Aparte
Opinião – Eu, caçador de mim

[*] Silvio Alves Santos

Passados dois dias do meu infeliz ato, venho aqui para expor o fruto de minha reflexão destas últimas horas.
Não se trata de mais um pedido de desculpas, isso eu já fiz. Também não significa um pedido de perdão. 
Não estou à altura desse pedido, pois eu mesmo não tive ainda condições de me perdoar. 
O filósofo grego Platão já falava da ferocidade dos lobos nos homens. Há, portanto, ainda que metaforicamente, um lobo em cada homem. O meu lobo apareceu nesse último domingo.
Não me lembro se foi a primeira vez que ele veio, nem posso garantir que será sua última aparição. 
Mas posso assegurar que ele me faz sofrer, porque me desumaniza e eu gosto de ser humano e gosto do ser humano.

Aos que me criticaram e até mesmo aos que me agrediram, eu trago minha palavra de compreensão.
Vocês estão certos. Eu, errado. Cometi um erro digno da reação de vocês. Não interessa sua motivação. Seja ela efeito da luta política, seja fruto da nova cultura de cancelamento ou de qualquer outra razão.
Vocês reagiram ao lobo, e eu também reagiria com vocês, não estivesse eu tomado pelo próprio. Não guardo mágoa nem ressentimento de nenhum de vocês.
Não pensem que estou transferindo a culpa ao lobo. Cabia a mim impedir que ele entrasse, e eu vacilei ao deixar a porteira aberta. Portanto, sou eu o único responsável pelo meu erro.
Trago também minhas palavras de afeto e gratidão aos muitos amigos que se solidarizaram comigo através de ligações telefônicas e de mensagens de WhatsApp. 
Seus gestos me serviram de bálsamo e apaziguaram meu coração ferido pela minha própria adaga. 
Compreendo e respeito os amigos que silenciaram. Entendo que não é fácil aparecer ao lado de um “pecador”.
Por fim, não posso deixar de registrar a coragem dos amigos e amigas que se expuseram na arena das redes sociais, dando a cara a tapa em minha defesa. Mesmo odiando o pecado, vocês dedicaram amor ao pecador.
Jamais esquecerei a grandeza de seus gestos. Fiquem todos em paz. Eu reencontrarei a minha.

[*] É jornalista, foi vice-prefeito de Aracaju de 2009 a 2012 e, por causa do episódio que ele mesmo narra - disse no Instagram um "já vai tarde" pro morto Bruno Covas -, deixou a Presidência do Instituto Marcelo Déda.