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Vontade de Criar, a propósito d“A Estética da Sinceridade”, de Antonio Brasileiro (última parte)
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Leo Mitaraquis crítico de arte e escritor, promete para a seguir uma exegese completa da lírica de Antonio Brasileiro

[*] Leo Mitaraquis

Sei que havia me comprometido em dividir este ensaio em três partes tratando do livro “A Estética da Sinceridade”, do poeta e crítico baiano Antonio Brasileiro. Contudo, não foi possível.

As demandas são muitas e tenho de adiantar as coisas. Há também outro fator, talvez, ainda mais pertinente: respeito à paciência do leitor, o qual, certamente, tem mais o que fazer do que ler meus garranchos indefinidamente, como se estivesse a vagar pelos infinitos labirintos borgeanos. Prossigamos, então.

No quinto ensaio, “Valery e o samurai: sobre a precisão”, Antonio Brasileiro dispõe-se a estabelecer uma comparação entre as técnicas de combate do samurai e a arte poética. Cita Calvino, Heidegger, Cassirer e Valery. Deste, me ocuparei, haja vista conhecer-me o bastante para saber que cedo fácil à prolixidade, e se for para comentar sobre os nomes supra... Eita!

Portanto, submeto-me tão somente à síntese. Uma síntese um tanto canhestra, admito, mas, dadas as circunstâncias, é o que vejo como possível e recomendável.

Antonio Brasileiro toma, em parte, como referência da percepção estética de Valery o pensamento espirituoso, sutil, por vezes imprevisto do grande teórico. As famosas “Boutades”.

Para Valery, por exemplo, o estado de entusiasmo manifestado pelo escritor é “um ato de insinceridade, de simulação”, argumento com o qual concordo plenamente. Evito esse frisson como o diabo foge da cruz.

Voltemos ao que interessa: mesmo quando atua como poeta, quando elabora seus versos, Paul Valery, segundo Brasileiro, dedica-se a isso com cuidadosa precisão. Escrever, seja um poema, um ensaio, uma tese, requer lucidez, ausência de ruídos, rigor e exatidão.

Em “O Sorriso de Krishna – Notas para uma definição do poético”, Brasileiro aborda, entre outros aspectos, “o desgaste das palavras”, apoiando-se, inclusive, no pensamento heideggeriano, o qual alerta que é preciso uma predisposição para transcender a “a limitação própria do entendimento comum”.

Paul Valery, cuja percepção estética é dissecada por Brasileiro

No ensaio “O poeta e o filósofo: uma lição para tempos difíceis”, Brasileiro começa sua reflexão pelo “ser filósofo”, observando que “em épocas críticas de declínio, onde o tônus positivo e otimista não consegue mais se sustentar”, dá-se o fenômeno da submissão especulativa, os ditos filósofos se acomodam, não há a mínima disposição ao confronto racional, à construção de um projeto para o presente e, muito menos, para o futuro.

Antonio Brasileiro destaca um filósofo da antiguidade clássica ocidental: Epicuro. O pensador, segundo Brasileiro, soube, como poucos, atrair amigos fiéis e, ao mesmo tempo, propor um modo de vida em que o confronto é do homem consigo mesmo, no ato de coragem que é domar as paixões da alma.

Sobre o segundo ponto, o poeta, Brasileiro trata, em dado momento, o qual para mim é o mais importante, da “violência” que é explicar um poema, ou um verso do poema. Ao que parece, a tentativa de explicar um poema demonstra que não só o leitor, mas, também, o autor do poema não entenderam o poema. Os versos esperam que sejam compreendidos, sem que haja um “intermediário”.

Julio Cortázar e Grabriel García Márquez também são comentados por Brasileiro no ensaio “Cortázar e Márquez: da vontade pura e simples de criar”. O ato volitivo, neste caso, segundo Antonio Brasileiro, se revela ainda muito mais radical e livre na literatura fantástica, na qual o banal e o insólito se entrelaçam.

