Fátima Escariz: “O livro digital não tirou e nem vai tirar (de cena) o livro físico”

Entrevista

Jozailto Lima

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Fátima Escariz: “O livro digital não tirou e nem vai tirar (de cena) o livro físico”

“Planos que temos são de continuar atendendo bem os clientes. Eles são parceiros”
4/6/2022 - 19h

 

Todos os dias, há 37 anos, ela se encontra com as obras de Gabriel García Márquez, Miguel de Cervantes, William Shakespeare, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Déborah Pimentel - que lançou, recentemente o livro “João Alves Filho - A Saga de um Político Nordestino” -, dentre outros. 


Essa pessoa é a empresária Maria de Fátima Dória Campos Escariz, 61 anos, que, juntamente o com o marido Paulo Escariz, fundou a Livraria Escariz, a mais importante de Sergipe e que já levou sua marca para o Shopping Barra, em Salvador.


Através do e-commerce (www.escariz.com.br), a Escariz vende para todo o Brasil, atendendo, inclusive, a Amazon, Lojas Americanas e Magazine Luiza.


Atenta ao que se passa nas sete lojas e no e-commerce, que geram 140 empregos diretos, Fátima Escariz está sempre conversando com os seus funcionários - todos jovens - para cuidarem com carinho dos clientes.


“O maior plano da gente é manter a excelência em atendimento, que é um desafio”, avisa a empresária ao acrescentar que a preocupação - de manter a excelência - é o principal foco. “O cliente é um parceiro da gente que está em busca de um produto diferenciado, de um atendimento carinhoso, de um retorno para ele”, diz.


Mas há outras preocupações que tomam conta do dia a dia de Fátima Escariz. “A compra de livros online é uma ameaça grande”, reconhece. “É uma ameaça porque pega um livro - que compra até de nós mesmos, pois somos um dos grandes fornecedores da Amazon - e ‘queima preço’”, diz.


Ou seja, vende bem mais barato que a loja, que tem uma série de custos para manter abertos os estabelecimentos. “Temos custo com a loja física, energia, funcionário, aluguel de ponto comercial, custo com estoque”, destacou.


Recentemente, a Escariz abriu mais uma loja, que fica na avenida Hermes Fontes, onde funcionava o Shopping do Estudante. Com isso, vai aumentando as possibilidades para o cliente sergipano que, na sua análise, “está lendo muito, graças a Deus”.


Entre as escolhas do público local estão romances e biografias. Os jovens também estão lendo bastante. “Você vai à lista da Veja dos 20 livros mais vendidos, 10 a 15 são livros infantojuvenis” destaca.


A empresária também ressalta a literatura sergipana, que é muito bem aceita. “Temos gratas surpresas com livros de escritores sergipanos maravilhosos”, observa.


A propósito, o mês de abril foi dedicado aos livros e teve duas datas especiais. No dia 18, comemorou-se o Dia Nacional do Livro Infantil, para homenagear o escritor brasileiro Monteiro Lobato, nascido em 1882, autor de clássicos como o Sítio do Picapau Amarelo e o Presidente Negro, único romance adulto de sua autoria.


Já o 23, foi o Dia Mundial do Livro, justamente porque nesta data, em 1616, portanto há 406 anos, morreram o  inglês William Shakespeare, o espanhol Miguel de Cervantes e o peruano Inca Garcilaso de La Vega.

Fátima Escariz na primeira infância, ao lado da irmã Guta, a mais alta, e de uma amiga
Paulo e Fátima Escariz dão braçadas largas e ousadas no difícil mar dos livros

 

LIVRO E LVIROS À MÃO CHEIA PROS SERGIPANOS
“É uma surpresa muito grata para nós. Quando começamos, uma das coisas que nos levaram a pensar em ter uma livraria era para todos terem acesso à leitura, e as pessoas diziam que o sergipano não liam. Eles não liam porque não tinham acesso”

SÓ SERGIPE - O sergipano está lendo?

Fátima Escariz - Está lendo muito, graças a Deus. É uma surpresa muito grata para nós. Quando começamos, uma das coisas que nos levaram a pensar em ter uma livraria era para todos terem acesso à leitura, e as pessoas diziam que o sergipano não liam. Eles não liam porque não tinham acesso. E demos oportunidade, colocamos as lojas com cadeiras, poltronas, para que as pessoas tivessem acesso aos livros. O sergipano lê conteúdo.

