
Silvio Santos: “Não é coincidência que esta anomalia esteja sendo comemorada por fascistas e golpistas”
[*] Silvio Santos
Com a reprovação do nome de Jorge Messias para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal pelo Senado nesta quarta-feira, 29, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva amargou uma derrota que, de tão previsível, nem deveria ser vista como uma grande surpresa. Jamais lamentada e sequer comemorada.
Os erros mais notórios ao longo do Lula 3 estão no fato de sua articulação política ser conduzida por lideranças que, apesar de experientes e hábeis, são analógicos, incapazes de entender o cavalo de pau que a política deu nos últimos tempos.
O que aconteceu no Senado nesta quarta tem o mesmo DNA do escandaloso caso Merrick Garland, ocorrido em 2016, no qual o Congresso dos Estados Unidos, dominado por radicais de ultradireita, simplesmente tomou do Governo Obama uma indicação à Suprema Corte que era sua por direito e tradição, tirando-lhe a indicação para dá-la de presente a Trump em 2017. Deu no que deu: basta analisar os estudos internacionais sobre a saúde da democracia dos EUA em 2016 e comparar com os números atuais.
Outro erro recorrente de leitura é subestimar o papel deletério de uma força política denominada Centrão, que se autodenominou com esse nome logo no início da redemocratização, por vergonha de se assumir como direita, e daí por diante, como um ser invertebrado, esteve em todos os governos desde então, invertendo a lógica da velha palavra de ordem anarquista e dando um novo sentido ao velho brado “si hay gobierno, estoy dentro”.
A derrota de ontem mais uma vez mostra a dificuldade de uma articulação política capaz de entender o que aconteceu na política depois que o Centrão meteu a mão no governo Bolsonaro e mudou totalmente as regras do jogo. Viramos o país da emenda Pix, da parlamentarização do orçamento. Além do recrudescimento da extrema direita, aqui o jogo agora é outro. Não é mais futebol. Agora é MMA. É sopapo em orelhas e titelas.
O erro cometido nesta quarta, 29, não tem nada a ver com as qualidades e ou com os defeitos de Jorge Messias. Tem a ver com o fato de não se entender quem era o inimigo da vez. E que esse inimigo estava disposto a tudo para continuar controlando um futuro que se vislumbra tenebroso em decorrência de mal feitos já denunciados. E fiquemos atentos: isso pode ser só o começo.
Quando se diz que o Senado fez uma coisa pela primeira vez em 132 anos não se trata apenas de um mero fato histórico. Estamos diante de uma clara aberração. Quando chegamos à conclusão de que uma determinada coisa nunca tinha sido feita na história contemporânea da democracia constitucional brasileira, isso diz tudo.
O que não faltam são motivos para que isso nunca tenha acontecido antes e sequer esteja no nosso ordenamento jurídico. E, por óbvio, não é coincidência que esta anomalia esteja sendo comemorada por fascistas, golpistas, viúvas do golpe de 8 de janeiro de 2023,adoradores de milicianos, pseudos democratas e outros do gênero.
E é claro e patente que vamos continuar cercados por sonâmbulos que juram de pé junto que o grande problema da nossa democracia é o Supremo Tribunal Federal.
[*] É jornalista.

















