Dr. Émerson: “Sergipe precisa ser governado de fora da caixa da tradição”

Entrevista

Jozailto Lima

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Dr. Émerson: “Sergipe precisa ser governado de fora da caixa da tradição”

Publicado 22 de julho 20h00 - 2017

Émerson Ferreira da Costa, 64 anos, médico dermatologista bem-sucedido, conseguiu se notabilizar no terreno da política de Sergipe por defender ideias e propostas programáticas em oposição às pragmáticas.

Já foi a algum lugar: presidiu diversas entidades de classe ligada à Medicina, obteve dois mandatos de vereador da capital – em 2008 e 2012 – e no ano passado bateu duro ao chegar empatadíssimo com o tiranossauro da política estadual João Alves na disputa pela Prefeitura da Capital.

Usando apenas o nome de Dr Émerson, numa evocação à sua profissão, ele teve 9,01% dos votos válidos de Aracaju, com 23.190, ficando somente 2.525 atrás de João Alves, com seus 25.715, ou 9,99% dos válidos.

Dr Émerson é ótimo leitor de política. Ele a lê por trás do pragmatismo que rege a maioria dos seus colegas de atividade. Prefere, portanto, o “programatismo”.

 

Émerson Ferreira da Costa, 64 anos, médico dermatologista bem-sucedido

JLPolítica – O que futuro reserva para o Rede em Sergipe?
Dr. Émerson – Todos nós hoje que constituímos a Rede trabalhamos no sentido de que sejamos uma alternativa para Sergipe. Mas uma alternativa que não seja mais do mesmo, não é. Esse é o cuidado, é o zelo que nós temos nessa construção. Creio que o povo não merece o mais do mesmo. O povo já está saturado, em função da crise da democracia representativa que existe em nosso país falido. Nós temos que ir pra democracia participativa, e temos que ser um instrumento dessa mudança. Então é nesse sentido que a gente vê o futuro da Rede.

JLPolítica – É isto que o senhor chama pensar fora da caixa. E no aspecto fora da caixa, o que que predicam o programa e a mente dos que fazem a Rede? Qual é o diferencial dele?
DE – A Rede Sustentabilidade começa como movimento sustentabilidade e em fevereiro de 2013 é que resolvem transforma em Rede e começa a coleta de assinaturas. E houve uma felicidade muito grande dessa construção inicial da Rede, que foi a construção do seu estatuto. Quais são os problemas da democracia representativa, particularmente, os dos partidos políticos?

JLPolítica – Sim, quais são?  
DE – Em primeiro lugar, se verificou que os partidos brasileiros não são democratizados. Eles se caracterizam, nessa falta de democracia, por terem donos, e esses donos se perpetuam nos cargos até muitas vezes relembrando ou mantendo aquela história que vem desde a nossa colonização. Esses partidos nos colocam nesse período neocolonial, ou seja, são as capitanias hereditárias de cada partido, e é assim que eles se conduzem. O que é que a Rede fez para resolver esse problema? Primeiro, nela não tem a figura de presidente.

REDE
"Todos nós hoje que constituímos a Rede trabalhamos no sentido de que sejamos uma alternativa para Sergipe. Mas uma alternativa que não seja mais do mesmo. Esse é o cuidado, é o zelo que nós temos nessa construção"

 

JLPolítica – Tem-se o que? 
DE – Temos coordenadores. Cada coordenação é ocupada por dois membros, e isso já descentraliza o poder, ponto. Depois, a Rede diz, “olha, aqui as coisas vão ser resolvidas por consenso progressivo”. Tudo que nós decidimos até hoje o foi por esse consenso. A gente parte das diferenças, discute, discute, discute e a chega a uma decisão. E, avançando mais ainda naqueles problemas, temos agora a questão da renovação em função das capitanias hereditárias. Como que a Rede resolveu isso? Ninguém nele – nem cargo de direção partidária, nem cargo eletivo, de vereador, de deputado, de senador, de governador – pode assumir o mesmo cargo mais de duas vezes.

