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Vontade de criar - Ficção, ensaio e poesia no extenso e qualificado lavor de Antonio Brasileiro (Parte 1)
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“Estática da Sinceridade & Outros Ensaios”: aqui Antonio Brasileiro diz muito com seu olhar de teórico sem concessões

[*] Léo Mittaraquis

“Paz e Heidegger se tocam. Este último falou da pressa como vemos o mundo e das vidas inautênticas que disto advêm. Octavio Paz se impacienta pelos mesmos motivos. Sabe, porém que a poesia sempre foi para poucos, e é nesses poucos, e não nas cifras estatísticas que está a continuidade da nossa civilização”.

Antonio Brasileiro

Temerária empreitada esta, de tecer considerações sobre autor que detém tamanha lustração. Esta frase, esta reflexão, veio-me quando comecei a escrever alguns garranchos a respeito do livro “A Estética da Sinceridade & outros ensaios”, de Antonio Brasileiro, publicado em 2008. Quanto ao grande acervo de conhecimentos, sabedoria e erudição, este é manifesto no modo como o vejo e, dentro do possível, entendo, sob perspectivas poética, ficcional, teórica epistêmica e pragmática.

Certo é que já vimos isto em “Caronte”, novela do autor comentada por mim em artigo anterior. Sob ambas as obras, um núcleo duro impõe que, em torno deste, gravita numa elíptica - ora mais próximo, ora mais distante - o discurso preciso. Quanto ao núcleo duro, este é a Verdade, e a verdade é, como bem pontua Brasileiro, “um pouco do que escrevemos”.

Verdade: assim justifico a epígrafe. Evito a gratuidade do resumir o sentido ou situar a motivação da obra por entender o discurso do autor como proposicional e presente tanto na ficção novelística, “Caronte”, quanto na compilação ensaística, “A Estética da Sinceridade & outros ensaios”.

Nos dois casos, é possível saborear, salvo equívoco meu, em perfeita medida, o tempero proveniente da matriz aristotélica. Em “Caronte”, ciente de que inventa a partir do que já é estabelecido como mito, Brasileiro orquestra bem a unidade de ação e, como se não bastasse, dá-se ao luxo de operar com o incidental, quando a memória, a percepção (falsa ou verdadeira) do agora e o sonho, se entrelaçam.

Na produção ensaística, o eixo epistêmico se mantém. Os ensaios dialogam entre si, o fenômeno volitivo da criação os perpassa. Em ambos, a unidade da imitação e da reflexão sustentam-se, digamos, lockeanamente, pela unidade do objeto.

Dito isto, ater-me-ei, doravante, à já mencionada produção ensaística.

“A Estética da Sinceridade”, não obstante intitular a obra, não é, na ordem disposta, o primeiro ensaio. Nossa viagem começa por “A História da Ilusão”. Virão mais treze “estações” a seguir. O trem da contemplação, da imersão, da paixão, que tomamos fará as obrigatórias paradas em cada uma delas. As paradas serão divididas em três partes. Por ora, publicamos a parte 1.

Em tempo: não alongar-me-ei na dissecação de cada ensaio. Li-os todos, com a devida e obrigatória atenção. Contudo, demorar-me em cada um, em suas capilaridades, demandaria, para cada, um artigo, tarefa para qual não me vejo, em absoluto, capaz. Portanto, a coisa dar-se-á, contado eu com a generosa indulgência dos qualificados leitores, de modo ligeiro e circunstancial.

Paul Valery: o poeta e crítico francês que é usado como uma das referências de Antonio Brasileiro

PRIMEIRO ENSAIO: “A HISTÓRIA DA ILUSÃO”

“A História da Ilusão” é precedida por longa epígrafe, citação de parte do pensamento de Arnold Toynbee, o qual comenta algo da reflexão sociofilosófica de um dos mais talentosos arquitetos que já existiram, Constantínos Apóstolos Doxiádis, sobre o conceito ecumenópolis elaborado, na segunda metade dos anos sessenta, com o intuito de representar a ideia de que, no futuro, áreas urbanas e megalópoles acabariam por se fundir e haveria uma única cidade mundial contínua.

Uma consequência das atuais tendências de urbanização e crescimento populacional. Muito provavelmente, o conceito ecumenópolis tem relação com o conceito cidades-planetas, cunhada pelo líder religioso americano Thomas Lake Harris, ideia comum em seus poemas futurísticos-espirituais. E é quase impossível olvidarmos de Isaac Asimov, e a idealizada Trantor em “Fundação”. É significativo destacarmos aqui, neste sentido, a crítica de Asimov à excessiva especialização, a qual traz, como efeito colateral, respectiva e perigosa vulnerabilidade.

