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Opinião - Se abunda, a mim não faz falta
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[*] Léo Mittaraquis

Ao publicar uma apologia às nádegas da artista Anitta, o jornalista Rian Santos houve por bem citar a mim, que sou nada com coisa alguma, e a Jozailto Lima, jornalista e poeta de alto calibre, nos descrevendo como “eruditos de alto coturno”.

Na perspectiva de Rian, além de pertencermos à alta hierarquia e tratarmos, em estilo nobre, de temas de expressivo capital simbólico, nos escandalizaríamos diante dos encômios dirigidos pelo jornalista e crítico à cada uma das partes carnudas, musculadas e arredondadas que se situam na zona inferior do dorso e acima das coxas da dona Anitta.

Não obstante o texto ser bem escrito, marca indelével do responsável pela coluna Cultura do Jornal O Dia, devido sua fundamentada formação intelectual e técnica, a conclusão quanto à indignação por nossa parte é, simplesmente, equivocada.

Vou até dizer mais por minha parte me baseando numa inocente questão: qual o motivo que levaria a este sexagenário escrevinhador à perplexidade, ao sentimento de revolta? Nenhum a mim ocorre.

Jorge Luis Borges, em um dos seus magistrais contos, observa que as únicas pessoas que podem, de fato, nos ferir são aquelas às quais amamos. Ao ler esta frase, no início dos anos 80, creio, vivi uma verdadeira epifania. E tal estado perdura até hoje.

Fácil, portanto, entender: nada tenho contra a artista. Nem a favor. Apenas não penso nisso. Não atino o porquê. Coisa de indiferença bourdieusiana. A moça não faz parte do mais ínfimo fragmento da minha percepção da realidade, e nem do constructo mais que pessoal do meu imaginário.

Fetiche por fetiche, no que concerne à figura feminina, este, que culturalmente faz parte da minha natureza, é dirigido às spallas. Porto-me quase como voyeur ao assistir ao concerto que conta com uma primeira-violino, em seu vestido longo, decote em “v”. E se as formas forem generosas... Afffff... E por que as vejo e as ouço? Resposta: executam as peças que amo. A mim apresentam-se como semideusas.

Eis então no campo pessoal das taras “a ausência de anitta” (ironiazinha com base numa série ridícula exibida, acho, há uns 20 anos ou mais).

Não, caríssimo Rian, não me escandalizo por tão pouco. O mundo, em seu belo e em seu terrível já me oferece motivos outros, de significado muito mais profundo e sério. O mundo labiríntico e maneirista, parafraseando, canhestro, aqui, Gustav R. Hocke.

A depender deste velho leitor, esteja à vontade para tecer loas ao traseiro que quiser e de quem quer que seja.

Como um egoísta ao estilo Ayn Rand, escandalizar-me-ei, aí sim, diante do impróprio apagar do meu Dona Flor ou do meu Don Fernando Robusto; do esvaziar total e repentino do meu Brandy de Jerez Fundador Solera ou do meu tinto Lupo Nero; diante duma “urgência” que me faça interromper o deleite que é ouvir Brahms, Chopin, Liszt, Bach, Duke Ellington, Nina Simone, Nelson Gonçalves, Ella Fitzgerald, Giuseppe Tartini, Billie Holiday, Beth Carvalho...

Ou o brecar involuntário da leitura duma obra pela qual me encontro mesmerizado de corpo e espírito: Ulisses, Comédia Humana, Almanaque Fontoura, revista Kripta ou A Morte de Virgílio. Ou seja: escandaliza-me o risco de prejuízo em que, por acaso (ou não), me encontre a correr diretamente, particularmente.

Escandaliza-me ad libitum a inoportuna visita que, indecorosa, põe-se, com maliciosa expressão facial a evocar um sátiro ou um íncubo, a namorar nossa adega ou nossa biblioteca. Sim, nossa.

Jamais nos esqueçamos de quem de fato manda na casa: ela, Iara Chagas Mittaraquis, a Imperatriz Absoluta do Meu Coração. Perto ou longe dela, perfeição divina imerecidamente concedida como companheira e cúmplice a este pobre pecador, as nitas, véi, não detêm a menor chance de povoarem minhas mais pornográficas fantasias. Coisas assim e afins.

Todavia, dito o que foi dito, agora dirigindo-me diretamente ao escriba, agradeço, Rian, a lembrança da minha muito pouco importante pessoa. Você conta com minha admiração - se isto vale e serve para alguma coisa.

Escreve bem e, com sua lavra e seu indiscutível tirocínio, tem promovido as boas manifestações artísticas que por aqui se dão. Seu trabalho se reveste de sentido e necessidade. Seu trabalho gera reflexão.

Com sincera admiração, envio ao amigo meu afetuoso abraço e um convite, sem data, para que possamos levar adiante uma boa conversa em torno de algumas garrafas de vinho. Evoé!

[*] É crítico de arte e escritor.

 

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Guga Santos
Cadê o Rian Santos????