Entrevista

Jozailto Lima

Compartilhar

Edson Ulisses de Melo: “O Judiciário é o Poder mais transparente da República”

6 de março de 2020
“O CNJ visualiza o Judiciário sergipano como célere e produtivo”

Uma visão serena, e sem arroubos, da importância do Poder Judiciário. Das finalidade e eficácia da sua prestação de serviço jurisdicional à sociedade.

Uma visão racional do que pode e do que deve fazer este Poder pelas pessoas de carne e osso Sergipe adentro. Sobretudo pelas mais simples e as mais carentes.

Isso é o que exibe e revela nesta Entrevista o presidente do Poder Judiciário do Estado de Sergipe - PJSE -, o desembargador Edson Ulisses de Melo, 72 anos.

Edson Ulisses de Melo assumiu o comando desta instituição no último dia 1º de fevereiro deste ano.

Com essa visão e com 12 anos na alta magistratura de Sergipe, Edson Ulisses não é nada somítico no reconhecimento que faz e que tem do Poder Judiciário local - mesmo antes de presidi-lo.

“Somos um dos melhores Judiciários do Brasil, reconhecido pelo Conselho Nacional de Justiça. Não vejo pecados no Judiciário. O que pode haver são possíveis falhas”, acalanta ele.

“O então presidente do STF e CNJ, ministro Dias Toffoli, afirmou em visita ao Poder Judiciário de Sergipe no início de 2020 que em mais de 95% das vezes as decisões do Judiciário sergipano são mantidas pelo Supremo Tribunal Federal, fato que demonstra cabalmente a qualidade técnica das nossas sentenças e acórdãos”, aponta Edson Ulisses de Melo.

E, no que depender dele como gestor até 1º fevereiro de 2023, esta performance será mantida e ampliada.

Porque Edson não arreda um milímetro em sua visão ética e cidadã exibida no dia da posse como presidente, segundo a qual “um Judiciário subserviente somente interessa aos maus, aos corruptos que pretendem se servir do poder como donatários, em proveito próprio”.

“O processo judicial não tem nome na capa. Em verdade, o principal mister do juiz é julgar com independência e imparcialidade, tendo como base a Constituição e as leis da República”, assevera o presidente nessa Entrevista.

Edson Ulisses de Melo, em dia de posse: “Um Judiciário subserviente somente interessa aos maus”
Edson Ulisses: “Na minha gestão todos serão, na medida do possível, respeitados e valorizados”

Nesta Entrevista, Edson Ulisses de Melo fala de Justiça Reparativa, das Coordenadorias do Judiciário, da intenção de criar uma só pro Idoso, nega a visão de um Judiciário ensimesmado e aprofunda em sua intenção de promover ainda neste ano o Prêmio Comunicação.

“A finalidade é aproximar e incentivar os profissionais de comunicação a produzir conteúdo sobre ações, projetos e a atuação do Poder Judiciário, no intuito de melhor informar a sociedade sobre o nosso trabalho”, antecipa.

Edson Ulisses de Melo nasceu em 24 de agosto de 1948 no município de Porto da Folha, Sergipe.

Ele gosta sempre de aplicar o redutor para dizer que veio ao mundo mesmo no povoado Ilha do Ouro, encastoado no Rio São Francisco. É um beradeiro. É filho Josino Ulisses de Melo e Maria Cândida de Melo, ambos falecidos.

Casado com Maria do Carmo Déda Chagas de Melo, é pai Edson Ulisses de Melo Júnior, 44 anos, Luciana Cândida Déda de Melo, 41, e de Adriano Ulisses Déda de Melo, 25.

Já é avô de Victor, 21, Maria Clara, 15, Bernardo, 3, e de Alana, de 8 meses. Há pouco mais de um mês, estreou, através de Victor Ulisses, como bisavô. E é do tipo babão.

Edson Ulisses de Melo bacharelou-se em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Sergipe, com formatura no dia 8 de dezembro de 1975, e é dono da inscrição de número 678 na Ordem dos Advogados do Brasil-Sergipe, também desde 1975. Pós-graduou-se em Direito Público e Direito Processual Civil por uma universidade local.

