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Especial Jozailto Lima

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Poema de Jozailto Lima: Balada do Desgarrado para Alaúde Rouco
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Poema Jozailto Lima / Ilustração Ronaldson

“quando me percebi já era alheio”

ezio déda

te apartaste e te perdeste
[boi na cordilheira,
cavalo no teto de zinco,
gato no fundo do mar]
dos caminhos mais elementares.

quede o orvalho
das madrugadas

quede as vias
de pó e poeira
fumegando a vontades
gerando gerânios ranchos rancharias
encontros e tropas de alegrias

quede o laço do abraço
distendido no vento

aberto na brisa do nada
- no nada que vale um tudo.

de pouco te valeram
óculos novos
enciclopédia universal
os bolsos topados de sonrisal
cartilagem de tubarão
mandingas de fulô preto
mantos de nuvens e manacás
se caducos
são os teus gestos,
                    caducos e crespos

se te apartaste
de toda a flora
da mínima areia e teogonia
que te remeteriam
ao reconforto
de mãos antigas           
[desprovidas de pretensões
de pedras]
e dos cheiros amigos

se te impermeabiliza
em casacos difíceis
em bílis de granito

se te esteriliza
e infundes distâncias
ao que de tão perto
e próximo
clama cócegas
                  e apalpos
e sal e luz
e poderia estar
aí contigo
mineral latente e seminal
sem jamais torar
na cepa.
no dentro-âmago.
[tanto que teu pai
e aqueles passarinhos roucos,
ó puto,
te pediam pra prestares
a atenção na direção das brisas
e no bailado lutrido das samambaias]

apartado de tudo,
bezerro sem teta
nem consolo de úbere postiço,
nu, desamparado de solo e útero,
não escalas mais montanhas,
não trepas mais os topos altos
e básicos de ti mesmo.

te descolaste da terra
dos galhos dos ramos
das flores das sementes
da palharia que se fazem húmus
e voltam em copa grande
de arvoredos imprescindíveis
- em lutrido bailado de samambaias.

boi na cordilheira
gato no fundo do mar,
foste ali com teus pés
de zinco - sem o auxílio
do teu burro preto –
acessar ninguém
e não sabes quando voltarás.

possivelmente não voltarás,
de tão apartado
dos caminhos em que estás.

Do livro “Viagem na Argila”, edição do autor, gráfica J.Andrade, Aracaju, Sergipe, 2012.

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Telma
Jozailto, que beleza. O apartar e se perder encontra seu caminho nesse poema. Grande poeta!
Josevânia Sobrinho Santos
Maravilha de poema. Parabéns!
Vânia Azevedo
Simplesmente maravilhoso! 👏👏👏👏👏👏
Rita K
Quero conhecer o Ezio!
Noedson Valois.
Parabéns, poeta! O amigo não se apoderou da poesia, ela se apoderou dele! Grande poeta!
Wellington Vieira
Interessante. Parece sem sentidos e ao mesmo tempo várias direções. Do boi nas alturas ao gato no fundo do mar.