Entrevista

Jozailto Lima

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Alailson Modesto: “Seriedade e boas intenções ditam os caminhos de uma pesquisa”

3 de outubro de 2020

Instituto de pesquisa que busque agradar contratante com resultados não reais é suicida

Durante uma boa quantidade de anos, o professor e cientista social Alailson Modesto, 53 anos, foi sinônimo de precisão e de acerto quando estiveram em pauta as pesquisas de opinião pública no Estado de Sergipe, sobretudo as do campo eleitoral.

Isso se deu mais precisamente em 2002 e de 2007 a 2016, quando ele comandou a Coordenação Técnica do Dataform, instituto de pesquisa fundado pelo empresário Antônio Bonfim, 71 anos, e um dos braços fortes do semanário Cinform até o seu fechamento em 2018.

Sob a Coordenação Técnica de Alailson Modesto, o Dataform chegou a prever numa sexta-feira, véspera da eleição do primeiro domingo de outubro de 2012, que o candidato João Alves, DEM, ganharia a eleição de Aracaju em primeiro turno, com 51,73% dos votos válidos.

Batata: deu 51,72%, o que pode ser considerado um acerto de 100% sem tirar e nem pôr. Para Alailson Modesto, zelo e cuidado devem ser mantras fundamentais de que quem se envolve com pesquisas de opinião pública.

É também o que espera quem contrata esses serviços. “Em todas as eleições desse período obtivemos resultados altamente satisfatórios”, rememora ele, evocando seu passado de coordenador Técnico do Dataform.   

Alailson Modesto não tem viés populista, é muito focado em objetivos éticos e técnicos, é nada concessivo e parece um indivíduo talhado para as atribulações de pesquisa de opinião, sobre as quais recaem por vezes muitas incompreensões.

“O papel de um instituto de pesquisa é fazer o que lhe é de direito, fazer bem o que lhe credencia, desenvolver e divulgar estudos sobre a realidade social”, diz ele.

“Entendo que uma empresa de pesquisa desse tipo deve buscar, constantemente, extrair fidedignamente a opinião da população estudada, não importa se essa opinião não coincide com a opinião de quem dirige a empresa”, reforça Alailson.

Por ter uma expertise altamente reconhecida no setor e gostar do que fez e do que faz até hoje na esfera das pesquisas, Alailson Modesto partiu para o seu próprio negócio.

“No final de 2017 resolvi abrir o Instituto Alvo e pretendo com ele continuar na minha linha de ser o mais real possível, contribuir com estudos sobre a realidade social e que esses estudos possam ser bem utilizados nas tomadas de decisão. Afinal, as pesquisas de opinião também são instrumentos para consolidação de decisões democráticas”, diz ele.

Alailson divide hoje o negócio com Elielma Modesto, esposa e advogada. Ele bota fé nos efeitos das ações dos institutos de pesquisa. Mas com uma condição. “Fazendo bem feito, com seriedade, profissionalismo e alto conhecimento, as empresas de pesquisa de opinião pública prestam relevante papel para a consolidação das sociedades democráticas”, diz.    

Alailson acha que encontrou esses bons meios no Dataform para firmar nome e propósito dele e do instituto. “Diria que minha passagem à frente do Dataform foi satisfatória porque aliou conhecimento técnico, pessoal qualificado, seriedade, profissionalismo, estrutura de trabalho e uma certa liberdade técnica que a direção da empresa nos concedia”, reforça.

Nesta Entrevista, Alailson Modesto vai reforçar os conceitos exigidos para se postar bem em pesquisas de opinião, tratará da importância das eleitorais num ano como esse, dirá que o mercado econômico aracajuano poderia demandar mais os institutos de pesquisas e defenderá que, pela quantidade de institutos em Sergipe, o Estado já poderia ter uma associação de classe deles.

Alailson Pereira Modesto nasceu no dia 2 de fevereiro de 1967, em Lagarto. Ele é filho mais novo de José Modesto, pequeno produtor rural falecido tragicamente há 47 anos, e de Terezinha Pereira da Costa, funcionária pública que, com bravura, criou os cinco filhos sozinha.

