Adauto Machado: “Exposição Memórias vai ser uma coisa diferente de tudo que já mostrei até hoje”

Entrevista

Jozailto Lima

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Adauto Machado: “Exposição Memórias vai ser uma coisa diferente de tudo que já mostrei até hoje”

28/05/2022 - 19h

"Aos sete anos, eu já desenhava nas calçadas com sobras de giz, caco de telha e carvão"


Assim como Zé Fernandes, J. Inácio, Jenner Augusta da Silveira, Jordão de Oliveira, Horácio Hora, figuras clássicas das artes visuais do Estado de Sergipe, ninguém consegue passar incólume frente ao desenho, ao traço, à pintura, às cores e à personalidade artística de Adauto Machado, artista plástico sergipano que no próximo dia 18 deste mês de junho fará 72 anos.

Para dizer de si, do seu histórico, do seu tempo e da sua arte de mais de meio século, Adauto Machado está lambendo a cria dos derradeiros detalhes de uma big exposição que vai ser inaugurada no dia 7 de junho.

Chamar-se-á “Exposição Memórias: Adauto, 55 anos de arte”, terá o fomento do amigo arquiteto Murilo Guerra e o apoio irrestrito da empresária e mecenas Maria Celi Teixeira Barreto, a mantenedora da Celi Mall Decor.

Será exatamente na Celi Mall Decor que Adauto vai desaguar com seu arsenal de 120 a 130 obras. E ele manda avisar: vá desarmado e não apenas pensando num encontro com seus cavalos que galopam sob bruma e nem com a algaravia de suas fantásticas feiras livres, onde transitam a gente sergipana e a inspiração no seu ídolo maior, Jenner Augusto da Silveira, o lagartense que se fez bamba das artes plásticas do Brasil a partir de Salvador, na Bahia.

“A exposição só tem novidade, coisas aí que nunca foram mostradas. Na realidade, acredito que 95% do que vai ser exposto o público nunca teve conhecimento”, amplia Adauto a sua advertência.

“Essa coisa inédita que quero mostrar traz uma marca minha, mas também é diferente daquilo que tenho feito dentro da minha pintura convencional. Eu tenho experiências com colagens, tenho esculturas em acrílico, escultura de cavalos, mini esculturas, naturalmente feitas em concretos. Quer dizer, tem coisas que realmente vão inovar um pouco o que eu tenho para mostrar”, reforça ele.

E Adauto Machado diz mais, na expectativa de seduzir seu público fiel e de atrair gente que eventualmente não conheça a sua obra. “Comparando com tudo que foi feito até hoje, acredito que não apenas pela quantidade - porque teremos em média de 120 a 130 obras - vai ser uma coisa diferente de tudo que já mostrei até agora, e disso eu tenho certeza”, seduz ele.

Aliás, sedutor Adauto Machado está por inteiro nessa Entrevista Domingueira. Nela, ele assume a corda toda ao falar de si, de sua origem, do começo da sua obra à base de giz e carvão nas calçadas de sua Nossa Senhora das Dores, dos afetos que nutre por seu lugar, das suas andanças pelo mundo, dos seus prêmios na área, das suas exposições, das dores de artista, do caos da cena cultural na esfera das artes plásticas no Estado em que vive. 

Adauto Machado dos Santos nasceu no dia 18 de junho de 1950 na cidade de Nossa Senhora das Dores em Sergipe. Ele é filho de Dalvo Machado dos Santos e de Beatriz Teixeira de Vasconcelos.

Judicialmente separado, é pai de Ana Cristina, de 39 anos, e de Ana Lúcia, 37 anos. É um autodidata sem preconceito contra as formações acadêmicas na sua área.

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EXPOSIÇÃO DE INÉDITOS E NOVIDADES
“Na realidade, eu acredito que 95% do que vai ser exposto o público nunca teve conhecimento. Essa coisa inédita que quero mostrar traz uma marca minha, mas também é diferente daquilo que tenho feito dentro da minha pintura convencional”

JLPolítica - O que de novo e diferente trará a “Exposição Memórias: Adauto, 55 anos de arte”? Ela trará algo inédito e diferente na temática, nas formas ou conteúdos na comparação com o que fora feito até hoje ao longo sua pintura?
Adauto Machado -
A exposição, na realidade, só tem novidade, coisas aí que nunca foram mostradas. Na realidade, acredito que 95% do que vai ser exposto o público nunca teve conhecimento. Essa coisa inédita que quero mostrar traz uma marca minha, mas também é diferente daquilo que tenho feito dentro da minha pintura convencional. Eu tenho experiências com colagens, tenho esculturas em acrílico, escultura de cavalos, mini esculturas, naturalmente feitas em concretos. Quer dizer, tem coisas que realmente vão inovar um pouco o que eu tenho para mostrar. Comparando com tudo que foi feito até hoje, acredito que não apenas pela quantidade - porque teremos em média de 120 a 130 obras, incluindo até maquetes de projetos que eu fiz, não para construção, mas sim para elaboração de obra de arte em piscinas, edifícios, coisas que também nunca foram mostradas - vai ser uma coisa diferente de tudo que já mostrei até hoje, e disso eu tenho certeza.

