Entrevista

Jozailto Lima

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Alexis Pedrão: “Socialismo é um projeto de igualdade social”

10 de outubro de 2020

“Essa candidatura é um grito de indignação e de esperança”

A candidatura de Alexis Pedrão, PSOL, a prefeito de Aracaju nas eleições deste ano, até pode ser associada a poucas chances de vitórias na selva das 11 concorrentes que se oferecem aos 404.901 eleitores da capital de Sergipe.

Mas ninguém pode acusar Alexis Pedrão de estar banzando e perdido nesta multidão de intenções eleitorais. Ao contrário: ele parece muitíssimo bem-ancorado em teses, teorias e convicções sobre que tipo de Governo faria, ou fará, se fosse, ou for, eleito.

Claro: ser do PSOL já é um forte indutivo do modo de se pensar no que Alexis pensa. Ele levanta o clássico crachá do socialismo. Há na plataforma dele muita promessa de intervenção estatal nos serviços públicos municipais.

Há muita inclusão de gente excluídas e muita exclusão de gente e instituições que vivem, na visão dele, de mandar em governos quase que como uns sócios, como os empresários e as empresas.

No terreno das intenções, Alexis Pedrão não faz cara de paisagem e nem é concessivo. Com ele, concessão só para quem é excluído, e um eventual governo dele teria a primazia de incluir “operários, desempregados, informais, servidores públicos, pessoas com deficiência, mulheres, negros e negras e LGBT’s”.

“Tenho dito em todo o espaço que essa candidatura é um grito de indignação com tudo que nosso povo vem sofrendo, mas também um grito de esperança. Somos a única candidatura que se coloca de maneira firme contra Bolsonaro, que não tem rabo preso com nenhum governo, muito menos grandes empresários, e por isso tem disposição de enfrentar o poder econômico, e que acredita na mobilização e na participação popular para transformar Aracaju”, sintetiza Alexis.

“É um projeto que representa a maioria, o operário da construção civil, a empregada doméstica, servidor público, desempregado, trabalhador informal, entregador de aplicativo, pequeno comerciante, microempreendedor, profissional liberal, artista, professora, gari, margarida”, diz.

“Fico feliz que o PSOL tenha escolhido um militante do movimento negro e me sinto muito honrado em estar à frente desse projeto coletivo. É um voto de quem acredita que pode ser parte da mudança e não apenas um espectador”, reitera.

Na visão de Alexis Pedrão, o prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, PDT, que tenta a reeleição agora, teve reiteradas chances de muito fazer pelas pessoas, mas pouco ou quase nada realizou.

“A minha visão é a de que Edvaldo deixou muito a desejar e não cumpriu as promessas. Teve sua chance e pouco fez. Nenhuma maternidade, creche ou posto de saúde foi construído na cidade. Só isso bastava para termos uma noção”, diz.

E reforça: “Mas também não vem sendo respeitado o reajuste do piso dos professores e além de tudo a extrema pobreza aumentou em Aracaju. São dados da própria prefeitura. Hoje, mais de 100 mil aracajuanos e aracajuanas estão em situação de pobreza e extrema pobreza”.

Essa é uma realidade que, se for eleito prefeito, Alexis Pedrão promete enfrentar respeitando as atribuições que mandam compartilhar tudo com uma vice-prefeita - no seu caso, Carol Quintiliano, que, como ele, escolheu a advocacia por profissão.

“Se o povo de Aracaju nos der a vitória nas eleições, temos o entendimento de que todas as tarefas de uma prefeitura seriam divididas de igual para igual entre nós. As pessoas não votarão em Alexis. Votarão em Alexis e Carol. Estarão indicando uma chapa com um programa político”, diz ele.

Alexis Magnum Azevedo de Jesus nasceu no dia 9 maio de 1986 em Feira de Santana, Bahia - mas só nasceu por lá, porque ainda bebê foi trazido a Aracaju, de onde é toda a sua visão de vida, militância, tolerância e cultura.

Alexis Pedrão é filho de Carlos Alberto de Jesus Naput e de Sonia Meire Santos Azevedo de Jesus, a famosa Professora Sônia Meire tão militante das esquerdas de Sergipe.

