Fernanda Petrarca: “A participação feminina na política não se resume apenas a candidaturas”

Entrevista

Jozailto Lima

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Fernanda Petrarca: “A participação feminina na política não se resume apenas a candidaturas”

“A política eletiva deve ser espaço de múltiplas representações e reflexo da diversidade social”
30/7/2022 - 19h

A mulher e a ocupação dos espaços de poder na política. A mulher e a ocupação dos espaços de poder sobretudo neste ano de 2022 em que mais de 156 milhões de brasileiros se preparam para ir às urnas eleger gente nas esferas da Presidência da República, do Senado, da Câmara Federal, dos Governos dos Estado e das Assembleias Legislativas.

E é nessa encruzilhada que o debate sobre a mulher e a necessidade de uma real ocupação dos espaços de poder por elas toma assento e levanta poeira. Pelos registro que se tem hoje, é ainda baixíssimo o espaço reservado para e pela mulher no mapa da política nacional. 

Baixíssimo beirando ao vergonhoso, sobretudo se se levar em conta que as mulheres compõem demograficamente a maioria da população brasileira. Elas estão quase que na proporção de 52% a 48% perante os homens.

O tema é árido e muitíssimo delicado. E, por ser assim, exige e carece de um olhar mais acurado e permeado pela ciência. E foi isso que o Portal JLPolítica foi buscar na figura equilibrada e rigorosa da socióloga Fernanda Petrarca, da Universidade Federal de Sergipe.

Coordenadora do Laboratório de Estudos do Poder e da Política - LEPP - da UFS, Fernanda Petrarca, uma gaúcha de 43 anos, se esgueira bem entre os caminhos da razão, da lógica, da pesquisa e da ciência, e procura não ceder fácil a achismos que traduzam o verdadeiro lugar da dificuldade da mulher de acessar as múltiplas formas de poder - até para além da política convencional.

Mas Fernanda, naturalmente, não diverge da constatação óbvia de que o que se tem até aqui de representação feminina no poder é mesmo mirrado. Muito mirrado.

“Podemos compreender os baixos índices de ocupação das mulheres em cargos eletivos olhando para diversos pontos do tecido social. Um primeiro, e bem mais amplo, é aquele que analisa a socio-história das candidaturas femininas. Se usarmos o “olhar de retrovisor”, veremos que elas eram exceção e não a regra, sobretudo quando analisamos períodos mais distantes, como o início da República”, diz a socióloga.

“Em geral, eram mulheres com alto nível de formação e instrução, sem filhos e solteiras. Esses dados já nos ajudam a compreender, inicialmente, as dificuldades associadas a entrada no mundo da política de um conjunto de mulheres, dentre estas podemos mencionar a vida doméstica, a posição de classe, o nível de instrução. Um mundo predominantemente branco e masculino”, complementa Fernanda Petrarca. 
“Um segundo olhar deve também ser feito para a experiência do voto feminino. A participação feminina na política não se resume apenas a candidaturas, mas na possibilidade de votar. E esse voto compõe parte do sufrágio universal, pilar fundamental da democracia. O Brasil tem uma experiência democrática relativamente nova e viveu um regime militar de 1964 até 1985. Foram, portanto, 21 anos em que as possibilidades de votar e ser votado estavam reduzidas”, diz.

Nessa Entrevista, Fernanda Petrarca toca em temas importantes na linha do empoderamento feminino, como o que pode acontecer neste 2022 de diferente na ampliação do espaço feminino, a baixa composição - seis mulheres e 18  homens - na montagem da Alese e o equilíbrio de gênero nos espaços da UFS, praça dela.

Fernanda Rios Petrarca nasceu no dia 20 de outubro de 1978 na cidade de Bagé, no Rio Grande do Sul. É filha de Luiz Fernando Teixeira Petrarca e de Luci Rios Petrarca.

Ela é casada com Wilson José Ferreira de Oliveira, também cientista político e identicamente professor da Universidade Federal de Sergipe. Com ele, é mãe da guria Olívia Petrarca de Oliveira, de 10 anos.

Pela Universidade Federal de Pelotas-RS, Fernanda graduou-se em ciências sociais no ano de 2000, em 2003 tornou-se mestra e em 2007, doutora em Sociologia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É da disciplina Sociologia que ela se ocupa na UFS desde 2009.

