Aparte
Opinião - O Setembro Amarelo e o direito humano à felicidade

[*] Robson Anselmo

A humanidade travessa tempos difíceis. De tempos em tempos abate-se sobre nós uma atmosfera de desesperança, de angústias e desalentos que se expressa numa certa anomia coletiva e na estrutura subjetiva dos sujeitos.

Em todos os momentos em que surge essa neura, a relação causa e efeito se impõe entre sujeito e coletivo e entre coletivo sujeito que nos entorpece por identificarmos primeiramente, neste último, as consequências de uma sociabilidade fragmentada. É quase sempre sobre o indivíduo que se imprime a totalidade das corrupções dos valores, das perspectivas e dos horizontes alvissareiros.

Os impactos nos sujeitos se impõem conforme os paradigmas de cada momento histórico. Se num determinado período a renúncia à vida urbana e o retorno ao campesinato foi alternativa para proteção contra o obscurantismo, a fé cega o enlutamento das perspectivas de futuro, em outra quadra o vagar pelas ruas e becos escuros das metrópoles forjou o contingente de enjeitados, dos sem-ninguém e dos desolados.

Por um dado momento, as conquistas humanas no campo da industrialização, do crescimento da produção de bens de consumo, das ciências médicas e biológicas o seu assentamento sobre a doutrina judaico-cristã, chegaram a esperançar a humanidade ocidentalizada. No entanto, logo se percebeu que a promessa da modernidade não se fez plena como anunciada e os indicadores começaram a aparecer.

Diante do caos vivenciado pela tecnologia bélica, da potencialidade de autodestruição iniciada com as chamadas guerras mundiais, a constituição das Nações Unidas, a Declaração dos Direitos Humanos e os variados pactos e convenções, novos fôlegos de vida ao projeto de humanidade e de planeta terra como casa mãe foram aspirados por homens e mulheres ao redor do mundo.

A partir da segunda metade do século passado e as duas primeiras décadas do atual, a vida no planeta e em sociedade se complexificou. A revolução tecnológica, a popularização da TV e da FM, dos meios de transportes, a rede mundial de computadores e a crescente precarização das relações de trabalho, aliadas ao apelo midiático pelo consumo e o esforço das famílias para suprir as necessidades dos seus membros, com crianças e adolescentes cada vez mais definindo o padrão de gosto e de escolha dos bens adquiridos, acrescenta-se a atuação de um estado que se formata cada vez mais mínimo para atender as demandas das populações que precisam da sua assistência, tudo isso tem concorrido para um cenário de adoecimento individual.

Ao olhar para esses ingredientes, percebe-se, primeiramente, que antes do indivíduo, a sociedade está enferma. Essa enfermidade que se origina no coletivo, contagia os sujeitos e os torna presas fáceis porque a resiliência pessoal é infinitamente vulnerável às pressões sociais.

E essa vulnerabilidade se expressa, dentre outras formas, por meio do suicídio. E torna-se muito mais evidente no suicídio de adolescentes e jovens. Estes, que caracterizamos como poço e fonte de vida, de vitalidade e de perspectivas. No Brasil e em vários lugares do mundo, registra-se inclusive, o elevado índice de suicídio em crianças.

O fenômeno do suicídio como tem se apresentado, caracteriza-se como um problema de saúde pública mundial. Porém, esse não é um típico problema de saúde que se resolve com a prescrição de uma droga medicamentosa. 

O elevado índice de suicídio no Brasil e no mundo revela que para uma parcela significativa de pessoas, expressa que a infelicidade que corrói os sonhos e a esperança de um contingente muito maior do que os que cometem suicídio.

Considerando que os direitos humanos são conquistas históricas da humanidade na direção da sua autorrealização e da promoção da dignidade, a felicidade se impõe cada vez mais como um direito humano. Com esse estatuto, a felicidade não pode ser concebida somente como uma predisposição ou determinação do sujeito, do indivíduo, do cidadão. 

A felicidade como um direito humano implica em conceber o sujeito como resultado das oportunidades que teve e das escolhas que fizera. Não é possível fazer escolhas quando não se tem o que escolher, quando não se tem oportunidade. 

No contexto de exacerbada desigualdade, de invisibilidade das individualidades, na solvência do particular no coletivo, no acirramento do desrespeito com as diferenças e na imposição de padrões de ser e estar no mundo, para muitos a oportunidade aparente é a abreviação da vida. 

[*] É professor e militante de movimentos sociais que defendem causa dos afrodescendentes.

 

 

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