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Crítica literária - Quem sou eu? - a propósito de Caronte, novela de Antonio Brasileiro
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Enquanto novela, Caronte é um ponto fora da curva na obra de Antonio Brasileiro, conhecidíssimo como poeta

[*] Léo Mitaraquis

Em menos de 100 páginas, do começo ao fim, tenho a nítida impressão de que não leio, necessariamente, mas, sim, deslizo os olhos. Não me entendam mal, estou a ler com toda a atenção. À volta, sinto o tempo do mundo a aguardar que eu me valha do meu; que administre o espaço que percorrerei, ao lado de Amynthas. Que frua da minha manifesta série de instantes.

À primeira página, da primeira parte, intitulada Preparação, a indeterminação define, em poucas pinceladas, a circunstância: fumo de corda, cigarro, água de rio, canoa. Existências, referências, mediante as quais o escritor Antonio Brasileiro, gentil, paciente, generoso, regionaliza, de modo elegante, a mitologia, ciente - autor apto, engenhoso e detentor de considerável lastro humanístico que é - da universal particularidade tão própria da história dos seres sobrenaturais, íntimos e vítimas que são das vicissitudes tanto quanto o somos, nós os pobres mortais.

Sim, tanto quanto nós, entediam-se, cansam-se, tomados, não obstante os poderes dos quais são investidos, pela sensação de vazio, de lassidão. Os gestos despreocupados, maquinais, cuja operação independe da intervenção consciente da vontade: Caronte saltou com um pedaço de corda na mão e enlaçou-a em alguma raiz que despontava do solo. Seus gestos não pareciam levar em conta a pequena multidão apinhada à sua volta; nada fazia crer que viesse a dar-lhe qualquer explicação. Limitou-se a passar os olhos na chusma amedrontada antes de voltar-se para mim e chamar-me com um aceno curto e imperioso da mão esquerda. Estupefatos, abriam-me caminho. Amanhecia.

A carga psicológica, a qual, sem delongas, Brasileiro lança na minha “caixa dos peitos”, na minha carcaça de leitor, quase que (e talvez até mesmo aconteça) me leva à distração a ponto de provocar breve esquecimento de que estou a examinar, dentro dos meus limites, com profundidade a história, a criação, a invenção: derme, a forma (meu maior interesse); epiderme, a dimensão do sentido do qual se reveste o ato literário. Vale dizer, recorrendo a um dos meus grandes mestres, o visceralmente epistêmico Hilton Japiassu, a dimensão que se manifesta no imaginário poético, como este faz parte da produção da obra, na atitude criativa.

Mediante esta atitude, Antonio Brasileiro configura, preciso, funcional, sem que se perca a beleza, a justa proporção. Para tanto, vale-se da forma discursiva emprestada ao personagem para definir respectivo perfil:
Sua maneira de falar era assim, curta. Os longos intervalos entre uma e outra dessas falas me permitiam remoer-lhes os significados. Por minha parte, tudo aquilo pouco se me dava. Mas alguma coisa em mim parecia estar a transformar-se; aquele velho começava a ficar interessante.

Caronte não é um homem. Não é humano. Contudo, como já sabemos, a instabilidade, o insucesso, o desfavorável, também o acometem. Antropomorfia da qual mesmos os seres sobrenaturais não escapam. O discorrer do barqueiro sobre si mesmo, sua apresentação ao narrador/personagem, é tocante.

Oferece ao meu eu-leitor o horizonte necessário, como observa Paul Fry, para que eu me familiarize com a forma e o evento (toda a narrativa, do começo ao fim do livro). E isso ocorre enquanto Caronte nega qualidades que lhe atribuem: sábio e cruel – “Esses sentimentos pertencem aos homens; amor, ódio, nada disso está em mim”.

Ah, sim, mas estão sim, sem dúvida. E é o barqueiro que diz assim o ser: ele está cansado. Mas não fisicamente. Não lhe pesa o remo, a corrente do rio, o aportar da canoa à margem, o caminhar até sua casa. Seu cansaço é sinônimo de aborrecimento, ama, odeia, manifesta num esboço de riso, diante de... Certo humor sardônico.