Antes de chegar à magistratura, foi advogado do Banco do Nordeste do Brasil de 1968 até outubro de 1997. De 1998 a 2007, atuou como advogado liberal, passando pela chefia do setor jurídico da Viação Halley e foi procurador do município de Japaratuba.

Foi também conselheiro federal da OAB por três mandatos e presidente da OAB/SE, encerrando sua trajetória na advocacia como procurador-Geral do Estado de Sergipe em 2007.

Em 4 de abril de 2008 ele encabeçou a lista sêxtupla como resultado de uma eleição realizada pela OAB/SE, compôs a lista tríplice e, por unanimidade, foi escolhido pelo Pleno do PJSE no dia 28 do mesmo mês e no mesmo dia nomeado desembargador pelo governador do Estado, Marcelo Déda. Tomou posse na magistratura em 12 de abril de 2008.

“Na minha opinião, o Poder Judiciário, sem desmerecer os outros Poderes, ao longo dos anos, e principalmente após a criação do CNJ, evoluiu bastante em termos de controle, eficiência e produtividade”, diz ele. A Entrevista com Edson Ulisses de Melo vale bem o tempo da leitura.

Edson e a musa Maria do Carmo Déda Chagas de Melo: daqui deriva uma prole de três filhos, quatro netos e um bisneto
UM DOS MELHORES JUDICIÁRIOS DO BRASIL
“Somos um dos melhores Judiciários do Brasil, reconhecido pelo Conselho Nacional de Justiça. O então presidente do STF e CNJ, Dias Toffoli, afirmou em visita ao Judiciário de Sergipe que em mais de 95% das vezes as decisões do Judiciário sergipano são mantidas pelo STF, fato que demonstra a qualidade técnica das nossas sentenças”


JLPolítica - “Um Judiciário subserviente somente interessa aos maus, aos corruptos que pretendem se servir do poder como donatários, em proveito próprio”. Isto é fala do senhor em 1º de fevereiro, dia de sua posse como presidente. Qual a receita para fugir a essa armadilha de que fala o senhor?
Edson Ulisses de Melo -
Em verdade, o principal mister do juiz é julgar com independência e imparcialidade, tendo como base a Constituição e as leis da República. Essa sempre foi a minha receita para exercer a judicatura. O processo judicial não tem nome na capa. Entendo que somente dessa forma o Judiciário cumprirá o seu dever constitucional, garantindo direitos, sem se curvar a interesses patrimonialistas, sendo um dos pilares do Estado Democrático de Direito.

JLPolítica - Em algum aspecto, o senhor viu ou vê traços dessa subserviência na atividade prática do Poder Judiciário do Estado de Sergipe?
Edson Ulisses de Melo -
O viés distorcido da moral no Brasil é histórico e o Poder Judiciário está inserido nessa realidade histórica. Porém, e felizmente, o Judiciário sergipano se mantém distante desse tipo de prática. Somos um dos melhores Judiciários do Brasil, reconhecido pelo Conselho Nacional de Justiça. O então presidente do STF e CNJ, ministro Dias Toffoli, afirmou em visita ao Poder Judiciário de Sergipe no início de 2020 que em mais de 95% das vezes as decisões do Judiciário sergipano são mantidas pelo Supremo Tribunal Federal, fato que demonstra cabalmente a qualidade técnica das nossas sentenças e acórdãos. 