Mas não é só isso que Fernanda Petrarca toca na instituição de ensino superior sergipana: ela coordenadora o Laboratório de Estudos do Poder e da Política - LEPP - e, apesar da fala longa que professa nesta Entrevista, manifesta convictas necessidades de a academia encontrar um atalho seguro e produtivo para chegar com seu discurso e suas práticas científicas a uma massa maior de pessoas e para bem além dos restritos campi universitários.

O trio Fernanda Petrarca, o marido Wilson José Ferreira de Oliveira e a filhota Olívia Petrarca de Oliveira, carnavalizando. Mas antes da pandemia
Fernanda Petrarca nasceu em 20 de outubro de 1978 em Bagé, no Rio Grande do Sul, e é uma sergipana desde 2009

PARTICIPAÇÃO FEMININA NÃO É SÓ VIA CANDIDATURAS
“Podemos compreender os baixos índices de ocupação das mulheres em cargos eletivos olhando para diversos pontos do tecido social. Um primeiro, é aquele que analisa a socio-história das candidaturas femininas. Um segundo olhar deve também ser feito para a experiência do voto feminino. A participação feminina na política não se resume apenas a candidaturas”

JLPolítica - Há uma explicação ou justificativa racional, professora, para que a mulher brasileira e sergipana seja tão minoritariamente representada nos espaços de poder?
Fernanda Petrarca -
O fenômeno da baixa representatividade feminina nos diferentes espaços de poder é objeto de um conjunto muito diversificado de pesquisas, nas mais diversas áreas do conhecimento. No âmbito das ciências sociais, minha área central de formação, buscamos compreender, a partir de uma explicação científica, quais são as condições sociais e históricas que contribuem para a produção dessa desigualdade. Em outras palavras, estamos voltados para análise das formas de organização das sociedades, das lógicas e temporalidades próprias para, com isso, apreender as bases sociais que permitem o desenvolvimento de diversos mecanismos e dispositivos de desigualdade. Nessa direção, para compreender o lugar minoritário da mulher brasileira e, em especial, a sergipana em espaços de poder, precisamos voltar o nosso olhar, primeiro, para que espaços de poder estamos falando e, segundo, para a dinâmica de organização destes espaços. A grande contribuição das ciências sociais é justamente romper com a visão de que o sexo biológico é, exclusivamente, um construto da natureza e mostrar que ele é um construto social, uma vez que é em sociedade que ele se manifesta.


JLPolítica - Mas qual é o seu conceito para os atuais índices de ocupação de espaços eletivos por elas?
FP -
Podemos compreender os baixos índices de ocupação das mulheres em cargos eletivos olhando para diversos pontos do tecido social. Um primeiro, e bem mais amplo, é aquele que analisa a socio-história das candidaturas femininas. Se usarmos o “olhar de retrovisor”, veremos que elas eram exceção e não a regra, sobretudo quando analisamos períodos mais distantes, como o início da República. Em geral, eram mulheres com alto nível de formação e instrução, sem filhos e solteiras. Esses dados já nos ajudam a compreender, inicialmente, as dificuldades associadas a entrada no mundo da política de um conjunto de mulheres, dentre estas podemos mencionar a vida doméstica, a posição de classe, o nível de instrução. Um mundo predominantemente branco e masculino. Um segundo olhar deve também ser feito para a experiência do voto feminino. A participação feminina na política não se resume apenas a candidaturas, mas na possibilidade de votar. E esse voto compõe parte do sufrágio universal, pilar fundamental da democracia. O Brasil tem uma experiência democrática relativamente nova e viveu um regime militar de 1964 até 1985. Foram, portanto, 21 anos em que as possibilidades de votar e ser votado estavam reduzidas. A experiência mais longa de democracia vem com o processo constituinte de 1988. É a partir daí que o Brasil experimenta o voto universal, com a inclusão das analfabetas. Se voltarmos ainda mais longe no tempo, veremos que as mulheres foram incluídas no voto em 1932, mas de 1937 a 1944 o Brasil ficou sem eleições presidenciais em decorrência do Estado Novo, reduzindo assim as possibilidades de votar e ser votado. Em linhas gerais, a luta sufrágica representeou um instrumento para a conquista de outros direitos, como a superação de desigualdades entre homens e mulheres. No Brasil, o movimento sufragista adquiriu tom moderado, buscando se adaptar aos padrões tradicionais da sociedade, os quais colocam o papel da mulher voltado para a família, para a vida doméstica. E um terceiro olhar deve ser feito para as instituições. Chamo a atenção aqui, em especial, para as estruturas partidárias, que por sua lógica de funcionamento tendem a manter as lideranças masculinas em detrimentos das femininas na direção das siglas.