JLPolítica – E isso é inovador?
DE – Creio que sim, e daí que eu falo da felicidade do estatuto. Quais são os problemas? Como é que a gente resolve? Essa foi receita: a Rede permite a militância autoral, mas deixa em aberto um convite através das candidaturas cívicas independentes ao cidadão ou cidadã que tem uma atuação em determinada área, que é princípio, valor e cláusula pétrea da Rede, porque na Rede ninguém se filia sem ter discutido essas cláusulas pétreas do estatuto em cima desses princípios e valores. A Rede avança e diz: aceitamos candidaturas cívica e independente.

 

Obteve dois mandatos de vereador da capital – em 2008 e 2012

JLPolítica – Mas candidata-se sem se filiar? 
DE – O cidadão que tenha um histórico de envolvimento com essas cláusulas pétreas e que diga “eu não quero me filiar a partido nenhum”, mas chega num momento de eleição dentro do período de filiação legal e manifesta “eu gostaria de disputar”, a Rede discute e, se ficar certo de que ele tem um histórico que seja de acordo com aquilo que o partido defende, cede-se a possibilidade a filiação. Tá no estatuto: 30% das vagas para cargos eletivos são reservados para candidatura cívica independente.

JLPolítica – E que acontece depois?
DE – Essa pessoa vem e, se ganhar a eleição, não terá as mesmas obrigações para com o partido que um filiado teria. Agora, claro, se ele não cumpre [com esses valores e princípios], na próxima eleição não será cedido esse espaço para que ele se candidate. Por que é que é diferente do que é filiado? Todo candidato na Rede assina um documento que entende que o mandato é do partido. E isso dá um instrumento de que a gente questione, na justiça eleitoral, parlamentares da Rede que não cumpram os princípios. Esse é um outro diferencial. Mensalmente, temos reunião aqui com parlamentares da Rede. O partido dialoga permanentemente com a assessoria e com os sete vereadores na condução desses mandatos.

JLPolítica – O senhor fala em consenso coletivo. O senhor acha que há dissenso em torno da sua condição, entre aspas, de mando no partido? 
DE – Essa história de mando aqui não existe. A gente está fora da caixinha e na Rede é tudo por consenso progressivo. Quando se criou a Rede, eu era vereador e aí sempre que a impressa ia me entrevistar e dizia “o presidente da Rede”, porque imaginavam que “tem que ter um quem mande”, eu dizia que na Rede não existe isso. Pelo próprio nome Rede, nas nossas reuniões trabalhamos em círculos. A sociedade é plural e essa diversidade é contemplada na constituição do partido, que é composto por entre 70% e 80% de pessoas com menos de 40 anos. É um partido da juventude. Nesta mesma proporção, jamais foram filiados a qualquer partido político.

PARTIDOS 
"Os partidos brasileiros não são democratizados. Eles se caracterizam, nessa falta de democracia, por terem donos, e esses donos se perpetuam nos cargos até muitas vezes relembrando ou mantendo aquela história que vem desde a nossa colonização"

JLPolítica – Mas há discordância do senhor. Há um rapaz de Lagarto e um de Aracaju que dizem que o senhor age no partido como dono, como se tem no PT, como se tem no DEM… 
DE – É bom que a gente saiba que há pessoas que falam isso, que alguns pensam assim. Porque, internamente, a história é outra. Eu não exercia nenhum cargo de coordenação desde que a Rede foi criada e enquanto fui vereador, porque o estatuto proíbe. Ninguém com mandato pode assumir direção. Segundo, no caso da Rede, nós fazemos essa discussão em rede, e como disse, chegamos por consenso progressivo. Escolhemos uma direção estadual por consenso. Na primeira escolha, eu nem estava nem lá. Tivemos a eleição do Diretório Municipal, por consenso. Quando agora saímos do provisório para o permanente, o foi por consenso. Todas as decisões – quando fazemos escolhas de candidato a prefeito, a vice -, são por discussões e consenso. Esse consenso não é a decisão de um só. É de todo colegiado que está ali presente e, se é consenso, já contradiz o que você está falando, na teoria. Agora, você sabe que num grupo existem pessoas que convencem a dois e existem pessoas que convencem a dez.