Ele é casado com a fisioterapeuta Hortência Chagas e é pai de uma renca de cinco filhos - uma escadinha: Linda, 9 anos, Fidel, 8, Alexis, 6, Tupã, 4, e Mariele, de 2 aninhos.

Em pose de traje de junho, provavelmente no Salesiano, onde o pai Naput foi professor e ele, aluno
O bebê Alexis Pedrão nas primeiras horas, ainda em Feira de Santana, sob o afago do pai Carlos Alberto de Jesus Caput, que se foi em 2012

DO PERFIL DESTA CANDIDATURA

“O PSOL sempre buscou perfis vinculados à luta dos operários, desempregados, informais, servidores públicos, pessoas com deficiência, mulheres, negros e negras e LGBT’s. Fico feliz que o PSOL tenha escolhido um militante do movimento negro e me sinto muito honrado em estar à frente desse projeto coletivo”

JLPolítica – Por que o PSOL chegou à decisão de que o candidato a prefeito de Aracaju em 2020 seria o senhor?
Alexis Pedrão –
Foi uma decisão coletiva e bastante amadurecida. A militância do PSOL, de forma consensual, com o apoio do PCB, MTST, Frente Favela e Movimento Afronte de Juventude formaram uma aliança para propor um projeto político para Aracaju. Essa aliança é o resultado de anos de luta conjunta na cidade de Aracaju e da nossa atuação durante a pandemia, em que por um lado cobramos dos órgãos públicos as medidas sanitárias e sociais em defesa da vida e, por outro, organizamos campanhas de solidariedade nos bairros. Dentro desse contexto e considerando que a política de defesa da classe trabalhadora deve contemplar a sua diversidade, o PSOL sempre buscou perfis vinculados à luta dos operários, desempregados, informais, servidores públicos, pessoas com deficiência, mulheres, negros e negras e LGBT’s. Fico feliz que o PSOL tenha escolhido um militante do movimento negro e me sinto muito honrado em estar à frente desse projeto coletivo.

JLPolítica – Por que também recaiu sobre a advogada Carol Quintiliano a opção da disputa pela vice-Prefeitura?
Alexis Pedrão –
Carol é uma companheira de longa caminhada. Fomos contemporâneos na faculdade e ela sempre esteve vinculada à advocacia, luta ambiental e à causa animal. Carol amplia a nossa capacidade de diálogo com diversos segmentos da sociedade e demonstra o nosso compromisso com a luta pela igualdade de gênero na política. Carol está lado a lado comigo nesse desafio, organizando a campanha nos mínimos detalhes e assim como eu, se dividindo entre as agendas de rua e os cuidados de casa e o trabalho. É uma mulher de coragem que tem fortalecido muito a campanha.

JLPolítica – Qual o grau de afinidade ideológica entre o senhor e ela?
Alexis Pedrão –
Temos bastante afinidade, pois somos do mesmo partido. Politicamente, somos de esquerda, socialistas e comprometidos com a luta popular e as mudanças estruturais que o país e Aracaju precisam. Evidentemente que teremos discordâncias em algum ponto aqui ou acolá, mas isso é salutar. A divergência, quando estabelecida de forma fraterna, enriquece e contribui para o amadurecimento do coletivo.

Lá em 2011, Alexis Pedrão na tribuna da Câmara de Aracaju, pelo Movimento Não Pago: politizando a vida real

SERIA INCORERÊNCIA ALIAR-SE A BELIVALDO

“Infelizmente, o PT representa uma face do Governo de Belivaldo. Nesse sentido, caso o PT rompesse com Belivaldo, teríamos condições de fazer uma discussão de aliança em Aracaju e demais municípios de Sergipe. Mas não foi possível. Nós precisamos manter a coerência. Somos oposição à Belivaldo e não podemos estar nas ruas com aliados do Governo do Estado que retira direitos dos servidores”