JLPolítica - O que é Poder Judiciário do Estado de Sergipe na comparação com os seus pares dos demais Estados do Brasil?
Edson Ulisses de Melo - Na minha opinião, o Poder Judiciário, sem desmerecer os outros Poderes, ao longo dos anos, e principalmente após a criação do CNJ, evoluiu bastante em termos de controle, eficiência e produtividade. O diferencial do Poder Judiciário do Estado de Sergipe em relação aos outros tribunais foi a decisão acertada de todos os presidentes nas últimas décadas em adotar um planejamento estratégico bem delineado, acompanhado e executado, sem solução de continuidade. Ou seja, com o planejamento estratégico, o Poder Judiciário de Sergipe já sabe o seu rumo e onde quer chegar, cabendo a cada gestor colocar a sua visão na formatação do seu plano de gestão. Funciona como a construção de uma edifício, onde cada presidente coloca o seu cimento e os seus tijolos, mas a obra já está projetada. Creio que é por isso que estamos nos mantendo ao longo dos anos como um dos melhores tribunais do país. 

Sob o afeto cerrado da filha Luciana Cândida Déda de Melo, 41 anos, e da neta Maria Clara, de 15
DA ARTE DE FAZER MAIS COM MENOS
“Nominalmente, o PJSE tem um déficit de juízes. Mas o momento de pandemia, com recursos escassos, não nos permite avançar no sentido de nomear novos magistrados. Por isso, mais uma vez, destaco o nosso planejamento estratégico, que nos permite fazer mais com menos”


JLPolítica - A quantidade de juízes disponibilizados por ele é o suficiente para as suas demandas reais e cotidianas?
Edson Ulisses de Melo -
Nominalmente, o PJSE tem um déficit de juízes. Mas o momento de pandemia, com recursos escassos, não nos permite avançar no sentido de nomear novos magistrados. Por isso, mais uma vez, destaco o nosso planejamento estratégico, que nos permite fazer mais com menos, prevendo futuras dificuldades e nos antecipando aos problemas, não descartando a possibilidade do aproveitamento dos candidatos aprovados dentro do número de vagas no último certame para o cargo de juiz substituto.  

JLPolítica - Afinal, quantos são eles hoje em dia?
Edson Ulisses de Melo -
Hoje o Poder Judiciário de Sergipe conta com 13 desembargadores e 144 juízes.

JLPolítica - O senhor subscreve a ideia de que 13 já não mais é um número de desembargadores suficientemente para as demandas do Judiciário de Sergipe?
Edson Ulisses de Melo - A relação entre o número de desembargadores e o quantitativo de processos é avaliada periodicamente pelo colegiado e pelo setor administrativo responsável. Estudos são feitos e propostas são apresentadas, e o que eu posso afirmar nesse momento é que todos os cenários serão avaliados, sempre com o objetivo de potencializar a prestação jurisdicional. Em referência ao número de desembargadores, já se observa uma desproporcionalidade com o volume de processos, a merecer a abertura de novas vagas.

Edson, Maria do Carmo e os três deles: Júnior, 44, Luciana Cândida Déda de Melo, 41, e Adriano Ulisses Déda de Melo, 25 - e o neto Victor
NOS RECONHECIMENTOS, NADA DE AFAGOS
“Creio que os prêmios concedidos ao PJSE mostram que o CNJ visualiza o Judiciário sergipano como célere e produtivo, bem como boa a qualidade das decisões. Não existem afagos corporativos. Todas as premiações conquistadas pelo Judiciário de Sergipe são fundamentadas em critérios objetivos”


JLPolítica - Qual é o instrumento ou instituição usado como bitola para medir a produtividade do Poder Judiciário de Sergipe?
Edson Ulisses de Melo -
O nosso norte é sempre o planejamento estratégico e as metas definidas pelo Conselho Nacional de Justiça, e ao longo dos anos estamos sendo muito bem avaliados, inclusive com o recebimento de premiações, como os Selos Diamante e Ouro do CNJ, etc.

JLPolítica - Como é que o Conselho Nacional de Justiça visualiza a prestação de serviços pelo Judiciário sergipano?
Edson Ulisses de Melo -
Creio que os prêmios concedidos ao PJSE mostram que o CNJ visualiza o Judiciário sergipano como célere e produtivo, bem como boa a qualidade das suas decisões.

