Aparte
Jozailto Lima

É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica.

João Hora Neto: “A magistratura é um sacerdócio, não um mero emprego”
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João Hora, em juramento: “Um discurso de posse também é uma prestação de contas, existencial e funcional”

No dia 6 do mês de dezembro do ano passado, há menos de um mês, o Poder Judiciário de Sergipe recepcionou o juiz de direito de longa carreira João Hora Neto como seu mais novo desembargador.

João Hora Neto chegou ao posto por antiguidade, depois quase 34 anos de dedicação a uma magistratura de alta significação, compartilhada apenas com o cátedra do Direito na UFS. E fez um discurso de posse muito interessante, recheado de erudições e sem pedantismo, no qual consegue citar com fina coesão figuras da cultura brasileira e universal como João Cabral de Melo Neto, Jorge Luis Borges, Tobias Barreto, Pontes de Miranda, Joseph Brodsky, Nikolai Gogol, Rubem Alves, Theotonio Negrão, Dalmo de Abreu Dallari, John Stuart Mill, Gabriel García Márquez.

“A magistratura é um sacerdócio, assim a compreendo, não um mero emprego. Por isso, entendo que eventuais interessados à carreira, que ambicionam ganhar dinheiro, devem de logo mudar de profissão, pois, para ser um bom juiz não basta apenas o conhecimento técnico, mas, antes de tudo, ser honesto, uma vez que um juiz corrupto deve ser punido exemplarmente”, disse Hora Neto, num dos trechos.

Pela importância do todo do discurso de desembargador João Hora Neto, o Portal JLPolítica & Negócio o publica aqui na sua íntegra.

“DISCURSO DE POSSE - Excelentíssimo Senhor Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, Des. Ricardo Múcio Santana de Abreu Lima, na pessoa de quem cumprimento os demais membros do Poder Judiciário;

Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de Sergipe, Dr. Fábio Cruz Mitidieri, na pessoa de quem cumprimento os demais membros do Poder Executivo;

Excelentíssimo Senhor Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe, Deputado Jeferson Luiz de Andrade, na pessoa de quem cumprimento os demais membros do Poder Legislativo;

Sua Excelência Senhor Procurador-Geral de Justiça, Dr. Manoel Cabral Machado Neto, na pessoa de quem saúdo os demais membros do Ministério Público do Estado de Sergipe;

Sua Excelência Senhor Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Sergipe – Dr. Danniel Alves Costa, na pessoa de quem saúdo os demais advogados do Estado de Sergipe;

Sua Excelência Senhor Procurador Geral do Estado de Sergipe, Dr. Carlos Pinna de Assis Júnior, na pessoa de quem saúdo os demais procuradores do Estado de Sergipe;

Sua Excelência Senhora Subcorregedora Geral da Defensoria Pública do Estado de Sergipe, Dra. Andreza Tavares Almeida Rolim, na pessoa de quem saúdo os demais defensores públicos do Estado de Sergipe;

Senhor Presidente da Associação dos Magistrados de Sergipe – Amase – Dr. Roberto Alcântara de Oliveira Araújo, na pessoa de quem cumprimento os demais colegas magistrados.

Magníficos Reitores da Universidade Federal de Sergipe, Dr. Valter Santana, e da Universidade Tiradentes, Dr. Jouberto Uchôa de Mendonça;

Sua Excelência Presidente do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe, Dr. Flávio Conceição de Oliveira Neto;

Demais autoridades civis e militares presentes, servidores da justiça, meus familiares e amigos, meus Senhores e minhas Senhoras!

TECENDO A MANHÃ

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Eis um dos poemas de que mais gosto, cujo autor é João Cabral de Melo Neto. A mensagem metafórica do poema é a de que, para se construir uma manhã, é preciso dos gritos de muitos galos, assim como para se construir um novo vivenciar humano – uma nova manhã da humanidade – precisamos, cada qual, fazer a nossa parte, pois a vida humana é uma construção coletiva.

João Hora: chegando à casa dos iguais: muitos dos atuais desembargadores são da sua geração

Externarei aqui, neste momento de celebração pessoal, a minha contribuição, o meu legado.

Meus Senhores e Minhas Senhoras!

Dizem os manuais de cerimônias que os discursos devem ser temporalmente dosados, ou seja, não tão curtos que nos deixem atônitos/perplexos, nem tão compridos que nos entristeçam ou nos entediem.