 

JLPolítica - Mas alguma curiosidade haverá de se impor aí nessa mostra?
AM -
Sim, tenho outras curiosidades e isso aí as pessoas vão ver no dia 7, mas posso mencionar aqui algumas, como o Prêmio CorelDraw, que me deu troféus e que estarei expondo também, assim como o livro que escrevi sobre arte no CorelDraw - e algumas coisinhas a mais.

JLPolítica - Ela vai cobrir quantos anos da sua produção recente?
AM -
Eu chamaria de produção recente tudo aquilo que eu fiz durante esses cinco a seis anos passados, mas sempre diversificando o tema dentro daquelas coisas que eu costumo fazer. Agora, no todo e na realidade são mais de 55 anos, porque eu comecei ainda bem jovem. O registro que tenho do meu primeiro quadro data de 1966 e os últimos eu já pintei esse ano. Na realidade, estaríamos nos 56, no quinquagésimo sexto ano. Por causa da pandemia, o ano passado não me permitiu fazer a exposição. E acredito que ainda vamos comemorar bastante.

Adauto Machado nasceu no dia 18 de junho de 1950 em Nossa Senhora das Dores, a quem diz dever muito afeto

 

DAS RAZÕES DE SER NA CELI MALL DECOR
“Maria Celi se prontificou de imediato em ceder não apenas o local como também assumir os custos que, por ventura, viessem a acontecer. Isso foi uma coisa maravilhosa para mim e Murilo Guerra - ele fez questão de me ajudar em todos os sentidos”

JLPolítica - Por que o espaço escolhido para a realização dela foi o da Celi Mall Decor?
AM -
A escolha do espaço aconteceu quase que por acaso. Na realidade, desde o ano passado eu vinha tentando descobrir algum espaço em boas dimensões, que pudesse comportar esse número que eu já citei de obras, de modo que não podia ser um espaço convencional. Porque, tratando-se de uma produção que vem a partir dos meus 15 anos a 16 anos, teria que ser alguma coisa muito grande. Eu guardei esses trabalhos comigo durante esse tempo todo, não com a intenção de um dia fazer uma exposição e colocá-los à venda. A minha ideia era mostrar para as pessoas algum dia e guardar isso aí para que servisse de orientação para os mais jovens como uma contribuição cultural através da minha pintura. Mas acontece que descobri que teria que colocar à venda e teria que ser um espaço bastante grande para poder ter um melhor campo visual, vamos dizer assim. Quando eu comecei a procurar o espaço e vendo que haveria grandes despesas, procurei um eventual patrocinador. Fiz algumas tentativas e foi em vão. Comentando com Murilo Guerra, que é meu amigo, que acompanha meu trabalho há muitos anos, desde que ele ingressou na arquitetura aqui em Sergipe - além de prestigiar, está sempre ao meu lado em eventos, inclusive faz a aquisição de minhas obras, tem uma coleção em casa que é uma coisa maravilhosa -, ele me falou que eu não deixasse a coisa para lá, e achou por bem que deveríamos correr atrás e logo encontrou esse espaço onde já trabalha com dona Maria Celi há 30 anos. Ele achou que lá seria o ideal. Marcou uma reunião com a dona Maria Celi para que a gente discutisse a viabilidade de uma exposição naquele espaço e ela se prontificou de imediato em ceder não apenas o local como também assumir os custos que, por ventura, viessem a acontecer. Isso foi uma coisa maravilhosa para mim e Murilo - ele fez questão de me ajudar em todos os sentidose de imediato o nomeei curador da exposição. Está organizando tudo e não está me cobrando nada, está fazendo a coisa realmente por amizade.

JLPolítica - Por que o senhor colocará à venda quase 100% do acervo que vai à Exposição Memórias?
AM
- Essa questão de vender ou não se torna muito relativa. Quando a gente pretende guardar para que isso sirva de exemplo, de um fundo didático, a utilidade é muito grande. Mas, ao mesmo tempo, quando a gente descobre que ocorreram em Sergipe fatos em que as obras dos artistas foram esquecidas, então o melhor caminho é vender essas obras, usufruir desse capital em mãos e aplicar em outra coisa.


