Aparte
Jozailto Lima

É jornalista há 38 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Colaboração Tanuza Oliveira.

Uma leitura justa e sensata do mando da OAB, das vitórias e das derrotas recentes
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Henri Clay Andrade: pivô da derrota, a partir da opção partidária, segundo visor reacionário

Entre os últimos dias 16 a 20 de novembro, 17 Estados realizaram eleições para as Diretorias e Conselhos das seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil no próximo triênio - 2022/2024. Em Sergipe, venceu a oposição com Danniel Costa: foram 3.038 votos para ele contra 2.644 do concorrente Inácio Krauss, que buscava a reeleição.

Danniel Costa, 38 anos de idade e 15 na advocacia, superou um notório déficit de inserção na classe, desafiando com coragem e uma verve afiada quem chefiava a OAB desde 2016. Expôs as fraquezas antigas do grupo e apontou uma suposta falta de comando da atual gestão, tachada como “omissa”, “distante”, em especial com a jovem advocacia, público-alvo preferencial da campanha.

Em contrapartida à postura desbravadora do concorrente, Inácio Krauss manteve-se praticamente em silêncio por boa parte da campanha, saindo da toca a apenas mais do meio para o fim. Não combateu com firmeza a avalanche de acusações do oponente ainda quando eram só “fumaça”, nem pôde conter arroubos internos de puro exibicionismo - houve uma campanha paralela a dele. Há quem queira, ou quis, atribuir essa frieza dele à uma determinação lacrante do seu marqueteiro de campanha, David Leite. Será que?

Mas somente tais fatores, no entanto, explicariam a incompreensão à campanha de Inácio Krauss e a rejeição ao grupo por trás de si? Verificar a história da instituição no passado recente ajuda a entender o contexto. E tudo começa em 1993, quando Cezar Britto elege-se presidente pela primeira vez e passa a determinar rumos da Ordem em Sergipe, até chegar à OAB Nacional de 2007 a 2010.

Irmão de Rosa Britto, esposa de Henri Clay Andrade, aos poucos Cezar insere o cunhado na entidade, inicialmente como conselheiro seccional - 1997 -, e mais adiante como presidente por dois mandatos - 2004/2007 e 2007/2010 -, isso aos 33 anos de idade. A política interna da OAB evolui ao atual estágio a partir de 2015, quando Henri Clay Andrade buscou um terceiro - e controverso - mandato.

OAB RACHADA - Após duas gestões - 2010/2012 e 2013/2015 -, Carlos Augusto Monteiro Nascimento, até então um ativo membro no grupo de Cezar Britto e de Henri Clay Andrade, de quem recebeu fundamental apoio para ser presidente, fratura o grupo, segundo disse à época, por ter defendido a “alternância de poder” através de um novo nome - no caso, Rose Morais - para presidir a instituição.

Disposto a recuperar o mando, Henri Clay Andrade mirou diretamente o ex-aliado. Na imprensa, dizia ter rompido com Carlos Augusto Monteiro Nascimento, seu conterrâneo de Lagarto - apesar do forçado sotaque “carioquês” -, em razão do “abandono das prerrogativas da advocacia” e por, muitas vezes, “ele deixar de lutar pela sociedade”, bandeiras basilares da OAB, definidas em artigos da própria Constituição de 1988. A campanha, contudo, era feita em tom festivo.

No contra-ataque, Carlos Augusto Monteiro Nascimento expôs uma faceta de Henri Clay Andrade considerada “grave” pela advocacia mais conservadora, e que o impedia, na opinião do concorrente, de liderar a classe: ele - o ex-aliado HC - estaria motivado para mais um mandato “por interesses meramente próprios e pessoais”, e a OAB serviria como “trampolim” para empreitadas políticas e eleitorais, pela visibilidade na mídia e pelo poder de influência conferido ao seu presidente.