E se a alma é vasta, a vida é breve!

Farei, então, um breve discurso.

E se o discurso deve ser breve, como assim é a vida, impõe-se desvendar esse curioso sonho existencial, isto é, esse vão desejo humano em querer buscar o Eterno. Ledo engano aos homens, pois não há o Eterno, o Imponderável, o Celestial, uma vez que tudo se resume no ‘agora’, neste exato instante em que aqui estamos.

Ledo engano aos homens que também acham que a Religião promete a Salvação, a Eternidade; penso que não, creio que a Religião existe por duas razões, isto é, o medo da morte e a angústia de viver, segundo Luc Ferry, filósofo francês.

A única Glória é estar vivo! E ainda que possa parecer paradoxal, compreendo Deus como o Destino, o Arbítrio.

No resumo da Vida, é preciso perceber que o “homem é sonho de uma sombra”, no dizer dos gregos e que o “o único tempo real é o presente”, segundo Santo Agostinho.

A vida humana é um sopro, e, como costumeiramente repito para não esquecer, é só um filme sem roteiro, sem ensaio e sem direito a trailer!

Cada um de nós tem uma história de vida, um filme por assim dizer...

Me permitam dizer uma parte do meu ‘filme’, inclusive para que tenhamos a exata compreensão deste momento solene de posse ao honroso cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe.

Aos 29 anos tornei-me Juiz de Direito, nos idos de 1989. Aqui, aos meus olhos e nessa bancada, acham-se boa parte dos meus colegas de concurso.

Àquela ocasião havia diversas comarcas vagas no interior do Estado, razão por que a grande maioria dos colegas aprovados no concurso foram de logo titularizados nas respectivas comarcas.

João Hora: magistratura é um serviço tão púbico quanto o serviço de varredura de rua

Cronologicamente, exerci a jurisdição nas seguintes comarcas, a saber:

Em 1990 – Titularizado em Porto da Folha e Distrito de Monte Alegre;

Em 1991 – Removido para Neópolis e Distrito de Japoatã;

Em 1992 – Removido para Laranjeiras e Distrito de Areia Branca;

Em 1994 – Promovido para a Vara Criminal de Lagarto;

Em 1994 – Removido para 1ª Vara Cível de Estância;

Em 1995 – Removido para a 1ª Vara Criminal de Aracaju;

Em 2008 – Removido para a 5ª Vara Cível de Aracaju;

Em 2014 – Removido para a 21ª Vara Cível de Aracaju.

Enfim, são quase 34 anos de magistratura e, nesse vasto tempo, exerci a jurisdição no interior do Estado por cerca de 05 (cinco) anos e por 28(vinte e oito) anos na capital, o que significa dizer que tenho alguma experiência profissional, razão pela qual, em linguagem menos protocolar, posso ser considerado um velho juiz, mas não um juiz velho, pois, afinal, “tem cada idade a sua juventude”, conforme Bastos Tigre.   

Trata-se de uma longa carreira, por certo.

E quando, aqui ou acolá, rememoro esse tempo, sou levado a crer que de fato fui um juiz de um outro mundo – primitivo/longínquo/secular – à vista da realidade atual.

Basta lembrar que, nos primórdios, a minha geração não dispunha desse aparato tecnológico moderno (computador, celular, whatsapp, vídeo audiência, consulta de jurisprudência on line, urna eletrônica, etc.), uma vez que fazíamos audiência registrando em papel com carbono, usávamos máquina de escrever manual, fazíamos despachos a mão, carregávamos processos físicos (em papel), consultávamos jurisprudência em grossos volumes da Revista dos Tribunais, fazíamos eleições com urnas físicas, contávamos votos a mão, preenchíamos mapas eleitorais intermináveis, apurávamos os votos por vários dias, afora, ainda, o prosaico ritual, quase semanal, de virmos pegar o material de expediente neste mesmo prédio, todas as segundas-feiras, para daí levarmos em nossos próprios carros para as comarcas. Além disso, para efeito histórico, vale lembrar que torcíamos para que a televisão dos fóruns funcionasse bem, vez que quase sempre dependia de um sinal mágico produzido por um chumaço de ‘bombril’, fato que até hoje me causa imensa curiosidade científica, confesso.

Um discurso de posse, por assim dizer, também é uma prestação de contas, existencial e funcional.

