JLCultura
Especial & Colaborações

Espaço dedicado ao compartilhamento de conteúdo literário, como de poesia, tanto publicada quanto inédita.

ARTES DE PLÍNIO
Compartilhar

Poema Jozailto Lima/Ilustração Ronaldson

na margem esquerda 

do caminho 

um homem virou toco.

 

converteu-se em 

madeira crespa, mudez

letal. não é um caso 

contado. vi. por ali 

eu também vinha.
 

uma cascavel encostou-se 

no seu tronco, badalou 

os guizos e os dois tiraram 

aquele sono das tardes 

em que ganem cigarras 

no eixo do sol.

 

menino sem pressa, achei graça

- tão harmoniosos toco-de-homem 

e cobra assim siameses -, 

avancei sobre as caiçaras, 

dei adeus à encruzilhada. 

fui mimbora.

 

mais tarde, no meio da feira,

eis que ele me chega 

meio lépido meio zonzo, 

trazendo no pescoço 

um chocalho zunindo de serpente,

numa cumbuca um raio 

de sol gemoso e escaldante

e no canto esquerdo do olho direito

uma flerpa de lasca de lenha.

 

era terno e taciturno. parecia

destilar certo desconforto

como de quem sai de um transe:

qui foi, nunca me viu não,

disse-me ele ao menino, olhos nos olhos, 

com hálito de cogumelo, cupim e alcatrão.

 

e eu nem lhe tive medo não.

 

Do livro “Viagem na Argila”, edição do autor, gráfica J.Andrade, Aracaju, Sergipe, 2012.

Deixe seu Comentário

*Campos obrigatórios.

MARCELO VALOIS COUTINHO COSTA
Querido amigo poeta, Joza, a quem tenho, em acréscimo, como meu professor. A cada semana, o êxtase que me trazem as domigueiras letras talhadas no papel do tempo, com o carvão sedimentado num amálgama de sensibilidade e vivência, transborda do meu pequeno eu. E esse conto mágico versificado, com todas as cores elgóricas de uma fábula, temperado com ingredientes tão nossos, mais uma vez, me arrebatou e me lançou num espaço e tempo, igualmente mágicos - magia é uma espuma quântica que liga a nossa realidade aos nossos desejos mais recônditos. E nos sigam no insta - @vidaemfrenteeversos Parabéns, mil vezes! E muito obrigado!