Bruno Dórea: “30% do setor de bares e restaurantes faliram, desistiram ou fecharam”

Entrevista

Jozailto Lima

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Bruno Dórea: “30% do setor de bares e restaurantes faliram, desistiram ou fecharam”

20 de agosto de 2021
“Só queremos trabalhar como todos os setores, com segurança e protocolos”

Imagine ser empresário do segmento de bares e restaurantes em tempos de pandemia. Agora imagine presidir a associação que representa o setor nesse mesmo período, tendo que ser o elo da categoria com o setor público e, ao mesmo tempo, gerir seu próprio negócio.

É o que tem enfrentado Bruno Dórea Lemos, presidente da Associação de Bares e Restaurantes de Sergipe - Abrasel/SE -, setor que vive um período exatamente difícil que impacta não somente aos empresários do ramo, mas a toda a economia local.

“É um efeito dominó, além dos transtornos financeiros do empresário, colaboradores e suas famílias que dependem diretamente desse emprego, afeta, também, fornecedores e dezenas de empregos indiretos”, lamenta Bruno.

Atualmente, bares e restaurantes têm as maiores medidas restritivas. “Ainda temos o toque de recolher à meia noite, que nos permite funcionar até as 23h nos melhores dias. Ou seja, às 22:30 temos que começar a distribuir as contas e encerrar nosso serviços, mesmo com os números da Covid-19 quase zerados”, critica.

Congresso da Abrasel junto a outros presidentes e diretores do IFood
Recebendo o título de cidadão sergipano junto à família

Nesta Entrevista, ele também fala sobre o legado que a pandemia deixará no segmento, que teve que se reinventar, seja através do delivery ou da tecnologia; e também das expectativas para o pós-pandemia, além do que tem feito à frente da entidade mesmo com as dificuldades do período. “

Temos esperança de que o ano de 2022 esteja livre da pandemia e por esta razão iremos conseguir executar o nosso planejamento”. 

Bruno Dórea Lemos nasceu em Ilhéus, na Bahia, em 1º de janeiro de 1981. É filho de Cid Bathomarco Lemos e Lúcia Margarida Passos Dórea, casado com a biomédica Fernanda Dórea, com quem tem dois filhos: Lucas, de 10 anos; e Bruno Filho, de 7.

Também tem formação acadêmica em Biomedicina desde 2004 pela Universidade Tiradentes e especialização em Gestão e Saúde Pública. Mas atua como empresário há muitos anos - atualmente com o Restaurante Seo Inácio e a Inpizza, com os quais gera aproximadamente 40 empregos diretos.

Bruno Dórea está há cerca de um ano à frente da Abrasel, e já foi presidente do Polo Gastronômico de Sergipe, além de exercer a função de coordenador da Câmara de Turismo da Fecomércio/SE. Confira a Entrevista exclusiva. 

Evento Brasil Sabor 2014 com a equipe do Seo Inácio
RETOMADA DO SETOR
“No cenário de hoje, estamos retornando o faturamento, porém, agora encaramos um aumento generalizado de preços que não conseguimos repassar de imediato. O mercado está muito volátil, mas com certeza o melhor remédio é nos deixar trabalhar com segurança”


JLPolítica - Para o senhor, o que essencialmente restaria para que viessem melhores dias para o funcionamento dos segmentos defendidos pela Abrasel em Sergipe?
Bruno Dórea -
Acredito que o necessário retorno das nossas atividades nos seus horários habituais sem limitação de ocupação.

JLPolítica - A que tipo de restrições sua área estaria submetida ainda hoje?
BD -
Ainda temos o toque de recolher à meia noite, que nos permite funcionar até as 23h nos melhores dias. Ou seja, às 22:30 temos que começar a distribuir as contas e encerrar nosso serviços, mesmo com os números da Covid-19 quase zerados. Portanto, só queremos trabalhar como todos os setores, com segurança e protocolos. 

JLPolítica - A fragilidade econômica do setor a que o senhor se refere pode tolerar mais até quando?
BD -
No cenário de hoje, estamos retornando o faturamento, porém, agora encaramos um aumento generalizado de preços que não conseguimos repassar de imediato. O mercado está muito volátil, mas com certeza o melhor remédio é nos deixar trabalhar com segurança. 

Bruno e o pai, Cid Bathomarco Lemos
DAS RESTRIÇÕES DA PANDEMIA
“Às 22:30 temos que começar a distribuir as contas e encerrar nosso serviços, mesmo com os números da Covid-19 quase zerados. Portanto, só queremos trabalhar como todos os setores, com segurança e protocolos”


JLPolítica - Neste período de pandemia, os senhores conseguiram ser vozes ouvidas pelos agentes públicos sergipanos ou não o foram à altura do que esperavam?
BD - 
Apesar de termos sido convidados para algumas reuniões e entendermos que é muito difícil pensar e tomar decisões para todos os setores de uma mesma sociedade, não fomos atendidos à altura do que esperávamos.