JLPolítica - Haveria aí a força do patriarcalismo e do machismo empurrando as mulheres para fora do eixo das disputas eleitorais?
FP -
Sem dúvida os padrões de dominação tradicional de uma sociedade exercem efeitos significativos nas condições de acesso em diferentes espaços e na construção do que podemos denominar como dispositivos de desigualdade. Historicamente, a formação dos agrupamentos políticos no Brasil esteve atrelada a um princípio de dominação androcêntrico que reforçou o masculino como modelo padrão de representação, valorizando assim pensamentos, comportamentos e ações. Os chefes políticos locais, situados dentro da complexa estrutura política do coronelismo, eram também senhores de terra e centralizavam o poder dentro e fora da sua propriedade. Estes patriarcas estavam à frente da estrutura familiar, da organização política e eleitoral de modo que para fazer parte da disputa era fundamental a aliança com estes políticos

Maria do Carmo, a primeira mulher sergipana a chegar ao Senado. Não lhe é demérito lembrar que conseguiu isso a partir do espólio do marido, João Alves Filho, que obteve também três mandatos de governador

TER SÓ SEIS MULHERES ENTRE OS 24 DA ALESE...
“... É comum, mas não é normal. Isso é reflexo da forma de organização da sociedade, dos padrões de dominação e das condições de reprodução destes princípios, mas não é normal porque, para efeitos de “vir a ser”, a política eletiva deve ser um espaço de múltiplas representações e deveríamos ver nela o reflexo da diversidade social. Todos os segmentos sociais deveriam ter acesso à política representativa, com condições equilibradas”

JLPolítica - E o que isso gerou?
FP -
Isso produziu uma forma muito particular de domínio, com fortes efeitos eleitorais. Um dispositivo de desigualdade importante que se produziu esteve atrelado à posição social e a relação da política com as famílias de elite. Por esta razão, as mulheres sem escolarização estiveram afastadas da política eleitoral antes da redemocratização do país em 1988. Precisamos questionar quais são os mecanismos históricos que contribuem para eternizar esse princípio de visão e divisão? Esse trabalho de eternização compete a diferentes instituições, como a família, a igreja, a escola, o jornalismo, os partidos políticos, dentre muitas outras. São elas que reforçam estereótipos e reproduzem os padrões de dominação e é dentro delas que deve ser feito o trabalho diário de resistência.

JLPolítica - A senhora acha normal que dos 24 representantes sergipanos na Assembleia Legislativa apenas seis sejam mulheres?
FP -
É comum, mas não é normal. É comum porque sabemos, do ponto de vista das ciências sociais, que isso é reflexo da forma de organização da sociedade, dos padrões de dominação e das condições de reprodução destes princípios, mas não é normal porque, para efeitos de “vir a ser”, a política eletiva deve ser um espaço de múltiplas representações e deveríamos ver nela o reflexo da diversidade social. Nesse sentido, todos os segmentos sociais deveriam ter acesso à política representativa, com condições equilibradas.