JLPolítica – Foi fragilidade de relacionamento político-partidário a formação de uma chapa puro-sangue PSOL-PSOL?
Alexis Pedrão –
Não entendo que foi uma fragilidade. Primeiro, porque apesar de não ter coligação, temos uma aliança com PCB, MTST, Frente Favela e Afronte. O PCB e o Frente Favela, por questões burocráticas, não puderam estar formalmente na coligação enquanto partidos, mas estão na prática. Além disso, conversamos com o PT, achamos importante unificar todo o campo anti-bolsonarista de esquerda nessas eleições, mas na política é preciso fazer gestos. Infelizmente, o PT hoje representa uma face do Governo de Belivaldo. Nesse sentido, caso o PT rompesse com Belivaldo, nós teríamos condições de fazer uma discussão de aliança em Aracaju e demais municípios de Sergipe. Mas não foi possível. Nós precisamos manter a coerência. Somos oposição à Belivaldo e não podemos estar nas ruas com aliados do Governo do Estado que retira direitos dos servidores e prejudica a maioria da população sergipana. Cada um segue seu caminho e nosso foco é enfrentar o bolsonarismo e apresentar uma alternativa à atual gestão de Edvaldo.

JLPolítica - Se o senhor chegasse, ou chegar, à Prefeitura de Aracaju, Carol teria, ou terá, que tipo de espaço no Governo?
Alexis Pedrão -Se o povo de Aracaju nos der a vitória nas eleições, temos o entendimento de que todas as tarefas de uma prefeitura seriam divididas de igual para igual entre nós. As pessoas não votarão em Alexis. Votarão em Alexis e Carol. Estarão indicando uma chapa com um programa político. Nem eu poderia propor nada diferente disso, nem Carol aceitaria qualquer tipo de posição secundária. Não é só uma questão de espaço na gestão. É um compromisso efetivo, prático, com a participação ativa e igualitária entre homens e mulheres na política e no espaço público de forma geral.

JLPolítica - Com quantos candidatos ao Legislativo o PSOL vai à eleição este ano em Aracaju, e conseguirá eleger alguém?
Alexis Pedrão - Esse ano será a maior chapa que o PSOL já apresentou em Aracaju para a disputa da Câmara. Somos 11 candidaturas em uma chapa com muita qualidade, em nossa opinião. São dirigentes sindicais, lideranças de movimentos populares, com bastante diversidade. Em 2016 não elegemos por causa da legenda, mas esse ano esperamos eleger uma grande bancada, especialmente as três companheiras que lideram a nossa campanha, Professora Sonia Meire, Linda Brasile e Gigi Poetisa.

Alexis Pedrão sob o dengo da professora e mãe Sonia Meire: herança da militância política

“O SOCIALISMO É UM HORIZONTE ESTRATÉGICO”

“É uma transformação revolucionária da sociedade. Logo, não existe socialismo sem mudanças profundas e radicais. Não é possível mexer de forma radical nas estruturas por meio das eleições. Podemos ter mudanças significativas na conformação do poder político, mas não no poder econômico e de outras desigualdades raciais, de gênero, que continuam a existir”

JLPolítica – Sob o arco da sua candidatura tem espaço para uma candidatura coletiva à Câmara de Aracaju?

Alexis Pedrão – Com certeza. Tenho minha preferência de voto, mas sou candidato a prefeito de todas as candidaturas do PSOL. Estou fazendo lives com diversos companheiros e companheiras que são candidatos/as, participando das atividades, envolvendo toda a chapa nesse grande projeto coletivo. E nós, eu e Carol, temos sido muito apoiados por todos e todas vereadoras. Todos estão com gosto de fazer a campanha da majoritária nas ruas. Candidatura coletiva é uma novidade e muito bem vinda, como é o caso da bancada comunitária dentro do PSOL. Estive presente no lançamento e foi revigorante.

 

JLPolítica – Com que tipo de socialismo sonha o PSOL para Aracaju, Sergipe e pro Brasil? 

