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Razão e Deusa Nua - a propósito de parte da poesia de Antonio Brasileiro
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Antonio Brasileiro: uma obra de alta significação poética e credora de maior reconhecimento

[*] Leo Mitaraquis


Sendo este artigo crítico produzido com intuito de publicação no espaço JLCultura do Portal JLPolítica, está fora de questão tomar o todo da obra do poeta Antonio Brasileiro, trançar varas de vimeiro, esticar-me nas análises a evolar fedor hermenêutico.

O pouco que oferecerei já será muito e, talvez, para a valorização e compreensão da produção total do artista Antonio Brasileiro. Sob o viés benjaminiano, a partir dos textos esboçados nos anos 30, também me alinho à ideia de que o crítico não deve arvorar-se a deter a verdade. Nem mesmo a sua verdade.

Este artigo sobre parte da produção poética de Antonio Brasileiro pretende, também, que os leitores formem seus juízos sobre a coisa. Por conta própria, e a chamar a mim a responsabilidade por possível equívoco de percepção/interpretação, vejo-me, ao ler os poemas de Brasileiro, a evocar, em meu socorro, Martin Heiddeger e Maurice Merleau-Ponty.

Escusado dizer - e, no entanto, sempre insistimos nisto - que não foi causa pensada. O filósofo que se dedicou à apreensão do mundo mediante a linguagem veio-me, de chofre, quando li o poema “A prosa do mundo e o dedal de areia”:

Espadachim das sombras multivárias,
há que cuidar dos minotauros da psique.
Eis que a verdade é a multifacetada
E o mais, sombra de enigmas.

A deusa nua tem cheiro de jasmim
E a razão trescala a alho-porro.


(In Dedal de Areia, 2006, p.31)

 

“Poesia Completa”, de Antonio Brasileiro, volume 1, com seis dos seus livros, editada pela Mondrongo no ano passado

Reitero a expectativa de que corro o risco de equivocar-me quanto às intenções do escritor Antonio Brasileiro. Mas, também, sei que esta é a senda da navalha percorrida pelo crítico: há o que ele deduz que é e há o que, de fato, pelas mãos e pela mente do escritor, o é. Poucos, muito poucos críticos, têm coragem de admiti-lo.

Vamos, como diria Kiko Zambianchi, aos meus possíveis primeiros erros: melhor dormir do que deixar-se acossar pela angústia de ver-se sem companhia? No desértico oceano de opressivo desterro? ‘Dedal’ e ‘areia’ estão presentes, em Pessoa, na imprecisão do viver, na precisão do navegar. A verdade, de tantos lados, segue descaminhos de sombras, imprecisa no que é, vale dizer, “uma” verdade e precisa no ter de ser “a” verdade, Heidegger, implacável, dirá que até é possível, porém, há o plano para o poema vir a ser. Uma proposta estética da inquietude interior, profunda, complexa, estranha, de ser assimilada.

E no que toca a Merleau-Ponty, o elaborar um poema remete à modulação da existência. Vale dizer, cuidar dos “minotauros da psique”. Ou seja: escreva, crie, com total vontade e pulsão; dê a forma final, a que será impressa em “frágil papel”, com plano e moderação.

Essas reflexões são retalhos da minha mais que vã filosofia. Eis-me, a aplicar a razão, pois, escrevo. Valer-me de signos, não abarca outra condição: a paixão, o oloroso fluido do amor e do desejo. A segunda parte, por assim dizer, do poema é cárnea. Jasmim que concede entrada, deusa nua a trajar delicada gaze invisível. Cheiro forte, a razão quer possuir a poesia, sabendo a musa qual razão do poema – alho-porro... Não, por acaso, bolbo cilíndrico simples ou composto, com longas folhas invaginantes.

Ah, sim, há plano para cada poema de Brasileiro. E não é, graças aos céus, nenhum plano-piloto para poesia concreta. Os poemas deste poeta, após receberem a forma final, não comportam futuros aperfeiçoamentos. Se algum disso reclama, bem, não está pronto, não é, ainda poema. Vejamos algo, um pouco, da épica sequência, em 27 partes, de “O Cavaleiro”, também incluída no livro “Dedal de areia”, dedicado à Ivan Junqueira, poeta e tradutor - é de Junqueira a tradução de “As Flores do Mal”, do Baudelaire, publicada em 1985, pela Nova Fronteira.

Relíquia: primeira edição de “Os três movimentos da sonata”, pela Civilização Brasileira, há 42 anos

Antonio Brasileiro não lança, pura e simplesmente, a figura heráldica do cavaleiro no primeiro poema, mas, sim, estabelece uma bélica e anatômica configuração lírica:

Ao flanco do inimigo,
com um dístico. À virilha,
com uma redondilha. No occipital do monstro,
um cravo branco. E
no umbigo o
Canto Terceiro do Inferno.


Em meio ao combate que ocorre no campo do “espírito”, no campo de embate, de disputa, caracterizado pelo princípio dinâmico, infinito, impessoal e imaterial que conduz a história da humanidade, e que se concretiza plenamente neste processo em seu final, quando se manifesta no ser humano como plena razão e liberdade, cerram-se os adversários: em duas fileiras, antigas estrofes quádruplas, e o infernal clima é gélido.