JLPolítica - Isso se agravaria diante do fato de que muitas delas têm acesso aos espaços de poder em decorrência de uma histórico de poder precedente de pais, maridos, irmãos?
FP -
Esse histórico de poder precedente, ou essa herança política, como poderíamos dizer, é a marca destas estruturas de dominação e suas condições de reprodução. É muito importante refletir sobre isso para que não caiamos no conto de que candidaturas femininas significam, necessariamente, a ampliação das pautas dos direitos das mulheres e a defesa por uma sociedade mais igualitária e com equidade na participação. Muitas vezes estas candidaturas se adaptam, de um lado, à competição e ao jogo político impedindo o avanço de transformações mais substantivas. Isso está associada às candidaturas que emergem dentro de um sistema de alianças. Assim, as mulheres tornam-se candidatas não por suas pautas, mas por comporem um bloco de alianças, muitas vezes familiar. É o caso de mulheres que entram na política pelo pai, irmão ou pelo marido, compondo as alianças deste bloco. De outro, elas tendem a se ajustar aos padrões sociais dominantes, contribuindo para cristalizar concepções tradicionais do papel da mulher na sociedade, como a educação dos filhos ou sua importância na vida doméstica. Como diz a frase do Príncipe Falconieri do romance italiano “O Leopardo”: “tudo deve mudar para que tudo permaneça como está”. Em alguns casos elas se tornam as candidatas, como num plano B, quando os maridos são impedidos de disputar eles mesmos o processo eleitoral uma vez implicados na lei de improbidade ou na lei da Ficha Limpa. Muitas mulheres carregam inclusive o nome dos pais ou maridos como marca das suas respectivas dependências dos grupos já consolidados na política.   

Um clic em Veneza, na Itália, com Wilson José Ferreira de Oliveira e Olívia Petrarca de Oliveira

NÃO É RAZOÁVEL CULPAR AS MULHERES
“Infelizmente, muitas vezes as instituições sociais tendem a produzir compreensões individualistas, jogando no colo das mulheres a responsabilidade que não lhes cabe. Pode parecer o caminho mais fácil, mas é o mais perigoso, porque ignora as condições sociais de desigualdade e os padrões que a sustentam”

JLPolítica - Mas seria razoável colocar algum tipo de culpa sobre as mulheres por essa baixa ocupação dos espaços políticos?
FP -
Não, não é razoável. Infelizmente, muitas vezes as instituições sociais tendem a produzir compreensões individualistas, jogando no colo das mulheres a responsabilidade que não lhes cabe. Pode parecer o caminho mais fácil, mas é o mais perigoso, porque ignora as condições sociais de desigualdade e os padrões que a sustentam. Na sociologia, dispomos de três metáforas que ajudam a desconstruir essa explicação individual: o teto de vidro que constitui a barreira - organizacional, familiar, institucional - para que as mulheres ascendam a posições mais altas dentro de diferentes esferas de poder; o chão pegajoso - sticky floor - que constitui as dificuldades de mobilidade social no início das suas carreiras, dificultando a entrada e o acesso às posições médias e a escada quebrada - broken ladder - que constitui na dificuldade criada para o acesso a certos recursos que poderiam proporcionar a ascensão.

JLPolítica - A senhora vê indícios de que uma maior representação feminina no Legislativo e no Executivo possa melhorar a performance dessas esferas de poder?
FP -
Precisamos distinguir duas coisas importantes. Primeiro, o movimento em defesa de mais mulheres na política é muito importante e insere-se num movimento mais geral de ampliação da representação política de determinados grupos sociais, com vistas a diminuir as barreiras à inclusão e proporcionar uma maior participação de categorias subrepresentadas. Isso abre um campo de possibilidades, oferecendo identificação a um conjunto de mulheres que antes não se viam dentro da política. Segundo, é importante que esse movimento venha acompanhado de um conjunto de transformações que contribuam para quebrar os padrões de dominação, fazendo com que, inclusive, as habilidades femininas para a política e as pautas pela ampliação do direito das mulheres sejam valorizadas em matéria de política.

JLPolítica - O que é que diferencia o olhar de poder de uma mulher do olhar de poder de um homem? Ou é impossível medir isso?
FP -
O que as ciências sociais podem ajudar a compreender é, justamente, como a sociedade cria essas diferenças e como elas são reproduzidas no cotidiano nas mais diferentes esferas da vida social, como a família, a religião, a escola, dentre muitas outras. Dentre as formas que se expressa a dominação masculina, podemos identificar o estado permanente de controle e vigilância. Das mulheres, se espera que sejam femininas, sorridentes, carinhosas e afetuosas. E quando fogem a este padrão, o julgamento é implacável com elas. Mas os homens também recebem o efeito deste estado de controle, já que esta estrutura é imposta para os dois lados da relação de dominação. No caso do acesso às posições de poder, sejam elas quais forem, as mulheres são com frequência colocadas diante de uma situação conflitante. Se elas atuam como homens, mobilizando para isso comportamentos e atitudes associados socialmente ao masculino, elas tendem a perder os próprios atributos e, ao mesmo tempo, a colocar em jogo a “dominação natural” dos homens. Se elas agem de acordo com aquilo que se espera delas, correm o risco de se apresentarem como inaptas para as posições que almejam. A combinação dessas expectativas contraditórias se torna mais difícil quanto mais masculino for o espaço em que elas estão inseridas.