JLPolítica - Por que Sergipe reluta tanto em abrir mais esse setor?
BD - 
Esse é justamente o ponto que não entendemos, afinal de contas Sergipe sempre esteve entre os Estados de maiores restrições para o nosso setor.

JLPolítica - Qual é o Estado brasileiro exemplar na reabertura?
BD - 
Tivemos vários Estados que não só que se destacaram nas restrições como nos benefícios para a retomada da economia do setor. Entre eles, Rio de Janeiro, sem restrições há uns dois meses; e, recentemente, Rio Grande do Norte, que criou um programa de turismo através do fundo de Nota Fiscal estadual, doando um milhão de reais em vouchers que serão usados em bares e restaurantes que responderem ao chamamento público. E esta semana, São Paulo, que está sem nenhuma restrição.

Bruno e a esposa Fernanda nas olimpíadas do Rio
EXEMPLOS NO RETORNO
“Tivemos vários Estados que não só que se destacaram nas restrições como nos benefícios para a retomada da economia do setor. Entre eles, Rio de Janeiro, sem restrições há uns dois meses; e, recentemente, Rio Grande do Norte”


JLPolítica - A Abrasel consegue medir o grau de falência nestes 18 meses de pandemia?
BD -
Olha, por média, 30% do setor de bares e restaurantes faliram, desistiram ou fecharam. Mas, com certeza, 100% do setor está muito abalado economicamente.

 JLPolítica - Qual é o perfil do empreendedor no setor de bares, restaurantes e afins em Sergipe?
BD - 
Nós temos variedades de perfis no nosso setor, que é muito eclético, e o mercado também mudou muito nos últimos cinco anos. Hoje em dia, temos empresários mais jovens e especializados, e não existe mais segredo de receita, devido ao mundo digital que temos hoje, acompanhando cada vez mais a exigência do mercado.  Acredito que uma pitada de associativismo no empresariado sergipano pode alavancar o setor.

JLPolítica - Do ponto de vista de capital de giro e de capital de expertise, o setor estaria bem servido?
BD - 
Foram criados diversos benefícios financeiros pelo Governo Federal que ajudaram a manter as empresas vivas, contudo, acreditamos que o maior problema atual é acompanhar o aumento continuado da nossa matéria-prima que não conseguimos repassar na mesma proporção. Quanto à questão de expertise, temos excelentes empresários que estão a cada dia mais unidos e empenhados em fomentar o setor gastronômico local. Atitude essa que mostra uma maturidade empresarial.

Aqui, com os filhos Lucas e Bruninho
CRISE NO SEGMENTO
“Por média, 30% do setor de bares e restaurantes faliram, desistiram ou fecharam. Mas, com certeza, 100% do setor está muito abalado economicamente”


JLPolítica - Que garantias o setor  de bares e restaurantes pode dar a Governos e a comunidade de que estaria apto a abrir-se mais?
BD - 
O nosso setor já é acostumado a trabalhar no seu dia a dia respeitando as normas  da vigilância sanitária, inclusive, a Abrasel foi quem criou os protocolos de reabertura do mercado pós-pandemia. Vale lembrar que somos defensores das fiscalizações e solicitamos à população que frequentem lugares que obedeçam os protocolos sanitários.

JLPolítica - Que horizontes há para um setor que expulse clientes?
BD -
É vexatório levar as contas aos clientes nos principais dias de movimento sem que haja pedido.  E, torna-se complicado para quem está trabalhando ter que expulsar os clientes em um momento de tanta necessidade econômica para nossas empresas.

JLPolítica - Quando um bar ou restaurante vai à falência, fecha as portas, o que mais se abala ao redor dele?
BD - 
É um efeito dominó, além dos transtornos financeiros do empresário, colaboradores e suas famílias que dependem diretamente desse emprego, afeta, também, fornecedores e dezenas de empregos indiretos, como por exemplo, o vendedor de amendoim e, ou, o guardador de carros.

Irmãos do coração Igor Rocha e Diego Mascarenhas
COMPOSIÇÃO DO MERCADO 
“Hoje em dia, temos empresários mais jovens e especializados, e não existe mais segredo de receita, devido ao mundo digital que temos hoje, acompanhando cada vez mais a exigência do mercado”


JLPolítica - Qual seria o parâmetro para um retorno integral do setor?
BD -
Precisamos da compreensão do Governo do Estado para definir esses números , já que ficou demonstrado de que não existe interferência deles no nosso setor.

JLPolítica - O modo como o Estado faz, ou promove, a atividade turística em Sergipe convence a Abrasel, ou a ela isso deixa a desejar?
BD - 
O momento não é o ideal para se fazer esta avaliação por causa da pandemia, devido se tratar de uma calamidade mundial.