Admito que tico e teco não apreenderam de imediato a relação - provavelmente óbvia aos demais leitores - entre o admoestativo fragmento de texto, o qual, pressuponho, intenta resumir o sentido e situar, ao leitor, a motivação do texto principal subsequente, e o ensaio em si. Mas, já no vagão, arrisco-me a entendê-los como contrapontos: a condição coletiva, múltipla, perigosamente demográfica e, quem sabe, sob a tutela do grande irmão, em posição antípoda ao drama individual próprio do ser poeta.

Ao lado doutros nomes de peso, Brasileiro evoca Ortega y Gasset, mediante a emblemática frase debitada ao filósofo espanhol: “A clareza é cortesia do filósofo”. E prossegue, o autor, observando que não foi sua intenção discorrer de forma sistemática sobre o tema do qual trata; e que não há importância em ter (ele, Antonio Brasileiro) sido ou não ter sido claro. Bem, claro o ensaísta, novelista e poeta o foi. Sua modéstia estratégica está mais, nesse caso, para a insolência.

O embaraço, a dificuldade de apreensão são estados de consciência dos quais a responsabilidade cabe somente ao leitor. Porém, a forma adotada, uma colagem de reflexões, perspectivas e, ainda, a inserção de trechos dum poema de sua autoria, exige, do leitor, a tarefa, não tão fácil, de perceber/compreender a relação entre os elementos, as referências.

Mas, como diria a Polishop, não é só isso: outros agentes estruturantes que operam - vivos ou não - no campo da estética foram convidados. Heidegger, que no campo conceitual da arte dispensa apresentações, abre alas. Hordelin o segue. O pensamento religioso tradicional da civilização hinduísta aparece em seguida. E, caso desejemos ir adiante, vamos de carona com Grahan Hough, autor do monumental “The Last Romantics”.

Hough vem bem a calhar, com seu esquema de valores críticos, a separar joio de trigo. Dilthey é apontado como predecessor nesta linha. Wilde merece, também, lugar, e eu, não que Antonio Brasileiro disso necessite, endosso a referência ao contemplar pelo contemplar. Segue com Nietzche, para quem o ato de existir, seja o existir de nós mesmos, seja o existir das coisas do mundo e, enfim, do próprio mundo, só se justifica, como o que se manifesta aos olhos como fator estético.

Arnold Hauser, é mencionado. Autor de “História Social da Arte e da Literatura”, obra vital, necessária, apesar de, segundo Antonio Brasileiro, não nos ter dito tudo a respeito do Romantismo, movimento intelectual e artístico, germânico e ocidental que fez prevalecer, basicamente, como princípios estéticos, o sentimento sobre a razão, a imaginação sobre o espírito crítico. Talvez não tenha nos dito tudo e, pessoalmente, não apreendo o que seria esse tudo. Mas, com toda certeza, nos disse muito sobre o movimento, o qual, mal parafraseando, aqui, Will Durant, se mantém como um rio largo, profundo e subterrâneo.

João Cabral de Melo Neto: “lições importantes perpassam sua obra poética”, segundo Antonio Brasileiro

Está mais que óbvio, a mim, que Brasileiro não está inclinado às concessões. O autor prossegue na mesma tensão, ou, na verdade a aumenta, quando inclui Baudelaire, flores do mal vicejando em paraísos artificiais, e o autor de “Verdade e Método”, Hans Georg-Gadamer. Hum... Aí, então... Vejam bem: Gadamer, quando citado, seja apenas o nome, age como vórtice. Puxa quem dele se aproxima, obriga-o à uma descida ao Maelström.

Assim, ao acompanharmos o filósofo, devemos concordar, creio, quem sabe pondo-o ao lado de Hauser, que ambos conversam e se complementam. Não, evidentemente, por acordo mútuo, suas obras magnas, sabemos, foram publicadas em tempos diferentes. Contudo, quanto ao entendimento do romantismo como elemento de ruptura, parecem convergir, resguardadas as devidas particularidades de percepção.