Além do narrador, há os outros: outras almas, outras consciências, ainda que aturdidas e limitadas. Sem referência, sem tempo, sem lugar. Anoitecem e amanhecem um mesmo momento. Quando se movem, o fazem em busca daquele que, creem, tem o poder e os meios de os levar para além da margem onde vive a angústia de aguardar a ocorrência de algo mais:

Eu não tinha dúvidas. Aquela centena de esquecidos se reuniria ordeiramente junto à barca, me daria passagem e aguardaria minha voz. Foi neste momento que ouvi as músicas dentro de mim. Uma dessas músicas era o Coro dos Escravos, da ópera Nabucco; pus-me a cantá-la com toda a força dos pulmões.

Prefiro entender que Nabucco não é citado gratuitamente. Muito menos o trecho dedicado ao Coro dos Escravos, famoso por diversos motivos, mesmo por quem não conhece a ópera. Como entendo, também, que não implica o caráter nacionalista, senão seu contrário, o não-pertencimento.

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Toca-me a presença filosófica e estética dos versos cantados e o lugar onde isso se dá. Antonio Brasileiro, valendo-se da justa medida, apequena, acomoda, o grandioso ao tempo não contado e ao espaço menor. Em Giuseppe Verdi, assim como no Salmo 137, os hebreus choram às margens dos majestosos rios da Babilônia.

Em “Caronte”, num exercício de apequenamento, as figuras permanecem, sem propósito nem direção, à beira d’água. À margem dum rio anônimo. E escravos não têm identidade, não possuem nome. As pessoas largadas à margem do rio são escravas de si mesmas, dos próprios anseios, da própria perplexidade. Não se encontram em situação mais definida do que Pátroclo, o qual, insepulto, é rechaçado pelos simulacros.

Essas imagens, essas pessoas, os que parecem não ter nome nem assinatura do Criador, cercam o narrador que, sentindo faltar-lhe oxigênio nos pulmões, pressentindo um quase olvido de si, relembra vozes que dizem seu nome, e por meio dessas vozes nomeia-se ali, em meio aos vis que não mais serão nomeados: Era preciso esquecer. Não que eu fizesse esforços especiais para isso - eu não queria esquecer propriamente nada. A ordem, pois era mesmo uma ordem, é que era esta: esquecer. Olhando nos olhos daquele senhor, olhando exatamente dentro dos seus olhos como se seus olhos fossem um espelho do tempo, ouvia o murmúrio de vozes amigas, todas repetindo o mesmo nome: Amynthas, Amynthas, Amynthas.

Esse nome era o meu.

Assim o narrador retoma ciência da sua unidade de substância, consciência, reconhecimento de si, da possível situação, e as possíveis (reais ou ilusórias) modificações sofridas pelo próprio eu, sua apercepção, consciência e autoconsciência.

Na inter-relação das circunstâncias que “vive”, que presencia, intencionalmente ou não, o nomear-se pode valer estar, de fato, onde parece estar ou, sabendo quem é, estabelecer uma epistemologia topográfica, um questionar se está num lugar perceptível nas três dimensões e, também, nas percepções, digamos, mais subjetivas.

Nomear-se implica, especialmente numa situação como a descrita na obra, em conotar-se, em assumir uma série de atributos implícitos em seu significado. Amynthas é uma asserção, vale dizer, quem e o que ele é. Eis o que o personagem assume totalmente entre figuras que parecem ter perdido o conhecimento, que estão privadas de consciência, que se encontram em estado de torpor.

Contudo, e se ainda assim tudo não passar de um sonho? Ou de um assombroso e torturante despertar? Travestido de preposto do barqueiro, Amynthas decide-se por “explicar” o que se passa: Amigos, nada aconteceu. Momentaneamente estamos sós, e isto que todos vocês interpretam como incompreensível mudança não passa de uma espécie diferente de sonho. Chamamos e não nos ouvem, gritamos e não nos ouvem, pois estão todos dormindo. Porque na verdade eles dormem. Como dormíamos nós, até darmos com esta barca.

Sonhos, inverossimilhanças, mimese, riso - este, no mais das vezes, como manifestação do nervosismo, da incompreensão, da ciência quanto às inexoráveis absurdidades, ou duma percepção oblíqua - são pontos, remissões, convergências próprias do banal non sense que teima em nos acompanhar, tal qual uma sombra cinzenta, porosa, nem sempre levada em consideração.

Em cada momento de emoção ou interesse dramático, a concorrer para um desfecho que, não raro se dá num clima anedótico, ao contrário do mais trágico, doloroso, triste que se espera. Bem afinado com as duas possibilidades, surge a figura do personagem tragicômico, que usa maquiagem e trajes bizarros, o palhaço.

