Aparte
Opinião -  “Amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada"

[*] Francisco Emanuel Silva Meneses Alves

Em 2004, o capelense e então jovem candidato a prefeito Sukita, no PSB do senador Valadares, venceu o pleito com 6.797 (50,57% dos votos válidos) enfrentando os ex-prefeitos Manuca, PFL, (2.094 votos - 15,58% dos votos válidos) e Carlão, então candidato à reeleição pelo PDT, (4.298 votos - 31,98% dos votos válidos). Ali também foram candidatos Pedrinho do PT e Juracy (PSL) num eleitorado de 17.490 votos e com 205 votos brancos (1,40%), 1006 votos nulos (6,87%) e 2.838 abstenções (16.23%).

Já em 2008 Sukita, PSB, venceu Roberto do Boticário, PSC, tendo 12.588 contra 2.886 de votos - 81,35% contra 18,65% dos votos válidos. Num eleitorado de 20.420 e com 623 votos brancos (3,55%), 1435 votos nulos (8,19%) e 2.888 abstenções (14,14%). Em 2012, ainda pelo PSB, Sukita tentou emplacar como sua sucessora a desembargadora aposentada Josefa Paixão. Naquele pleito, ela foi derrotada por Ezequiel Leite, PR. O resultado foi 10.049 votos para este último contra 7.896 votos para Josefa. Num eleitorado de 20.641 votos e com 434 votos brancos (2,2%), 632 votos nulos (3,24%) e 1.111 abstenções (5,38%).

Em 2016, pelo PTN, Sukita apoiou sua ex-mulher Silvany. Concorrendo contra Astrojildo da Farmácia, então no PMN, Silvany venceu por 9.929 votos contra 8.858 de Astrojildo. Também concorreu neste pleito Nacelio Andrade, pelo PRB, hoje Republicanos. Num eleitorado de 23.913 votos e com 432 votos brancos (2,6%), 1278 votos nulos (6,9%) e 2.933 abstenções (12.27%). 

Naquele 2004 Sukita vendia a si mesmo como “o novo” e contava com o apoio de nomes muito variados, como André Moura, Valadares e Marcelo Déda. Aproveitou-se astutamente do fato de ainda serem permitidos showmícios em parte de sua carreira política. Em 2005 chegou a ser afastado do mandato e concorreu em eleição suplementar contra Chico de Ary, então no PFL. Foram 6.715 votos (50,89%) contra 6.479 (49,11%). Num eleitorado de 17.568 e com 212 votos brancos (1,49%), 780 votos nulos (5,15%) e 3.382 abstenções (19.25%).

 

Em 2006 e 2010 deu expressivas votações a seus parceiros no âmbito estadual e federal, notadamente o ex-senador Antonio Carlos Valadares e o candidato Zé Eduardo, o ex-deputado federal Valadares Filho e os deputados estaduais André Moura e Adelson Barreto. Também deu boas votações ao ex-presidente Lula e Marcelo Déda em Capela.

Em 2008 venceu um único opositor vendendo a imagem de imbatível e muito aprovado. Em 2012, levando o ex-governador Marcelo Déda ao seu palanque para apoiar sua candidata, a viu perder para um usineiro ex-vereador fora da política há mais de 20 anos. Em 2014, Sukita candidatou-se a deputado estadual ainda pelo PSB. Foi muito bem votado, mas não conseguiu ser diplomado devido a questões judiciais - já havia sido preso. Em 2016 candidatou-se a prefeito de Japaratuba pelo PTN, ficando em segundo lugar no pleito com 3.218 votos, perdendo para Lara Moura, PSC.

Em 2016 elegeu sua primeira indicada, Silvany, a época ainda casada com ela. No mesmo pleito, elegeu seu irmão Adaltro Sukita, PTN, vereador mais votado, com 1.190 votos (6,06%) dos válidos (quase o triplo da votação do último colocado - 458 votos).

Em 2020 Sukita, Republicanos (antigo PRB), apoia sua irmã Clara Sukita no pleito para a Prefeitura de Capela. Seu irmão Adaltro, do mesmo partido, é candidato a vereador mais uma vez. A filha Isadora Sukita é candidata a vereadora em Aracaju também pelo mesmo partido.

Silvany é candidata à reeleição pelo PSC. Também são candidatos Astrojildo (agora pelo Podemos, antigo PTN pelo qual Silvany se elegeu em 2016), Jânio da Lublin, do Solidariedade, e Nacelio Andrade, do Cidadania.

Escolhi Sukita como ponto de partida dessa análise para tentar demonstrar como a prática política tem uma dinâmica própria e como os contextos mudam por diversos fatores, tornando as coisas aparentemente controversas e para desmitificar a propaganda que visa tornar o terreno incerto da política como exato.

Em 2004, Sukita aparece como aparentemente progressista, inclusive em seu partido, ali o PSB, com o apoio de Valadares e apoiado nas figuras de Lula e Déda durante seus dois mandatos. Após se desligar do PSB, entra no PTN, hoje Podemos, partido pequeno, mas longe de ser progressista e atualmente se encontra no Republicanos, partido extremamente ligado a certos segmentos evangélicos.

Cabe ressaltar que a primeira e única vez em que Sukita conseguiu eleger alguém que candidatou-se à Prefeitura foi exatamente em 2016, quando sua então esposa, com experiência administrativa por já ter sido titular de várias Secretarias nas gestões dele em Capela e detentora de um carisma pessoal e desenvoltura que lhe deram mais possibilidades de eleição do que doutora Josefa em 2012.