Alese e a sua composição denunciam a política patriarcal em curso em Sergipe: das 24 vagas, apenas seis são ocupadas por mulheres. E mesmo assim, quatro delas em virtude de parentela com homens

O JUDICIÁRIO E A SEGREGAÇÃO DE GÊNERO
“Devido a ampliação dos títulos universitários no Brasil nas últimas décadas, as mulheres se tornaram maioria em muitos espaços profissionais. O Direito foi um deles. Esse percentual não se repete em instâncias superiores da justiça, fazendo com que o Judiciário torne-se um espaço privilegiado de segregação por gênero”

JLPolítica - O acesso feminino ao Judiciário seria mais complicado, posto depender de uma maior inserção educacional?
FP -
Devido a ampliação dos títulos universitários no Brasil nas últimas décadas, as mulheres se tornaram maioria em muitos espaços profissionais. O Direito foi um deles. Um estudo recente realizado pelo Centro de Estudos das Sociedades de Advogados - //www.conjur.com.br/2021-mar-08/presenca-topo-ainda-drama-mulheres -, mostra que as mulheres somam 51% das advogadas do país.

JLPolítica - Essa paridade se aplica à magistratura?
FP -
Não. Esse percentual não se repete em instâncias superiores da justiça, fazendo com que o Judiciário, nessas condições, torne-se um espaço privilegiado de segregação por gênero. E quanto mais alta a instância, maiores são as barreiras. Na Justiça Eleitoral elas são 19,2%. E em Sergipe apenas 25% dos desembargadores são mulheres. Precisamos considerar tanto as condições de absorção quanto as de retração. De um lado, a presença feminina tende a se concentrar em ramos do Direito associados ao trabalho feminino, como direito da família, direitos sociais, direitos trabalhistas. São, portanto, as funções que exigem alguma habilidade socialmente classificada como feminina, tais como conciliação, resolução de conflitos, cuidados, que tendem a apresentar maior flexibilidade para a presença feminina. De outro lado, mesmo tendo experimentado um crescimento no mercado profissional, as mulheres esbarram nos constrangimentos de acesso aos postos de comando e que acabam por limitar sua entrada.

JLPolítica - O modelo de percentual obrigatório de candidaturas de mulheres a mandatos eletivos contribui ou piora a perspectiva de ocupação de espaços?
FP -
As medidas que envolvem a adoção de cotas eleitorais, implicando assim em uma reserva de um determinado contingente de candidaturas femininas, contribui para criar uma janela de oportunidades para muitas mulheres. Contudo se isso não vier acompanhado de um crescimento e de uma valorização das pautas associadas à defesa do direito das mulheres, a mudança não será a longo prazo, uma vez que as candidaturas se adaptam ao jogo político. A expansão da franquia eleitoral sem a luta pela equidade e igualdade não modifica de forma substantiva a situação.

Ao centro e na infância, ladeada pela amiga Daniela e pela irmã Cristiane Petrarca

O PERIGO DE ALGUMAS ESTRATÉGIAS SOLTAS
“O uso estratégico de partidos e políticos sem passado em defesa dos direitos das mulheres e da luta por maior equidade de gênero poderá até produzir resultados eleitorais, mas não produzirá na luta pela equidade de gênero. Não basta aumentar o número de mulheres candidatas ou criar artifícios para ganhar votos. É necessário incorporar este grupo historicamente marginalizado e as pautas pelos direitos e contra a desigualdade no corpo político”

JLPolítica - Qual é o papel da educação no estabelecimento de uma paridade de mandos e poderes entre homens e mulheres? Essa paridade pode ser atingida e alcançada deixando de fora os aspectos educacionais?
FP -
O papel da educação pode se manifestar em dois movimentos. O primeiro, como um recurso importante, uma vez que o maior acesso a títulos acadêmicos pode contribuir para ampliação da presença das mulheres em diferentes espaços profissionais. Ele é importante em termos numéricos e de criação de espaços de possibilidades. Contudo, sozinhos eles não mudam os padrões de dominação nem tampouco contribuem para quebrar o “teto de vidro”.