JLPolítica - E quem foi esquecido em Sergipe?
AM
- Nós temos exemplos bem práticos - faleceram Dionéa, Eurico Luiz, Leonardo Alencar, J. Inácio, Florival Santos e até hoje não vi nenhuma autoridade cultural dar um bom direcionamento às obras deles. Alguns que já morreram bem antes desses ainda foram beneficiados e prestigiados com nomes em galeria, com exposições retrospectivas, coisas desse tipo, mas eu não vejo na atualidade em termos de grandes homenagens ou grande aproveitamento cultural através da obra que esses artistas deixaram. Então eu acho melhor não deixar nada e vender mesmo. O caminho é esse - vamos lá: Florival e Inácio têm seus nomes emprestados a galerias, mas não vejo a obra deles espalhada de uma forma mais dinâmica.

Rente ao pai Dalvo Machado dos Santos e a mãe Beatriz Teixeira de Vasconcelos, a escadinha: Vertino, Divo e Adauto

 

DA ORIGEM DE TUDO EM DORES
“Desde criancinha, quando eu tinha meus seis, sete anos, eu já desenhava nas calçadas de Nossa Senhora das Dores, nos muros de Dores, e as pessoas ficavam olhando, observando e sempre achando que aquele menino um dia seria alguma coisa no mundo das artes”

JLPolítica - Quais serão a importância e o impacto de Nossa Senhora das Dores em tudo que o senhor captura, modela, desenha e pinta?
AM -
Desde criancinha, quando eu tinha meus seis, sete anos, eu já desenhava nas calçadas de Nossa Senhora das Dores, nos muros de Dores, e as pessoas ficavam olhando, observando e sempre achando que aquele menino um dia seria alguma coisa no mundo das artes. Eu não fazia ideia do que era aquilo. Apenas dava asas à vontade de fazer, e quando saí de Dores, já crescido havia sempre uma lembrança por parte de alguém que mencionava meu nome, “aquele menino que desenhava nas calçadas daqui, por onde anda?”. Eu andei pelo mundo, eu andei por muitos lugares afora, tive uma passagem pela Bahia, Rio de Janeiro, França, Canadá, mas sempre levando para esses lugares o tema predileto, que sempre foi ligado à minha infância em Dores. Então as coisas que eu procuro capturar, modelar, desenhar e pintar, eu acredito que 80% são provenientes da minha vivência, na infância, no meu interior, em Dores.

 

JLPolítica - Por que o cavalo tem essa grande preponderância na sua pintura?
AM -
Acredito que o cavalo é uma coisa marcante da minha infância em Dores. Meu pai tinha uma pequena fazenda e eu, juntamente com meus irmãos, costumava andar a cavalo. Isso me trouxe uma grande presença na minha obra. No cavalo, além da beleza, existe também uma a ligação com quem conviveu - quem andou a cavalo sabe bem como é que funciona esse elo entre o cavalo e o homem. Ele realmente é belo, no mundo animal os movimentos dele são incomparáveis. Acredito que não existe um outro animal para ser tão elegante o quanto o cavalo. Então até hoje é o tema mais abundante dentro da minha obra.

 

JLPolítica - Mas não só o cavalo?
AM -
Não. Eu tenho outros temas do interior, como as cenas do cotidiano com qual convivi no passado - lavradores, lavadeiras, carros de bois, cavalinhos com caçuás, paisagens de sítios e fazendas. Mas o cavalo é um tema universal. Não posso dizer que inventei a pintura com cavalos. Apenas faço aquilo que já foi feito e naturalmente ao meu modo, e os cavalos vão galopando, galopando por aí, e eu vou com eles.

Cavalos sempre em sopro ativo, mas usualmente sob bruma: é como Adauto vê a cerração de Dores

 

DOS SEUS CAVALOS SEMPRE SOB BRUMA
“Essa bruma, esse esmaecido na paisagem, sempre foi constante na minha obra. No inverno, Dores é uma cidade quase que sertão, que se torna também mais fria que os demais lugares. Esse frio provoca uma nebulosidade muito grande e eu coloquei sempre as minhas paisagens e meus cavalos com bastante névoa”

10JLPolítica - Por que ele vem, em geral, sob bruma, esmaecido na paisagem? Isso reflete como sua infância captava a paisagem rural de Dores?
AM -
Essa bruma, esse esmaecido na paisagem, sempre foi constante na minha obra. No inverno, Dores é uma cidade quase que sertão, mas com a sua altitude, com relação ao nível do mar, ela se torna também mais fria que os demais lugares. De Dores para cima, até chegar em Feira Nova, Glória, é sempre mais alta e no inverno esfria bastante. Esse frio provoca uma nebulosidade muito grande e eu coloquei sempre as minhas paisagens e os meus cavalos com bastante névoa. Não sei se chamaria isso de neblina, névoa, nevoeiro, qual seria o termo mais adequado, mas, se é verdade que em toda pintura que faço com cavalos há sempre um plano mais distante com eles desaparecendo, tornando o visual quase imperceptível, com o cavalo sumindo através dessa névoa que acabamos de comentar.
 