 

SÓ SERGIPE - E o que o sergipano lê exatamente?

FE - Nós temos uma venda muito boa de ficção, de romance, biografia - sai bastante -, autoajuda. E com todo respeito aos livros de autoajuda, pois acredito que eles ajudam mesmo. As pessoas têm preconceito com os livros de autoajuda, mas eu já vi salvar muitas pessoas em situações complicadas depois de uma boa leitura. Uma coisa que surpreende bastante é que o pessoal lê muito. A literatura sergipana é muito bem aceita. Temos gratas surpresas com livros de escritores sergipanos maravilhosos.

 

SÓ SERGIPE - Quais os livros mais vendidos atualmente em suas lojas?

FE - Agora, por exemplo, estamos vendendo muito o romance “Os sete maridos de Evelyn”, um livro meio polêmico, interessante que trata da forma de amar, seja lá como for ou com quem for. Outro que está vendendo bastante é “Véspera”, um livro muito profundo, da escritora mineira Carla Madeira, que está fazendo muito sucesso, e eu estou tentando trazê-la aqui para Aracaju

Fátima Escariz, o sogro Manoel Apolinário Escariz Moinhos, um basco espanhol que dá sobrenome ao negócio, e o marido Paulo Escariz

 

DO DESEMPENHO DOS JOVENS FRENTE À LEITURA
“E isso tem me surpreendido. Temos muita literatura juvenil. A pandemia nos maltratou muito, e ainda está. Temos um buraco aí que não sabemos como vai ser para vencê-lo. Está muito longe da venda de 2019. Há muito receio, resistência. Tem gente que se acostumou a comprar mais pela internet. Mas os jovens voltaram a ler”

SÓ SERGIPE - Esses livros citados remetem ao público jovem. Os jovens têm lido?

FE - Sim, e isso tem me surpreendido. Temos muita literatura juvenil. A pandemia nos maltratou muito, e ainda está. Nós não vamos recuperar isso tão cedo. Temos um buraco aí que não sabemos como vai ser para vencê-lo. Está muito longe da venda de 2019. Há muito receio, resistência. Tem gente que se acostumou a comprar mais pela internet. Mas os jovens voltaram a ler, justamente porque eles ficaram presos. Foram dois anos sem acesso ao habitat natural deles. Os jovens deixaram de ser jovens, como nós fomos. E achei que eles voltaram a ler muito. Você vai na lista da Veja dos 20 livros mais vendidos, 10 a 15 são livros infantojuvenis.

 

SÓ SERGIPE - Como a senhora observa o crescimento dos livros digitais (e-books)? Hoje se baixa muito livro de graça pela internet?

FE - O livro digital realmente não ameaçou. No início, as pessoas falavam que o livro digital ia tirar o livro físico. Não tirou e nem vai tirar. É muito pequeno o percentual de venda do livro digital. Tem até uma matéria interessantíssima, acho que na Folha de S. Paulo, sobre uma rede americana que está voltando com toda força depois da pandemia. E você não aguenta ficar mais 100% online.

 

SÓ SERGIPE - Daí, então, veio o reforço em favor do livro físico?
FE - O livro físico voltou a ser aquela coisa gostosa de você pegar, cheirar. Temos clientes que pegam o último livro de uma prateleira, que ninguém tocou, para ser o primeiro a manuseá-lo. Existe um carinho muito grande pelo livro físico. O livro físico não foi ameaçado.

Fátima Escariz com Sylvia Virgínia, Marta Carrera e Laís: nas bordas de tanto trabalho, tempo para as amizades

 

O LIVRO DIGITAL NÃO INCOMODA. PODE VIR
“No início, as pessoas falavam que o livro digital ia tirar o livro físico. Não tirou e nem vai tirar. É muito pequeno o percentual de venda do livro digital. Tem até uma matéria interessantíssima, acho que na Folha de S. Paulo, sobre uma rede americana que está voltando com toda força depois da pandemia. E você não aguenta ficar mais 100% online”

SÓ SERGIPE - E a compra online?

FE - A compra online é uma ameaça grande. Como não tem esse custo que temos com loja física - energia, funcionário, aluguel de ponto comercial, estoque - é uma ameaça, porque pega um livro - que compra até de nós mesmos, pois somos um dos grandes fornecedores da Amazon - e ‘queima preço’. É um processo bem mais difícil, porque nós temos todo um custo e a venda online não. Ela é realmente mais agressiva e mais complicada para concorrermos. Mas, estamos sendo recompensados pelo público sergipano, que respeita muito a livraria, sabe que somos daqui, nos apoia. Temos muitos lançamentos de livros na Escariz por ser uma livraria da cidade. Enfim, temos uma gratidão gigante com o público sergipano.