JLPolítica - É necessário o que mais?
FP -
É preciso que haja uma política de expansão da participação feminina em postos de comando. O segundo movimento é entender a escola enquanto instituição social que pode e deve desempenhar um papel fundamental na diminuição das desigualdades, contribuindo para que o problema seja discutido e medidas possam ser tomadas. O gênero está associado a um conjunto de experiências e interações da infância e adolescência que se manifestam na escola. A educação exerce um papel fundamental no questionamento dos padrões e modelos sociais, podendo contribuir para uma sociedade mais justa.

JLPolítica - A senhora vê ou aponta algum indício de que nesse 2022 saiam resultados eleitorais em benefício das mulheres diferentes dos que têm saído?
FP -
O que se observa, nesse primeiro momento, é a instrumentalização por alguns grupos políticos da temática das mulheres como uma tentativa de captar voto e um determinado eleitorado. Esse uso estratégico na competição política de partidos e políticos sem passado em defesa dos direitos das mulheres e da luta por maior equidade de gênero poderá até produzir resultados eleitorais, mas não produzirá resultados na luta pela equidade de gênero. Não basta aumentar o número de mulheres candidatas ou criar artifícios para ganhar votos. É necessário incorporar este grupo historicamente marginalizado e as pautas pelos direitos e contra a desigualdade no corpo político.

Fernanda Petrarca numa das tantas mesas redondas para debates na UFS, onde ela coordena ainda o Laboratório de Estudos do Poder e da Política

SERGIPE BEM NA FITA DO ANTIGO LEGADO FEMININO
“Em 1929 foi fundado em Aracaju o Diretório do Movimento Feminista em Sergipe, constituído por Maria Rita Soares, Cesartina Régis, Ítala da Silva, Laura Amazonas e Heloísa Santos, como integrantes do núcleo. Quintina compõe, portando, esse quadro a nível regional de um movimento amplo liderado pela Federação Brasileira do Progresso Feminino. Ela tornou-se a primeira mulher do Estado eleita deputada estadual e nessa direção sua trajetória representou conquistas importantes em âmbito local”

JLPolítica - Não fossem as suas ocupações acadêmicas, a senhora se veria disputando um mandato eletivo na política?
FP -
Não, não me vejo. Meu interesse pela política eleitoral é apenas e, exclusivamente, como objeto de estudo.

JLPolítica - Qual a positividade da representação dos legados de Quintina Diniz e Cezartina Regis nessas lutas?
FP -
O legado de Quintina Diniz está inserido, de um lado, na socio história do movimento sufragista brasileiro. Várias figuras femininas se destacaram na expansão da luta pelo voto das mulheres. A criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, por Bertha Lutz, foi parte importante disso, já que por meio desta Federação várias lideranças femininas se destacaram no país em vários Estados e tiveram oportunidade de participar mais ativamente do processo político. Organização de eventos, congressos, passeatas, abaixo assinados compuseram parte das estratégias desta federação. De outro lado, compõem as disputas em âmbito local para maior participação feminina nos espaços decisórios.

JLPolítica - Como Sergipe se colocou diante dessas questões?
FP -
Em 1929 foi fundado em Aracaju o Diretório do Movimento Feminista em Sergipe, constituído por Maria Rita Soares, Cesartina Régis, Ítala da Silva, Laura Amazonas e Heloísa Santos, como integrantes do núcleo. Quintina compõe, portando, esse quadro a nível regional de um movimento amplo liderado pela Federação Brasileira do Progresso Feminino. Ela tornou-se a primeira mulher do Estado eleita deputada estadual e nessa direção sua trajetória representou conquistas importantes em âmbito local. O próprio trajeto social e profissional destas mulheres é revelador das condições sociais que afetavam a participação das mulheres na política, como a dificuldade de integrar vida doméstica, obrigações da vida familiar e a participação em processos decisórios. A condição de mulheres instruídas e ocupantes de um espaço profissional que aceitava a presença feminina como a educação conferiu, a estas mulheres, visibilidade, criando as condições para suas atuações.