JLPolítica - Mas esses prêmios fazem jus à atuação dele ou são afagos corporativos?
Edson Ulisses de Melo -
Não existem afagos corporativos no Judiciário. Todas as premiações conquistadas pelo Poder Judiciário do Estado de Sergipe são fundamentadas em critérios objetivos, mensurados com rigor científico pelo CNJ. Temos muito orgulho de fazer jus a todos eles com muito esforço, dedicação e criatividade de todos os que fazem o Judiciário de Sergipe.

A tríade mandatária do PJSE nos próximos dois anos: Ana Lúcia, vice-presidente, e Diógenes Barreto, corregedor
O JUDICIÁRIO DE SERGIPE E OS SUPERSALÁRIOS
“Não existem supersalários no Judiciário de Sergipe. O que ocorre em situações pontuais é que há o pagamento de verbas de caráter indenizatório, as quais não integram o redutor constitucional, como férias, gratificação natalina, abano de permanência, licença-prêmio. Os subsídios dos magistrados obedecem a uma baliza que é o subsídio do ministro do STF”

JLPolítica - Quanto custa anualmente o Poder Judiciário do Estado de Sergipe aos sergipanos?
Edson Ulisses de Melo -
Pela sua importância em garantir os direitos dos sergipanos e como o Poder que mantém a paz social, dirimindo e resolvendo os conflitos, o Judiciário não gera “custo” para a sociedade, mas sim é um investimento do seu povo para uma evolução social segura e sem abusos. O orçamento previsto na LOA – Lei Orçamentária Anual -, encaminhada pelo Executivo e aprovada pela Alese para o PJSE em 2021 é de cerca de R$ 630 milhões disponibilizados com toda a transparência e detalhamento no Portal do Poder Judiciário de Sergipe, com acesso irrestrito para toda a população. 

JLPolítica - O que há de errado nestes supostos supersalários que vez em quando pipocam na mídia atribuídos aos desembargadores?
Edson Ulisses de Melo -
Não vejo nada de errado. Até porque não existem supersalários no Poder Judiciário de Sergipe. O que ocorre em situações pontuais é que, em alguns meses do ano, há o pagamento de verbas de caráter indenizatório, as quais não integram o redutor constitucional, como férias, gratificação natalina, abano de permanência, licença-prêmio, etc. Os subsídios dos magistrados obedecem a uma baliza que é o subsídio do ministro do STF. O que posso afirmar é que servidores e magistrados do Judiciário de Sergipe servem à população com responsabilidade, dedicação e comprometimento.  

JLPolítica - No aspecto geral e administrativo, como é que o senhor recebeu esse Poder do desembargador Osório de Araújo Filho, o último presidente?
Edson Ulisses de Melo - Como afirmei anteriormente, o TJSE é pautado por um planejamento estratégico, e dessa forma, já sabemos os rumos a serem seguidos, cabendo a cada presidente definir a melhor forma para atingir os objetivos dentro da sua perspectiva de gestão. Nesse sentido, a administração foi recebida de maneira transparente, com uma transição efetiva e pacífica, o que resulta em um Poder muito bem organizado.

Edson Ulisses de Melo, beradeiro do São Francisco, nasceu no dia 24 de agosto de 1948 em Porto da Folha, Sergipe, povoado Ilha do Ouro
DOS DIREITOS HUMANOS COMO PRIORIDADE
“Para mim, a defesa dos Direitos Humanos é um dos pilares do Estado Democrático de Direito, como previsto na nossa Carta Magna, e sempre pautou minha atuação como advogado e magistrado. Em todo o Brasil é necessário ampliar essa visão e nessa nossa gestão será priorizada”


JLPolítica - O Judiciário do Estado de Sergipe tem que visão difusa e aplicativa dos direitos humanos, e como o senhor pessoalmente os vê no âmbito de Sergipe e do Brasil?
Edson Ulisses de Melo-
Para mim, a defesa dos Direitos Humanos é um dos pilares do Estado Democrático de Direito, como previsto na nossa Carta Magna, e sempre pautou a minha atuação como advogado e magistrado. Em todo o Brasil é necessário ampliar essa visão e nessa nossa gestão será priorizada. No que diz respeito ao tema no Poder Judiciário de Sergipe, a minha gestão irá investir bastante nas Coordenadorias da Infância e Juventude e da Mulher, além de envidar esforços para a criação de uma Coordenadoria do Idoso no PJSE. 