E digo prestação de contas porque a Justiça, enquanto um Poder da República, é essencialmente um serviço púbico como qualquer outro, e que, segundo Victor Nunes Leal, ex-ministro do STF, é “tão público quanto o serviço de varredura de rua”…, o que significa dizer, por conseguinte, que o magistrado é tão apenas um servidor público qualificado, que exerce uma parcela da soberania estatal, ainda que não eleito, mas via concurso público.

A magistratura é um sacerdócio, assim a compreendo, não um mero emprego. Por isso, entendo que eventuais interessados à carreira, que ambicionam ganhar dinheiro, devem de logo mudar de profissão, pois, para ser um bom juiz não basta apenas o conhecimento técnico, mas, antes de tudo, ser honesto, uma vez que um juiz corrupto deve ser punido exemplarmente.

Após tantos anos de labuta, sinto-me vocacionado para a magistratura, razão por que não guardo aflição vocacional. Nasci para ser juiz, o que me faz lembrar uma frase das minhas leituras juvenis, do grande escritor francês Stendhal, quando assim disse “a vocação é a felicidade de ter como ofício a paixão”.

Em continuidade ao ‘filme’ da minha carreira, devo dizer, contudo, que essa longa trajetória teve tropeços e sobressaltos, o que é natural, pois, afinal, nada na vida é linear, ou mais ou menos linear, ou em curva, ou mais ou menos em curva, pois o ato de viver é complexo e a vida é só uma mera contingência, sabemos disso.

O caminhar da vida é exaustivo, mas desafiador.

As circunstâncias cotidianas são relevantes para as nossas decisões e escolhas, mas tais circunstâncias também devem se pautar pelo nosso ideal ético, inclusive na esfera profissional.

Desde os primórdios da minha carreira adotei uma postura de independência funcional, o que, por certo, me trouxe revezes; o fato é que jamais me arrependi dos embates havidos, posto que, na lição de Guimarães Rosa, “quem elegeu a busca não pode recusar a travessia”.

Desembargador João Hora: instante de posse com seus familiares

Por diversas vezes concorri ao cargo de desembargador pelo critério de merecimento – mas sem êxito!

Quis assim o Destino.

Mas o Destino, o Acaso, não deve ser compreendido como uma fatalidade em si, pois, em geral, tem explicação no mundo dos fatos.

Há dois critérios de ascensão aos tribunais brasileiros, segundo a Constituição Federal e a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (LOMAN), isto é, os critérios de merecimento e o de antiguidade.

Historicamente, à vista da cultura jurídica em voga, o critério de merecimento jamais foi cumprido a contento, apesar dos esforços do Conselho Nacional de Justiça em regulamentá-lo, via Resoluções, no sentido de efetivar o ‘mérito objetivo’, ou seja, aquele fundado em dados concretos funcionais. Todavia, ao que se percebe, em geral as promoções por merecimento se dão atreladas às simpatias pessoais e até políticas.

Mas o ato de viver é uma contingência, uma mera probabilidade, como bem elucida Joseph Brodsky, ao dizer que “a vida não é boa nem má, apenas arbitrária”.

Independente da convicção pessoal de cada qual – crente, agnóstico ou ateu – o Destino, aqui entendido como Arbítrio, aqui entendido como Deus, é algo perceptível no cotidiano com alguma facilidade, quando, por exemplo, repentinamente somos pegos com a notícia da morte de um ente querido, uma pessoa amada, um homem bom por assim dizer…

E é nessa fatídica circunstância que vêm logo à mente perguntas como: Logo ele, nosso amigo, uma pessoa tão boa? Logo ele, uma pessoa tão querida? perguntas essas que nos remetem à fatalidade e à finitude da vida, cuja ironia faz perdurar um homem mau e elimina a esmo um homem bom, e por isso, nos deixa perplexos diante da estupidez da morte, como bem lembra Shakespeare nessa célebre assertiva “o homem bom dura menos do que a flor, por morte ou por doença”; já o homem mau, digo eu, perdura até de forma cínica, à toa e demoradamente.

O Destino, o Arbítrio, Deus, é uma abstração imponderável!

E o meu Destino foi esse: tornar-me Desembargador pelo critério de antiguidade, mas não guardo mágoa disso, ao contrário.

Na minha alma, acolho a frase grega “o que se prorroga não se perde” e, portanto, o critério de antiguidade me alcança até de forma poética, conforme expressão do escritor russo Nikolai Gogol, que diz “o que for seu não fugirá de você”.