Num momento tragicômico, Antonio Brasileiro, propõe-se a “truncar” - o termo, no contexto, é dele - a realidade histórica. E mais: vale-se de um pensamento, de uma frase, que não é sua, e não cita a fonte, limitando-se dizer que “alguém escreveu uma frase, trunquei-a e fiquei com o fragmento”. Decerto, uma facécia, um relaxamento necessário para aurir forças e prosseguir com o tranco muscular exigido pela elaboração do texto.

O trecho truncado, no original, “A arte de narrar está definhando porque [fim da p. 200] a sabedoria - o lado épico da verdade - está em extinção. Porém esse processo vem de longe. Nada seria mais tolo que ver nele um sintoma de decadência ou uma característica moderna” é de Benjamin, conforme a tradução sob responsabilidade da Editora Brasiliense, 1987, Walter Benjamin - Obras Escolhidas, volume um, “Magia e Técnica, Arte e Política”, ensaio “O Narrador”. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, p.200-201. Observe-se, aqui, que o corpo do ensaio, seu objeto derivado da combinação de impressões, em nada apresenta-se como truncado. O sentido é claro, ainda que não permita, de pronto, de forma fácil, considerações exteriores. No que diz respeito à clareza, Antonio previne-se quanto a preservá-la, recorrendo à Ortega y Gasset. Passa as costas da mão, de leve, no traseiro de Kant e decide-se por “dizer o que realmente pensa sobre tudo o que esteve falando”.

Para Brasileiro, não há salvação de coisa alguma via poesia. Os poetas podem e devem atuar como contrapontos ao fenômeno da “clausura pelo lado de fora”, mesmo quando recolhidos em seus nichos, produzindo o melhor, sob o império da excelência, em forma de versos. E assim mantenham o insigne, o notável, o abalizado, evitando “a macaqueação do saudável e o do saudoso lado sério da vida”.

Hera: revista que sintetiza visão poética aplicada de Antonio Brasileiro e uma grande leva de poetas baianos há quase 40 anos

SEGUNDO ENSAIO: “O MAL-ESTAR DA POESIA CONTEMPORÂNEA”

Este provocou, pelo menos em mim, dúvidas, incompreensão, concordâncias oscilantes. Certamente, devidas estas ao meu notório espírito chucro, bronco, assustadiço. Antonio Brasileiro afirma, logo à primeira página, ser a “crise da poesia” um fenômeno sob lupa, há mais de um século. Lido e relido, o conceito de crise, relacionado à situação da poesia não me ficou claro. Mas, como já disse, sou duro de entendimento, fidapé dum caso perdido.

Talvez “crise”, no que diz respeito à literatura, mais especificamente, no caso, à poesia, tenha a ver com a óbvia, amplamente conhecida mediocridade inerente à falta de fundamentação humanística, vale dizer, da desvalorização do saber crítico voltado para um maior conhecimento do homem e de uma cultura capaz de desenvolver as potencialidades da condição do indivíduo, do seu espírito. Situação, entendo, comum ao fenômeno arte em suas múltiplas manifestações.

Já me foi dito, quando minha ocupação de subsistência era consertar bicicletas - desempenar jantes, substituir esferas gastas da catraca, trocar pedais, vender pneu cocada, vulcanizar câmera - que “não saber é o mesmo que estar cego”. Vivemos um tempo, um ciclo, uma maldição... A cultura do não saber, do ignorar o que, dantes, era reconhecido como ousar saber, desde Horácio até Kant; a passar em seguida, meio que de maneira troncha, por Foucault, e chegar até Jean-Claude Vuillemin.

Poesia e crise: o exercício de interação entre palavra e forma, num substrato de subjetividade, se apresenta, hoje, eivado de opiniões, diluído, “fashionalizado” no seu sentido mais vago e geral. A reflexão à qual me entrego e o escrever destas linhas dão-se em tempo real. Aos poucos tomo pé no rio das inquietações brasileirianas. Então, sim, desejo compreender, pois também sou poeta, elaboro poemas como ato de crença. Temo, portanto, alertado por Nietzsche, em “Aurora”, ser torturado pelo medo de ser completamente inepto para reconhecer o que é verdadeiro.

Neste sentido, o medo de ser inepto, no que concerne à poesia, deve ser superado, ainda que não erradicado, mantendo-o, nós, poetas, como vigilantes sádicos, garroteado para que não se caia em tentação de conferir-lhe território.

