Aparte
Opinião - As fogueiras e as censuras aos livros e aos escritores na era moderna

[*] Janaina Couvo

Considerada uma das maiores invenções da história, a máquina de impressão, desenvolvida pelo alemão Johannes Gutenberg no século XV, é tida como uma revolução da era moderna, promovendo a possibilidade de acesso aos livros, elemento que tanto assusta aos que assumem o poder ao longo dos séculos.

Antes, os livros eram feitos artesanalmente e, a partir desta invenção, com uma produção mecanizada os livros passaram a ser produzidos em um tempo mais reduzido sendo acessível.

Com uma parcela da população leitora e os livros em latim, que era o que prevalecia na produção antes de Gutenberg, a Igreja Católica Apostólica Romana ficava com o controle do que deveria ser lido ou não.

Com a imprensa, os livros começaram a circular entra as pessoas, inclusive, não somente os eles, mas também outras publicações, como panfletos, folhetins, entre outros que, inclusive, foram importantes na divulgação de pensamentos críticos da época.

O livro transformou-se em um importante meio de comunicação e foi fundamental para o movimento da Reforma Protestante na Europa.  Com a ampliação do número deles circulando entre as pessoas, logo tornou-se um objeto temido, principalmente pela Igreja, que já estava enfrentando movimentos reformistas.

Assim, também se tornou um elemento que deveria ser destruído, sendo considerado herético, fazendo parte das grandes fogueiras da Inquisição.

Um exemplo disso foi a destruição de mais de 600 livros pela Inquisição de Salamanca, na Espanha, e em Granada, onde foram queimados cinco mil manuscritos árabes.

Tudo isso em nome de um discurso religioso que escolhia que tipo de conhecimento deveria ser partilhado nas sociedades, uma prova da necessidade que a Igreja tinha que ter o domínio sobre o pensamento.

Não somente os livros, mas em algumas situações também seus autores. Muitos sofreram censura, sendo considerados hereges, tendo que renegar suas ideias sob a ameaça de queimar na fogueira, como foi o caso de Galileu Galilei.

Em sua obra Diálogos, Galileu Galilei defendeu a teoria de que a terra e os demais planetas giravam em torno do sol, o que levou a sua publicação a ser considerada heresia, e ele, para não ser condenado à fogueira, foi levado a renegar suas ideias a partir de uma confissão.

Já Giordano Bruno, que defendeu em suas obras, entre outras coisas, que o universo era infinito e estava inacabado, a Igreja também exigiu que ele renegasse seus pensamentos.

Porém, ele se recusou e acabou condenado como herege e queimado na fogueira, assim como suas obras. Não somente escritores, mas também leitores foram alvo de perseguições e levados às fogueiras na era moderna.

Esta perseguição ao conhecimento, que desde a antiguidade é uma constante, não ficou restrita a fatos passados. Escritores continuaram sendo perseguidos ao longo do tempo por suas ideias, por utilizarem a liberdade de colocar no papel suas reflexões, contribuindo para o desenvolvimento do senso crítico de humanidade.

É o caso do que acontece no Brasil atualmente com relação ao pensamento de Paulo Freire, importante referência na educação e que inclusive é considerado o patrono da educação brasileira, título que foi alvo de uma proposta de um Projeto de Lei (3.033/2019) para ser substituído por São José de Anchieta.

Por apresentar uma proposta de uma pedagogia voltada a uma educação emancipadora, valorizando a liberdade de pensamento e a importância dos professores neste processo, seu pensamento incomoda o governo atual, sendo considerado uma ameaça.

Num país onde setores conservadores defendem a retirada do pensamento de Paulo Freire de tudo que envolve a educação brasileira, é necessário refletir se não está na hora de reafirmar com mais força os ideais deste pedagogo que em 2021 terá o seu centenário e que precisa cada vez mais ter suas ideias defendidas e espalhadas por todo o Brasil. Fiquemos com uma de suas convicções libertadoras: “É preciso que a leitura seja um ato de amor”.

[*] É professora de história da rede pública de Sergipe e museóloga.

 

 

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