O Acaso da vida quis contemplar-me com a promoção por antiguidade, que, em essência, é um merecimento deferido por Deus, pelo só fato de estar vivo, pois a vida é tão apenas uma fortuidade, ou melhor “a vida é uma conjectura”, como diz Jorge Luis Borges.

Também convêm dizer que ascender ao cargo de Desembargador pelo critério de antiguidade tem um mérito sublime, isto é, o fato de chegar ao honroso cargo do Tribunal de Justiça de Sergipe sem nada dever aos entes humanos, sem nenhuma dívida a pagar de qualquer natureza, salvo a passagem do Tempo, a antiguidade aferida documentalmente.

Apenas e apenas, agradeço a Deus, ao Criador, a quem de joelhos regozijo-me por estar aqui vivo, e, muito especialmente, agradeço a misericórdia da Graça de me tornar, há poucos meses, avô de Joaquim.

Na esteira de que um discurso de posse é uma prestação de contas, reporto-me, agora, à minha docência como Professor de Direito Civil da Universidade Federal de Sergipe há mais de 30 (trinta) anos, uma longuíssima carreira também.

Sou muito grato à Universidade Pública do meu País, onde ali me formei, nos idos de 1985, e, onde, a partir de 1992 passei a lecionar, mediante concurso público.

Nesse longo período, ajudei a formar diversas gerações de advogados, promotores, procuradores de justiça, procuradores da república federal, defensores públicos, servidores da justiça e diversos magistrados (estadual e federal), muitos dos quais meus atuais colegas de carreira da magistratura.

No cotidiano, confesso que fico lisonjeado quando um ex-aluno se dirige a mim chamando-me de ‘Professor’ e não como magistrado, haja vista que, nessas ocasiões, melhor compreendo o que disse o grande educador Rubem Alves, ou seja, que “o professor busca a posteridade”, no sentido de que é prazeroso ao professor ver o aluno superar o seu mestre, ou melhor, eternizar as lições em um patamar ainda maior.

Continuo gostando de lecionar, apesar de já próximo da aposentadoria. Neste momento, importante dizer que foi por causa da docência que escrevi diversos artigos jurídicos publicados em revistas jurídicas de renome nacional, muitos dos quais citados pela doutrina, inclusive no Código Civil Interpretado de Theotonio Negrão, a obra codificada de maior prestígio na literatura jurídica pátria.

Na Faculdade de Direito da UFS tive grandes mestres, merecendo destaque a participação do Professor António Goes na minha formação acadêmica, o qual despertou em mim a vocação para o Direito Civil, e a quem, neste momento, rendo in memoriam a minha gratidão, guardando assim, de público, o célebre brocardo romano – ‘a gratidão é a memória do coração”.

Importante ainda dizer que foi através da UFS, em convênio com a Universidade Federal do Ceará que fiz meu Mestrado em 2001 e, recentemente, em 2021, também em convênio com a UFS, conclui meu Doutorado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) – o que me permite dizer, para fins de registro histórico, que me torno hoje o primeiro Desembargador com Doutorado da história da Justiça Sergipana desde a criação do Tribunal de Relação, em 18 de maio de 1892, razão por que posso contribuir, ainda mais, para o elevado nome do Tribunal de Justiça de Sergipe.

Um discurso de posse de um Tribunal também é uma reflexão, um rápido olhar sobre o atual cenário da Justiça Brasileira, pois, afinal, “o direito serve à vida”, como diz Pontes de Miranda.

Vivemos tempos ásperos!

Para boa parte da minha geração e, em particular, para mim, de formação humanística, técnica e democrática, me causa espécie o cenário cotidiano que viola o Estado Democrático de Direito, cujo valor central e absoluto é a Democracia, assim entendida como “o império da lei”, na dicção de Dalmo de Abreu Dallari ou no “governo por meio do debate”, na dicção de John Stuart Mill.

Vive-se um cenário de distopia.

Desembargador João Hora com o procurador-geral do Estado, Carlos Pinna Junior

Há situações que causam perplexidades, que desatendem as mais elementares lições do mundo jurídico, ao ponto de criarem tipos penais, flagrantes por analogia, decisões monocráticas ao bel-prazer do Julgador, em descompasso com os princípios processuais constitucionais do juiz natural; do devido processo legal (ampla defesa e contraditório); o da motivação das decisões; o da publicidade etc., além de princípios infraconstitucionais, como, por exemplo, o da individualização das condutas, o da reserva legal (não há crime sem lei anterior que o defina), o da colegialidade, dentre outros.