Ele é casado há 30 anos com a advogada Elielma Menezes do Nascimento Modesto, com quem é pai de três filhos - Kelvin, 29, cientista da computação, Milena, 20, estudante de Psicologia na UFS, e Gabriel, 16, estudante do ensino médio.

Alailson Modesto, Elielma Modesto e os três filhos: Kelvin, 29, Milena, 20, e Gabriel, 16
Alailson Modesto e Elielma Modesto, esposa, advogada e potencializadora do Instituto Alvo juntamente ao marido

MANTRA DE UMA EMPRESA DE PESQUISA

O papel de um instituto de pesquisa é fazer bem o que lhe credencia, desenvolver e divulgar estudos sobre a realidade social. Uma pesquisa deve buscar extrair fidedignamente a opinião da população estudada, não importa se essa opinião não coincide com a de quem a dirige

JLPolítica – Empresarial e eticamente, qual é o verdadeiro papel de um instituto de pesquisa de opinião pública no contexto da sociedade?
Alailson Modesto –
Em princípio, o papel de um instituto de pesquisa é fazer o que lhe é de direito, fazer bem o que lhe credencia, desenvolver e divulgar estudos sobre a realidade social. Entendo que uma empresa de pesquisa desse tipo deve buscar, constantemente, extrair fidedignamente a opinião da população estudada, não importa se essa opinião não coincide com a opinião de quem dirige a empresa. Neste sentido e, frise-se, fazendo isso bem feito, com seriedade, profissionalismo e alto conhecimento, as empresas de pesquisa de opinião pública prestam relevante papel para a consolidação das sociedades democráticas.

JLPolítica – Qual é o perfil deles nos últimos anos?
Alailson Modesto –
No geral, o Brasil possui bons institutos de pesquisa, prestando relevante serviço para a sociedade. A esse respeito, podemos citar o exemplo mais recente: a divulgação de resultados de pesquisa de opinião sobre a Pandemia do Covid-19, novo coronavírus, opinião esta que, quando divulgada, provocou mudanças significativas de posição de gestores governamentais, fazendo, inclusive, mudar de opinião a respeito. No geral, temos bons resultados também dessas empresas, pelo menos em boa parte delas, na cobertura dos processos eleitorais.

JLPolítica – Como mediar interesses de quem contrata uma pesquisa com os resultados que o desagradam?
Alailson Modesto –
Não há mediação aí. É mostrar o que é, e se o resultado desagrada um contratante, por exemplo, não há que fazer outra coisa. O resultado é o real. Se para o contratante, o resultado o desagradou que ele trabalhe para mudar esse quadro. Neste sentido, uma pesquisa de opinião pública séria contribui para isso. Um instituto de pesquisa que busque agradar o contratante com resultados não reais ele é um suicida. Não vigorará por muito tempo no mercado. Até mesmo aquele contratante que foi “agradado” com resultados eventualmente fora da realidade (o que é condenável) quando quiser algo mais próximo do real não contratará essa empresa. Não devíamos nem estar falando disso - afinal, uma empresa de pesquisa de opinião pública deve elaborar e divulgar estudos sobre a realidade social o mais próximo possível do real. O que foge disso deve estar previsto tecnicamente na margem de erro.

Alailson Modesto e Elielma Modesto no ato de formatura da filha Milena no ensino médio

OS CAMINHOS PARA ATINGIR A PRECISÃO

Busquei e busco sempre ser o mais preciso possível. Então, para alcançar a precisão, ou se aproximar dela, o caminho é conhecimento, seriedade, profissionalismo, boas intenções, e isso em todas as etapas do processo

JLPolítica – Quais os caminhos mais recomendados para se chegar a resultados precisos e nunca mascarados?
Alailson Modesto –
Eu nem coloco essa palavra mascarados nos meus trabalhos. Busquei e busco sempre ser o mais preciso possível. Então, para alcançar a precisão, ou se aproximar dela, o caminho é conhecimento, seriedade, profissionalismo, boas intenções, e isso em todas as etapas do processo.

