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Jozailto Lima

É jornalista há 38 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Colaboração Tanuza Oliveira.

Opinião - A grandeza do advogado Manuel Cruz, que partiu
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[*] Luiz Eduardo Oliva

Na noite do último sábado, 19, por volta das 20h, uma notícia, um susto, uma tristeza: Manuel Menezes Cruz, um amigo quase irmão partiu. Entre tantas mortes, as notícias chegam aos sobressaltos. Mas como assim? Não. Dessa vez não foi Covid.

Meu amigo partiu em consequência de um câncer que enfrentou no silêncio e com a mesma garra com que advogava. Não quis dividir com ninguém o sofrimento. Certamente somente com os familiares mais próximos.

Alguns sinais há dois anos me fizeram perguntar-lhe pela saúde. Ele desconversou, e expressou uma de suas marcas: o sorriso sincero e constante. Manuel Cruz sempre soube se vestir do bom humor que lhe completava o caráter do homem íntegro, ético e bom.

Quando em 1996, 16 anos depois de formado, decidi pela advocacia, Manuel me convidou para ser seu sócio. Conhecemo-nos na própria OAB - eu, conselheiro suplente, e ele, titular e já um advogado reconhecido.

Não tardou e, na eleição seguinte, ele seria o vice-presidente da vitoriosa chapa comandada pelo hoje presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe, Edson Ulisses, chapa aquela que integrei já na condição de conselheiro titular.

A sua generosidade em me convidar - embora formado há um bom tempo, eu não advogava - para ser seu sócio, fez-me seu discípulo. Paciente, mostrou-me os caminhos da advocacia, da textura da petição inicial, das nuances do recurso, mas, sobretudo o portar-se nas audiências em que ele era um “ás”, um mestre. Assim, pelas mãos de Manuel Menezes Cruz surgiu o advogado que hoje sou. Ali não fui somente o seu aprendiz. Tornei-me seu amigo e ganhei dele a amizade definitiva.

Depois, Manuel presidiu a seccional de Sergipe da OAB e depois a Federação Sergipana de Futebol de Salão, quando me convidou para ser o presidente do Tribunal de Justiça Desportiva. O tempo, contudo, por razões diversas, fez-me tomar outros rumos na advocacia e na atividade pública, deixando o seu escritório. Mas Manuel Cruz nunca deixou de ser o mestre a quem consultava nos aperreios da arte do advogar, tirando dúvidas e mostrando caminhos como se eu continuasse sócio.

Estivemos juntos também por longos anos como professores do curso de Direito da Fanese até 2019, onde ele era o professor mais antigo, admirado e querido pelos alunos e pelas alunas. Também por anos fomos vizinhos no mesmo prédio da Av. Barão de Maruim, coincidências da vida ou talvez a energia indecifrável do universo que coloca amigos sempre próximos uns dos outros, por alguma razão que a razão não explica.

Meu amigo era religioso, tinha crenças e cuidados. Conduziu a vida como um quase monge nos padrões que estabelecia ao seu próprio cotidiano. Foi um pai amoroso e conduziu os quatro filhos e filhas para a vida e a profissão íntegra, três dos quais para os caminhos da advocacia, dando-lhes a régua e o compasso. Foi comentarista esportivo e era um grande cantor - poucos sabem disso, chegamos a imaginar um conjunto só de pessoas ligadas ao direito e que teria um trocadilho no nome “Acórdão Musical”.

Ultimamente não respondia minhas mensagens, visualizava, mas como nosso bom Mané Cruz não era muito de redes sociais, eu sempre achava que ele ia responder. As respostas nunca chegaram. Ele lutava só, sem queixas nem partilhas do sofrimento, o que hoje me faz compreender o seu obsequioso silêncio. No último sábado, a tristeza me abateu, mesmo num mundo, e sobretudo num país, onde a notícia de mortes – embora a morte seja inexorável – está lamentavelmente ficando comum. Tristeza que me faz chorar neste texto.

Enfim, perdemos um grande ser humano, a advocacia sergipana perdeu um grande advogado e eu, o amigo. Vá em paz meu irmão Manezinho das Tirinetas! Deus o receba com alegria, porque você merece a morada dos justos. O São João do Céu vai estar mais festivo com sua irradiante alegria. Aplausos para um homem que soube se fazer grande, sem perder o sentido maior da humildade. Manuel Menezes Cruz, presente!

[*] É advogado, professor e membro da Academia Sergipana de Letras Jurídicas.

 

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Jeferson Fonseca de Moraes.
Que pena, que tristeza, saber do falecimento do meu ex-aluno Manoel Cruz! Por outro lado a Pena que escreve o texto, leve como sempre, pluma que chegou ao meu coração, da lavra de outro não menos querido amigo, também meu ex-aluno, fez verter lágrimas pelo passamento do amigo, deixando a tristeza dentro do meu ser! Será recebido com amor na vida espiritual que é eterna! Receba o autor do texto e o amigo Manuel Cruz meu carinho…,,!
Antônio João Rocha Messias
Além das qualidades pessoais do ilustre colega Manuel Menezes Cruz contidas no artigo do também advogado Luiz Eduardo Oliva, quero destacar a sua forma intimorata de encarar o cotidiano da advocacia, sem jamais transigir em princípios!
Netonio Machado
Bela e justa homenagem a um profissional da advocacia e do magistério que honrou o seu ofício e se fez respeitado e querido. Meus sentimentos de pesar à família de Manoel Cruz.
Francisco Alves de Oliva
Muito bom texto! Luiz Eduardo sabe escrever inspirado em nosso pai, João Oliva Alves. Parabéns