Alexis Pedrão – O socialismo é um horizonte estratégico nosso. É uma transformação revolucionária da sociedade. Logo, não existe socialismo sem mudanças profundas e radicais.Com as eleições, é diferente. Não é possível mexer de forma radical nas estruturas por meio das eleições. Podemos ter mudanças significativas na conformação do poder político, mas não no poder econômico e de outras desigualdades raciais, de gênero, que continuam a existir. Podemos ter melhorias, ou a nossa vida piorar, como foi com a eleição de Bolsonaro. Mas mudanças estruturais vão além da eleição. Por isso, muita gente se assusta quando se fala em socialismo. Mas não deveria. Socialismo é um projeto de igualdade social. Ruim mesmo é o capitalismo, com suas crises, exploração, desigualdade, miséria e destruição dos nossos recursos naturais em todo o mundo. Em resumo: não achamos que é possível construir o socialismo por meio das eleições, por isso não é o nosso objetivo nesse terreno tático, mas passa pelas eleições a defesa de um projeto socialista.

 

JLPolítica – Quais seriam os três principais eixos do seu Programa de Governo?
Alexis Pedrão – Temos três questões. Primeiro, um plano de emergência nesse momento de pandemia que ainda não acabou. Nesse plano, defendemos a criação de uma renda básica emergencial no município, distribuição de cestas básicas para as pessoas em situação de vulnerabilidade, construção de moradias populares de forma imediata, para que as pessoas possam sair dos barracos e ter uma casa digna, assim como gerar emprego, linhas de crédito para pequenos e microempresários e um plano de proteção da vida, contra a violência policial nas comunidades negras. Segundo, uma forma de governo que contemple a participação popular. Propostas como eleição de secretários, descentralizar a gestão a partir de subprefeituras, cumprir o artigo 52 da lei orgânica que determina o funcionamento do conselho municipal popular, etc. Em terceiro lugar, propostas para desprivatizar a nossa cidade, que funciona apenas para os donos do poder econômico. Queremos uma Aracaju para maioria com investimentos na gestão pública e na construção de equipamentos sociais, como maternidades, creches, escolas, postos de saúde, sem nenhum tipo de privatização e terceirização.

Os papais Alexis, Hortência Chagas e a escadinha da filharada: Linda, 9 anos, Fidel, 8, Alexis, 6, Tupã, 4, e Mariele, de 2 aninhos

DE UM GOVERNO DE ARACAJU POUCO REALIZADOR

“Aqui não fala um candidato que nunca pisou os pés numa escola pública, como vemos muitos por aí. A minha visão é a de que Edvaldo deixou muito a desejar e não cumpriu as promessas. Teve sua chance e pouco fez. Nenhuma maternidade, creche ou posto de saúde foi construído na cidade. Só isso bastava para termos uma noção”

JLPolítica - Qual é a visão que o senhor tem do modo como a gestão de Aracaju trata educação, saúde e assistência social? 

Alexis Pedrão - Sou uma pessoa que frequenta o posto de saúde com minha família e meus filhos estudam na rede municipal. Atualmente minha militância é junto à ocupações de moradia, especialmente a comunidade do Centro Administrativo. Aqui não fala um candidato que nunca pisou os pés numa escola pública, como vemos muitos por aí. A minha visão é a de que Edvaldo deixou muito a desejar e não cumpriu as promessas. Teve sua chance e pouco fez. Nenhuma maternidade, creche ou posto de saúde foi construído na cidade. Só isso bastava para termos uma noção. Mas também não vem sendo respeitado o reajuste do piso dos professores e além de tudo a extrema pobreza aumentou em Aracaju. São dados da própria prefeitura. Hoje, mais de 100 mil aracajuanos e aracajuanas estão em situação de pobreza e extrema pobreza. Não fossem os profissionais, terceirizados e concursados da saúde, da educação e da assistência, que mesmo com toda a dificuldade continuam atendendo e tratando muito bem a população, estaríamos num verdadeiro caos. Nós não esquecemos que em plena pandemia as trabalhadoras/es da saúde tiveram que realizar atos por EPI’s. Toda nossa solidariedade a estes profissionais e lamento à gestão atual de Edvaldo.

 

JLPolítica - O senhor acha que os Governos da capital e de Sergipe têm levado a sério e ao pé da letra as demandas da moradia popular para os aracajuanos? 