JLPolítica – Uma boa pesquisa de opinião tem que ler, flagrar, medir e aferir o que precisamente?
Alailson Modesto –
Exatamente a opinião da população. Esse é o verdadeiro papel de uma pesquisa de opinião. As pesquisas de opinião, e todos devemos ter isso em mente, sempre, mudam rumos sociais. Decisões são tomadas a partir de seus resultados. A esse respeito, poderemos citar um exemplo mais ou menos recente: durante as discussões da Reforma da Previdência no Governo de Michel Temer, as pesquisas apontavam que a população era contra a reforma. E ela não feita. No governo atual, a opinião sobre a reforma ficou equilibrada quantitativamente e o Congresso aproveitou isso para aprovar a Reforma da Previdência. Cito isso não para afirmar que ela devia ter sido feita, ou, se feita, nos moldes que foi. Cito apenas para mostrar como o resultado de uma pesquisa de opinião muda rumos e decisões nas nossas vidas. Sendo assim, elas precisam expressar necessariamente o que pensa uma população estudada.
 
JLPolítica – O senhor não acha o mercado econômico sergipano meio frio na contratação de pesquisas de opinião, deixando os institutos ao sabor e a mercê dos períodos eleitorais?
Alailson Modesto –
Sim. E mais ainda agora, como uma consequência da pandemia. A cultura empresarial local, de uma forma geral, não costuma muito fazer pesquisas de opinião. Prefere acreditar na sua intuição. As vezes dá certo, muitas vezes não. Certamente se essa cultura empresarial mudasse, usasse mais pesquisas de mercado, o segmento de pesquisa de opinião não ficaria tão “refém” do processo eleitoral.

João Alves, em campanha em 2012 pela Prefeitura de Aracaju: acerto histórico com a parte técnica do Dataform sob o comando de Alailson Modesto

TODOS PERDEM COM FALSEAMENTO DE PESQUISA

A população, as próprias empresas que atuam seriamente no mercado, gestores, tomadas de decisões que ficam viciadas e se perpetuam numa práxis condenável que só beneficia quem participa desse pacto esdrúxulo

JLPolítica – Quem perde com o falseamento de dados numa pesquisa de opinião, notadamente nas eleitorais?
Alailson Modesto –
Todos. A população, as próprias empresas que atuam seriamente no mercado, gestores, tomadas de decisões que ficam viciadas e se perpetuam numa práxis condenável que só beneficia quem participa desse pacto esdrúxulo.
 
JLPolítica – Na sua análise, qual será o peso delas nestas eleições municipais de agora?
Alailson Modesto –
Com a pandemia, creio que teremos menos pesquisas. Mas, as que serão feitas e publicadas continuarão no mesmo cenário, gerando debates, provocando alegrias e iras. Sobre essa questão, entendo que precisamos desmistificar um pouco o peso que muitos políticos dão a resultados de pesquisa. Na prática das campanhas eleitorais pelo Brasil, geralmente se percebe que quando uma pesquisa apresenta um resultado favorável a um candidato este costuma falar bem das pesquisas, enquanto o outro lado costuma execrá-la. Pesquisa eleitoral não ganha eleição sozinha. Se isso fosse verdade, nunca teríamos mudanças de colocações: quem largasse na frente venceria a eleição. Mas, na prática, isso não procede. Há várias mudanças em processos eleitorais. Podemos citar sobre isso a mais recente em Sergipe: na eleição para governador em 2018 o então candidato Belivaldo Chagas largou lá atrás com cerca de 10% e foi numa crescente, culminando com sua vitória.

JLPolítica – Há muito eleitor que deixa pra decidir o voto por conta das pesquisas?
Alailson Modesto –
Sim. Em todas as pesquisas de opinião que coordenei e tentei medir o impacto delas na intenção de voto do eleitor foi identificado que um percentual entre 11% e 17% admitem decidir o seu voto com base nos resultados de pesquisa de opinião. É um número de certa forma alto, afinal a decisão do voto deveria ser mais substancial. Porém, mesmo “alto”, de certa forma as pesquisas de opinião não devem ser “endeusadas” ou “demonizadas” em processos eleitorais.