Danniel Costa: primazia de amalgamar tudo em torno e si mesmo

A QUESTÃO POLÍTICA - A veia político-partidária de Henri Clay Andrade começa a ser irrigada em 2011, quando ainda exercia os mandatos de conselheiro federal e presidente da ENA - Escola Nacional de Advocacia. A convite de lideranças do PV e PDT, ele discute com familiares e amigos - e também com jornalistas próximos - a possibilidade de disputar a Prefeitura de Aracaju.

Por fim, escolheu o PSOL, partido parido das entranhas do PT em razão de divergências programáticas, para lançar-se pré-candidato. A empreitada acabou abortada, e ele aceitou, meio encabulado, coordenar a campanha do PSTU à Prefeitura em 2012. O veneno da política estava, assim, inoculado.

Em 2015 as campanhas de Rose Morais e de Emanuel Cacho - candidato “inventado” por Carlos Augusto Monteiro Nascimento como suposta “terceira via” - atacaram com firmeza a ambição de Henri Clay Andrade por um mandato eletivo, além de criticarem a chamada “OABritto”, referência à continuidade de um mesmo grupo no poder.

Numa demonstração de força, o opositor HC atraiu Inácio Krauss, à época presidente da Caixa de Assistência da Advocacia e pré-candidato a presidente, que consigo trouxe um núcleo de jovens advogados brilhantes, e fez dele vice-presidente na chapa.

Henri Clay Andrade acabou eleito com 2.021 votos, contra 1.916 de Rose Morais e míseros 423 obtidos por Emanuel Cacho, cuja candidatura foi implodida por ser caricata demais. O placar apertado - apenas 105 votos o separavam da segunda colocada -, sugeria inúmeras possibilidades, estando a “fadiga” do grupo, há anos no poder, e a opção pela política partidária no topo delas - aliás, a criminalização da política por advogados soa anacrônico até hoje.

Como se a ignorar o “zeitgeist”, termo alemão cuja tradução significa “espírito da época” ou “espírito do tempo”, com cada momento histórico tendo o seu próprio “zeitgeist”, Henri Clay Andrade fez um mandato “feijão com arroz”, encastelado e voltado a si mesmo, mas não sem antes provar que os adversários de 2015 estavam corretos: em maio de 2018, comunicou a decisão de licenciar-se da OAB “com o intento de concorrer a cargo eletivo nas próximas eleições gerais”.

E o fazia, conforme comunicado oficial ao Conselho Federal da OAB e ao Colégio de Presidentes da instituição, “em virtude da manifestação espontânea, expressiva e determinante da advocacia e da sociedade sergipana”, para ele assumir a pré-candidatura ao Senado.

Manifesto, aliás, que, ainda segundo o documento, “contou com o respaldo de significativos segmentos sociais e ganhou forte e surpreendente repercussão pública”. Era a senha tão ansiada pelos adversários, posto que naquele mesmo ano de 2018, em novembro, a advocacia iria às urnas para escolher seus novos dirigentes.

Fechada as urnas em outubro, “sem remorso - ‘fiz uma ação limpa, honesta e propositiva. Eu saio dessa campanha bem maior do que entrei’ - e feliz por seu desempenho pessoal”, conforme escrevi à época, Henri Clay Andrade galgou exatos 109.562 votos - 5,99% - na campanha ao Senado pelo PPL. Desse total, 52.303 saíram de Aracaju. Usando conceitos como “segurança e justiça social”, surfou sem pejo na onda direitista de 2018, e pontuou melhor do que os outros “nanicos”.

Sem descanso, o presidente licenciado entrou de cabeça na campanha de Inácio Krauss, visto como a “escolha natural” do grupo. Para Henri Clay, aliás, era questão de “vida ou morte” política a vitória do afilhado, com quem mantinha relação respeitosa. Os ataques contra a gestão e contra o próprio HC foram viscerais e sem descanso, personalizados pelo “uso político” da instituição e pela tramoia do que se denominou “caixa-preta da OAB”.

