Entrevista

Jozailto Lima

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Francisco Gualberto: “Eu faço política mantendo concepção e princípio”

27 de fevereiro de 2020
Acessar a Câmara Federal é uma questão de sonho e convicção de que posso contribuir”

Duro, duríssimo. Numas vezes, bruto como uma rocha. Noutras, um menino terno, um fidalgo produtor de imagens e metáforas claras e diretas sobre a crueza da vida e da política. Na real, um poeta e compositor. Um cantante da boa música de raiz brasileira, que os pendentes chamam de brega.

Desconfiadíssimo. Reativo à flor da pele. Capaz de dizer asperamente o que não é esperado, se pressente erradamente uma segunda intenção por trás de uma ação que se quer simples e cordial.

Mas muito considerado e levado a sério entre seus pares. Entre os que com ele convivem - o deputado Luciano Bispo o tem como o mais cordial entre os 24 colegas no aspecto da defesa de classe.

Este é Francisco Gualberto, de 64 anos. E ninguém pode negar o que ele foi e é na vida de Sergipe e na dele próprio. Ninguém pode lhe negar o lugar ao qual chegou, apesar das adversidades que cingiram a sua sina e marcaram asperamente a sua biografia.

Menino pobre, órfão desde a primeira infância, na qual passou necessidade e fome no Caípe Velho, em São Cristóvão, Francisco Gualberto veio sentir o cheiro de um banco escolar aos 13 anos.

Mas, ao modo dele, sugou dali grandes ensinamentos, tirou profundas capacidades de enfrentamento da vida. Amealhou resiliência e princípios - os princípios de que fala no título desta Entrevista.

Mas é capaz de emendar de imediato situações embaraçosas. E garante: “Posso citar uma coisa que acredito ser muito positiva em mim: não guardo ódio, nem rancor. Não sei fazer isso”.

Único deputado a liderar três Governos. E tudo começa com Déda, por quem nutre grande respeito
Francisco Gualberto: militância desde os 18 anos e seis mandatos, cinco deles de deputado estadual

“Agora quero cumprir um papel importante no Congresso Nacional. Quem está cansado, quando corre um quilômetro não aguenta correr três”, reitera ele, numa metáfora do mundo dos esportes.

“Não é somente uma questão de honra. Acessar a Câmara Federal é uma questão de sonho, de responsabilidade e de convicção de que posso contribuir com o debate dos temas grandiosos que envolvem os interesses do povo de Sergipe e do Estado brasileiro”, teoriza.

“Se este operário tiver essa honra de, a nível nacional, poder se colocar de forma a contribuir com o avanço do nosso povo, eu só terei que comemorar e agradecer a quem me ajudar a cumprir esse papel”, diz.

Francisco Gualberto da Rocha nasceu no dia 23 de maio de 1956. Conseguiu fazer apenas o 2° grau do curso técnico de habilitação em Química pela Escola Estadual Gonçalo Rollemberg Leite, concluído em 1982, o que muito serviu em sua caminhada futura.

Ele é casado, tem três filhos e cinco netos - e, quebrando uma tradição da abertura desta Entrevista Domingueira, não vão aqui os nomes dos dele. Da sua prole. Diz que não expõe a família, e esse Portal acolhe e respeita.

Como o corpo da Entrevista dele resultou longo - Gualberto é reconhecidamente caudaloso nas falas recheadas de causos e exemplos -, não vão aqui expressos detalhes do que ele disse.

Mas disse muita coisa importante e significativa sobre vida, política, desempenho dos mandatos e projetos pessoais de futuro. Vale, sim, muitíssimo a leitura.