JLPolítica – Na prática, o que sua gestão de um ano à frente da Abrasel pôde fazer, ou nada pôde mediante a pandemia?
BD -  
Procuramos dar continuidade ao trabalho do nosso antecessor Augusto Carvalho, buscando alternativas junto à Abrasel nacional para enfrentarmos essa pandemia, e é o que fazemos no dia a dia. Várias foram as ações feitas com o objetivo de minimizar os efeitos da pandemia, como por exemplo, o curso virtual de aperfeiçoamento de delivery junto ao Sebrae e vários festivais gastronômicos.  Lembrando que não é um trabalho só do presidente e sim de toda uma equipe que forma o Conselho Administrativo da Abrasel.  E não podemos esquecer a memória de João Ricardo, nosso amigo e Conselheiro, que sempre nos ajudou a seguir o caminho que estamos hoje.

Almoço no restaurante dele, o Seo Inácio, com os amigos Pedro Fonsceca, Bruno Super, Andre Vilela e Thiaguinho
BENEFÍCIOS E DESAFIOS
“Foram criados diversos benefícios financeiros pelo Governo Federal que ajudaram a manter as empresas vivas, contudo, acreditamos que o maior problema atual é acompanhar o aumento continuado da nossa matéria-prima”


JLPolítica - O senhor não acha que o universo representativo da Abrasel poderia ir além do horizonte de bares e restaurantes?
BD - 
Sim. Fazemos parte da cadeia do turismo e somos peças fundamentais para a manutenção da cultura local, informações e diversões turísticas, além de nossa diversidade gastronômica.

JLPolítica - Qual é o grande Calcanhar de Aquiles no relacionamento com os empreendedores da área? Eles são gregários ou dispersos?
BD - 
Essa avaliação eu não posso fazer devido ao delicado momento. A pandemia afetou a todos economica e psicologicamente também. Estamos tentando cada vez mais agregar o nosso segmento com novos associados, enfim, queremos fazer a Abrasel/SE cada vez mais forte, e isso só pode ocorrer com a união de todos.

JLPolítica - Quantos são hoje os associados da entidade no Estado?
BD - 
Em torno de 60 empresas.

35 anos da Abrasel com os conselheiros Bruno Prado e Fernando Martins; o presidente da Abrasel Nacional Nonaka e o Presidente Excecutivo da Abrasel, Paulo Solmucci
EFEITO DOMINÓ
“Além dos transtornos financeiros do empresário, colaboradores e suas famílias que dependem diretamente desse emprego, afeta, também, fornecedores e dezenas de empregos indiretos”


JLPolítica - Qual é o horizonte do setor que se anuncia para 2022? O que aponta o planejamento futuro da Abrasel?
BD - 
Temos esperança de que o ano de 2022 esteja livre da pandemia e por esta razão iremos conseguir executar o nosso planejamento, que vai desde o aperfeiçoamento empresarial e fortalecimento da instituição, sem esquecer dos nossos festivais gastronômicos, a parte mais saborosa do planejamento.

JLPolítica - Do ponto de vista gastronômico, o que no setor de bares e restaurantes simboliza Aracaju?
BD - 
Aracaju se destaca por elementos gastronômicos, temos, por exemplo, o aratu, a mangaba, o amendoim, o caranguejo e sua vasta variedade marítima.

JLPolítica - Qual foi o maior dilema para garçons e outros trabalhadores dessa área durante a pandemia?
BD - 
A certeza do desemprego, afinal  de contas,  serviços como o de atendimento ao público foram a parte mais atingida do nosso setor.

Com o amigos vereador Byron e Gustavo Paixão, diretor da Abrape
DA GESTÃO DA ABRASEL
“Procuramos dar continuidade ao trabalho do nosso antecessor Augusto Carvalho, buscando alternativas junto à Abrasel nacional para enfrentarmos essa pandemia, e é o que fazemos no dia a dia”


JLPolítica - Mas os planos de fomento financeiro do Governo Federal anunciados nesses 18 meses chegaram de fato ao setor de bares e restaurantes ou não foram suficientes?
BD - 
Foram fundamentais para a sobrevivência das nossas empresas.

JLPolítica - A pandemia vai deixar algo positivo para o setor?
Bruno Dórea -
Tem, sim, algo positivo. Muitos refizeram suas contas e enxugaram suas empresas, como também houve uma melhora no delivery, que sofreu uma evolução nítida e deve continuar. Além disso, ganhamos muito em tecnologia, como cardápio digital, atendimento automatizado e diversas plataformas para nosso dia a dia, tanto para venda quanto para a administração.

Posse de Bruno na Coordenação da Câmara de Turismo da Fecomércio
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