JLPolítica - Qual é o papel da pintura, desde sempre e no dias atuais? Emocionar seria um dos condimentos dela?
AM
A pintura tem um papel muito importante desde os primeiros tempos da existência do homem. Inicialmente, a sua função maior era retratar, ser testemunha dos tempos através dos traços - a grafia nas cavernas mostra muito bem esse exemplo. Nos tempos atuais, ela tem um papel social, político. Existe na pintura, nas artes em geral, uma forma de expressão do sentimento maior, que é a alma humana a expressar o que há de mais belo ou mais triste nos sentimentos. De modo que vejo a pintura como um condimento para emocionar e deixar as pessoas sensibilizadas. Mas, ao mesmo tempo, uma forma de ter algo em casa para embelezar as paredes, compor melhor o ambiente.
 
1JLPolítica - Ao seu modo de ver e de julgar, qual é o seu lugar no território das artes plásticas sergipanas?
AM -
Ao meu modo de ver, me sinto apenas mais um componente das artes plásticas em Sergipe. Não vejo grande importância na minha existência artística. As pessoas até comentam que sou o melhor, que sou isso, sou aquilo. Posso, sim, dizer que sou um bom profissional, e não quero tirar o mérito da capacidade artística de ninguém. Talento todos nós temos, e de igual para igual. Não há nada a salientar sobre a qualidade de alguém com relação a outro. Os artistas são iguais. Todos temos talento. Mas em Sergipe profissionais que fazem a arte de um modo correto, colocando o profissionalismo acima de tudo, somos poucos. Eu sempre procurei dar muita importância a esse aspecto.

Adauto “Napoleão” Machado, aos 12 anos, sobre um cavalo de desfile de 7 de setembro de 1962 lá em sua Dores

 

DA ORIGEM DE TUDO EM DORES II
“O meu início foi todo em Dores. Aos seis, sete anos, já desenhava nas calçadas com sobras de giz da escola, cacos de telha, carvão. Enfim, tudo aquilo que podia fazer um traço, para mim, era um objeto de trabalho, porque a minha inspiração era abundante”

JLPolítica - Aos 72 anos e comemorando 55 anos de carreira, denuncia que  senhor começou cedo demais. Quando e como se deu sua iniciação nas artes plásticas?
AM -
O meu início foi todo em Dores. Aos seis, sete anos, já desenhava nas calçadas com sobras de giz da escola, cacos de telha, carvão. Enfim, tudo aquilo que podia fazer um traço, para mim, era um objeto de trabalho, porque a minha inspiração era abundante. Por incrível que pareça, eu tinha vontade de desenhar constantemente. Uma vontade que uma vez me levou a fazer um desenho durante uma aula - na escola eu utilizava uma revista em quadrinhos como modelo. Copiava com o lápis na folha de papel branco. Às vezes até a própria folha do caderno de escrever. A gente não tinha recursos para comprar caderno de desenho ou materiais especiais como existe atualmente - tudo que encontrava pela frente servia de inspiração para fazer alguma tipo de arte. Sei que durante a aula a professora percebeu que eu não estava prestando atenção e que estava desenhando. Ela foi até a minha carteira, tomou a revista, que eu tinha tomada emprestado a um colega meu - ainda me lembro dele - e até hoje mão me lembro bem, mas acredito que ela não devolveu. Acho que utilizou para outra finalidade. O tempo passa e essas lembranças são gostosas demais - foi assim que começou a minha vida nas artes plásticas.

JLPolítica - Qual a diferença entre ser um autodidata e ter uma formação acadêmica? Um leva vantagem sobre o outro?
AM -
Eu não vejo muita diferença em termos de qualidade artística. Isso porque o talento nasce com a pessoa e não é a faculdade quem vai lhe dar. Mas um complemento em faculdade é, também, fundamental. Existem coisas com as quais a gente pode, vamos dizer, adiantar o aprendizado - o ensinamento de pessoas que já têm um conhecimento superior ao nosso, uma faculdade, nesse sentido é muito interessante. É muito proveitoso. Eu sinto que, quando a pessoa ingressa em uma universidade, que passa a ter uma formação acadêmica, tem mais vantagens na vida até para prestar concursos, para lecionar em algum local. Mas, se tomarmos como exemplo um Jenner Augusto, que nunca fez faculdade, e eu mesmo que nunca a fiz, vê-se aí que a gente desenvolve. Há um Zé de Dome e tanta gente por aí que não fizeram faculdade e desenvolveram técnicas e conseguiram chegar lá. Acho que é por aí a história que deve ocorrer com todos nós que fazemos arte – sejam as visuais ou não.
 