Josefa foi juíza em Capela, foi desembargadora e foi secretária da gestão de Sukita também. Mas carisma e jogo de cintura para eleições não se compra enlatado nem surgem instantaneamente. Silvany foi eleita num pleito em que durante boa parte da apuração esteve atrás na contagem.

Este analista que aqui escreve cravara com seu pai: “se ela ultrapassar, ele não a acompanha mais”. Dito e feito. Agora Astrojildo tem o apoio do ex-prefeito Ezequiel e também em 2016. Ezequiel construiu a Rodoviária que Sukita pôs no chão para construir um mega projeto que nunca saiu da ideia - a mesma coisa que ocorreu com o mercado, que Silvany concluiu agora.

Certa vez perguntei ao próprio Sukita porque ele não fez nem uma plaquinha com a data de nascimento e morte da Rodoviária, já que não construiu seu super projeto. Ele “pagou de doido”, e não respondeu. Basicamente o que moveu Ezequiel a concorrer contra Sukita foi um show de intolerância e cisma contra Sukita.

O nome de Ezequiel tem algum peso eleitoral, mas nunca consegue o que ele sempre desejou. Ser amado como Sukita. Certa vez disse a um funcionário próximo de Ezequiel que achava que ele dormia com uma foto de Sukita embaixo do travesseiro, porque isso só podia ser muita idolatria.

O fato é que Ezequiel não tem o apelo popular e a habilidade de cooptar lideranças e costurar grupos que Sukita tem. Neste sentido, Astrojildo, muito querido e popular na cidade, ganha algum apoio com Ezequiel, mas peca por inexperiência com a coisa pública e por uma coisa nociva de todos os lados nessas disputas: o mero desejo pelo poder.

Todos temos vaidades, mas esquecer que a experiência pavimenta caminhos queimando etapas e saltando degraus não nos leva necessariamente aonde queremos. Astrojildo vem com o Podemos do líder do Governo na Alese, Zezinho Sobral, e com o PSD de Belivaldo e dos Mitidieri - esse PSD vem meio “cristianizado” sem Fábio, que é aliadíssimo de Sukita.

Voltando a este último. Democrático e popular quando? Numa eleição para a Presidência da Câmara de Capela, Sukita rendeu impropérios contra André Moura e Ulices Andrade, desferidos contra vereadores aliados do então deputado André e do conselheiro do TCE. Não foi só isso.

Desde a situação que afastou Sukita da Prefeitura em 2005, que ele protagonizou uma série de episódios de ofensas ao Ministério Público e aos Poderes Judiciário, Legislativo e Executivo (municipal, estadual e federal), seja pessoalmente seja pelos meios de comunicação.

Na sua Mega FM, chegou a dizer que se o então senador Eduardo Amorim ganhasse a primeira eleição que tentou para o Governo de Sergipe – 2014 -, pegaria o cofre do Estado, pintaria de azul, diria que era uma geladeira e levaria pra casa. Ele é, sem dúvida, irreverente, inconsequente e, por vezes, desesperado.

Popular? Sim. Carismático? Sim. Tem importância eleitoral? Sem dúvida. Pasmem: Sukita nasceu em 1º de abril e isso não é mentira. Não existe imbatível em política, sobretudo quando esse tira teima de força depende de transferência de votos.

Josefa Paixão e Clara Sukita não tem o carisma e a habilidade de Silvany. Esta última, por se dizer grata a André Moura, filiou-se ao PSC e vem junto com o ressuscitado PL, antes PR num agrupamento com o apoio de André e defendendo a sua reeleição numa gestão marcada em partes pelo momento em que ela ainda era casada com Sukita e este ainda tinha alguma influência em sua gestão, por vezes negativa, já que Sukita dificilmente não tumultuava discussões importantes do município por despertar irritação e impaciência em quem já não simpatizava tanto mais com a sua figura

É importante apontar que as abstenções nas eleições municipais saltaram de 5,38% em 2012 para 22,27% em 2016. Nesse mesmo sentido talvez abstenções em eleições gerais saltaram de 14,88% em 2014 para 21,78% em 2018.

Será isso um sinal de esgotamento do eleitorado capelense acerca da política partidária que se faz no município nos últimos anos? E 2020 pode sinalizar uma queda maior ainda de Sukita e por ironia do destino numa eleição entre ex-aliados e ex-aparentados. Sukita lançou Silvany e com autonomia, esta agora se opõe a ele, que depois de muitos episódios difíceis nos últimos anos se coloca num cenário eleitoral muito aberto onde um dos principais riscos é confundir vitória com vontade.

Política não é só partido. Não é só carisma. Não é só propaganda. Não é só fundo partidário. Não é só plano de governo. Não é só vontade e não é só biografia. Pode ser apenas um desses itens, todos eles e até nenhum. Como diz um cancioneiro nordestino “amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada”.

O eleitorado apto a votar em Capela em 2020 é 24.994. Para o Executivo e para o Legislativo, temos nomes antigos - alguns demais - e nomes novos. É preciso votar em quem se preocupa com desenvolvimento social, entendendo isso como educação, saúde, emprego e renda. Emancipar as pessoas antes do lucro, respeitar nossa mata; diversificar nossas potencialidades econômicas; respeitar a dignidade de nossas comunidades tradicionais e educar as futuras gerações para a diversidade. Pergunto então, como Ataulfo Alves: “como será o amanhã?”. Escrevi esse texto como filho da Capela, consciente e preocupado com sua história e seus rumos. 

[*] É fiscal de acesso, antropólogo, professor, psolista, poeta e cientista social, capelense de espírito e aracajuano de registro.

 

 

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