Fernanda Petrarca num momento em ação em sala de aula na UFS: tripla formação pela Universidade Federal de Pelotas e Universidade Federal do Rio Grande Sul

MOVIMETO DO VOTO FEMININO, EMPODERAMENTO ESCASSO
“Sem dúvida votar e ser votado constitui uma experiência política fundamental. Comparado a outros países, inclusive de democracias mais consolidadas, o Brasil saiu na frente no voto feminino, mas isso não se traduziu em ampliação das condições e diminuição das desigualdades”

JLPolítica - Qual o espólio deixado pelas sufragistas brasileiras e sergipanas?
FP -
Em linhas gerais, a luta sufrágica representeou um instrumento para a conquista de outros direitos como a superação de desigualdades entre homens e mulheres. No Brasil o movimento sufragista adquiriu tom moderado, buscando se adaptar aos padrões tradicionais da sociedade, que colocam o papel da mulher voltado para a família, para a vida doméstica.

JLPolítica - A senhora vê algum elo causal entre a baixa representatividade feminina na esfera política e o retardo do direito ao voto feminino no Brasil?
FP -
Estabelecer uma relação direta entre o voto feminino e a baixa representatividade é ignorar as outras variáveis sociais que contaram - e que ainda funcionam - como empecilhos para o acesso das mulheres aos cargos eletivos. Como por exemplo, os regimes políticos, a forma de organização do sistema político, a formação de lideranças políticas partidárias, o padrão de dominação social, o papel das instituições na reprodução deste padrão, dentre outros. Sem dúvida votar e ser votado constitui uma experiência política fundamental. Comparado a outros países, inclusive de democracias mais consolidadas, o Brasil saiu na frente no voto feminino, mas isso não se traduziu em ampliação das condições e diminuição das desigualdades. O movimento em prol do voto já aparece no Brasil no final do século XIX, mas um dos argumentos fortes contra a participação das mulheres era de que ele impediria o exercício das funções exclusivamente familiares, voltadas à vida doméstica. É principalmente a partir do século XX que um movimento liderado por professoras passa a impulsionar a luta pelo voto das mulheres e a conquistar adesões no novo contexto político que eclode com a revolução de 1930. Fora do voto não quer dizer fora da política, até porque as mulheres de elite atuavam nos bastidores da política, fazendo parte - como coadjuvantes - das alianças políticas coronelísticas e integrando as facções políticas estaduais. As ligas femininas criadas no final do século XIX e início do século XX auxiliaram na criação de um eleitorado destinado a certos políticos.

JLPolítica - Qual foi o papel histórico do Código Eleitoral de 1932?
FP -
A legislação de 1932 aprovou o voto feminino, mas manteve atrelado as funções profissionais. Ou seja, qualificação de quem vota. Com o objetivo de manter a ordem nas relações privadas da família brasileira, ele não era obrigatório e apenas as casadas e com autorização do marido poderiam votar.

Tânia Soares: a primeira sergipana a pisar o chão da Câmara Federal com um mandato, e em 2000. Mas chegou lá como primeira suplente de Marcelo Déda

DOS ERROS DO CÓDIGO ELEITORAL DE 1932
“A principal crítica ao movimento pelo sufrágio feminino no Brasil reside no fato de que grande parte das brasileiras continuaram excluídas do processo eleitoral, mesmo após a conquista de 1932. Mulheres brancas e com alguma condição financeira exerceram esse direito. Ainda que as líderes sufragistas brasileiras tenham lutado fortemente contra o chamado “voto qualificado”, condicionado a profissão, não demandaram o voto para analfabetos”

JLPolítica - Mas a luta pelo sufrágio feminino permaneceu passiva de críticas...
FP -
A principal crítica ao movimento pelo sufrágio feminino no Brasil reside no fato de que grande parte das brasileiras continuaram excluídas do processo eleitoral, mesmo após a conquista de 1932. Mulheres brancas e com alguma condição financeira exerceram esse direito. Ainda que as líderes sufragistas brasileiras tenham lutado fortemente contra o chamado “voto qualificado”, isto é, o voto condicionado a profissão, elas não demandaram o voto para analfabetos, o que de fato só ocorreu em 1985.