Francisco Gualberto: será grato se tiver chance de legislar pelo Estado brasileiro
MILITÂNCIA OPERÁRIA: GÊNESIS DE TUDO
“Preciso lembrar que eu não iniciei minha vida política como vereador de Aracaju. Eu iniciei minha militância política em 1976 combatendo a ditadura militar, quando eu tinha 18 anos de idade. E participando do sindicato da fábrica têxtil Pedro Amado, em São Cristóvão, isso de forma clandestina”


JLPolítica - A fatalidade do assassinato do deputado Joaldo Barbosa pede que leitura real no acesso que o senhor faz ao Poder Legislativo Estadual em 2003 com aqueles seus 11.117 votos de uma segunda suplência?
Francisco Gualberto - Quando o ex-deputado Joaldo Barbosa, o Nêgo da Farmácia, foi assassinado eu tinha participado recentemente de uma conversa com o então prefeito Marcelo Déda, na qual ele discutia exatamente a possibilidade de Nêgo da Farmácia ir para uma Secretaria da Prefeitura de Aracaju e o Antônio Francisco, que depois foi declarado mandante do assassinato, assumisse. Portanto, foi uma situação muito difícil. Agora, do ponto de vista do porquê eu cheguei na Assembleia era o óbvio, era a regra do jogo, a lei. O titular foi assassinado e o segundo, que era 1º suplente, foi incriminado. E também cassado. Portanto, naturalmente pela força da lei, eu como segundo suplente cheguei à Assembleia Legislativa. Lembro que à época mantive um comportamento respeitável, não fiz sequer uma entrevista a respeito do tema. E logicamente que não era dessa forma que eu queria chegar a Assembleia Legislativa, mas na pergunta existe uma palavra: fatalidade. E a fatalidade não me envolveu, porque eu estava exatamente na regra do jogo. Era vereador de Aracaju e segundo suplente na Alese. Cheguei lá, sem falsa modéstia, com muita dignidade, muita ética, muito respeito à situação.

JLPolítica - Parece que o senhor ainda manteve um gesto cordial com a família do deputado Joaldo?
Francisco Gualberto -
Sim, tanto é que durante o mandato mantive no gabinete o irmão do então deputado falecido, Pedro Barbosa. Ele se manteve comigo até o período que ele desejou, e só saiu em função da nova realidade dele em Boquim, onde teve ascensão política e abdicou do espaço que tinha no gabinete. Esse gesto de manter Pedro no gabinete foi de solidariedade, uma demonstração de ver que eu estava assumindo naquelas circunstâncias e que não era justo que o irmão do então deputado Joaldo Barbosa ficasse abandonado, isolado, como se nada pudesse ampará-lo. Eu cumpri esse papel e nunca havia divulgado. É a primeira vez que estou dizendo isso. Tanto é que até hoje nutro com Pedro Barbosa uma relação de muito respeito, carinho e amizade. Ele apoiou outro candidato na eleição seguinte, mas fez questão de separar em sua cidade um grupo de pessoas para que ele também simbolizasse a solidariedade a mim. E eu tive lá exatos 50 votos, que foi a quantidade prometida por ele que apoiou outro candidato. Então, desse antigo episódio, o que tem que se lamentar ou comentar mais não é a minha chegada, é o que ocorreu com o então deputado Nêgo da Farmácia, que foi um assassinato que eu considero brutal.  

JLPolítica - O que a experimentação e a vivência parlamentares, com dois anos de vereador de Aracaju e os cinco mandatos na Alese, contribuíram para modelar a visão política do Francisco Gualberto de 2021?
Francisco Gualberto -
Para responder essa pergunta é preciso uma viagem mais ampla. Preciso lembrar que eu não iniciei minha vida política como vereador de Aracaju. Eu iniciei minha militância política em 1976 combatendo a ditadura militar, quando eu tinha 18 anos de idade. E participando do sindicato da fábrica têxtil Pedro Amado, em São Cristóvão, isso de forma clandestina. Porque naquela ocasião tratava-se de uma ditadura militar que proibia o movimento sindical ou qualquer manifestação que fosse contra o sistema. Tanto é que dois anos depois eu fui processado, ameaçado de morte e tive que sair da cidade. Então não se trata apenas da Câmara de Vereadores. Em 1981 nós já estávamos em Aracaju e mesmo com todas as dificuldades que vivíamos, conhecemos uma série de militantes importantes no movimento sindical, como Rômulo Rodrigues, Edmilson Araújo, Antônio da Cruz, Aguiar, e tantos outros. E começamos então a discutir em 81 a construção da CUT e do PT. Existia um grupo na Fafen chamado “Grupo dos 40” e eu fiz parte desse elenco.