Esse processo implica em metodologia, e essa se encontra, felizmente, bem disposta em Roberval Pereyr, “A unidade primordial da lírica moderna” (PEREYR, 2012, p. 31): “Ao poeta, pois, cabe a exercitação da rara habilidade de transformar uma iminência (estado de alma difuso e misterioso a que chamamos inspiração) numa presença: o poema. Desfazendo-se dos bloqueios impostos permanentemente pela vida cotidiana, torna-se receptivo; imerge então num grande vazio. Não um vazio estéril e morte, mas o vazio no sentido empregado pelos sábios orientais: pleno e de onde brotam inexplicavelmente todas as coisas existentes e imagináveis. É a este vazio que estamos chamando de poético”.

O vazio poético é o contraponto ao esvaziar-se de sentido, de propósito. O poético, antídoto diante da conjuntura perigosa (crise), dos enganos que vitimam o pensamento (ilusão); o poético como condição precípua do poeta bem lastreado, imune ao adernar dos modismos; condição de imediato atestada em poetas, como um Brasileiro, um Jozailto, um Ronaldson, um Assuero Cardoso e um Pereyr.

Ao imergimos em seus poemas, nas palavras de Thomas Mann, auferimos a disposição para a “laboriosidade, para a persistência, conduzindo a obra iniciada ao término e ao aperfeiçoamento”. Crise via status ilusório não terá lugar nas suas escrivaninhas. A verdade, o mundo melhorado, também, novamente recordando Mann, dessa vez ao comentar o modo de ser de Tchekhov, prevalecem.

Crise, Ilusão, Verdade – Poder-se-ia levar em conta outra perspectiva ou outra possibilidade. Mas ao autor, a nós, que lemos e somos seduzidos pelo ensaio, passa a importar somente e tão somente, neste dado momento, mediante os parâmetros oferecidos pela sua tese de doutorado, a “crise” da qual foi acometida a poesia contemporânea. Brasileiro está corretíssimo quanto à desqualificação da produção poética. Concordo que assim tenha passado a ser. Isso muito e de há muito me aflige, é motor duma tristeza administrada, para que não descambe numa melancolia crônica.

A desqualificação, o mal escrever, o não saber são pandêmicos. Afetam, sim, o compensador, quando consciente dos intrínsecos valores, contemplar por contemplar, o fruir pelo fruir. Coisa grave por si, e que, como bem observa Brasileiro, entrava as melhorias possíveis ao espírito. A lembrar, de modo canhestro, Eugen Rosenstock-Huessey, o poético, de bom pedigree, “permite que os homens estejam em fogo sem se tornarem brutos”.

Esta condição essencial permanece, apesar de tudo, e não se encontra em estado inerme. A lavra poética de Antonio Brasileiro, da qual, em breve, também abordarei em artigo crítico, é a prova cabal disso.

Poesia Reunida de Antonio Brasileiro, primeiro tomo da obra completa do escritor, saído no final do ano passado pela Editora Mondrongo

TERCEIRO ENSAIO: “EUCLIDES E A CRIAÇÃO DA REALIDADE”

Euclides da Cunha, o que ele viu e o que registrou sobre “a mais absurda guerra da história do Brasil”.
Sobre o que tomou nota, como tornou esses dados num corpo de texto que resultou numa das mais importantes produções literárias, são movimentos expressivos das ideias daquele professor aos 42 anos, alvejado num duelo, e que transcendem em muito uma obra, por si só, impressionante em suas dimensões estética e histórica.

Antonio Brasileiro põe o leitor de sobreaviso: “Não é bem da guerra que quero falar, entendam. Será mais próprio dizer que falarei sobre o livro que a registrou. Isso faz alguma diferença: tenho cá comigo umas suspeitas de que foi justamente o livro que fez aquela guerra ‘existir’. A verdade é um pouco o que escrevemos. Quero falar, portanto, dessa ligação agora verdadeiramente um tanto não desenredável, entre a ficção e a realidade”.

Quando li “Os Sertões”, se não me falha a memória, em 1979, publicado pela Francisco Alves Editora, tomei o escrito como o retrato mais fiel dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, me admirava da capacidade do autor, Euclides da Cunha, de produzir um relato híbrido: científico (abordagem geológica), antropológico (“Complexidade do problema etnológico no Brasil”), jornalístico (“Causas próximas da luta. Uauá”), épico, com as inerentes características: presença de narrador, personagem heroico, enredo, tempo e espaço.

Fascinado, sem dúvidas, coisa de bibliófilo em formação, entre os dezessete e os dezoito anos de idade. Lia, indo e voltando, linhas da histórica verdade. E a imagem dos destemidos sertanejos fazia ecoar, na minha alma, o retinir das lanças e lâminas dos espartanos em Termópilas.