Poemas, como tantos outros objetos, são “criaturas” resultantes de uma manifestação estética, de alta ou baixa qualidade, que busca “traduzir” dado estado de espírito e inerente contexto. Ser isso um fato, porém, não nos facilita muito quanto à apreensão de qual “estado” e de qual “contexto”. Confiemos (como o brasileiro cavaleiro, eu confio) na forma.

De forma acertada, Modesto Carone, escritor, jornalista e tradutor, nos chamou à atenção sobre o fato de que “ninguém hesita em falar de metáfora quando se tem à frente um livro de poemas”. Faz sentido. Contudo, falar de metáfora, seja a que elaboro, seja a elaborada por outro escritor, do qual leio e analiso dada obra, é construir uma justificativa “técnica” do porquê valeu-se desse recurso estilístico responsável por transpor o sentido literal para o figurado.

“Lisboa 1935”, estreia de Brasileiro na Mondrongo, em 2015

Não tenho, creio, lastro o bastante para avançar muito nos significados, “quer dizer” embutidos nos versos de Brasileiro. Coisa ou outra até me aventuro, e o faço na esperança de que espicace a curiosidade do leitor; que este se decida a buscar conhecer os poemas. Isso porque as dificuldades, certo velamento, que enfrento, ainda que sem empenhar muita energia, longe de as entender como motivo de desânimo, de desistência da leitura, sejam referências incentivadoras.

Sim, o cavaleiro é “razão”, a feminina nudez é o signo do sangue que corre e do coração que pulsa. E se “alimárias kantianas pastam” (poema de número 23, p.67), o fazem sob o sono dogmático, instinto de o ser sem o saber. Mas o cavaleiro, a acalmar o nervoso escudeiro, manifesta sua fé na compreensão dos leitores. O poeta, enfim, conta com isso, mas não tanto assim. O poeta-cavaleiro mantém seu lado quixotesco nas rédeas.

A terceira e última sequência de poemas, intitulada “Harpsichord Engomado”, nem de longe alcança a qualidade formal e conteudista das duas primeiras. Parece ter sido elaborada para completar o livro. Mas, certamente, estou enganado. Embora as soluções pareçam a mim muito mais frases de efeito. Destaco, para ilustrar o que “sinto” o poema “Acham que Acabou?”:

/Vou me calar. Não vou me calar.
Vou jogar pedra no telhado dos outros.
Vou me arrepender. Vou rezar.
Não vou. Vou xingar deus e o mundo.
Vou me retratar. Vou ser monge. Não vou.
Vou dizer tudo. Vou negar tudo. Vou
Gargalhar. Não, vou ser durão.
Vou ser bom. Um santo. Não vou. Vou ser
É ruim.
Acham que acabou? Acabou.
Não, não acabou. Vou recomeçar.
Vou me calar. Não vou me calar.


Ser ou não ser... Seria essa a questão deste poema? Seria hamletiano. Quiçá eu não enxergue nestes versos, no dizer de Barbara Heliodora, “importância dramática significativa”. Então, assumo, o bobo da corte sou eu. Um tom de cravo, cordas puxadas, ao invés de golpeadas pelos martelos: Harpsichord...

Em 2006, o autor teve “Dedal de areia” lançado pela Garamond

O tom antiquado, mas, não antigo por tradição, não por capital simbólico. Apenas um tom de imaturidade, de desafinação. Proposital? Não detenho dados para afirmar se sim ou se não.

As observações timidamente desfavoráveis que teço desqualificam a obra? Claro que não. “Dedal de Areia”, de Antonio Brasileiro, é livro que exige fôlego físico e espiritual. As noventa e quatro páginas, em nenhum momento, tangem a lavra para o lado da leveza proveniente duma construção porosa. Longe disso. São poemas concebidos por um escritor maduro, centrado, o qual pode dar-se ao luxo de “esperar que os dias amanheçam”.

De 1972 a 2005, Brasileiro e alguns amigos fundaram e lideraram o Grupo Era, em Feira de Santana, cujo carro-chefe era a Revista Era, que em 2010 gerou um tomo de 710 páginas com todos os exemplares

Quem é Antonio Brasileiro

 

Antonio Brasileiro nasceu em 1944 em Matas do Orobó, hoje Ruy Barbosa, Bahia. É doutor em Literatura Comparada e um dos autores mais fecundos em atividade no Brasil, indo da poesia, ao conto, à novela e à teoria literária.

Na lírica, Antonio Brasileiro escreveu “Os três movimentos da sonata”, “A pura mentira”, “Licornes no Quintal”, “Cantar de amiga”, “Fada e outros poemas”, “Pequenos assombros”, “Dedal de areia”, “Lisboa 1935”, “Longes terras”, “Esta varanda”, entre outros.

Ele foi professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, é um dos fundadores do Grupo Hera e é um artista plástico com uma obra madura e respeitada.


[*] É crítico de arte e escritor, autor do livro de poemas “Sob a Régua do Expediente”.  

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