Politica & Mulher
Tanuza Oliveira

É jornalista desde 2010, com atuação em veículos impressos e assessorias de comunicação.

Linguagem neutra, inclusiva ou não-binária rompe padrão da normatividade de gênero
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Linguagem neutra acompanha os debates de gênero

Todes vocês já devem ter ouvido falar na linguagem neutra, ou linguagem inclusiva, fruto de uma “evolução linguística” que acompanhou os debates de gênero que vêm ocorrendo ao longo dos anos. A nova forma tenta dar lugar na gramática que corresponda às identidades de gênero de falantes que não se sentem representados pelas formas “a”, no caso do gênero feminino, e “o”, do gênero masculino.

É o que explica o professor Bruno Felipe Marques Pinheiro, mestre em Letras pela Universidade Federal de Sergipe e pesquisador na área da sociolinguística e psicolinguística, profissional que também se dedica ao estudo da descrição e do processamento de formas linguísticas, que envolve questões de gênero e sexualidade.

Bruno Pinheiro explica que “surgimento” não é o melhor termo para explicar o funcionamento de uma língua, já que ela nasce a partir de uma demanda cognitiva e evolui, acompanhando as inúmeras transformações de seu povo. Dessa forma, segundo o especialista, não há necessariamente um surgimento, mas sim uma “evolução linguística”.

“Nós, falantes, usamos a língua para decodificar processos que estão envolvidos dentro de uma época histórica e dentro de um recorte temporal. À medida que evoluímos enquanto espécie dentro de uma comunidade social, a nossa língua, “por tabela”, também evolui. Neste caso, o que estamos vendo acontecer no português, como em outras línguas, é fruto de uma evolução própria do português a fim de abarcar as chamadas formas não-binárias”, esclarece.

De acordo com ele, a humanidade rompeu com um paradigma de gênero no qual só se reconhecia como “padrão” os gêneros “masculino” – com o seu correspondente de gênero o “homem” – e “feminino” – com o seu correspondente de gênero “mulher”. No momento em que outras formas identidades de gênero são legitimadas pela sociedade, a língua, “por tabela”, precisa gramaticalizar, ou transformar em novas palavras, esses novos gêneros.

Prova disso é que a agenda para uma “linguagem inclusiva” ou “linguagem não-binária” não é de agora. Por exemplo, na década de 1960, feministas suecas já tentavam inserir formas de gênero neutro na língua sueco. E só conseguiram inseri-las no dicionário sueco com ajuda do Governo em 2015.

“Quando falamos, carregamos nossas bandeiras, nossas ideologias, nossa maneira de enxergar o mundo. O fenômeno da “linguagem inclusiva”, “linguagem não-binária”, “linguagem neutra” ou “das novas formas de se referir ao gênero gramatical” no Brasil é muito recente. Essa quantidade de nomenclatura revela isso.  Estamos tentando mapear do ponto de vista de descrições os usos que os falantes estão realizando nos diferentes lugares da sociedade”, resume Bruno.

Para ele, uma agenda para uma “linguagem mais inclusiva” é extremamente necessária. “Para você ter noção de que nenhuma linguagem é neutra: as pessoas que são contra uma linguagem mais inclusiva, as quais acreditam que a linguagem neutra vai “assassinar o português”, também partem de um lugar no mundo e carregam uma ideologia. O que devemos considerar é o seguinte: independentemente de embate político ou ideológico, a língua por si só segue seu fluxo e sua evolução”, argumenta.

Bruno: “Se há falantes utilizando essas formas, ela já tem viabilidade enquanto formas linguísticas”

Nesse contexto, para Bruno Pinheiro, uma linguagem mais inclusiva é importante, pois os novos falantes, os mais jovens, estão fazendo uso dela. “Não devemos julgar se uma forma como “todes” é bonita ou “feia” ou se os termos “ile” ou “dile” não têm nexo. Se há falantes utilizando essas formas, elas já existem”, afirma. Significa que essa “linguagem não-binária” está acontecendo. Inclusive, no português, no inglês, no espanhol, entre outras línguas.

“Agora, do ponto de vista teórico, de início, no português não há gênero neutro”, reconhece. O que aconteceu com o gênero então, para haver uma língua só binária, com masculino e feminino? “Na passagem do latim para o português, o gênero neutro, que existia no latim, se “juntou” com o gênero masculino. Assim, nasce o que chamamos de gênero genérico”, explica.