Segundo alguns, tal cenário deriva da judicialização da política; para outros, decorre de uma sanha judicial decisionista, em descompasso com o direito positivado, na esteira do chamado ‘neoconstitucionalismo’, que dá lastro ao ‘ativismo judicial’, entendido este, em breve síntese, na postura anômala do Poder Judiciário quando avança na esfera de atuação dos demais Poderes da República, como, por exemplo, usurpa a função típica do Poder Legislativo.

De qualquer sorte, há um cenário de insegurança jurídica e o afã de legislar é patente.

A meu sentir, se uma situação compreensível é fazer valer a ‘força normativa da Constituição’, ou melhor, a ‘vontade da Constituição’, na expressão de Konrad Kesse, outra coisa, bem diferente, é produzir uma jurisprudência sentimental/ideológica, a pretexto de ocupar espaços vazios em busca da efetivação dos direitos fundamentais insculpidos na Carta Magna, confundindo-se o juízo de discricionariedade, que é legítimo, com o juízo de arbitrariedade, que é irracional.

Na contemporaneidade, a despeito da judicialização crescente dos fatos da vida, no contexto de uma sociedade pós-moderna, plural, massificada e desigual, há situações levadas ao Poder Judiciário que sequer merecem ser conhecidas, à vista da irrelevância das pretensões, muitas das quais de mero foro íntimo, mas que terminam sendo conhecidas e julgadas com base em princípios metajurídicos (princípios da fraternidade, da felicidade, etc.), afora o reiterado princípio da dignidade da pessoa humana, usado a esmo, como se uma panaceia jurídica.

Outras novéis situações, contudo, merecem análise e decisão do Julgador, mas que deve se pronunciar sem voluntarismos ou decisionismos, isto é, sem o viés da ‘jurisprudência sentimental’, de há muito rechaçado pela doutrina. Por exemplo, na sua clássica obra “Hermenêutica e Aplicação do Direito”, escrita há quase 100 (cem) anos, Carlos Maximiliano nos adverte que “o papel da judicatura não é guiar-se pelo sentimentalismo; e, sim, manter o equilíbrio dos interesses, e dentre estes distinguir os legítimos dos ilegítimos”, pois “quando o magistrado se deixa guiar pelo sentimento, a lide degenera em loteria”.

No atual cenário, percebe-se a violação de um dos pilares do Estado Constitucional de Direito - o Princípio da Separação dos Poderes - o que termina por fenecer a vontade popular, materializada pela eleição do Parlamento Nacional.

A par disso, temos um Congresso Nacional leniente com tais situações, inclusive diante da omissão de grande parte da comunidade jurídica nacional, aqui incluindo juízes, promotores, advogados, bem como boa parte da imprensa.

Os tempos são difíceis: em verdade, diante da profusão de decisões monocráticas pelo STF, ao arrepio do princípio da colegialidade, e com enorme repercussão na vida nacional, indaga-se se hoje temos um único STF ou onze Supremos Tribunais Federais!

Meus senhores, minhas senhoras!

Também um discurso de posse é uma declaração de bons propósitos do empossando.

E aqui o farei, isto é: serei o que sempre fui!

Na condição de Desembargador do Tribunal de Justiça de Sergipe, comprometo-me a julgar de acordo com a minha ciência e consciência, cônscio de que sistema jurídico pátrio é o do ‘civil law’ e não do ‘common law’, o que significa dizer que continuarei aplicando a lei, mas sem ser escravo dela, pois, como bem dizia o grande Ministro do STJ, Sálvio de Figueiredo Teixeira, “o Juiz serve-se do Código, mas não serve ao Código”.

Após quase 34 anos de judicatura, é uma honra desmesurada integrar o Tribunal de Justiça do meu Estado.

Não há dúvida da importância e grandeza do cargo, e, por isso, estou ciente das responsabilidades que aumentam, doravante.

Na doutrina, especialmente nas lições de Ética Profissional, apontam-se diversas qualidades de um bom magistrado, como, por exemplo, imparcialidade, conhecimento técnico, honestidade etc. Para mim, além delas destacaria a coragem de decidir e a independência, sendo esta última hostil à intimidade, à convivência próxima, às relações quase familiares, posto que, conforme bem disse Aristides Junqueira, “a intimidade é a maior inimiga da independência”.