Alexis Pedrão - Não. Não existe o menor respeito pela população nesse sentido. Foram várias oportunidades que a prefeitura teve. Foram quatro anos e nada foi feito. Fora as gestões anteriores de Edvaldo. O que vemos é o aumento do IPTU, disparada no preço dos alugueis e as ocupações urbanas crescerem a cada dia. Nas zonas norte ou sul, os sem teto amargam péssimas condições de vida. Basta citar o exemplo da ocupação Marielle na Coroa do Meio e Recanto das Magabeiras, no Santa Maria/Aruana, em que nenhuma casa foi construída. Somente promessas até o momento, e a prefeitura ainda mandou a Guarda Municipal atirar e despejar de forma violenta essas ocupações. Uma gestão que sequer cumpriu a lei no que diz respeito a elaboração e aprovação do Plano Diretor não pode ser levada a sério. Com Edvaldo, somente as construtoras e os ricos têm vez.

 

JLPolítica - Num eventual governo do senhor, Aracaju teria, finalmente, licitação para o transporte público? 

Alexis Pedrão - A licitação é pouco. Se as empresas continuarem, a lei obriga licitação. Isso é o mínimo. Atualmente, em nossa opinião, é ilegal o funcionamento por meio de uma autorização a título precário. Até mesmo o TCE, por provocação nossa, já comprovou que a passagem de ônibus é superfaturada em Aracaju, sendo uma das mais caras do Nordeste. Mesmo com a pandemia, essas mesmas empresas de ônibus parceiras da atual gestão demitiram e diminuíram o salário dos rodoviários e o prefeito assistiu a tudo calado. A questão do transporte coletivo é um escândalo em Aracaju.

Na família de Alexis, a militância política começa cedo: aqui, em 92, paramentados prum Fora Collor, ele e a irmã Eva Azevedo em manifesto contra o falso caçador de marajás

“LICITAÇÃO PARA O TRANSPORTE PÚBLICO É POUCO”

“Nossa proposta é criar uma empresa pública de transporte municipal, assim como tem a Emsurb, Emurb. Criar a EPMT. Com concurso para rodoviário, plano de carreira e controle popular sobre os preços, frota e roteiros. A privatização já demonstrou que é um fracasso. Mas lembro que a mobilidade vai além do transporte coletivo”

 

JLPolítica - Qual é o modelo que o senhor vislumbra para esta área? 

Alexis Pedrão - Nossa proposta é criar uma empresa pública de transporte municipal, assim como tem a Emsurb, Emurb. Criar a EPMT. Com concurso para rodoviário, plano de carreira e controle popular sobre os preços, frota e roteiros. A privatização já demonstrou que é um fracasso. Mas lembro que a mobilidade vai além do transporte coletivo e precisamos discutir os trabalhadores de aplicativo, taxistas, alternativos e priorizar a bicicleta e o diálogo com todas essas categorias.

 

JLPolítica - Por falar em modelo, qual seria o seu de participação popular no Governo? 

Alexis Pedrão - Queremos eleição de secretários, com votação do plano de gestão de cada pasta, descentralizar a gestão a partir de subprefeituras, realizar um congresso da cidade para discutir o plano diretor e o orçamento, cumprir o artigo 52 da lei orgânica que determina o funcionamento do Conselho Municipal Popular, e criar conselhos populares nos bairros, aprofundar a transparência no município. Acreditamos que a questão da participação popular é um dos grandes diferenciais da nossa candidatura.

 

JLPolítica - O senhor mudaria em que a fórmula de conceber e aplicar o orçamento da cidade? 

Alexis Pedrão - Com o orçamento atual de Aracaju dá para fazer muito. Mesmo depois da pandemia, a expectativa de queda para 2021 é pequena. O valor estimado dele é R$ 2,4 bilhões. Dinheiro tem, o problema é como investimos ele. A atual gestão, devido a sua política de empréstimos, grandes contratos com empresas de terceirização e serviços e diminuição de impostos para grandes empresários, retira grande parte do orçamento da cidade que poderia ser revertido para os direitos sociais. Somente em 2018 e 2019, para pagamento de juros e amortização da dívida foram mais de R$ 30 milhões. Agora com a privatização da iluminação pública vão ser retirados milhões anualmente, com contrato previsto para durar mais de uma década. A mesma coisa com o financiamento atual do Banco Interamericano para retomada da economia. A Prefeitura e a Câmara subserviente endividam o município, pensando no hoje, sem nenhum planejamento, para o amanhã. É preciso inverter essa lógica. Nosso dinheiro não pode ir para os bancos e os grandes empresários. Tem que ir para o povo.