 

SÓ SERGIPE - Tem um dado da Câmara Brasileira do Livro dizendo que, de 6 de dezembro de 2021 a 2 de janeiro de 2022, foram vendidos 5,4 milhões de livros, 5% a mais do que no mesmo período de 2020. Esse dado é nacional, mas trazendo para sua realidade, a senhora diria que esse crescimento também aconteceu por aqui?

FE - Com certeza. Cresceu sim, pois há a necessidade de leitura. Essa vontade de ler está muito latente no público. A pandemia judiou muito financeiramente. Não teve classe profissional que não tivesse padecido. Até os médicos foram afetados, porque muita gente deixou de ir aos consultórios por causa da Covid-19. O que eles chamam de supérfluos, não é supérfluo, pois sustentam várias famílias. Nós mesmos sustentamos 140 famílias. É muita coisa, muito jovem, muito sonho dependendo da gente. A pandemia levou todos ao sacrifício, mas fez as pessoas voltarem a ler. Isso não tem como tirar. Talvez esse aumento seja muito pela oportunidade de sair da frente da tela, o que não é brincadeira não! Trabalhamos o tempo todo conectados, na tela do celular, do computador - é reunião, é tudo. Então chega o momento em que você pega um livro e vai ler.

 

SÓ SERGIPE - Houve essa semana o lançamento do E-Comex, por parte da Fecomércio, para capacitar e estimular os empresários sergipanos para o mercado internacional. Vocês já pensaram em internacionalizar a Livraria Escariz?

FE - Vendas para o exterior, não. Mas nós fazemos o nosso e-commerce que está funcionando bem, atende bastantes cidades do Brasil. Como já disse, atendemos a Amazon, Magazine Luiza, Americanas.

Fátima e Paulo Escariz com a confraria de jovens que dão suporte às sete lojas da Escariz - contando com uma em Salvador

 

UM DAS VIRTUDES DA PANDEMIA
“A pandemia levou todos ao sacrifício, mas fez as pessoas voltarem a ler. Isso não tem como tirar. Talvez esse aumento seja muito pela oportunidade de sair da frente da tela, o que não é brincadeira não! Trabalhamos o tempo todo conectados, na tela do celular, do computador”

SÓ SERGIPE - Hoje as empresas não podem deixar de ter a plataforma digital.

FE - Sim. Nós já estávamos antes da pandemia, mas timidamente. Com a pandemia, tivemos que correr para botar para funcionar.

 

SÓ SERGIPE - Qual o seu acervo hoje?

FE - Olha, é muita coisa. Só uma editora nos pediu para fazermos a devolução de 5 mil títulos, porque há títulos que não rodam mais. Mas a gente tem muita coisa mesmo. São várias editoras, vários públicos.

 

SÓ SERGIPE - A Livraria Escariz promove feiras de livros, não é?

FE - Agora mesmo estamos fazendo uma feira permanente na loja da Hermes Fontes. Qual foi a ideia? Como fazemos essas feiras dentro do shopping, a gente percebe uma boa aceitação do público. E resolvemos manter uma feira permanente na loja da Hermes Fontes, fora daquele período didático, que é muito típica em papelaria e material didático, como uniforme, tênis etc. Ela fica um período sem pique. Nós entramos com a feira de livros e tem sido muito gratificante, muita gente frequentando, indo buscar livros. Começou com feira de livro infantil e agora vamos fazer para adultos.

Fátima Escariz em seu papel de avô, paparicando os netos Pedro e Marina

 

MAIS E MAIS PELA CONQUISTA DO CLIENTE
“Os planos que temos são de que consigamos continuar atendendo bem os clientes. Esse é o nosso maior desafio e nossa principal preocupação. O cliente é um parceiro da gente, que está em busca de um produto diferenciado, de um atendimento carinhoso, de um retorno para ele”

SÓ SERGIPE - A sua visão empresarial junto com a de Paulo Escariz, seu marido,  não deixou escapar o Shopping do Estudante.