Anos se passaram. A cada três anos ou um pouco mais, retornava à obra. Por causa dos fatos? Não, não mais assim. Passada na peneira duma metodologia hermenêutica pessoal consolidada, ficou-me “apenas” a narrativa levada a efeito de forma completa, complexa e perfeita. Sensível já, então, à forma, fermentei nos ossos a inveja - queria escrever assim, daquele jeito. Verdade é que esse sentimento de respeito, consideração e reverência não era endereçado somente à Euclides. Havia, como ainda os há, outros.

Contudo, vão bem uns dois pares de anos que não releio o homem das caatingas. Posso dizer mesmo que o esqueci num canto da biblioteca. Mas, aí, deu o cabrunco da peste, vem a mim esse ensaio de Antonio Brasileiro. Então Brasileiro quase que não toca na guerra. Muito mais na possibilidade comprovada do poder da literatura nas mãos e na mente de um poderoso, douto, culto escritor.

Forma e estilo, técnica habilidosa de construção de cada parágrafo, de cada descrição, fizeram com que a obra pairasse, soberana, sobre textos, digamos por cortesia (tal qual Nietzsche) de temas similares, contudo relatoriais. O gênio euclidiano evitou que a narrativa, concluída e editada, se dissolvesse entre tantos outros tratados. Destacou-se e capturou, para sempre, o interesse dos estudiosos.

Antonio Brasileiro descreve bem o fenômeno apenas citado superficialmente, por mim, nas linhas acima: “Em 1902 o livro foi publicado. Fruto de quatro anos (desde o fim da guerra em 1897) de trabalho para ordenar e aprofundar o conteúdo das reportagens, mas sobretudo da memória abalada. “Os Sertões” já nascia um clássico. Liam-no, discutiam-no. Os quatro anos passados, muito longe de fazerem esquecer o drama de uns miseráveis, reavivaram um certo difuso sentimento de solidariedade que quase se poderia dizer de uma nação”.

Ao concentrar fogo mais sobre a narrativa na perspectiva euclidiana, forma, possibilidades exploradas pelo autor carioca, natural de Cantagalo, na materialidade da obra e na recepção por parte dos demais eruditos, dos pesquisadores e, também, da camada culta não necessariamente especializada, Brasileiro abre espaço para, no dizer de Barthes, uma sociologia da palavra.

Brasileiro pontifica: “Mas é o estilo, sim - dizemos -, o fadado a permanecer. Isto é decerto uma defesa da literatura, reconheço. Mas a vida escrita é de certo modo literatura. A ‘Troia de taipa dos jagunços’ – como Euclides denominava Canudos na sua exaltada evocação de Homero –, é queiramos ou não, literatura. Não houvesse quem a descrevesse, e com as exatas palavras da arte literária, teríamos no máximo uma mancha de brutos e quase indistintos fatos perfeitamente ilháveis no espaço e no tempo”.

Recorrendo, mais uma vez a Barthes, diria eu que o escritor, mediante a literatura, não só demarca um campo para uma sociologia da palavra como, também, para uma filosofia. Segundo o escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês, “O escritor, fechando-se no como escrever, o escritor acaba por reencontrar a pergunta aberta por excelência: por que o mundo? Qual é o sentido das coisas? O escritor concebe a literatura como fim, o mundo lha devolve como meio”.

Antonio Brasileiro demonstra perceber muito bem isso: “O livro nos toma, então, o fôlego, e não mais queremos abandoná-lo”.

Antonio Brasileiro: doutor em Literatura comparada, professor aposentado da UEFS, teórico de literatura, contista, artista plástico e, sobretudo, poeta - tudo por uma trilha de excelência

QUARTO ENSAIO: RAZÃO E INSPIRAÇÃO EM PAUL VALERY E JOÃO CABRAL

Rigor, economia, recusa e possivelmente, uma quase geometria, relações espaciais entre pontos, retas, superfícies. Eis minha rasa percepção da produção poético-teórica de Paul Valery e de João Cabral de Melo Neto.

Antonio Brasileiro pode dizer, apontar, explicar muito mais que isso; pode, e o faz, ao nos reapresentar dois nomes que nos desafiam, nos fascinam, nos seduzem. Ao menos a nós, que respiramos a boa (e por vezes até a má) poesia.