Brasileiro rebate as teorias psicanalíticas, notadamente as de fundo freudiano, que afirmam ser o exercício estético uma “busca de compensação, no mundo da fantasia, e aí encontra um substituto para a realidade”. A vontade de criar transcende à mera sublimação, não se limitando, de maneira alguma, a apenas satisfazer impulsos da libido.

“O modo lírico do linguajar sertanejo”, estabelece um diálogo estético entre as esculturas do artista Juraci Dórea e a comunidade do sertão baiano. A experiência deu-se em 1984. “Varas e couros” que estão no fazer e viver diários, alçam status de elementos estranhos, curiosos, plantados em locais diversos: descampados, encruzilhadas, margens de rio, feiras livres. Em torno, tomados pelo espírito da especulação, os camponeses: “homens e mulheres, velhos e crianças, se aproximam”.

Paul Valery, cuja percepção estética é dissecada por Brasileiro

Com o significativo título “Heráclito, o obscuro ou que fazem os estudantes no shopping center”, Antonio Brasileiro aborda, resumidamente, a figura não tão obscura de Heráclito, pensador da antiguidade que mereceu encômios de Nietzsche e de Heidegger. É uma indicação de leitura das mais generosas, tanto mais pelo fato de o autor abrir o ensaio com remissões a outros filósofos e ao modo como discursavam e escreviam.

Em “A Estética da Sinceridade”, que dá nome à coletânea de ensaios, Brasileiro alerta para o excesso de tagarelice. Sim, é de urgência que nos calemos ou, pelo menos, que tratemos de discursar, de conversar sobre o que de fato se revela essencial e bem fundado. Entre referências importantes, nesta perspectiva, retorna Brasileiro às esculturas de Juraci Dórea.

“Falsa coroa de Ricardo Reis”, Brasileiro analisa, sem pretensões ao dissecar, um poema sem título de Fernando Pessoa, mediante um dos seus heterônimos, Alberto Caieiro.

O poema fora, antes, atribuído a Ricardo Reis. No ensaio, é observada a dificuldade oferecida ou imposta pelas elaborações simples e perfeita. O poema resiste às investidas do senso crítico, disposto a ser lido e fruído, tão somente.

“A lição de Sossélla”, penúltimo ensaio, não comentarei, sob pena de “manusear apenas meias-tintas”, pecado que, decerto, já cometo desde o início deste artigo. “Delimito, pois, minhas intenções”.

Por fim, o último ensaio do livro, “Um certo Rosa/um certo Heidegger”, traz reflexões sobre o apuro da linguagem, num encontro profícuo entre o discurso literário e o filosófico.

Ambos dotados de poética, ambos a maravilhar o leitor com o aprofundar sutil das especulações sobre o “ser”. O “ser” dito, manifestado na condição mesma de pensar o “falar”, o “dizer”.

Este ensaio pede mais em termos de leitura e de cuidadosa opinião. Não há mais espaço para o ser aqui, neste artigo.

Encerro, então, minha tagarelice, a observar, como escusa, que busquei muito mais, nesta segunda e última parte, divulgar a obra do que valorá-la a partir de análises das análises.

Afinal, o ensaio pretende-se, em sua função mesma, formular conceitualmente problemas que são tomados como interessantes, investigando-se, nestes, as diferentes formas de conceitos envolvidas. (Se você quiser conhecer a parte 1 desta resenha, é só acessar).

[*] É crítico de arte e escritor, autor do livro de poemas “Sob a Régua do Expediente”. 

Nota - Antonio Brasileiro nasceu em 1944 em Matas do Orobó, hoje Ruy Barbosa, Bahia. É doutor em Literatura Comparada e um dos autores mais fecundos em atividade no Brasil. Foi professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, é um dos fundadores do Grupo Hera e é um artista plástico com uma obra madura e respeitada.

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