Um instante peladinha entre amigos, porque ninguém é de ferro e a revolução socialista pode esperar um pouco mais

NA ANATOMIA DIFERENCIADA DA ESQUERDA

“A esquerda consegue se unir sim. Em várias cidades pelo país, isso está sendo possível. Mas a esquerda é diversa, não é algo uniforme. Tem gente de esquerda que aceita fazer aliança com Belivaldo e com Laércio Oliveira, como é o caso do PT em Sergipe no Governo do Estado. Tem uma esquerda que diz até hoje que não teve golpe no Brasil”

JLPolítica – Por que vocês da esquerda não conseguem uma unidade mínima em questões eleitorais? 

Alexis Pedrão – A esquerda consegue se unir sim. Em várias cidades pelo país, isso está sendo possível. Mas a esquerda é diversa, não é algo uniforme. Tem gente de esquerda que aceita fazer aliança com Belivaldo e com Laércio Oliveira, como é o caso do PT em Sergipe no Governo do Estado. Tem uma esquerda que diz até hoje que não teve golpe no Brasil e que Temer era a mesma coisa que Dilma, como é o exemplo do PSTU. Então há várias “esquerdas”. O melhor é que estejamos juntos, mas as diferenças táticas por vezes impedem essa união. Eu lamento muito tudo isso. Não estou satisfeito com a divisão da esquerda. É preciso focar mais no que nos unifica e menos no que nos divide, sem perder a coerência.

 

JLPolítica – O senhor não acha que se negligencia a visão de meio ambiente em Aracaju, e isso não estaria ligado ao fato de ter um território muito pequeno? 

Alexis Pedrão – Acredito que a falta de respeito com o meio ambiente em Aracaju e em Sergipe tem a ver com a submissão completa dos políticos ao poder econômico das construtoras e dos grandes empreendimentos. O bairro em que moro, a Coroa do Meio, não existia quando meu pai era criança. O bairro Jardins não existia quando eu era criança. Tudo está sento aterrado. Agora é a Jabutiana, a zona norte e a zona de expansão. Vamos deixar que a especulação imobiliária faça o que quiser na cidade? Levante prédios na beira da praia prejudicando ainda mais o clima da cidade e destrua nossa vegetação? Até quando vamos aguentar as enchentes e as denúncias dos contratos na limpeza urbana? A devastação do meio ambiente tem muito mais a ver com a falta de freio que o poder econômico tem na cidade do que com o tamanho do território.

 

JLPolítica – Até que ponto a segurança pública é demanda que resvala para a esfera municipal? 

Alexis Pedrão – A segurança pública é tema das três esferas - União, Estados e Municípios. O trabalho precisa ser articulado. Precisamos ver a Guarda Municipal como funcionário público que tem passado dificuldades na atual gestão, mas também é preciso se posicionar junto com as comunidades, que tem denunciando a violência da polícia e da guarda. Queremos uma guarda municipal que seja parceira da comunidade. Hoje muitas crianças e jovens têm medo quando veem a polícia ou a guarda, por conta do baculejo, das abordagens e do medo de ser morto, mesmo sendo inocente. Um bom começo é a construção de um plano de segurança municipal com a população nos bairros. A Guarda Municipal institucionalmente deve ser vista a partir de uma função civil, preventiva e comunitária de controle da conflitualidade e violência criminal com incentivo à ampla integração dos profissionais da guarda com demais profissionais civis - assistentes sociais, psicólogos, etc. A GM devem ser considerada uma corporação civil de funcionários públicos, cujos dirigentes devem ser eleitos pela tropa. Por fim, vale reforçar o trabalho preventivo “Anjo Azul” e a “Patrulha Maria da Penha” com treinamento da GM para prevenir casos de violência doméstica.

