Aparte
Opinião - Do meu hábito de leitura e da formação ampla que ela proporciona

[*] Maria Nely Santos Ribeiro

Manfredo, querido pai adotivo, muito cedo despertou-me o gosto pela leitura e pela iniciação literária. Antes de esmiuçar as notícias, fazia-me ler, em voz alta, manchetes dos jornais: Correio de Aracaju e Gazeta de Sergipe - locais - e O Globo e Jornal do Brasil - nacionais.
Nos anos 60 do século XX inexistiam bancas de jornais em praças e logradouros atrativos de Aracaju. Recordo-me de nos domingos o garoto jornaleiro passando porta à porta, vendendo as revistas Manchete, Cruzeiro, Carinho, Capricho, Pato Donald e outras.

As duas primeiras, significavam entretenimento, charme e curiosidades em minha família. Este tempo de minha vida me faz evocar Aracaju de outrora. Tomo de “Motivos de Aracaju”, versos do poeta Jacintho de Figueiredo: “a Aracaju que eu conheci era assim” ou ainda “sem maiores desperdícios de energia, se ia e vinha de qualquer lugar”. Ou então, a Aracaju “que outrora, o rio vinha docemente beijar a areia... e hoje não vem mais”.

Esta minha Aracaju é a mesma “matuta ingênua e linda” de Zózimo Lima, em “Variações em Fá Sustenido”, ou então a do meu amigo memorialista Mário Cabral que, em “Roteiro de Aracaju”, reportando-se aos jornais e revistas reclama “da imprensa da cidade de Aracaju não ter evoluído como seria de desejar”.

Apesar do registro desanimador, não deixou de enunciá-los. Essa conversa aparentemente ocasional serve para chamar a atenção para o ato singular da leitura, bem assim a importância dos memorialistas na formação e hábito de leitura. 

Soa mesmice, quiçá chatice, dizer que a leitura é um ato transformador de vida, abre-nos portas e oportunidades inimagináveis, faz-nos conhecer e ver as inúmeras faces e facetas do mundo.

Considerando o ontem dos primeiros passos com a leitura e o hoje da convivência com ela, três momentos são constatáveis: ler para diversão e passatempo; ler para estudar e adquirir informação e conhecimento; ler como prioridade por exigências da minha profissão de professora. Certamente, sempre será prioridade. Atualmente, minha leitura não sendo analítica e tampouco sujeita a avaliação, é in totum cursiva. É mais: regida por diletantismo vaidoso e intransferível. 

Quando cursei o clássico no Atheneu, hoje Centro de Excelência, li boa parte dos Lusíadas, de Luis de Camões e, integralmente, os Sertões de Euclides da Cunha. Não estranhe ou sequer fique perplexo.

Tive o privilégio de viver essa incursão laboriosa pelos Lusíadas quando fui aluna de Ofenísia Freire, professora extasiante de Português, declamadora dos versos camonianos em sala de aula quando ensinava os segredos da métrica.

Nesta ocasião, por sugestão dos professores, ingressei na Arcádia. Feliz com o acontecido, tendo adotado Casimiro de Abreu como patrono. Deste ambiente prazeroso pela troca de ideias, produção de poesias e crônicas participavam Humberto Aragão, Fernando Lins de Carvalho, Luiz Bosco Pina, Angélica Oliveira, Leontino Farias, Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, que nesse dia 3 de janeiro nos deixou.

Éramos jovens curiosos e amantes da leitura, ansiosos por pensar e escrever bem. Nesta etapa, li Raul Pompéia, os poetas Castro Alves, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Aloísio de Azevedo, Olavo Bilac. Na prosa, José de Alencar, Machado de Assis, Raquel de Queiroz e os açucarados romances de M.Dely. 

Tempos depois meu contato semanal com a Biblioteca Pública - hoje Arquivo Público - e o fato de trabalhar com Epifânio Dória no Instituto Histórico Geográfico de Sergipe aumentaram meu tempo de leitura.

O acesso à biblioteca me possibilitou mergulhos infinitos e diversificados através de coleções e livros até então desconhecidos. A essas alturas, já aluna da universidade, era obrigada a ler a bibliografia indicada para cada disciplina e retaliada em textos.

Em meio aos interessantes e provocativos, sempre existiam os desnecessários. Os textos, uma colcha de retalhos, eram atalhos estimulantes para alunos negligentes, porque bom e correto é a leitura do livro. 

Minha temporada de IHGS foi extremamente rica. De Epifânio Dória, guardei seu amor pela entidade e a militância silenciosa para preservar a memória cultural do Estado. Confesso também que, não obstante seu autodidatismo, foi para mim um grande professor de prática de pesquisa.

Certa feita, apresentou-me uma série de cadernos grandes contendo recortes de jornais colecionados durante anos a fio! Fiquei estupefata, de queixo caído. “Efemérides Sergipanas”, um trabalho hercúleo e solitário de Epifânio, organizado por Ana Maria Fonseca Medina, foi publicado pelo Governo do Estado em 2009.

Deixo a pergunta que não quero calar: quantos estudantes, jornalistas, escritores e historiadores conhecem e leram? A propósito, Tânia Meneses diz a respeito do texto de Epifânio: “Nas tiras apinhadas entre as notícias e os reclames, ele deu conta de gravar para aqueles dias e para a posteridade acontecimentos importantes para os que amam a terra onde nasceram”.

Pois sim: essas boas palavras revelam que Epifânio foi um precursor de historiador do cotidiano do seu tempo, noticiando e conduzindo leitores e leitoras para um passeio pelas “suas histórias cheias de tudo”.

Na minha opinião o escritor do cotidiano é um memorialista. Insisto. Por que lembrar Epifânio? Por mostrar-me que a significância dos jornais excedia e excede a fronteira das notícias. Percebi isto quando passei a dialogar com os jornais a fim de reconstituir o cotidiano de Aracaju nas décadas 70 e 80 do século XIX. 

Pessoas, fatos e coisas são meus prediletos. Quando pesquisava jornais, impunha-me controle para não me deixar prender pelas crônicas, pelos anúncios, quadrinhas chistosas de autores identificados ou anônimos sobre o cotidiano de Aracaju.

Horas incontáveis dedicadas a jornais fomentaram, por exemplo, o capítulo II do meu livro “A Sociedade Libertadora Cabana do Pai Thomaz”. Artigos “Aracaju na contramão da Belle Époque”, na Revista de Aracaju; “A Rua João Pessoa de Outrora”, na Revista Hora de Estudo.

Produzida pela Secretaria Municipal de Ensino de Aracaju, tinha na presidência do Conselho Editorial a professora, pedagoga e escritora Tereza Cristina Cerqueira da Graça, ocasião em que viabilizou a inserção do artigo sobre a rua de João Pessoa, popularmente Calçadão da João Pessoa.

Aliás, no momento estou refém do livro “Malinos Zuadentos Andejos e Sibites: o Aribé nos anos 70 e 80”, de autoria dela. Tereza Cristina Cerqueira da Graça é a memorialista que tal qual João do Rio, cada vez mais captura pessoas, fatos e coisas, perambula com inteligência não apenas “ruas enquanto, fator de vida da cidade”, mas também um bairro de nossa Aracaju. 

Gostei pra lá da conta do título que em breve comentarei. Limito-me a dizer que quando criança não fui malina, nem andeja. Sibite? Talvez! Zuadenta ora, ora certamente, sim...

[*] É professora aposentada e pesquisadora.

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