JLPolítica - Qual é a espinha dorsal do seu planejamento estratégico?
Edson Ulisses de Melo -
Não existe o planejamento estratégico do presidente Edson Ulisses. O que se executa é o planejamento estratégico do PJSE, onde cada presidente coloca a sua visão de mundo, tendo como espinha dorsal a produtividade, a celeridade, a melhoria da prestação jurisdicional, as atividades fim e meio, e a valorização de servidores e de magistrados.

JLPolítica - Ele é feito para um ou para dois anos?
Edson Ulisses de Melo - O planejamento estratégico é estabelecido em ciclos, conforme determinação do CNJ, que atualmente está previsto para o período de 2021 a 2026.

Edson Ulisses, no canto esquerdo da foto, na inauguração do BNB Clube, em Aracaju. Presente aí o presidente do banco, Camilo Calazans
UM PODER DE BEM COM A TECNOLOGIA
“Do ponto de vista tecnológico, posso garantir que o PJSE também está entre os melhores do país, com investimentos criteriosos ao longo dos anos. Fato que garantiu o funcionamento efetivo da Justiça sergipana durante a pandemia, sendo uma dos primeiras a colocar em prática o teletrabalho e as audiências e sessões virtuais”


JLPolítica - Qual é a verdadeira eficácia desse rodízio, com escalonamento previamente planificado, de gestores do Poder Judiciário sergipano?
Edson Ulisses de Melo -
Não se trata de rodízio de gestores, mas de cumprimento de preceito constitucional de alternância de gestão. O que existe no Poder Judiciário de Sergipe é uma definição do colegiado para que os presidentes sejam eleitos cumprindo a ordem de antiguidade, que tem se demonstrado eficaz, como comprovado pelas premiações recebidas pelo PJSE, dentro de uma visão de continuidade sem perda de foco administrativo.

JLPolítica - O que é Poder Judiciário do Estado de Sergipe do ponto de vista tecnológico?
Edson Ulisses de Melo -
Do ponto de vista tecnológico, posso garantir que o PJSE também está entre os melhores do país, com investimentos criteriosos ao longo dos anos. Fato que garantiu o funcionamento efetivo da Justiça sergipana durante a pandemia, sendo uma das primeiras a colocar em prática o teletrabalho e as audiências e sessões virtuais. 

JLPolítica - Ele perdeu em densidade e velocidade com a atuação on-line nesses 12 meses de pandemia do coronavírus?
Edson Ulisses de Melo - Pelo contrário, graças a um setor de tecnologia muito bem estruturado, conseguimos elevar os índices de produtividade durante a pandemia. Não paramos em nenhum momento, passando a realizar audiências e sessões de julgamento de maneira virtual, com mais de 6 milhões de atos judiciais proferidos no período.

No dia em que foi laçado pelo casório com Maria do Carmo Déda Chagas de Melo. O mesmo dia da formatura: 08.12.1975
JUSTIÇA RESTAURATIVA E A CONSTRUÇÃO DE PAZ
“A Justiça Restaurativa nada mais é do que um resgate da nossa ancestralidade. Nossos ancestrais já realizavam as práticas de construção de paz. Não é uma utopia. Nós que nos deixamos levar pelas luzes da modernidade e abandonamos essas práticas tão eficazes na solução de conflitos”


JLPolítica - Qual é o papel dos Juizados Especiais na prestação dos serviços do Judiciário e como estão eles?
Edson Ulisses de Melo -
A maior demanda de processos no TJSE são os de competência dos Juizados Especiais, pois tratam de causas cíveis de pequeno valor e criminais de menor potencial ofensivo. Na verdade, é a Justiça que está mais próxima do cidadão. Pelos números divulgados pelo CNJ, o PJSE também é bastante efetivo nesse quesito, tendo índice de tempo de ingresso da ação nos Juizados até a sentença, um dos mais rápidos do país. Em Aracaju, os Juizados Especiais ficam localizados de modo que atendam com o objetivo de aproximar o Judiciário e ser mais acessível para a população. 

