Aparte
Opinião - O Beco dos Cocos em Aracaju

Elayne Messias Passos: ascensão e queda do Beco dos Cocos

[*] Elayne Messias Passos

O beco urbano, mais do que uma passagem física, é um relicário de significados. Em Aracaju, por exemplo, o Beco dos Cocos - a travessa Silva Ribeiro - ilustra isso com uma história que remete a tempos de boemia, marginalidade e transformações culturais. Ao estudá-lo antropologicamente, é possível percebê-lo não somente como um lugar de esquinas esquecidas, mas como um “espaço de resistência no centro da cidade”.

Originalmente rota de passagem para cargas de cocos, o beco mais famoso da capital sergipana foi transformado ao longo do século XX em zona boêmia, lugar de cabarés e encontros sociais, onde conviviam tanto a elite quanto trabalhadores, constituindo uma singularidade urbana que poucos becos ostentam.

Hoje, mesmo com processos de revitalização recentes, sua paisagem física ainda é testemunha de tempos distintos. As pinturas em grafite convivem com os restos de antigos estabelecimentos e os murmúrios de histórias passadas.

De certo modo, olhar antropologicamente para o Beco dos Cocos é enxergar Aracaju fora de seus cartões-postais: é descobrir como a vida social se aninha em espaços residuais e como as memórias coletivas se entrelaçam com o presente urbano.

Um beco pode ser entendido como muito mais do que uma passagem. Ele pode ser um espelho multifacetado da cidade que o circunda. É assim com o Beco dos Cocos. A via consolidou-se, ao longo do século XX, como um dos principais espaços de sociabilidade noturna de Aracaju.

Entre as décadas de 1940 e 1960, o local viveu seu período de maior efervescência, quando cabarés, cassinos e boates se instalaram na travessa, transformando-a em um ponto de encontro de diferentes grupos sociais.

Por ali circulavam desde trabalhadores do porto e estivadores até comerciantes, intelectuais e membros da elite sergipana, revelando uma característica singular da vida urbana aracajuana: a convivência, ainda que momentânea, entre classes sociais distintas em um mesmo espaço de lazer e boemia.

Essa dinâmica social transformou o Beco dos Cocos em um espaço simbólico da cultura urbana local. Os estabelecimentos que ali funcionavam, como bares, pensões e casas de dança, contribuíram para a construção de uma atmosfera boêmia que marcou a memória coletiva da cidade.

Nesse ambiente, personagens diversos, desde prostitutas famosas até escritores e memorialistas sergipanos, passaram a integrar o imaginário cultural de Aracaju. O Beco dos Cocos, portanto, não foi apenas um espaço de entretenimento, mas um cenário onde se entrelaçavam histórias pessoais, práticas sociais e formas de sociabilidade típicas de um centro urbano em transformação.

Entretanto, com o passar do tempo, o espaço experimentou um processo de declínio e marginalização, refletindo mudanças mais amplas na dinâmica do centro da cidade. O fechamento de estabelecimentos tradicionais e a redução da circulação de frequentadores colaboraram para que o lugar fosse gradualmente associado à prostituição, ao consumo de drogas e à degradação urbana.

Esse processo, relatado por moradores e comerciantes da região, demonstra como determinadas áreas centrais podem perder seu protagonismo econômico e social, transformando-se em espaços estigmatizados e pouco frequentados pela população. Apesar dessas transformações, iniciativas culturais e intervenções urbanas recentes têm buscado ressignificar o Beco dos Cocos, reconhecendo sua importância histórica e simbólica para a cidade.

Projetos artísticos, como intervenções de grafite e eventos culturais realizados no local, tentaram reativar a circulação de pessoas e transformar o beco em um espaço de expressão cultural e convivência pública. Essas ações revelam que, ainda que marcado por períodos de abandono, o Beco dos Cocos persiste como um importante fragmento da memória urbana de Aracaju, capaz de refletir as múltiplas camadas históricas, sociais e culturais formadoras da cidade.

[*] Licenciada em História pela Universidade Federal de Sergipe, doutora em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia e assessora do ministério da Educação.