Inácio Krauss: empastelado pelas vaidades contíguas, mas íntegro na derrota

Pessoa de fino trato, zeloso nos atos e formal nas atitudes, de perfil fleumático e aparentemente frio, Inácio Krauss fez ali uma campanha focada na desconstrução do principal adversário Carlos Augusto Monteiro Nascimento e na proposta de fortalecimento da OAB. Os debates entre os dois no rádio foram épicos - e em algumas passagens, até constrangedores! O dia do pleito foi marcado por arengas à porta da Casa da Cidadania. Por pouco não houve troca de tapas, dado o clima belicoso.

Inácio Krauss sagrou-se vencedor, com 2.199 - 40% dos votos - de um total de 5.488 votos, contra 1.852 - 34% - do ex-aliado, e 1.307 - 24% - dados a Arnaldo Machado, um candidato que surgiu como dissidência do grupo opositor que tinha Inácio por esteio.

A diferença nesse pleito para o segundo colocado, exatos 347 votos, foi comemorada como um trunfo pessoal por Henri Clay. Na comemoração, extravasou a tal ponto contra Carlos Augusto Monteiro Nascimento, que acabou processado na Justiça pelo desafeto. Havia, no entanto, um erro de leitura! Há “vitórias” que contam uma outra história e essa, claro, era uma delas.

CEGUEIRA E EGOS INFLAMADOS - A gestão de Inácio Krauss trazia consigo o peso de um grupo acomodado pelo tempo, que de tão incrustado nas entranhas da OAB foi incapaz de perceber os ventos da renovação. Sem uma oposição vociferante por quase a totalidade da gestão, foi tocando a vida em “banho-maria” até que a pandemia explodiu e, conforme disse, “provocou uma mudança nos rumos”. A crise, porém, não foi vista como “a” oportunidade para aproximar-se da classe. De tão cegos, os líderes desse agrupamento já urdiam candidaturas para 2024 - 2021 já estaria resolvido antes de baixar a lona da eleição!

Como cada eleição conta uma história, a da OAB em Sergipe neste ano, apesar de ostentar a marca da “renovação”, até por ser Danniel Costa de fato uma novidade em termos de liderança da classe, também tem seus pecados, como as supostas falsas informações - fake news -, e mais uma vez a famigerada política partidária - ela de novo! Advogados são, por vezes, seres reacionários que se camuflam bem.

Cezar Britto: mandou demoradamente, mas hoje está desidratado e sem importância

Diante de um eleitorado já bastante cético e ressabiado, conforme observado em 2015 e reiterado em 2018, era questão de tempo que a “fadiga” do grupo liderado por Cezar Britto e Henri Clay Andrade, agravada pela falta de uma gestão mais conectada com a advocacia, sobretudo com a juventude, e deslocada do sentido do coletivo, fosse arrastado “de com força” para o limbo.

Um erro fatal desse 2021 ocorreu quando, faltando poucas horas para o pleito, Cezar Britto e Henri Clay Andrade, hoje distantes da classe, resolveram botar a cara na campanha, com vídeos publicados no Instagram da página da Chapa 1. Outro erro determinante de Inácio Krauss foi permitir a permanência de filiados ao PSOL, ligados a Henri Clay Andrade, como candidatos ao Conselho Federal e ao Conselho Estadual. Em conversas privadas - a campanha da OAB permite o usa do sistema de telefonia e aplicativos como o WhatsApp para cabular votos -, o assunto sempre era lembrado. Raivosamente lembrado.

Mas uma eleição jamais é resolvida por um único fator. São vários “vasos comunicantes”, e os mais cruciais, os que de fato contam, foram verificados justamente na composição liderada por Danniel Costa, vitoriosa, em boa medida, pela coesão do grupo e por reunir um número de forças políticas corporativas bem mais volumosa.

Ponto muito positivo, a campanha teve como único pilar a figura do candidato a presidente. Nem a candidata a vice- presidente foi destacada pelo marketing – e isso é bom e é justo e é estratégico. Não havia concorrência interna pela liderança ou visando projetos futuros. O engajamento coletivo e a “sede” de vencer prevaleceram. Deram o tom e o matiz.