É por isso que, em um ambiente com homens e mulheres, mesmo que elas sejam maioria, se convencionou saudar com um “boa noite a todos” somente. Esse “todos” engloba todo mundo, independentemente do gênero. “Essa regra decodificada utilizando o “o” como masculino genérico “talvez” não tenha mais sentido, pois, em um ambiente super diversificado, todas as pessoas querem ser representadas”, opina.

A grande questão, portanto, é quem nem sempre o gênero tem uma ligação estritamente correspondente com o sexo biológico e a identidade de gênero. E foi aí que a tal da linguagem não-binária já nasceu criando polêmica.

Questionado pela Coluna sobre se esse tipo de linguagem neutra tem amparo gramatical incorre no caminho do “certo” e “errado”. “As pessoas que dizem ser “contra a linguagem neutra” muitas vezes estão pensando por um viés do “certo” e “errado” imposto por alguns professores que ensinam gramática normativa. O português não se resume a ela”, ressalta.

“Como linguista, não estou preocupado em “dar um veredito” se as novas formas para representar uma não binariedade têm ou não amparo. Cai no viés do julgamento. Estamos preocupados em entender como as pessoas estão utilizando esses usos e qual caminho o português brasileiro se encaminha quando se refere ao gênero gramatical. O que eu posso dizer é o seguinte: do ponto de vista estrutural da língua, até então esse ambiente de gênero estava estável no português”, continua Bruno.

Vale lembrar que as pessoas já estão usando essa linguagem em diferentes partes do mundo. No sueco, surgiu a forma “hen” como forma neutra em contrapartida das formas “han” – masculino – e “hon” – feminino. No inglês, “ze”, “hir”, “hirs”, “xe”, “sem”, “xyr” no lugar dos pronomes “he”, “she” e suas flexões. Aqui no Brasil, o “@”, “x”, “e”, “dile”, “ile/-ilu”.

“Se há falantes utilizando essas formas, ela já tem viabilidade enquanto formas linguísticas. O que talvez precisamos discutir são os tipos de barreiras que essas formas enfrentam do ponto de vista estrutural no português e nas outras línguas, pois, como falei anteriormente, essas formas aparecem mais por uma demanda social, com o objetivo de representar falantes que não se sentem representados pelo gênero binário”, reforça.

E a quem interessa barrar formas de representatividade aos que não se sentem representados? O que é mais importante, falar correto, do ponto de vista da gramática normativa, ou acolher com a fala? Eis a questão. E ela vai bem além da gramática. “Talvez a grande questão seja falar da nossa subjetividade enquanto sujeitos. No ambiente escolar, por exemplo, respeitar todas as diversidades de gênero que venham a existir. A língua, posteriormente, vai se acomodando, reestruturando e o sistema vai se equilibrando”. 

Assim, gostando ou não, achando bonito ou não, há de se considerar que a língua é, também, um mecanismo empírico de inclusão. E, nesse caso, uma ferramenta a mais na luta por igualdade. “Ao meu ver, uma “linguagem não binária” tenta ampliar sua capacidade de ver o mundo, tenta representar as pessoas a partir das suas necessidades individuais e subjetivas. Por isso que essa discussão gera tanto debates”, diz Bruno Pinheiro.

 