Em “Caronte”, Popó, o palhaço, é um dos toques de excelência exercitados pelo autor. O palhaço é o provocador do riso. É o cômico que, remetendo-me à Bergson, está consciente do papel a exercer: abalar um espírito pretensamente tranquilo e bem articulado.

Amynthas, após o discurso “esclarecedor” dirigido ao grupo de homens e mulheres perplexos, confusos e irritados, crer-se, aparentemente, capaz de administrar não só os próprios sentimentos como o estado de ânimo do entorno.

Seleciona uma mulher -, ela, hesitante entre a passividade e a renitência, como se fosse um espólio, - e faz, ao que parece, amor com ela. Tudo parece sobre algum controle. O narrador observa o céu enquanto descansa a cabeça nas coxas de Lídia. Mas o palhaço, que já havia se apresentado antes, sem, contudo, revelar seu nome, “perturba” o idílio.

Léo Mitaraquis abre olhos lúcidos sobre a novela Caronte do escritor baiano Antonio Brasileiro

O palhaço, também ator talentoso, atua magistralmente, e leva Lídia ao riso. Já Amynthas, o, até então, sedutor racional, não é capaz de resistir a uma prova desse gênero:

Que poderei contar-te, palhaço, se nem sei mesmo por que estou aqui, se nem sei mesmo se estou aqui? Não rias, isso não é um jogo de palavras. Ainda bem que posso falar e falar, tu não me ouves; o que vejo dentro dos teus olhos sou eu mesmo. E falo o que quiser. Sei que não és apenas este palhaço engraçado que encenas; não seria suficiente para gostarem tanto de ti. Mas não sei o que és mesmo, nem quero sabê-lo.

O que o leitor, se atento, percebe ter diante dos olhos e da consciência é o estado, do modo como interpreto a coisa, para o qual Nietzsche chama a atenção: o da solidão como um campo autônomo, de jurisdição própria - Amynthas e Popó, o eu e o outro, sentados num banco na calçada ou sob uma árvore. Quando não falam diretamente a si mesmos, usam máscaras... Ou maquiagem ambígua, se quiserem.

Quem é o palhaço para o narrador e quem é o narrador para o palhaço? Alguém, cuja referência indefinida encontra-se fora do âmbito do falante e do ouvinte. Há entre eles, ainda que sob o signo do carinho, da amizade, do quase reconhecimento mútuo dos respectivos papéis, algo a remeter ao intervalo entre a nota mais grave e a mais aguda de um trecho musical, de uma ou mais tessituras. Há uma melodia a cantar quem fomos, quem somos, o que seremos nós, enfim?

A essa altura, o leitor se encontra ao fim da primeira parte. Preparação, substantivo que me leva a pressupor que o autor houve por bem tornar Amynthas antecipadamente pronto, não obstante a atmosfera nebulosa, condições apropriadas para tarefa que se realizará futuramente, nas últimas páginas da última parte do livro.

Mas, é certo, ainda não chegamos lá e, talvez, em virtude do que será exigido do narrador-protagonista, faz-se necessário uma pausa. Não necessariamente para descanso, senão no intuito de moderar a velocidade de sucessão dos eventos.

Eis, então, a segunda parte, Fermata, o narrador e, suspeito, o autor, exilam-se do pagos – onde elementos trágicos e risíveis, tédio, tristeza, perplexidade, compõem um cenário mediante um tom incidental, casual e elástico -, numa resolução desarmônica, impondo-se a ruptura com o átono correr dos acontecimentos, deslocando-se para um cenário tipicamente burguês, cristão: “casa vermelha, cercada por um jardim exageradamente cheio de plantas”. Sentimento de solidão opressiva, contraponto perfeito ao quase excesso de companhia com o qual pode contar no reino ribeirinho de Caronte.

Fermata... Como bem observou Benno von Wiese, citado por Albin Lesky, “deve-se renunciar a encontrar uma fórmula mágica de interpretação”. E é isto mesmo: neste artigo, notadamente, no que concerne a Fermata, estou a expor a minha, valendo-me do meu escasso lastro; recorrendo, portanto, ao pouco que sei.

Não me é fácil, e nem deve o ser.