JLPolítica - O senhor seria capaz de enumerar quantas exposições individuais já realizou nesses 55 anos de carreira?
AM -
É difícil enumerar a quantidade de exposições. Eu tenho, assim, dentro das principais, alguma coisa entre os 20 a 30 exposições individuais. De coletivas eu já participei de dezenas. As individuais são bem mais reduzidas, isso porque são exposições onde o trabalho que a gente tem é bem maior do que com a coletiva. Essa, na realidade, não é nem o artista que organiza. São os marchands, os donos de galeria. A gente só entrega a obra para eles e o restante eles fazem.

Maria Celi: madrinha e mecenas da “Exposição Memórias: Adauto, 55 anos de arte”

 

ARTE NASCE DE INSPIRAÇÃO E TRANSPIRAÇÃO
“A inspiração motiva, isso é um fato, não podemos negar. Mas existe um outro lado também: a pintura, ou o desenho, para se elaborar, tem duas fases. A da inspiração e a da transpiração. Ou seja, não apenas temos que receber a inspiração. Temos que também transpirar para poder elaborar uma obra de arte”

JLPolítica - Como se dá o estalo motivacional para um artista visual desenhar e pintar? Como é o caso específico do senhor?
AM - O estado emocional da pessoa, ou motivacional, para desenhar e pintar precisa acontecer. Você está aqui, de repente sente à vontade e essa vontade se transforma em inspiração. A inspiração motiva, isso é um fato, não podemos negar. Mas existe um outro lado também: a pintura, ou o desenho, para se realizar, para se elaborar, tem duas fases. A da fase inspiração e a da transpiração. Ou seja, não apenas temos que receber a inspiração. Temos que também transpirar para poder elaborar uma obra de arte. A arte bem-feita não é somente aquela que é proveniente da inspiração. É a arte que junta a inspiração e o trabalho dedicado para que haja um final perfeito.

JLPolítica - Pode haver um artista plástico sem domínio do desenho?
AM -
Uma certa ocasião um amigo artista plástico - não vou dizer o nome - me disse que para se fazer arte não precisava desenhar, porque a arte atual, que chamamos de arte contemporânea, é o que se faz dentro da desconstrução dela. Veja só que absurdo. Se você quer desconstruir, então não precisa aprender a desenhar. Sou totalmente contra aquele que faz arte apenas pegando o pincel, ou seja lá qual for o material, e faz dois, três ou quatro traços e diz que é obra de arte. Dentro do que chamamos de contemporâneo há muita coisa errada e existem coisas boas também. Temos bons exemplos contemporâneos, mas são exemplos com fundamento. Se pegarmos o Manabu Mabe, que é um japonês-brasileiro no início da euforia da arte moderna, vê-se que ele fazia o abstrato, mas nem sei se ele sabia desenhar ou não, acredito que sim, porque o abstrato dele tinha qualidade. Então existem coisas que, mesmo sem o desenho, têm qualidade. E não é difícil você saber o que é bom e o que é ruim nas artes, quer sejam abstratas ou não. É só perceber a essência. E a essência da arte é uma coisa que existe dentro do mais profundo sentimento daquele que vê a obra de arte e daquele que faz arte.

JLPolítica - Qual foi o artista plástico que arrebatou o menino Adauto Machado e o atirou no redemoinho das artes plásticas?
AM -
Existem duas pessoas que contribuíram bastante para que o mundo me acolhesse como artista plástico -  ambos já falecidos, Núbia Marques e Jenner Augusto. Núbia foi uma amiga inseparável até a sua morte. Quando me via desenhando na empresa do ex-marido dela, Zé Lima - eu trabalhava como desenhista publicitário -, ela olhava para mim e dizia: “Esse menino vai longe”. Do Jenner, além de ter sofrido influência da pintura na época em que o conheci, ele costumava dizer para mim que eu tinha muito talento. Lembro-me bem que quando tinha 21 anos fui para o Rio de Janeiro procurar algumas galerias de arte por lá e com uma carta de recomendação do Jenner, que foi muito bom comigo. Eu tive contato com ele a vida inteira, foi um grande amigo. A vida nos dá muita gente boa no nosso caminho, e eu tive isso, graças a Deus.

Murilo Guerra: generosamente no fomento a tudo que o amigo Adauto está arrumando para o próximo dia 7

 

JENNER AUGUSTO POR RUMO OU NORTE
“Tinha que ser Jenner Augusto. Ele foi o artista que se tornou mais notável durante a minha existência. Tínhamos muito a ver um com o outro - ele vindo também do interior, de Lagarto, sua terra natal, e tinha como tema na obra as coisas da sua terra”

JLPolítica - Quem em Sergipe é ou foi seu norte e admiração nas artes plásticas e por que?
AM -
Tinha que ser Jenner Augusto. Ele foi o artista que, vamos dizer, se tornou mais notável durante a minha existência e a dele. Tínhamos muito a ver um com o outro - ele vindo também do interior, de Lagarto, sua terra natal, e tinha como tema na obra as coisas da sua terra. Tudo isso eu também procuro fazer no meu trabalho, que é colocar temas que vêm da minha infância e o que vi lá na minha terra. Então Jenner, para mim, foi o máximo em termos de admiração.