Outro ponto elementar observado no grupo de Danniel Costa foi a divisão racional e eficaz de tarefas entre seus membros, sem contar a demonstração de desapego de lideranças como Carlos Augusto Monteiro Nascimento, Rosi Morais, Evânio Moura e tantos outros que abriram espaço para os mais jovens, alguns até sem uma experiência mais profunda e dedicada à advocacia, que dirá em termos de OAB, o que reforçou a imagem de “novidade” do candidato a presidente. Era ele a bola da vez no projeto. O ex-presidente Carlos Augusto também aprendeu com os erros e desta vez buscou unir a oposição em torno de um único projeto.

Esse núcleo experiente em OAB, aliás, além da respaldar o candidato oposicionista junto à advocacia mais madura, ajudou a fomentar a sensação de “independência”, mantendo-se “distante”. Danniel Costa, por sua vez, apresentou-se como “desafiador”, um franco-atirador sem amarras de qualquer ordem, disposto a gastar “sola de sapato” - na verdade, ele é adepto do tênis. Articulado no discurso, exibiu capacidade de trabalho, disposição para vencer e disciplina para ouvir os conselheiros. Nem mesmo o rótulo de bolsonarista que tentaram impingir nele conseguiu colar.

Carlos Augusto Monteiro: desconstituiu-se para a construção de um Danniel de alma própria

Por outro lado, se havia para Inácio Krauss a figura política de Henri Clay Andrade, Danniel Costa contou com a ação de lideranças com força de pressão, notadamente prefeitos e ex-prefeitos, através da Federação dos Municípios do Estado de Sergipe - Fames -, presidentes de Câmaras Municipais da capital e do interior e de “terceirizados” como uma certa “OAB sem partido”, ninho de vários políticos hoje sem mandato - aqui a advocacia não exerceu o reacionarismo dispensado ao caso Henri Clay. Isso permitiu atuar em várias frentes, de modo coordenado, junto às procuradorias municipais e núcleos que prestam serviços a prefeituras e partidos, sem atrair a atenção do concorrente ou sem que ele tivesse chiado.

A campanha de Danniel Costa contou ainda com a vantagem competitiva de sair na frente na composição da chapa, o que permitiu focar-se nos objetivos básicos da empreitada: fazer a cabeça dos jovens, atacar o adversário e galgar espaços também entre os “insatisfeitos” com a gestão e com o grupo que a formava ou apoiava. A prova inequívoca desse acerto está na vitória massiva não apenas entre os jovens, mas também na expressiva votação entre os “experientes” e os “maduros”.

Como já foi dito, um pleito não pode ser resolvido por um único fator! Inácio Krauss enfrentou dificuldades internas engessantes e estressantes, perdeu muito tempo com conflitos na formação da chapa e para apaziguar os ânimos e as vaidades até de quem ele mesmo havia dado vez e voz. Muitas atitudes o surpreenderam.

Liderando um grupo acomodado, fragmentado por interesses pessoais e desgastado pela ação do tempo, teve ainda pelo caminho a pandemia. Manteve-se, contudo, como sempre foi: digno, respeitoso e… frio! Nórdico, o “alemão”. Perdeu, mas manteve a elegância e, já no dia seguinte, convidou o presidente eleito para “conhecer” a OAB e traçar detalhes da transição.

Já Danniel Costa foi hábil no discurso, teve ao seu lado um time tarimbado na comunicação liderados pelo cabeça branca Cícero Mendes, usou expedientes contestáveis, conforme denunciou o concorrente, no entanto segurou o grupo unido em torno de si e focado no projeto. Enfim, mostrou-se arrojado ao fazer uma campanha engajada e de ataque cerrado ao adversário. Acreditou em si desde o primeiro instante - e acabou acreditado tanto pelos mais jovens, que já o viam como liderança, quanto pelo mais antigos! Sim, é com isso e com mais uns outros “aquilos” que se vence eleição.

 

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