Caderno O VOTO de 6 de outubro de 2012: Dataform previu João vencendo com 51,73% e ele chegou lá com 51,72%. Mais exato que a luz do sol

COMO DEVEM SER ENCARADAS PESQUISAS

Devemos entendê-las como uma fotografia do momento. E essa fotografia pode se alterar ou se consolidar. O importante não é uma única pesquisa, mas sim uma série, quando se é possível identificar as curvas ascendente e descendente

JLPolítica – Como devem ser vistas as pesquisas?
Alailson Modesto –
Devemos entendê-las como uma fotografia do momento. E essa fotografia do momento pode se alterar ou se consolidar. O importante, também, não é uma única pesquisa, mas sim uma série, quando se é possível identificar as curvas ascendente e descendente (como a curva ascendente que foi identificada na campanha de Belivaldo Chagas em 2018 e ele se tornou governador). Outra importância da pesquisa são as questões que ela revela, e não apenas os resultados da intenção de voto. Claro, os resultados da intenção de voto mostrarão a precisão ou não de uma empresa de pesquisa - óbvio, estamos falando em precisão daquelas pesquisas mais próximas possíveis do pleito; o ideal é medir essa precisão com as pesquisas boca de urna. Contudo, não esqueçamos, pesquisa de opinião é feita a partir de uma amostra e, enquanto tal, há uma margem de erro prevista.
 
JLPolítica – O senhor não acha que o Estado de Sergipe tem instituto de pesquisas de opinião em demasia? Há quem contabilize mais de 20 deles.
Alailson Modesto –
Em princípio, não me incomodo com isso. Entendo que é um direito de qualquer profissional que se considere qualificado abrir uma empresa de pesquisa. E isso é normal em qualquer campo de atuação. Não devemos ter uma postura de fazer reserva de mercado, em quaisquer setores. Então, num primeiro momento, com uma quantidade “alta” de empresa de pesquisa quem ganha é quem contrata. Terá mais opção. Contudo, e isso é muito relevante, todas essas empresas de pesquisa precisam ser sérias, profissionais, enfim, como em quaisquer outros ramos de serviços. É claro que me incomoda quando publico uma pesquisa e alguém levanta suspeita. Podemos um dia errar uma pesquisa – felizmente, ao longo da nossa história nessa área nunca tivemos erros significativos e se algum dia acontecer um erro em uma pesquisa não será por falta de seriedade, mas sim por uma falha técnica que não seríamos capazes de percebê-la.
 
JLPolítica – Há regras claras para se fundar um instituto, ou qualquer pessoa pode fazê-lo?
Alailson Modesto –
Preenchendo alguns pré-requisitos legais básicos, sim. Agora, se for publicar pesquisas eleitorais em anos de eleição somente um estatístico pode assinar. A esse respeito, poderíamos discutir com mais profundidade sobre essa questão: outros profissionais também deveriam assiná-la, como por exemplo os sociólogos e cientistas políticos, que se se interessarem, na sua formação, teriam uma boa base em métodos quantitativos. Mas, na época que isso foi aprovado, os profissionais da Sociologia e Ciência Política não possuíam conselho de classe -como ainda não possui; e isso é lamentável - e os profissionais da Estatística, através de seu conselho, conseguiram fazer força para obrigar a assinatura de um estatístico nas pesquisas eleitorais em anos de eleição.

Marcelo Déda: os institutos captaram bem as chances dele em 2006 em 2010, quando elege e se reelege governador de Sergipe

DAS RAZÕES DO SUCESSO DO DATAFORM

Diria que minha passagem à frente do Dataform foi satisfatória porque aliou conhecimento técnico, pessoal qualificado, seriedade, profissionalismo, estrutura de trabalho e uma certa liberdade técnica que a direção da empresa nos concedia

JLPolítica – O baixo preço cobrado por alguns institutos - até R$ 2 mil por uma pesquisa - serve de base para a descrença dessa atividade, ou pelo menos do instituto que procede assim?
Alailson Modesto –
Sim. Com esse valor que você citou não se cobre os custos de uma pesquisa de opinião com uma margem de erro minimamente aceitável em qualquer um dos municípios sergipanos.
 