FE - Na realidade, o Shopping do Estudante foi interessante. Sempre me dei muito bem com o pessoal do shopping. Nós não somos concorrentes, somos parceiros. É concorrente quando é agressivo, como era o caso da Livraria Saraiva, que queimava preço e não sabíamos o que estava acontecendo. Como é que compravam o livro do mesmo preço e depois queimava preço? Depois vimos tudo o que aconteceu com a Saraiva. Mas voltando ao Shopping do Estudante e à PapelArte: tenho uma relação muito boa tanto com Ângela, que era da PapelArte, quanto com Luciana, do Shopping do Estudante. Quando elas resolveram fechar, me procuraram para que não deixasse morrer os empreendimentos delas. Nós compramos muito estoque de Ângela. E Luciana não queria que todo o trabalho que ela fez, durante 25 anos, acabasse. Ela me chamou e queria que o shopping ficasse com a gente. Então caiu assim no colo. Mas também queríamos dar uma cara de livraria, e não ficar só a parte de papelaria.

 

SÓ SERGIPE - Tem planos para o futuro no seu empreendimento?

FE - Olhe, o maior plano da gente é manter a excelência em atendimento, que é um desafio. Os planos que temos são de que consigamos continuar atendendo bem os clientes. Esse é o nosso maior desafio e nossa principal preocupação. Temos um foco, um carinho muito grande pelo cliente. O cliente é um parceiro da gente, que está em busca de um produto diferenciado, de um atendimento carinhoso, de um retorno para ele. Numa conquista de um livro que ele não acha em canto nenhum e a gente manda buscar. Como trabalhamos muito com jovens e eles mudam muito - um dia está aqui, no outro quer mudar; um dia está num curso, no outro dia quer fazer outro – temos uma alta rotatividade de funcionários. Mas é porque fizemos a opção pelos jovens, porque eles são mais dinâmicos. E como quero manter a qualidade no atendimento, o trabalho é intenso e eterno. Toda hora tenho que lembrar sobre o atendimento, ensinar sempre.

 

SÓ SERGIPE - Os funcionários ajudam o cliente que quer comprar um livro? Dão sugestões de leitura?

FE - Sim, ajudam muito. Optamos por alunos de letras, história, filosofia e que amem ler! É uma das nossas maiores buscas, pessoas que amem livros e leiam!

Fátima Escariz reúne a família em dia de aniversário da filha caçula, Marcela Escariz. Ela e Paulo tem, ainda, Renata e Paula

 

LEITURA COMO HÁBITO QIUE VEM DA FAMÍLIA
Venho de uma família na qual minha mãe era professora de francês, uma tia lia bastante e era muito influente. Como perdi meu pai muito cedo, a preocupação da minha tia, numa casa cheia de mulheres, era que a gente não fosse dona de casa, de fazer bolo, essas coisas. Então, todas as vezes que vinha de Brasília trazia uma coleção de livros”

SÓ SERGIPE - A dona da livraria é uma leitora contumaz?

FE - Adoro ler. Eu venho de uma família na qual minha mãe era professora de francês, uma tia que morava em Brasília lia bastante e era muito influente. Como eu perdi meu pai muito cedo, a preocupação da minha tia, numa casa cheia de mulheres, era que a gente não fosse dona de casa, de fazer bolo, essas coisas. Então, todas as vezes que vinha de Brasília trazia uma coleção de livros, a exemplo de toda a obra de Aghata Christie.

 

SÓ SERGIPE - Então ela lhe ajudou?

FE - Ela ajudou a mim e a minha irmã mais próxima em idade a sermos leitoras. Venho de uma família que gostava de ler. Além da família de Paulo, pois a mãe dele teve a vida ligada à cultura. Ela era regente de coral. O berço cultural está nos dois.

Aqui, a aniversariante é a própria Fátima Escariz, ladeada pelas irmãs Gusta e Esmeralda

SÓ SERGIPE - Hoje a Escariz tem quantas lojas?

FE - São sete lojas. Uma no Shopping Barra, em Salvador, que está muito direitinha, pois a Bahia tem uma raiz cultural muito forte e o pessoal lê bastante. Temos aqui em Aracaju nos dois shoppings - RioMar e Jardins -, essa aqui da Jorge Amado, a da avenida Hermes Fontes, que é nova. Na Unit, prestando um serviço à comunidade estudantil, e a do GBarbosa. E temos os dois Franz (cafeteria).

Irmanada a Fátima Escariz, a mulherada da Livraria Escariz não deixou passar batido o Dia das Mulheres
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