JLPolítica - Que leitura pode se fazer do fato de em 202 anos de história de emancipação política do Estado de Sergipe em relação à Bahia não ter havido uma só mulher governadora?
FP -
O universo político de Sergipe, assim como do resto do país, é predominantemente masculino. As análises recentes que realizamos, tentando compreender a presença feminina na política sergipana, têm nos mostrado que em sua larga expressão as mulheres entram na política pelas mãos dos maridos, irmãos, tios ou pais, muitas vezes disputando um espólio político ou dando continuidade a um projeto de um grupo político que não tem a igualdade de gênero como pauta ou bandeira. Inclusive em alguns casos as mulheres se tornam candidatas quando os homens da família ou do grupo político são impedidos judicialmente de disputar o processo eleitoral. Isso nos chama a atenção para alguns pontos importantes.

JLPolítica - Quais?
FP -
Primeiro, para a dinâmica do jogo político estadual, as disputas e a formação dos agrupamentos políticos. Liderados em sua larga maioria por homens, esses agrupamentos, estruturados na lógica da aliança, tendem a reproduzir os padrões de dominação social. Segundo, para os parâmetros de candidaturas dentro do jogo político. Quando e em que condições as mulheres se tornam competitivas para disputar cargos eletivos? Pelo que vemos, elas se tornam competitivas - na grande maioria das vezes - quando os homens estão impedidos.

Fernanda Petrarca: “Não há na Universidade Federal de Sergipe nenhum empecilho ou constrangimento que barre o acesso de mulheres a cargos e funções”

DO EQUILÍBRIO PELOS ESPAÇOS DE GÊNERO NA UFS
“Do ponto de vista institucional, não há na Universidade Federal de Sergipe nenhum empecilho ou constrangimento que barre o acesso de mulheres a cargos e funções. A instituição tem promovido, inclusive, um conjunto de atividades com vistas a incentivar a participação feminina na gestão, como mesas redondas, lançamento de livros, debates e discussões”

25JLPolítica - A senhora vê um equilíbrio de gênero no mando e na ocupação de espaços nas diversas esferas de poder da UFS?
FP -
Do ponto de vista institucional, não há na Universidade Federal de Sergipe nenhum empecilho ou constrangimento que barre o acesso de mulheres a cargos e funções. A instituição tem promovido, inclusive, um conjunto de atividades com vistas a incentivar a participação feminina na gestão, como mesas redondas, lançamento de livros, debates e discussões.

JLPolítica - E essas atitudes contribuem?
FP -
Sim. Esses eventos são importantes, uma vez que como instituição de ensino superior a universidade coloca para a sociedade que não só está preocupada em equilibrar a participação feminina como se torna um centro de reflexão importante sobre o tema. Mas é claro que a UFS não é uma ilha. As desigualdades que observamos, de modo geral na sociedade, também acabam impactando o equilíbrio de gênero nas diversas esferas do poder. De 1968 até 2022, a UFS teve apenas uma mulher reitora. Já entre os cargos de pró reitoria, das sete vigentes, duas são ocupadas por mulheres.

JLPolítica - Mas na luta geral de gêneros, os espaços na sociedade continuam majoritariamente dos homens...
FP -
Sim. Estudos na área de gênero em diferentes instituições de ensino e áreas de atuação profissional têm demonstrado que os homens assumem mais cargos de gestão do que mulheres, bem como ascendem a postos e funções de comando em menor tempo do que as mulheres. Isso também acontece entre as cientistas. Uma pesquisa recente demonstrou uma forte desigualdade de gênero na distribuição das bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq. Essas bolsas são como prêmios para pesquisadores de destaque e excelência na sua área e 64% delas são obtidas por homens. Dentre as discussões que tem pautado os debates, está a necessidade de identificar, por exemplo, o impacto da licença maternidade na produção das mulheres cientistas. Pensar em estratégias para mitigar o efeito destas, dentre outras, questões é papel central de toda instituição.

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