JLPolítica – Qual o planejamento do partido para 2018? Vai candidato próprio, ele vai se coligar com alguém? O que é que está no horizonte do Rede?
DE – Primeiro, de modo bastante assertivo e bem impositivo, a Rede estará nas disputas no processo de 2018. A questão das coligações, a gente depende do que a reforma política decida – se vai tê-las ou não. Os partidos se organizam em diretórios. A Rede tem os congressos, o elo e os diretórios. Congresso, elo e consulta a filiados são os órgãos que estabelecem as diretrizes. Quando o partido faz um congresso, diz “ó, nesses próximos anos nós vamos caminhar desse jeito”. Agora, quem é que faz caminhar no dia a dia? Os diretórios. Aí, além do congresso, cria-se a figura dos elos, que são superiores aos diretórios.

É totalmente contra os chamados financiamentos de campanha

JLPolítica – E o que o plano nacional prefixou para o próximo ano?
DE – O elo nacional estabeleceu que a Rede tem de constituir, nos Estados, grupos de trabalho de eleições. Grupos sem caráter deliberativo, porque essa deliberação é da convenção eleitoral. Eles são consultivos, e vão oferecer ao partido – e isto já está sendo feito, já está sendo trabalhado – um programa de governo construído em Rede, dialogando permanentemente com a sociedade. A gente não vai fazer cópia e colar para entregar um documento à Justiça Eleitoral. Vai fazer um programa de governo e oferecer ao partido uma estratégia eleitoral em função da legislação, do que discutiu, do que viu. Temos grupos de economista e de estatísticos analisando a realidade, os dados aqui de Sergipe, para que a gente, ao final, tenha o programa, tenha a estratégia, e ofereça uma lista dos possíveis candidatos. Aí a gente vai sentar pra dizer: “nós vamos à feira e decidir o que vai buscar na feira”.

JLPolítica – De modo que esse grupo de trabalho de eleições não pode dizer hoje qual é o norte de vocês em 2018? Se se aliam, se saem com candidato, não tem como prever isso agora?
DE – Muito provavelmente nós vamos ter candidato a governador, candidato a senador. A tudo. Se vamos ser sozinhos ou vamos estar coligados, tem de passar pela legislação e ser conversado.

JLPolítica – Olhando sob o ponto de vista macro, o que é que Sergipe precisa pra ser um Estado diferente, pra ser um estado fora da caixa, do ponto de vista das políticas públicas?
DE – Primeiro, Sergipe precisa ser governado de fora da caixa da tradição. E Sergipe tem tudo, na sua dimensão, pra ser, vamos dizer assim, um estado-piloto, de exemplo de boas práticas de políticas públicas para o Brasil. Precisa ser referência.

REDE 2018
"Primeiro, de modo bastante assertivo e bem impositivo, a Rede estará nas disputas no processo de 2018. A questão das coligações, a gente depende do que a reforma política decida - se vai tê-las ou não"

JLPolítica – Parece-me que ficou aberta a questão de o é que preciso ser feito para tirar Sergipe da caixa. O senhor fez inúmeras críticas a condutas. Está lhe sendo consultado que, uma vez candidato e, quiçá governador, o que o senhor e a Rede fariam para dotar Sergipe de práticas diferentes?
DE – Vou lhe dizer. Primeiro, fui mostrar os problemas. Eu já lhe disse que nós vamos fazer um programa de governo ouvindo a população, pessoas com expertise. Nós fomos montar esse programa de governo para prefeito, por exemplo. Precisamos de governança e transparência. Esse é o primeiro problema que nós precisamos ter na administração pública. Transparência é fundamental – precisamos nas gestões públicas, seja ela onde for. O Brasil precisa de uma lei pra dizer que o gestor é servidor público da população e que precisa prestar contas.