JLPolítica – Como era que o Dataform, tecnicamente coordenado pelo senhor, atingia tamanha precisão de resultados, como a da eleição de Aracaju em 2008 e 2012?
Alailson Modesto –
Eu estive à frente da Coordenação Técnica do Dataform em 2002 e de 2006 a 2016, e em todas as eleições desse período obtivemos resultados altamente satisfatórios. Alguns deles, inclusive, foram destacados em todo o país, como os que você citou em 2008 e 2012. Mas nas outras eleições e em várias outras cidades também tivemos resultados impressionantes. Alguns poucos políticos, no entanto, buscaram nos criticar a eleição de 2014 quando não fomos tão precisos, como era de costume, no resultado de primeiro e segundo colocados para o Senado. No entanto, esses mesmos políticos não falam que a pesquisa em questão foi feita na terça-feira anterior ao pleito e havia um quarto do eleitorado que não possuía candidato para senador, e teoricamente a intenção de voto poderia ir para qualquer um. E isso busquei demonstrar em artigo publicado na segunda-feira posterior ao pleito de 2014. Mas, tentando responder objetivamente à sua pergunta, diria que minha passagem à frente do Dataform foi satisfatória porque aliou conhecimento técnico, pessoal qualificado, seriedade, profissionalismo, estrutura de trabalho e uma certa liberdade técnica que a direção da empresa nos concedia. Uma das poucas coisas que lamentei na minha passagem pelo Dataform foi não ter conseguido publicar a última pesquisa do segundo turno para prefeito de Aracaju em 2016, na qual fomos igualmente precisos. E lamento, também, com o que aconteceu tempos depois com o Cinform: um jornal que marcou época no jornalismo sergipano interromper sua edição impressa.

 

JLPolítica – Há diferenças na metodologia de uma pesquisa para consumo interno de uma para divulgar na mídia?
Alailson Modesto –
Diria que não deve ter nenhuma diferença, afinal uma pesquisa, para consumo interno ou para divulgação, deve ser a mais real possível ao mostrar seus resultados: uma fotografia do momento a mais precisa possível. Agora, claro, uma pesquisa publicada gera muita repercussão e a empresa que a desenvolve precisa estar preparada para essa repercussão.

Aracaju: cidade cuja economia demanda pouco os institutos de pesquisas, deixando-os a mercê da atividade política

DOS RIGORES PARA QUE TUDO DÊ CERTO

Uma pesquisa de opinião é feita em etapas e todas as etapas do processo precisam ser bem feitas. Se uma falha, falha o todo e não existe uma etapa mais importante que outra. São importantes o planejamento, plano amostral, treinamento da equipe, trabalho de campo, controles interno e externo

JLPolítica – Quais são os sete novos itens exigidos na aplicação de questionários?
Alailson Modesto –
Eu não diria “novos”. Diria os consagrados na prática. Uma pesquisa de opinião é feita em etapas e todas as etapas do processo precisam ser bem feitas. Se uma falha, falha o todo e não existe uma etapa mais importante que outra. Todas são importantes: o planejamento, a elaboração do questionário, o plano amostral, o treinamento da equipe de pesquisadores, o trabalho de campo, os controles interno e externo, enfim.

JLPolítica – Uma pesquisa sem critérios precisos de estatísticas e boa aplicação em campo pode produzir bons resultados?
Alailson Modesto –
Não. Como mencionei anteriormente, uma pesquisa bem feita é aquela que foi bem feita em todas as etapas do processo.
 
JLPolítica – Qual é o maior pecado que um pesquisador ou um instituto de pesquisa jamais pode cometer?
Alailson Modesto –
Eu não diria nem “o maior pecado”. Diria que uma pesquisa de opinião precisa ser bem feitas em todas as etapas. Então há vários perigos para o erro e eles precisam ser evitados ou amenizados ao máximo possível. Agora, tentando responder objetivamente à pergunta do “maior pecado de um pesquisador”, especificamente falando, e entendendo esse pesquisador como “o entrevistador”, e só para citar um, é ele interferir na opinião do pesquisado, do entrevistado. Isso, jamais.

Eduardo Amorim: em nenhum momento o Dataform o apontou liderando em 2014, quando teve desempenho melhor que em 2018 na busca pelo Governo de Sergipe

DAS RAZÕES E OBJETIVOS DO INSTITUTO ALVO

No final de 2017 resolvi abrir o Instituto Alvo e pretendo com ele continuar na minha linha de ser o mais real possível, contribuir com estudos sobre a realidade social e que possam ser bem utilizados nas tomadas de decisão. Afinal, pesquisas de opinião também são instrumentos para consolidação de decisões democráticas

JLPolítica – Por que o senhor decidiu fundar o Instituto Alvo, e o que pretende com ele?
Alailson Modesto –
Ao sair do Dataform, fiquei apenas com minha outra atividade profissional, a do magistério. Mas muitas pessoas me procuravam para fazer pesquisa e no final de 2017 resolvi abrir o Instituto Alvo e pretendo com ele continuar na minha linha de ser o mais real possível, contribuir com estudos sobre a realidade social e que esses estudos possam ser bem utilizados nas tomadas de decisão. Afinal, como falei no início, as pesquisas de opinião também são instrumentos para consolidação de decisões democráticas - não sei se fui bem claro nisso.