Drama e trama entre as linhas da urdidura maior, os dez capítulos: a numeração das páginas, em Fermata, diferentemente da usada nas demais do livro, é em algarismos romanos. Numeração é contagem. Sob o poder do vórtice mnemônico, a contagem opera noutra dimensão. Amynthas confronta Amynthas; Amynthas reencontra Amynthas:

O estranho trouxe a mão esquerda para junto da outra, formou uma concha e estendeu-mas, lentamente. Não havia nenhum gatinho em suas mãos, pois estavam vazias, mas aquele gesto fez surgir, assim mesmo, do nada, um campo coberto de margaridas com um homem solitário no meio. “Oh, aquele lá sou eu - exclamei - vou me aproximar”.

Eus-Espelhos, imagens dentro e através de imagens. Amynthas como o sujeito humano a espelhar dada realidade. Sendo esta multiforme, o personagem narrador também o é. Não por acaso Borges nos alertará de que os espelhos são arremedos da cópula a multiplicarem os homens, e os gollens decorrentes podem voltar-se contra a matriz, o original. Para Amynthas, felizmente, seu encontro consigo foi deparar-se com um amigo.

Espelhar a si em si, e este si a sustentar a condição de ser, também o outro. O espelho, como um subtema diluído por Antonio Brasileiro na história, é um recurso dos mais sofisticados. O objeto, como metáfora, há muito já ocupa espaço na literatura universal. Os poetas Paul Eluard e e. e. cummings podem ser, quem sabe, bons exemplos: de Eluard, “Dias de espelhos quebrados e de agulhas perdidas” (“Seus olhos sempre puros”); de cummings, “No espelho vejo um homem frágil sonhando sonhos, sonhos no espelho (“Impressão IV”).

Técnica: corte seco. Terceira e última parte: Salto.

O narrador quer dizer alguma coisa a Popó, o palhaço; e o que diz se põe, quase que imediatamente, em imagens. As palavras do palhaço, por sua vez, são dotadas de tamanho sentido, que os objetos citados se fazem presentes a um alto grau entre o dito e o significado deste. Esta constatação, por parte de Amynthas, manifesta bem um fator inerente à toda narrativa, e que perpassa as três partes, ou seja, uma modalidade específica de organização mental e verbal. O efeito, via construção da exposição dos acontecimentos.

Mais adiante, em meio a uma conversa que acontece entre Amynthas, Popó e Caronte, um gatinho cruza arisco diante dos olhos do narrador. O tema, naquele instante é a ilusão e como devemos aprender a rechaçá-la.

Sabe lá... Fazer com que os devaneios, os sonhos, as quimeras batam em retirada? É o que acontece quando o narrador enfrenta as involuntárias almas ribeirinhas em revolta? E, também, ou principalmente quando se entrega à reflexão filosófica que questiona o quão de estável é a realidade, o conceito de controle e de território, de morte e fim? Podemos entender que há quase uma conclusão, que redunda no fazer calar, no cessar alaridos e desassossegos, internos e externos, no afirmar resoluto de Amynthas, “toda vida é um tributo ao silêncio”?

Mas, se é possível o silêncio, pleno de palavras e atos, entre Aminthas e Popó, se a elaboração racional de uma perspectiva em que valorizemos o “dia ser dia” e a “noite ser noite”, os atores e atrizes propõem a festa. E ao perguntar-se quem é, mesma pergunta que faz ao palhaço, este o leva ao êxtase, fazendo com que o narrador pule, dance e grite.

No mais, o tempo até então registrado será lançado ao fogo. O condutor de finados será lançado de encontro ao seu próprio termo.

Você, leitor, quer saber mais? Obedecendo aos alertas de Mallarmé e de Valery, recuso-me a continuar com essa autópsia. Portanto, leia o livro de Antonio Brasileiro, que se fez um notável e expressivo autor nacional mais como poeta do que como um novelista. Aliás, será do poeta que me ocuparei em breve aqui neste espaço, não sem antes passar pelo universo da crítica literária produzida por ele, na qual é um alguém que rompe os limites do primoroso.

[*] É crítico de arte e escritor, autor do livro de poemas “Sob a Régua do Expediente”. 

Nota - Antonio Brasileiro nasceu em 1944 em Matas do Orobó, hoje Ruy Barbosa, Bahia, é doutor em Literatura Comparada e um dos autores mais fecundos em atividade no Brasil. Foi professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, é um dos fundadores do Grupo Hera e é um artista plástico com uma obra madura e respeitada.

 

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