Em evento em defesa da Petrobras, por quem Alexis tanto lamenta o fim em Sergipe agora sob Bolsonaro

DO GRITO DE INDIGNAÇÃO E DE ESPERANÇA

“Tenho dito em todo o espaço que essa candidatura é um grito de indignação com tudo que nosso povo vem sofrendo, mas também um grito de esperança. Somos a única candidatura que se coloca de maneira firme contra Bolsonaro, que não tem rabo preso com nenhum governo, muito menos grandes empresários, e por isso tem disposição de enfrentar o poder econômico”

JLPolítica – Dá para administrar uma comunidade do tamanho da de Aracaju de costas para as questões raciais e de gênero? 

Alexis Pedrão – Não. Por isso também Edvaldo está tão desgastado. Como dizer que valoriza as mulheres, se não tem uma política de emprego e renda específica para elas? Com quem as mães e pais, principalmente as famílias negras na periferia, vão deixar seus filhos para trabalhar se não tem creche? Não há uma política permanente de combate ao racismo e ao machismo na educação como percebemos na ausência da diversidade étnico racial e de gênero nos currículos escolares, entre tantos exemplos. A juventude negra quer viver. As mulheres e a população LGBT querem viver também. Todos e todas querem respeito. Precisamos valorizar a diversidade e não excluí-la. Pessoas que não sofrem essa discriminação não entendem muitas vezes, mas ela existe e é muito sério. Acreditamos que temos aliados, mas o melhor mesmo é que quem sente na pele o preconceito tem um olhar mais atento para essas questões. Por isso termos negros e negras, mulheres, LGBT’s, a frente da gestão da prefeitura com uma agenda comprometida com a valorização da diferença e a inclusão fazem toda a diferença. Tivemos diversos casos em Aracaju nos últimos anos em que lideranças religiosas do candomblé, cadeirantes, trabalhadores informais foram humilhados e violentados pela gestão municipal. É preciso mudar essa situação de uma vez por todas.

 

JLPolítica – Por que o senhor acha que merece o voto do aracajuano para prefeito? 

Alexis Pedrão – Tenho dito em todo o espaço que essa candidatura é um grito de indignação com tudo que nosso povo vem sofrendo, mas também um grito de esperança. Somos a única candidatura que se coloca de maneira firme contra Bolsonaro, que não tem rabo preso com nenhum governo, muito menos grandes empresários, e por isso tem disposição de enfrentar o poder econômico, e que acredita na mobilização e na participação popular para transformar Aracaju. É um voto de quem acredita que pode ser parte da mudança e não apenas um espectador. É um projeto que representa a maioria, o operário da construção civil, a empregada doméstica, servidor público, desempregado, trabalhador informal, entregador de aplicativo, pequeno comerciante, microempreendedor, profissional liberal, artista, professora, gari, margarida, etc.

 

JLPolítica – Por que o senhor e o seu partido são tão reagentes à figura do presidente Jair Bolsonaro e às suas políticas públicas? 

Alexis Pedrão – Como vamos respeitar alguém que é contra o Nordeste? Como respeitar quem deixou a pandemia descontrolada no país, afirmando que era apenas uma “gripezinha” e hoje temos mais de 150 mil mortos no país? Como ter qualquer acordo com quem incentiva as queimadas do nosso ecossistema e agora quer cortar a renda emergencial? Como apoiar a um governo que diz que racismo não existe ou é coisa rara? Que pretende privatizar os correios e os bancos públicos? Que fechou a Petrobras em Sergipe, causando o desemprego de milhares de operários e prejudicando a economia? Como não se indignar com um governo corrupto, que não explica o laranjal do Queiroz e um governo autoritário, que reivindica a ditadura civil-militar e persegue opositores? É uma questão de sobrevivência ser contra o governo Bolsonaro. Estranho seria se essa não fosse a nossa posição.

 

Nos calçadões de Aracaju, ano passado, em manifesto contra a denúncia de espancamento ao menino John por falta de dinheiro para pagar passagem de ônibus