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Luccas
Uma linguagem que se vende como inclusiva, mas que exclui a população com dificuldades visuais, que é muito maior que a não-binária dentro do movimento LGBTQIA+... Assim, se um dia existir uma linguagem inclusiva, será mais espontânea que essa, e certamente não será utilizada apenas por uma elite jovem universitária e militante.
Firmado em letras
Já foi comprovado em outros países que essa linguagem prejudica o aprendizado e a alfabetização das crianças. Chamamos de "Evolução da língua" quando as palavras que evoluíram passam a ser usadas espontaneamente pelo povo, e não imposta e empurrada como está sendo com essa linguagem.
Anderson Muniz
Que bom termos a oportunidade de ver que estamos avançando no âmbito dos costumes humanos. O que Lucas trouxe aqui é algo a ser considerado, o respeito às pessoas com baixa visão e cegas, por exemplo, tem sido discutido para que se use o e e o i na linguagem. Não se avanças numa pauta excluindo outras e atacar a linguagem inclusiva não é o caminho, Lucas, já que a própria está aberta e em processo de construção. Acho que só quando temos problemas com a temática a gente não faz a crítica: ataca, ou disfarça o ataque de crítica.
Daniel cortes
Besteirol doentio de pessoas ideologizadas.
Claudia
As liguagens divercificadas de pessoas de varias culturas , de muitas pessoas que nem se quer tiveram o direito de apreder, por isso escrevem e falam com um liguagem popular? E aí vão mudar as regras de gramáticas por essa causa também?
Marquito
Tolice ao extremo. Tanta coisa que necessita atenção, mas a prioridade é alterar o idioma para agradar a menos de 1% da população.
Jessé
Inclusiva pra quem? Vivemos num país em que a maioria é analfabeto, que não sabem escrever corretamente , e que nunca leram um livro na vida, e certos militantes querendo distanciar e excluir essas pessoas ainda mais. Engraçado que eu não vejo ninguém lutando para ensinar a linguagem de sinais e o Braille nas escolas. Pois pessoas especiais sim, precisam de mais inclusão na sociedade e facilidade de comunicação. Mas essas pessoas não interessam né??!! O importante é satisfazer o ego, e esquecer dos que realmente precisam da tal inclusão.
Acy Duarte Cinque
Muito esclarecedor. Eu mesma estava com inúmeras dúvidas sobre o uso dessas expressões.
Luis
É a terra plana da línguagem.
Jeyson Carlos
É interessante como linguagem neutra não tem nada à ver com lingua Portuguesa. Aliás, é algo inventado por quem não entende nada de portugues. Se entendessem mesmo de portugues e conhecessem a origem da lingua portuguesa não tentaria inventar algo tão sem sentido e inócuo. É só ativismo esquerdista. É o tipo de coisa em que nem eles mesmos falam dessa maneira. A linguagem neutra é resumida hoje em "todos, todas e todes"...kkkkkkk
Dougras
Pronome neutro é nada mais, nada menos, que terraplanismo linguístico, não deve ser levado a sério
Martha de Lima
Quero saber mais sobre a linguagem não binária...vamos conversar em uma entrevista de rádio???. tenta ampliar sua capacidade de ver o mundo, ...quero entender isso aqui.
Welton Lima Rodrigues
Como professor, me envergonho de acompanhar tudo isso. Respeito a diversidade e as escolhas de cada ente. Poderíamos priorizar Libras que é a nossa segunda língua. Minha opinião de cidadão desta democracia.
Aline
Patético. Digno de pena.
Ana
Reportagem desnecessária! Vejo claramente e de forma implícita a concordância do senhor Bruno para qie seja incluída a maldita e estúpida linguagem " sem gênero"! Nunca vai acontecer !! Involução ao meu ver . A sociedade nunca vai aceitar! É ridículo! Coisa desta gente que insiste em enfiar guela abaixo suas militâncias sem nexo.
Valdir
Linguagem neutra é coisa de doente mental, mais uma imposição de uma minoria barulhenta que acha que o mundo deve se curvar as suas vontades.
Eliude
Concordo Luccas.
Rodrigo
Todos é todos e pronto. Como pode dizer que isso está excluindo alguém? Se a pessoa não "se sente" masculino nem feminino é uma questão só dela, que vai escolher suas amizades e parceiros como quiser, isso que é importante. Mas não venha mexer na língua portuguesa
IZABEL BATISTA MASCARENHAS DE SOUZA ME
A humanidade está usando? Que tendenciosa essa fala, um pequeno grupo, e mais a evolução da língua acontece naturalmente e não através de imposição como estão querendo fazer. Nunca vi ninguém usando isso a não ser militante
André Angelo De Medeiros Araújo