JLPolítica - E nas artes do resto do mundo?
AM -
O mundo sempre foi cheio de grandes talentos e gênios das artes. Se pegarmos exemplos do renascimento aos nossos dias, é impossível enumerar a quantidade dos que a gente gosta, e cada um tem uma característica diferente. Tem aqueles mais marcantes, e eu cito Leonardo da Vinci, Michelangelo, como os maiores em termos de qualidade artística. Mas os outros, também, contemporâneos, são também fantásticos. Na arte mais dentro do que se fez no modernismo, Salvador Dalí para mim é o máximo.

JLPolítica - De um do geral, o senhor acha que as pessoas, independentemente da sua condição de adquirir e de consumir, sabem dar o devido valor ao trabalho de um artista visual? Elas conseguem capturar o esforço dele em favor do belo?
AM -
As pessoas que têm interesse pela arte, têm um potencial de sensibilidade muito mais avançado do que as demais. Aquele que adquire uma obra de arte procura valorizar o trabalho e, culturalmente, essas pessoas dão muito valor ao artista. Elas sabem que não apenas o belo é belo na obra de arte. Uma obra de arte, de um modo geral, revela um sentimento profundo, quer seja belo ou não. Ela passa a ser belo a partir do momento em que a pessoa sabe ver, analisar e se sentir bem com a obra.

Adauto Machado em ação: são 56 anos pincelando de um tudo da vida, sobretudo cavalos

 

DA ARTE COMO MEIO DE SOBREVIVÊNCIA
“Viver apenas fazendo arte é uma tarefa muito difícil. Mas eu só fiz arte a vida inteira. Na minha vida, a arte foi uma constante. Depois, com o avançar da idade, tive até que fazer outras coisas. Tenho minhas coisas no interior, um meio de sobreviver que me ajuda também na área financeira que a arte me traz”

JLPolítica - O senhor consegue viver essencialmente de artes plásticas ou necessita quebrar pedras em outras esferas?
AM -
Viver apenas fazendo arte é uma tarefa muito difícil. Mas eu só fiz arte a vida inteira. Na minha vida, a arte foi uma constante. Agora, depois de velho, com o avançar da idade, tive até que fazer outras coisas. Tenho minhas coisas no interior, tenho um meio de sobreviver que me ajuda também na área financeira que a arte me traz. Mas sempre vivi a vida inteira fazendo apenas arte, e acho que a gente pode juntar as coisas - fazer um pouco de tudo e a vida vai levando.
 
JLPolítica - Qual é, ou foi, o instante da sua criação e da carreira de artista plástico que mais lhe apraz e rememora?
AM -
Eu tive uma passagem bem curiosa. Havia um tempo em que muita gente usava computador e recomendavam que eu também o fizesse. Sempre achei muito estranho um artista utilizando o computador. “Isso não tem cabimento”, pensava. Aí decidi não tê-lo. Mas o danado apareceu lá em casa, porque a minha ex-esposa na época, Sônia, achava que tinha que comprar um porque as crianças na escola tinham sempre trabalhos para fazer e o computador facilitava. Concordei plenamente: “Se é assim, então vamos botar o computador aqui em casa”. Mas, já que aquilo estava dentro de casa e eu queria dar uma utilidade também para mim, quis compartilhar com minha filha, procurei ver se nele era possível fazer arte, aí descobri um tal de um programa chamado CorelDraw e procurei iniciar alguns desenhos. Muito primariamente. Mas aquilo começou a me fascinar. O computador tinha milhões de cores, centenas de ferramentas e comandos - tudo aquilo que eu achava, inicialmente, que não ia me cativar, acabou me emocionando. Comecei a utilizar, fui a São Paulo fazer um curso de CorelDraw, depois comecei a dar aula de Corel para aprimorar e quando já estava mais desenvolvido no desenho, na arte de trabalhar no computador, resolvi participar de um concurso que a CorelDraw lançava, anualmente, e fui premiado como o primeiro do mundo com o desenho que fiz de uma senhora fumando um cachimbo. No momento em que eu estava fazendo o desenho, sentia muita emoção. Mas a emoção bem maior foi quando fui receber o prêmio, que seria anunciado ao vivo para os convidados e para os artistas - eles levaram artistas classificados do mundo inteiro. Desse concurso, participaram mais de cinco mil pessoas, não me lembro bem. Isso ocorreu em 1999. No momento da festa de premiação, não sabia se eu estaria sendo o premiado. Sabia apenas que tinha sido classificado. Mas, quando anunciaram o meu nome como o vencedor, aquilo deu-me uma emoção para o qual ainda hoje não tenho palavras para descrever. Sei que a premiação foi o maior impacto na minha vida dentro do que eu fiz com a minha arte.
 
