Politica & Mulher
Tanuza Oliveira

É jornalista desde 2010, com atuação em veículos impressos e assessorias de comunicação.

Oito de Março: tempo de luta e reivindicação política
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Fernanda Petrarca: feminino é objeto de construção social

Oito de março é a data em que se comemora internacionalmente o Dia da Mulher. Apesar de ter se tornado uma data comemorativa – marcada por homenagens, flores, presentes e bombons –, é sempre bom lembrar que ela está relacionada à luta de um conjunto de mulheres por maior participação na sociedade e pela defesa de direitos iguais. É, portanto, uma data marcada por lutas, reivindicação política, greves e direitos trabalhistas.

Mais que isso. É marcada, também, segundo Fernanda Rios Petrarca, doutora em Sociologia, “pela necessidade constante de que as diferenças biológicas não constituam formas de subordinação e inferiorização da mulher”. Fernanda é pós-doutora em Ciência Política na Universidade de Pisa, Itália, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe e líder do Laboratório de Estudos do Poder e da Política – LEPP.

Para Fernanda, a célebre frase da filósofa Simone de Bouvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher”, marca a percepção de que o feminino – assim como o masculino – é objeto de construção social, sendo fundamental, portanto, considerar as condições sociais e históricas a partir das quais emerge. Dessa forma, ser mulher não é um dado natural, mas socialmente construído, que depende do trabalho de diferentes instituições sociais, como a família, a escola, os meios de comunicação, entre outros.

“Essas instituições, por meio de códigos de conduta, imposição de formas de comportamento, contribuem para definição do que é ser homem e mulher, produzindo princípios de dominação”, ressalta. É justamente nas precárias condições e na excessiva jornada de trabalho dentro das fábricas - no século XIX e início do XX - que a data tem origem, apesar de o movimento feminista já nas primeiras décadas do século XX reivindicar a condição de mulher trabalhadora e cidadã, a luta.

“Entre as reivindicações, estava a luta por iguais salários, já que as mulheres, ainda que desempenhassem as mesmas tarefas dos homens no mundo do trabalho, não recebiam a mesma quantia. No Brasil, nas primeiras décadas do século XX, a reivindicação estava voltada pelo direito ao voto feminino, com destaque para a participação ativa de Berta Lutz, uma das maiores líderes na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras”, lembra.

Entretanto, no Brasil os direitos políticos das mulheres só foram conquistados em 1965. “Antes disso, o voto não era obrigatório e grande parte das mulheres estavam submetidas às relações de força na esfera doméstica para poder exercer sua cidadania política”, diz Fernanda. Já entre as conquistas, a data lembra o aumento de acesso ao ensino superior, às profissões e ofícios, ao trabalho assalariado, os direitos políticos, a importância da lei Maria da Penha para a luta e criminalização da violência doméstica.

“Além disso, destaca-se o fato de que a dominação masculina não se impõe mais como uma evidência indiscutível”, alerta. Contudo, apesar das grandes conquistas feitas, Fernanda considera importante lembrar que muitas vezes as transformações visíveis ocultam a conservação em determinadas posições. “Esse é o caso das posições de comando e chefia em determinados ofícios que ainda constituem lugar pouco ocupado por mulheres”, lamenta.

Na ciência, segundo dados coletados pelo grupo Open Box da Ciência, através dos dados da plataforma lattes, mulheres representam 40% dos pesquisadores que declaram ter doutorado nas 5 áreas do conhecimento. As oportunidades de acesso as posições mais raras e mais elevadas permanecem pouco acessíveis às mulheres. “E quando chegam a estes postos costumam se destacar em profissões ou ofícios cuja característica se aproxima do “mundo feminino”. É a chamada permanência dentro da mudança”, analisa.

Fernanda Petrarca marca o início da série de análises que a Coluna Política & Mulher traz ao longo desse mês, quando a equidade de gênero, enfim, ganha destaque – ainda que por vieses tortuosos e recheados de frases machistas travestidas de homenagem.

 

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