Como Desembargador, o meu compromisso é ser o Juiz que sempre fui, isto é, compromissado com a causa da Justiça, com o Direito positivado, ainda que não apegado à legalidade estrita da lei, haja vista que o Direito não se esgota na lei.

Comprometo-me a buscar à Justiça, o fim teleológico do Direito.

Mediante a hermenêutica, comprometo-me a efetivar o ‘interesse público’ (coletivo, geral, amplo e republicano), que é diferente do ‘interesse do público’, uma vez que este é sempre de menor alcance, posto que grupal, sequaz e sectário.

O Direito é ciência de raciocínio.

Sempre bom lembrar que o Direito é regramento da vida (Pontes de Miranda) e que o Direito é um produto cultural da humanidade e não uma abstração celestial (Tobias Barreto).

A jurisprudência sentimental é nefasta.

Entendo que a paixão pelo julgamento é inimiga do argumento, pois “apaixonar-se não é argumentar”, conforme lição de Carlos Maximiliano. Em geral, cabe ao juiz tão apenas dilatar, completar e compreender a norma, mas jamais alterar, corrigir ou substituir, e muito menos negar a norma, decidindo contra legem.

Comprometo-me a adotar a autoridade do argumento, mediante um raciocínio jurídico meritório e eficaz, e não o argumento de autoridade, vez que este é fundado em um juízo arbitrário, permeado de sentimentalismos, achismos, ideologismos, expresso num juridiquês medonho e num bacharelismo atroz.

Nesse sentido, iluminado pela autoridade do argumento, entendo que cabe ao Julgador tão apenas falar nos autos, que é o seu lugar de fala, e não na imprensa, como assim tem-se visto corriqueiramente, inclusive pré-julgando a questão a decidir. Em essência, assiste ao Juiz tão apenas três fazeres: despachar, decidir e sentenciar, nada mais!

Pretendo, pois, contribuir com a boa fama do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, em prol da uniformização da sua jurisprudência, mantendo-a estável, íntegra e coerente, conforme assim vaticinado pelo Código de Processo Civil.

Enfim, como Desembargador, inspirado no poema de João Cabral referido no início, esse será o meu legado em prol da construção coletiva de uma nova manhã para a humanidade – mais ética, mais solidária, mais justa.

Meus Senhores! Minhas Senhoras!

É chegada a hora dos agradecimentos.

Neste instante especial da minha vida, em primeiro lugar quero agradecer a Deus, de joelhos, a graça de estar vivo, quero agradecer, genuflexo, a minha Santa Nossa Senhora Guadalupe, a quem devoto a espiritualidade que ainda possuo.

Quero agradecer aos meus pais que me deram a Vida, Martha e Fernando, minha mãe aqui presente, e a meu pai (in memoriam), lembrando-me que desde a minha juventude ele me incentivava às leituras do ‘bruxo do Cosme Velho” (Machado de Assis), o seu autor preferido.

Quero agradecer aos meus sogros, impossibilitados de comparecer – Eraldo Targino e Tereza – pela fraternal convivência.

Quero agradecer aos meus amigos, aos conhecidos e a todos indistintamente pela honrosa presença.

Quero agradecer aos meus familiares.

Muito especialmente, quero agradecer a dádiva divina de ser pai de duas filhas amadas, Maria Tereza e Maria Fernanda, pelo só fato de existiram e que, por isso mesmo, justificam e embelezam os caminhos da minha Vida.

E, ainda, quero agradecer a duas pessoas mais do que especiais, ou seja, o meu netinho Joaquim Hora, aqui presente, um jovem infante apenas, como dizem os civilistas e que, por certo, não está entendendo absolutamente nada. E, por último, muito mais ainda quero agradecer a Carla, minha esposa, a companheira de sempre e que tanto me ajudou nessa longa travessia, que tanto me soergueu dos embates da Vida, uma mulher firme, positiva, sensata, de caráter inabalável. A você, Carla, muito obrigado de coração!

Alfim, encerro este discurso iluminado por essa frase -- ‘o que for seu não fugirá de você’.

E se a vida é só um filme sem roteiro, sem ensaio e sem direito a trailer, é sempre bom lembrar o que dissera Gabriel García Márquez - “não chore porque passou, sorria porque aconteceu”.

Muito Obrigado!”

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