Brasileiro, nesse ensaio, tem o cuidado de preparar o leitor. Sobre Valery e Cabral, no primeiro parágrafo, avisa como se apontasse a placa cave canem: “Paul Valery e João Cabral de Melo Neto, dois grandes nomes da literatura ocidental, tinham em comum o gosto pelo ‘exercício’ da criação. Em seus escritos e depoimentos, espicaçavam duramente as facilidades do fazer. ‘Perfeição’ é trabalho, diziam; a inteligência cuida de apagar o que o deus imprudentemente criou”.

“Pensar a poesia”, compreender o compromisso de ambos os poetas com a razão e com a lucidez. Brasileiro revela ser um dos não sei quantos estudiosos do fenômeno poesia valeryana e cabralina, tomado pelos sentimentos de excitação, curiosidade, espanto. Destaca, em Valery, a obsessiva - por isso mesmo profunda e prolífica - dedicação ao processo e às implicações do trabalho de criação.

Quanto a João Cabral, o ensaísta afirma: “lições importantes perpassam sua obra poética”. Em tempo: o leitor desta primeira parte do artigo, a qual estou a elaborar para o espaço JLCultura do Portal JLPolítica, certamente já percebeu que, no caso específico do quarto ensaio, “Razão e Inspiração em Paul Valery e João Cabral”, de Antonio Brasileiro, estou a escrever dum jeito mais distendido, mais para resenha do que para o constructo mais complexo e denso exigido pelo texto no formato crítico clássico. O que distingue este um pouco dos três comentários anteriores.

Tranquilizo-o: o ensaio, de modo algum, é, a mim, incompreensível, hermético. Contenho-me, na verdade, pois o assunto merecerá abordagem mais larga e intensa, detalhada, quando o vosso escriba tratar, num único artigo futuro, sobre o livro “Da Inutilidade da Poesia”, também de Antonio Brasileiro, obra derivada da sua tese de doutorado, publicada em 2002

Voltando ao juízo presente. Brasileiro nos chama à atenção para um aspecto importante: a larga atuação do intelecto, do pensamento crítico de Valery e de João Cabral. No caso do primeiro, previne que, quando é assim, há o risco do aparentemente fecundo pensador/escritor incorrer “em teorias gratuitas e poemas tão só ilustrativos”. Porém, também nos informa que tal falta não se dá no filosófico poeta francês.

“Bah”, pintura-traço-espanto do artista plástico Antonio Brasileiro

Cabral é posto lado a lado de Valery: “As ideias de Cabral parecem refletir, como já dissemos, o essencial de Valery. Sua poética, expressa aqui e ali em uns poucos textos sobre arte e artistas, melhor pode ser observada nas entrevistas que deu (também poucas) ao longo dos anos”.

As similaridades no discurso e na forma foram, anteriormente, também destacadas por outros estudiosos - críticos, escritores, pesquisadores.

Segundo Benedito Nunes [A poesia de Cabral] “Crescerá porém em regime de crise interna, e, numa luta consigo mesma, que reflete a própria crise histórica da poesia, chegará, submetendo o processo criador a uma análise reflexiva e crítica, que já começa em “O Engenheiro”, sob a instigação intelectual de Valéry, a problematizar, na poética negativa de “Psicologia da Composição” (1947), o alcance da lírica moderna”.

Ao que parece, podemos ler, também em Benedito Nunes, filósofo, professor, crítico literário e escritor, seu alinhamento, seu entendimento, aos de Brasileiro, quando o pensador paraense diz: “Esse ideal de clareza e de rigor, que desponta com a morfologia do sensível e o dimensionamento perceptivo das imagens por ela prenunciada, manifestou-se, de maneira incisiva, na vontade de petrificar a incessante fluidez da experiência subjetiva”.

Mediante o ensaio escrito por Antonio Brasileiro, temos a oportunidade de, a partir das suas observações e análises, e mais as referências, os aportes teóricos, os quais generosamente, ainda que sem concessões irrefletidas, dispõem ao longo do texto, revisitarmos, munidos de conhecimento sistemático, metódico e organizado, o universo poético de dois monstros sagrados, indispensáveis, tanto no sentido da fruição pura e simples das suas criações, quanto no sentido de promovermos em nós mesmos, a ampliação dos nosso horizonte estético, histórico, sociológico e filosófico.

Léo Mittaraquis é crítico de arte e escritor e escreve a partir de Sergipe, onde reside
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