Discordo quanto a "gramatilizar" essas formas .. elas, acredito, nunca farão parte da norma culta, nem deve.
Dérico Martins
Embromation acadêmico mais problematização a fórmula para apresentar qualquer idéia retarda e absurda como se fosse algo plausível.
Ísisss
Cara, sério, essa linguagem não binária não condiz com a realidade. Se sempre usaram a masculina pra generalizar até as mulheres, que, até então, não se importam ao meu ver, por quê, então, isso agora??? Generaliza do mesmo jeito ou amplia pras mulheres e deficientes também. Lamentável, isso sim.
MARILENE DA SILVA ALVARENGA
Num país onde a população fala muito mal a língua portuguesa é ridículo querer fazer uma mudança para agradar uma minoria. Alem do mais, a íngua portuguesa já é inclusiva.
Ana
Há vários pontos que não são pensados. O mais importante quando se muda uma língua é perder o contato com todo arsenal cultural que veio antes. Outro ponto é que em português o masculino deriva do neutro em latim, por isso, quando se usa o masculino não se está excluindo ninguém. Mas a língua não binária excluirá todos, pois os que escutam teram dificuldades de entender o que se diz. E os que falam a tal língua não conseguiram entender o que é escrito e falado pelo restante. Enfim será o caos. E ainda há quem defenda esse absurdo.
Jaime
Pra mim é um retrocesso na língua portuguesa, irá prejudicar pessoas com deficiência visual e auditiva, para beneficiar uma porção muito pequena de indivíduos, só para satisfazer uma ideologia, me admiro muito um mestre em letras CONCORDAR com essa apelação.
Edilma Silva
Parabéns pela matéria! Se bem que em nossa língua portuguesa também podemos ter algumas palavras do masculino que terminam com a: solvina, teorema, dilema, edema, omoplata, cambaia, banguela, mioma... e tem palavras que no latim quando no plural sao feminino... mais ou menos isso... Eita língua!!!
Over
So li porcarias. Linguagem inclusiva é o idioma dos idiotas úteis.
Thaue Almeida Figueiredo
Essa coisa de não-binario é coisa mais idiota que um bando de universitários retardados mentais já inventaram!!!!!!
Alexandre dos Reis Vieira
Alunos sem qualquer capacidade de interpretação de texto, escolas sucateadas e outros tantos problemas dentro da própria linguagem. O preconceito não será resolvido ou diminuído com essa atrocidade gramatical maquiada de evolução. Mas, tem uma vantagem. Caso isso seja empregado como norma, eu não poderei mais ser cobrado de qualquer erro gramatical, pois evocarei o direito da minha inclusão e da pseudo evolução linguística que tanto falam.
Sonia Pedrosa
Inclusão, pra mim, é outra coisa... essa linguagem é apenas um reflexo da mania que nós temos de rotular - eu sou isso, eu sou aquilo. O que a gente precisa é aprender a respeitar as pessoas, não importa como elas se sintam, se mulher, homem, gay ou pedra, assim como devemos respeitar os animais e a natureza. Mais importante é popularizar o braile e a língua de sinais - Libras. A preocupação em difundir essa maneira de falar é uma grande bobagem. Se é uma coisa natural, deixe que aconteça...
Amauri Bozi
Há motivos de sobra para ser contra isso. Concluímos, pelo exposto, que devemos adotar os jargões e termos utilizados pelos bandidos, pelo crime organizado e ensiná-los aos nossos filhos nas escolas, para que eles possam se expressar da forma como quiserem. Para que tanta dedicação em apreender a forma culta e formal do idioma, que levou muito tempo para se estruturar. Eu não me vejo obrigado a usar essas formas para me comunicar, porque entendo que o interesse de uma minoria não pode se sobrepor até mesmo ao idioma. Eu respeito profundamente todas as diversidades e suas causas, o homem precisa aprender a respeitar todas as formas de viver, o que não se pode admitir é essa ditadura do comportamento
IDE Gomes
Sirvamos às minorias todas: Todo impresso deve ser também braile e com áudio (atendendo aos cegos). Cada comercial ou filme deve ser em preto e branco (atendendo aos daltônicos). Pra nício de conversa, apenas esse público e maior e está presente na sociedade em mais casas que o público não-binário. Maior e negligenciado por muitos e a muito tempo, a proposta e mais exclusiva e terá um impacto semelhante a leis que não pegam, cada um que sofra suas faltas. O Universo é assim, vivamos as diferenças sendo diferentes e não satisfazer aos desejos de minoria entre minorias.
Welke Lopes Ferraz
Uma linguagem inclusiva que ao se dizer inclusiva me faz perde a minha identidade. Eu sou identificada pelo artigo "a", não sou todes.