Politica & Mulher
Tanuza Oliveira

Jornalista desde 2010, com formação pela Unit e atuação em veículos impressos e em assessorias de comunicação em Sergipe. É repórter Especial do JLPolítica desde 2017.

O que esperar de uma sociedade que quer obrigar meninas a serem mães?
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Desde cedo, as mulheres descobrem não ter poder sobre seu próprio corpo 

 

São tantos absurdos em uma única história, que fica difícil saber por onde começar. Mas, certamente, por trás do crime de estupro que a criança de 10 anos de São Matheus, Espírito Santo, vinha sofrendo, está, em primeiro lugar, o pensamento machista que os homens têm em torno da mulher.

É como se seu corpo e desejos lhes pertencessem. Daí, a sensação de poder fazer o que quiser com eles - corpo e desejos. Esse pensamento vem se perpetuando ao longo dos anos e fazendo vítimas de todas as idades, em todo o mundo. 

Passado esse primeiro ponto, a história segue com a condenação social da vítima. É como se ela tivesse culpa por “despertar” o desejo masculino, seja com sua roupa, com seu jeito, seu olhar - o ser do sexo feminino, independentemente da idade, está sempre seduzindo os pobres homens. 

Praticado o crime, vem uma possível consequência: uma gravidez. Nesse momento, ela sequer pode desejar interrompê-la, afinal, trata-se de um crime! Mas, como a lei prevê a interrupção da gravidez em casos de estupro, a vítima consegue realizar o procedimento.

E aí entra mais um aspecto de todo esse contexto criminoso: o julgamento social, quase sempre carregado de religiosidade. Pessoas desconhecidas tentam impor suas crenças e valores a alguém em um dos momentos mais difíceis de sua vida. 

E, nesse cenário bolsonarista em que o país está, ainda surgem Saras Winteres para expor a vítima que sofreu todos esses crimes, culpando-a por desejar não ter um filho com alguém que a violentou da pior forma possível. 

Isso é o que aconteceu com a criança capixaba abusada pelo tio, mas pode ser adaptado para o que muitas mulheres vivenciam diariamente no Brasil, onde são abusadas e mortas apenas por serem mulheres - ou apenas meninas: a cada hora, quatro meninas de até 13 anos são estupradas no país, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019.

Odados também revelam que ocorrem, em média, seis internações diárias por aborto envolvendo meninas de 10 a 14 anos que engravidaram após serem estupradas no país. Esses casos envolvem procedimentos feitos no hospital e internações após abortos espontâneos ou realizados em casa, por exemplo.

E, infelizmente, a culpa por esses crimes não pode, nem deve, recair apenas sobre os ombros do tio estuprador, no caso específico da menina de São Matheus, ou dos demais abusadores. Não. Todos falharam com essas crianças - o Estado, a família, a sociedade. E falham todos os dias com todas as mulheres.


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