JLPolítica – O que é esse “tem tudo” de Sergipe? Deriva de onde essa sua visão?
DE – Refiro-me ao fato de ser um Estado pequeno, que vem sendo pouco trabalhado e, mesmo assim, com toda a dificuldade, mantém a segunda ou terceira renda per capita do Norte-Nordeste. Então, tem todo uma condição prévia, os pré-requisitos ainda são favoráveis. Agora, a gente precisa tirar a política para fora da caixa. Sergipe vivencia uma crise financeira como os demais estados brasileiros. Se nós não tirarmos o Estado, a sua representação política, para fora da caixa, teremos enorme dificuldade para resolver e encaminhar melhor esses problemas. Então, o que é que caracteriza a representação política em Sergipe? Peguemos os últimos 30 anos e vamos ter aí quatro ou cinco pessoas que se alternam no poder, tanto na capital quanto no Estado. Eu costumo dizer que essas pessoas participam da dança das cadeiras, com as quatro ou cinco pessoas e disputando duas cadeiras.

Teve 9,01% dos votos válidos de Aracaju, com 23.190, na eleição para prefeito ano passado

JLPolítica – Mas não é a sociedade que decide?
DE – A população fica de fora, não é convidada pra ter a chance de participar dessas cadeiras. Então, essas pessoas disputam entre elas e uma delas vai ocupar. Aí essas pessoas tropeçam nos mesmos vícios. Como é que se faz política dentro da caixinha? Começa pelo financiamento de campanhas. Se faz campanhas caríssimas, como infelizmente acontece no Brasil inteiro, porque elas se sustentam na compra de votos e na compra de lideranças. E está provado: hoje no Brasil até o caixa um é ilegal.

JLPolítica – Por que?
DE – O é porque ele entra na prestação de contas da candidatura, mas muitas vezes já é dinheiro que já vem do esquema de corrupção, de superfaturamento, de propina. De uma série de coisas inidôneas. Então, na nossa política, até o caixa um é ilegal. E é muito dinheiro, porque precisam comprar voto e precisam comprar a consciência das pessoas. Eu me lembro que Dom Mauro Morelli me disse uma vez, há muitos anos, que os políticos brasileiros são verdadeiros ladrões de consciência, porque eles roubam a consciência das pessoas nesse processo de alienação a que eles as submetem. É o poder econômico que define. O vício de todos eles é o das campanhas muito caras e, às vezes, financiadas pelos mesmos grupos. Este é o caso. Por isso que depois tem que prestar contas. Não tem almoço de graça.

PROGRAMA
"Temos grupos de economista e de estatísticos analisando a realidade, os dados aqui de Sergipe, para que a gente, ao final, tenha o programa, tenha a estratégia, e ofereça uma lista dos possíveis candidatos"

JLPolítica – Mas seria somente este o vício? 
DE – Não. Vem o outro vício: veja que todo mundo já esteve com todo mundo aí. Nesse cenário, as coligações são pragmáticas. Não são programáticas. Então, essas coligações se dão em cima de que? De um “que parte do governo você me dá, que secretaria você me dá, quantos cargos comissionados, e tal, terei”. E aí vem um terceiro vício crônico que está por detrás da ineficácia e da ineficiência desses governos, que é toma-lá e dá-cá com o legislativo. O princípio é: eu tenho que ter maioria, e nessa maioria eu vou lotear a outra parcela. E isso vai resultar em que? Primeiro, no retorno financeiro daqueles financiadores, e isso é ponto um. Ponto dois: num inchaço da máquina pública. Onde precisa-se de cinco, têm-se 50. Tem uma porção de gente que não vai trabalhar.

JLPolítica – Qual a gravidade disso?
DE – Isso compromete uma parcela significativa do orçamento. Então sobra pouco para o efetivo investimento. São esses os vícios, e é preciso que a gente faça uma política fora desse cenário. Como é que a gente vai fazer a política fora desse cenário? Primeiro, rejeitando financiamento. Está muito claro que não tem necessidade disso. Na minha eleição para prefeito do ano passado, foram gastos em dinheiro R$ 53 mil, e em doação estimada, R$ 40 mil. Das eleições que eu fiz para vereador, gastei R$ 8 mil numa e em outra, R$ 30 e poucos mil.

De tão pragmático, ele se embola e se perde num cipoal de teorias que afasta uma interlocução mais direta com as pessoas
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