JLPolítica - Quais são os ganhos reais da Justiça Restaurativa que o Judiciário pratica e no que a sua gestão pretende melhorar?
Edson Ulisses de Melo -
A Justiça Restaurativa nada mais é do que um resgate da nossa ancestralidade. Nossos ancestrais já realizavam as práticas de construção de paz. Não é uma utopia. Nós que nos deixamos levar pelas luzes da modernidade e abandonamos essas práticas tão eficazes na solução de conflitos. Precisamos ampliar nosso sistema, que hoje é meramente punitivo, e utilizar as técnicas que têm se provado exitosas. Punir e restaurar. Façamos uma justiça nova, porque a modernidade está abraçando essa alternativa para que tenhamos um mundo melhor, o qual somente poderemos alcançar se tivermos uma Justiça mais inclusiva e menos segregacional, com essa perspectiva de paz trazida pela Justiça Restaurativa.

JLPolítica - O Poder Judiciário tem duas Coordenadorias - da Infância e da Mulher? Há alguma delas com especial carência de melhoras? Pretende criar mais alguma?
Edson Ulisses de Melo - As Coordenadorias da Infância e Juventude e da Mulher têm desenvolvido excelentes projetos, tendo à frente juízas proativas e comprometidas. Temos espaço para melhorar ainda mais e iremos fazê-lo. Já definimos vários projetos a serem executados. Gostaria de aproveitar e comunicar que estamos realizando estudos para a criação da Coordenadoria do Idoso, para que possamos direcionar esforços para a ampliação de políticas públicas judiciais para esse segmento tão importante para a nossa sociedade.

Gravatinha de gala no dia da formatura do ginásio, aos 18 anos. Havia disso!
UM PODER QUE SE AFASTA DO ENSIMEMAMENTO?
“Ao longo dos anos a Justiça sergipana se aproxima da população, criando e ampliando ferramentas de interlocução e contato com as pessoas. Temos uma Ouvidoria atuante, pronta para atender a população e uma Diretoria de Comunicação com diversos mecanismos de aproximação com a sociedade”


JLPolítica - O senhor foi voto vencido ou concordante diante do fechamento de algumas instâncias do Poder Judiciário pelo interior do Estado?
Edson Ulisses de Melo -
O fechamento de alguns distritos judiciais no interior do Estado foi uma decisão colegiada, baseada em critérios objetivos, a exemplo do número de processos em tramitação nessas unidades, em um momento de crise econômica relevante do país, sem perdas efetivas na qualidade da prestação jurisdicional. Foi aferido o custo/benefício positivo para aquelas comunidades. O que posso dizer é que alterações na estrutura do Judiciário são sempre analisadas e estudadas a pedido da Presidência, Corregedoria e, de ofício, periodicamente pelos setores administrativos e judiciais responsáveis.

JLPolítica - O senhor não acha esse Poder meio ensimesmado, para dentro, na interlocução com a sociedade? No que a sua gestão pensa em melhorar?
Edson Ulisses de Melo -
A sua afirmação não encontra mais respaldo na realidade do Judiciário de Sergipe. Ao longo dos anos a Justiça sergipana se aproxima da população, criando e ampliando ferramentas de interlocução e contato com as pessoas. Temos uma Ouvidoria atuante, pronta para atender a população e uma Diretoria de Comunicação com diversos mecanismos de aproximação com a sociedade, a exemplo da presença efetiva nas principais redes sociais. É fato, que pela natureza de imparcialidade, o Judiciário é um Poder mais “discreto”, o que não significa dizer que somos voltados para dentro. Afirmo até que o Judiciário é o Poder mais transparente da República, onde todas as informações, de maneira detalhada, podem ser obtidas pelo Portal do PJSE, além de serem publicadas pelos meios de comunicação oficiais. É claro que vamos melhorar e incentivar ainda mais a aproximação do Poder Judiciário de Sergipe com a sociedade e isso é um dos cinco eixos da minha gestão: Cidadania, Diálogo, Cultura e Memória Judiciária.