JLPolítica - O senhor fez muitas viagens pro exterior e até morou por quatro anos em Paris. O que isso impactou sobre sua vida e a sua arte?
AM -
Fiz mesmo várias viagens ao exterior, principalmente à França, e tive uma influência muito grande da arte francesa. Na realidade, da arte internacional, porque Paris é o coração das artes do mundo. Sempre foi, e não é à toa que o movimento impressionista aconteceu por lá. Eu tive influências que me proporcionaram obras, não sei se de grande qualidade ou não, mas tenho algumas comigo e que vão estar presentes nessa minha exposição, que mostra também muita coisa realizada na capital francesa.

Jenner Augusto da Silveira: fonte de inspiração para Adauto Machado

 

O MUNDO POR ROTA, PARIS POR PARAGEM
“Fiz várias viagens ao exterior, principalmente à França e tive uma influência muito grande da arte francesa. Na realidade, da arte internacional, porque Paris é o coração das artes do mundo. Sempre foi, e não é à toa que o movimento impressionista aconteceu por lá”

JLPolítica - Por que os salões de novos não se firmam e se impõem em Aracaju?
AM - Ah, eu achava tão bom, aqueles salões dos novos dos quais eu participei diversas vezes do júri, e gostava tanto de ver aquela gente jovem fazendo aqueles trabalhos, muitos cheios de talento, bastante talento. Me deixava satisfeito por saber que aquilo existia, continua existindo, mas até que enfim desapareceu. Uma pena. Acredito que uma política cultural abundante e estável seja bem interessante para que se incentive mais as artes no nosso Estado. A Galeria Álvaro Santos, onde muita coisa acontecia, inclusive o Salão dos Novos, está abandonada. Não sei se já começaram a restaurar, a arrumar, mas estava no abandono, e por lá aconteciam esses salões que eram tão interessantes. Ali é a casa onde fiz tantas exposições e comecei a minha carreira artística. Que pena o abandono.
 
JLPolítica - O senhor sente falta de galerias especiais e especializadas em Aracaju?
AM -
A presença de galeria em uma cidade como Aracaju é muito importante. Agora, galeria com esquema de galeria. Temos alguns espaços até que satisfatórios, mas se vierem mais, ainda melhor. Temos os espaços alternativos, que funcionam como meia galeria - digo meia, porque não é uma coisa com muito empenho de galeria no contexto profissional. Nós temos que ter mais incentivo e mais espaços, porque a cidade cresceu, o número de artistas também e quanto mais espaço melhor.

JLPolítica - As políticas públicas no setor cultural contemplam ou não as artes plásticas?
AM -
As políticas públicas no setor cultural, em uma minoria, contemplam as artes plásticas, mas tudo que é público anda sempre mais devagar. No âmbito cultural é sempre difícil contar com essa gente, mas existem alguns bem-intencionados nessa política, embora uma andorinha só não faça verão. Tenho grandes amigos ligados a esses órgãos culturais e conheço muita gente neles não estão nem aí. Não dão menor para que a cultura aconteça.

Adauto Machado e as filhas Ana Cristina, de 39 anos, e de Ana Lúcia, 37 anos

 

DO RISCO DOS EDITAIS DE CULTURA
“Os tais dos editais às vezes são interessantes, porque dão uma chance para todo mundo. Mas, apesar de ser democrático, também têm a função de cortar quando não deve. Há uns cinco anos participei de um edital com a pretensão de fazer uma exposição através de um órgão cultural do Estado e fui eliminado”

JLPolítica - Os tais editais de cultura são democráticos e suficientes nessa érea?
AM -
Os tais dos editais às vezes são interessantes, porque dão uma chance para todo mundo. Mas, apesar de ser democrático, eles também têm a função de cortar quando não deve. Por exemplo, há uns cinco anos, participei de um edital com a pretensão de fazer uma exposição através de um órgão cultural aqui do Estado e fui eliminado. Pessoas de todo o país fizeram parte dessas exposições, mas Adauto, querendo expor sua produção, com tantos anos de trabalho, foi recusado. Então de quê adianta ser democrático se a gente tem um trabalho para mostrar e esse trabalho não pode fazer parte de exposição porque não preencheu as exigências do edital? Não quero com isso dizer que eu seja melhor que os demais que foram contemplados, mas, se o edital existe no âmbito nacional, o que é da terra também tem que ser prestigiado. Isso criou um número de revoltas muito grande em várias pessoas que são ligadas às artes e à cultura no nosso estado, eu fiquei, francamente, decepcionado, a ponto de pensar em nunca mais participar de edital. Imagine se um Van Gogh, um Leonardo da Vinci, quisessem participar, fazer uma exposição pelo órgão do governo e tivessem que passar pelo edital para fazer isso! Como seria? Suponhamos que fossem vivos e quisessem fazer uma exposição em Aracaju e queriam determinado espaço e esse espaço só fazia exposições por edital, o que seria? E aí?
 