 

JLPolítica – O senhor não acha que, com tantos institutos em Sergipe, inclusive alguns do interior, já comportaria uma associação de classe para reunir os proprietários deles e discutir práticas corporativas comuns e melhores?
Alailson Modesto –
Sim. Entendo que isso é uma necessidade imediata. A criação de uma entidade que reunisse as empresas do segmento poderia dar efetiva contribuição. Por exemplo, formar pesquisadores, criar um banco de dados de pesquisadores devidamente treinados (técnica e eticamente) profissionalizaria até esse segmento, discutir os principais problemas, elaborar um código de ética, enfim.
 
JLPolítica – Uma pessoa sem credibilidade pública pode ter um instituto de pesquisa crível?
Alailson Modesto –
Cabe ao contratante mensurar isso. E se uma empresa está cometendo ilicitudes, estará sujeita à investigação. É claro, e para qualquer segmento, quanto mais conhecimento e seriedade, melhor para todos.

 

Na visão de Alailson Modesto, “no geral, o Brasil possui bons institutos de pesquisa, prestando relevante serviço para a sociedade”

DA EFICÁCIA DAS PESQUISAS POR TELEFONE

Não costumo fazer pesquisas eleitorais por telefone. Sobretudo municipais. Tecnicamente falando, é possível fazer uma amostra por telefone em uma pesquisa nacional. Porém, fazer isso em planos municipais é outra coisa bastante diferente

JLPolítica – Uma pesquisa com questionário aplicado presencialmente é superior a uma com questionário aplicado por telefone?
Alailson Modesto –
Sobre pesquisas por telefone, há vários aspectos que precisam ser discutidos. Inicialmente, o banco de dados. Ele foi obtido junto às operadoras de telefonia? Se sim, não há uma ilegalidade nisso? Afinal, dados pessoais foram “vazados” e não me lembro de alguém que adquiriu um telefone e colocou lá uma cláusula que seu número e demais dados pessoas poderiam ser repassados para terceiros. A esse respeito, vale citar inclusive os recentes movimentos de “não me perturbe” “não me incomode”. E mais: esse banco de dados contempla índices de acessos e usos de telefone de toda a população, horários, se a pessoa atende a alguma ligação de um número não constante na sua agenda, se quando está no trabalho atende telefone etc? Se for um banco de dados específico, precisa ver as limitações ou mesmo os vícios desse banco de dados, dentre tantas outras questões que podem tornar uma pesquisa por telefone, ou mesmo por aplicativos de internet, problemática.

JLPolítica – Mas o senhor e o Alvo fazem por telefone?
Alailson Modesto –
Buscando ser objetivo à pergunta, eu não costumo fazer pesquisas eleitorais por telefone. Sobretudo municipais. Tecnicamente falando, é possível fazer uma amostra por telefone em uma pesquisa nacional, pois você pode sortear aleatoriamente os prováveis números das operadoras de telefonia que atuam no país (e verificando ainda aquelas limitações que apontei há pouco). Porém, fazer isso em planos municipais é outra coisa bastante diferente.

JLPolítica – O que são eleições para o senhor?
Alailson Modesto –
As eleições são a instância por excelência da democracia e gostaria de desejar boa sorte e bom desempenho a todos que atuarão nas deste ano. Da justiça eleitoral aos candidatos. Dos profissionais de comunicação que farão cobertura jornalística aos profissionais das empresas de pesquisa. A todos que trabalham e trabalharão no processo eleitoral deste ano atípico, sob pandemia, e à população eleitoral. Juízo na decisão.

Antonio Bonfim, fundador e mantedor do Dataform até os instantes mais críveis