JLPolítica - A sua gestão se instalou prometendo colocar em prática um Prêmio Comunicação Social na esfera do Poder Judiciário. Para quando seria isso e qual a finalidade?
Edson Ulisses de Melo -
Iremos lançar o Prêmio Comunicação o mais rápido possível. Nesse momento estamos verificando alguns detalhes jurídicos para o lançamento e a divulgação das regras e das categorias. O objetivo é promover a premiação em cerimônia a ser realizada em dezembro de 2021. A finalidade é aproximar e incentivar os profissionais de comunicação a produzir conteúdo sobre ações, projetos e a atuação do Poder Judiciário, no intuito de melhor informar a sociedade sobre o nosso trabalho.

Com a ministra Eliana Calmon: Edson tem o CNJ como o melhor aferidor dos méritos do PJSE
“TODOS SERÃO RESPEITADOS E VALORIZADOS”
“Temos de partir da premissa de que a magistratura e os servidores são integrantes de carreiras, com remuneração, prerrogativas, direitos e deveres distintos. A magistratura é única. O que posso garantir é que na minha gestão todos serão respeitados e valorizados”


JLPolítica - Há chances reais de haver uma “magistratura magistral” com um fosso muito grande de salário e de qualidade de trabalho separando desembargadores e juízes da base servidora do Judiciário?
Edson Ulisses de Melo -
Temos de partir da premissa de que a magistratura e servidores são integrantes de carreiras, com remuneração, prerrogativas, direitos e deveres distintos. A magistratura é única. O que posso garantir é que na minha gestão todos serão, na medida do possível, respeitados e valorizados.

JLPolítica - O senhor chegou prometendo aumento salarial aos servidores. Há lastro financeiro real para isso?
Edson Ulisses de Melo -
Na verdade, não prometi que aumentaria o salário de servidores. O que afirmei em diversas entrevistas que concedi é que irei dialogar com os servidores para encontrar conjuntamente soluções para os problemas apresentados, dentro da realidade financeira do PJSE, observada a teoria do possível.

JLPolítica - A magistratura em geral, não só a sergipana, teria um grande pecado a ser combatido e corrigido, e qual seria ele?
Edson Ulisses de Melo - Não vejo pecados no Judiciário. O que pode haver são possíveis falhas
, pois somos humanos, imperfeitos. Mas tenho certeza que a magistratura, principalmente a sergipana, busca melhorar sempre, com o intuito de garantir Justiça para a sociedade.

JLPolítica - O senhor chegou na magistratura aos 60 anos, levando consigo uma bem-sucedida carreira de advogado. O que esses 12 anos de desembargadoria lhe ensinaram, e valeu a pena?
Edson Ulisses de Melo -
Estive, sim, por longos anos do outro lado do balcão, como advogado, atuando em diversas áreas do Direito, fato que me proporcionou uma vasta experiência para ingressar na magistratura. Sobre aprender, o faço diariamente, lendo uma petição, estudando doutrina, jurisprudência, me atualizando sobre novas leis e conversando com as pessoas, das mais humildes às mais graduadas. Com relação aos anos de magistratura, o que mais aprendi foi que o juiz tem que pautar sua atuação pela prudência e pelo equilíbrio. Tem que ouvir mais e falar menos, pela maturidade, pelo respeito às pessoas, à constituição e às leis e, principalmente, pela visão holística. Está valendo muito a pena. Sou um eterno aprendiz do dizer do poeta, do “viver e não ter vergonha de ser feliz”.

Edson Ulisses e sua tribo de origem: índios Xocós num balé de homenagem no dia do lançamento do seu livro Sabedoria Popular II