JLPolítica - O senhor acha que as artes plásticas em Sergipe estão estanques ou têm surgido nomes e cenas para lhe sucederem e desdobarem-se em Jordões, Inácios, Jeneres, Horácios e Zésfernandes?

AM - Eu posso até estar enganado, mas sempre digo aos meus colegas, ou mesmo àqueles que são admiradores de arte, que as artes plásticas em Sergipe tiveram seu auge até Bené e Elias. Bené e Elias são dois talentos que poderiam estar bem mais adiante que todo mundo aqui no nosso Estado. Surgiram e aconteceram outros, mas durante essa caminhada acredito que não se tornaram notáveis o quanto se fizeram Bené e Elias. Muitos deles já morreram, como são os casos de Zé Fernandes, Eurico Luis, Leonardo, Inácio, Florival, Eurico, mas são artistas que mostraram talento no início, no meio e no fim. Tem colegas bons, como Hortência Barreto. Muitos estão ainda a caminho do fim e estão mostrando talento. Agora, de jovens, dos que estão surgindo, não chegou ainda a meu conhecimento alguém que vai, realmente, se tornar um desses que você acabou de citar. 
 

JLPolítica - O senhor pretende levar a Dores a Exposição Memórias?
AM -
Dores é o motivo de muita alegria quando eu penso em fazer alguma coisa por lá. O ano passado, por exemplo, levei uma exposição com um conjunto de obras para a Secretaria da Cultura da cidade e a minha intenção era levar os meus quadros e trazer de volta. Eu pensava: “se vender um ou dois desses trabalhos por lá, eu posso até ajudar nas despesas”, mas isso não era uma coisa esperada

Adauto Machado: “Viver apenas fazendo arte é uma tarefa muito difícil. Mas eu só fiz arte a vida inteira. Na minha vida, a arte foi uma constante”

 

DO PRAZER DE CARREGAR DORES NA MEMÓRIA
“Sinto-me como ídolo dos dorenses. Todos eles se sentem felizes com a minha existência e eu me sinto feliz com a existência deles - é recíproca essa coisa aí de sentimento entre nós. É a cidade na qual eu tive as minhas primeiras amizades”

JLPolítica - E o que aconteceu?
AM - Na realidade, eu vendi dez trabalhos. A alegria em ter essa recepção por parte do dorense foi uma coisa muito satisfatória, mais ainda por saber que muitas daquelas pessoas nunca frequentaram exposição, nem mesmo sabiam como é que se apresentava uma obra de arte em exposição, e passaram a ter uma admiração por uma coisa nova. Acredito que tudo aquilo aconteceu para que a gente tornasse a fazer por lá outras exposições. Dessa Exposição Memórias vou tirar um número menor dentro daquelas obras que sobrarem e levar para Dores na época da festa da padroeira, que acontece em setembro. Será mais uma oportunidade para todos nós, para mim, estarmos junto do meu povo, da minha gente, que sempre me acolheu, e para as pessoas que vão ter oportunidade de conhecer um pouco mais da minha história dentro daquilo que produzi durante esses 55 anos de arte. Na verdade, vão ver apenas um resumo, porque os trabalhos, na sua maioria, vão se encontrar na exposição aqui em Aracaju.

JLPolítica - Como é que Dores e os dorenses lhe veem enquanto artista? Reconhecem-lhe o mérito artístico que de fato tem?
AM -
Na realidade, eu me sinto como ídolo dos dorenses. Todos eles se sentem felizes com a minha existência e eu me sinto feliz com a existência deles - é recíproca essa coisa aí de sentimento entre nós. A cidade que me acolheu a vida inteira. É a cidade na qual eu tive as minhas primeiras amizades e os meus primeiros conhecimentos com as coisas locais e curiosas, os personagens, os costumes, a vida, o cotidiano.


JLPolítica - Há, então uma compatibilidade de gênero entre o senhor e sua cidade?
AM -
Sem dúvida. Eu acho que há uma compatibilidade muito grande entre mim e meus amigos dorenses, todos aqueles que sempre deram valor ao meu trabalho, incentivando ao máximo. Aonde quer que eu esteja, eles estão sempre comigo. O dorense, em geral, valoriza muito não apenas a minha pessoa, mas o meu trabalho, tudo aquilo que eu faço. Então os dorenses me vê como ídolo, mas eu os admiro muito mais.

Adauto Machado sempre teve bom relacionamento no meio cultural - aqui com Agalé Fontes e Luiz Adelmo
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