do belo.
Veja que bela litania, pois, essa poeta faz com a chuva e suas consequências - e seus depois: “A chuva pegou de surpresa/ O meio da semana/ Ficou parecendo um rio/ Os pássaros pousaram/ Nas margens a cuidar das penas/ Ensopadas/ Os galhos das árvores arriaram/ A copa como quem ajoelha agradecendo/ E na janela os pingos se uniram/ Para dissolver o vidro/ Por fora e por dentro já é correnteza”.
Belo é o mimetismo lírico entre o humano e a natureza que a poeta propõem em sua poesia. Um exemplo? “Ninguém entende que vivo/ Pelas árvores da minha casa/ Plantei e aguei/ Meu amor pousa é nelas.” Ou este precioso passear de sol pelo universo, num quase haikai: “No meio da manhã/ O sol passa o tempo/ Escalando o firmamento”.
Para não dizer que não não falei de gatos que Daniela Coelho usa para nominar seu livro, eis um belo exemplar no qual ela brinca com o flanar dos felinos, numa linguagem dulcíssima, a começar pela verso introdutório. “O bicho é cuiudo/ Diz, entendido, o vizinho/ Não pega gordura à toa/ Ontem mesmo voou por sobre um muro/ De dez metros de altura/ Só pra espiar a lua/ Capaz de chegar nela/ Arrancar um tampo/ Trazer nas unhas/ Uma cratera/ Pra ficar dentro/ Se lambendo/ Chamando o cio”.
Uma escritora que conceba poeticamente um gato com tamanha habilidade, capaz até de trazer uma cratera lunar sob as unhas, certamente teria algo a convencer a T.S. Eliot e a Maria Lúcia Dal Farra, poetas dados aos bons afagos a esses independentes bichinhos.
Mas o livro de Daniela Coelho tem alguns desarranjos. O primeiro deles, é que a autora espargiu poemas sobre gatos muito aleatoriamente no corpo da publicação. O leitor passa por um gato, tropeça num jabuti ali e numa jaqueira acolá, e depois volta a se trombar com o felino. Não poderiam ser todos os poemas sobre gatos adensados numa única secção?
Outro senão, e este é de estilística desta boa poeta, sobre o que temos conversado muito: Daniela Coelho não facilita a vida do leitor com uma pontuação e uma virgulação mais ajustadas dos seus poemas. Do tipo que remeta o leitor a um fôlego melhor diante do que ela está a dizer. Ela distribui o menu de versos e o leitor que monte o seu quebra-cabeça. Outro: ela desconhece clareira, espaçamento, entre versos. É tudo uma emenda úncia e irrevogável. Um tiro só.
Mas nada disso abole a essencialidade do discurso poético de Daniela Coelho, esta baiana de Paulo Afonso que habita Aracaju há 40 anos, portanto desde a adolescência. Nada embota seu brilho como autora, como gente que sabe sentir o seu derredor e captá-lo com precisão para a transmutação poética. Talvez esses probleminhas bobos de que me queixo - mania absurda minha -, ela possa resolver lá com seu gato Romeo.


