Sua velha São Cristóvão: berço de origem, dificuldades e de afeição
DAS VAQUINHAS PARA A CONSTRUÇÃO DO PT
Nós construíamos o Partido dos Trabalhadores, como os mais velhos podem lembrar, fazendo feijoada, vendendo camisas, broches, leilões, arrecadação de outros trabalhadores em outras fábricas, a exemplo da Petromisa, com o ex-senador José Eduardo Dutra coordenando”


JLPolítica - Com qual finalidade?
Francisco Gualberto - Éramos 40 operários que contribuíam mensalmente, de forma consignada no banco, para a construção do PT. Naquele período não havia fundo partidário, de campanha, essas coisas. Nós construíamos o Partido dos Trabalhadores, como os mais velhos podem lembrar, fazendo feijoada, vendendo camisas, broches, leilões, arrecadação de outros trabalhadores em outras fábricas, a exemplo da Petromisa, com o ex-senador José Eduardo Dutra coordenando. Mas nós consignávamos, tanto é que foi com recursos do Sindiquímica que o PT comprou a primeira Offset para o partido. Foi com a nossa arrecadação e passou a imprimir o seu material na sua sede com o seu próprio maquinário. E a partir daí passamos a militar de forma forte nessas duas frentes, eu fui inicialmente ministrar cursos de formação política para outros operários, e alguns anos depois passei a presidir a Central Única dos Trabalhadores, o que se deu por duas ocasiões. Posteriormente fui para a direção municipal do PT. Noutro tempo fui vice-presidente estadual do PT, fui eleito no penúltimo PED presidente do Diretório Municipal, mas por uma necessidade política abdiquei e outra pessoa assumiu. Então tem toda uma trajetória política a ser vista.

JLPolítica - Mas num dado momento o senhor o troca por outra sigla.
Francisco Gualberto -
Num intervalo de tempo nós saímos do PT, em 1993, e fomos construir o PSTU, partido operário mais radicalizado, mas à esquerda. Ficamos seis anos no PSTU, compreendemos que não dava para prosseguir dividindo pela esquerda, e os 87 filiados que saíram do PT em 1993 voltaram em 1999 por uma decisão política. Tanto é que na eleição anterior a de prefeito, nós tínhamos o PSTU com candidato a deputado federal, senador, numa coligação com Marlene do PCB, o professor Araújo, que era o candidato a governador pelo PV, mas tomamos uma decisão: de forma discutida votamos em Marcelo Déda para federal. Foi uma discussão do próprio partido e definimos que não haveria condições de eleger um federal próprio, e que precisávamos eleger um deputado federal consequente, progressista, e que brilhou, como Déda brilhou. Talvez o parlamentar sergipano que mais brilhou na história política contemporânea do Estado de Sergipe. E somente em 2000 é que nós nos candidatamos com Déda a prefeito, e aí sim é que fomos para a Câmara de Vereadores. Mas isso depois de muitos anos de trajetória política que envolveu prisões, demissões, porrada de polícia, uma série de circunstâncias. E logicamente que a passagem pela Câmara teve a importância do convívio particular, de como funciona um parlamento, de suas diferenças entre um parlamento e um sindicato, uma central sindical. Às vezes se completam, mas são instituições diferentes, com papéis bem diferentes. A Câmara é mais ampla que um sindicato, assim como a Assembleia é mais ampla que a Câmara, e assim por diante. Então cheguei na Alese e até reconheço que naquilo que posso agir tenho a escora de toda uma trajetória que vem desde o combate à ditadura militar, passando pelo movimento sindical, até chegar em todos os mandatos.

JLPolítica - O que é possível produzir para uma comunidade de Estado com cinco mandatos de deputado estadual e que contributo o seu mandato deixou até hoje para Sergipe em termos de leis?
Francisco Gualberto -
Um mandato parlamentar não se resume a legislar, que é uma parte importante, mas existem outras funções. Eu tenho o prazer de ter recebido homenagens, certificados e troféus de várias categorias profissionais. Vou citar algumas: sindicato do Fisco, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Policia Civil, Procuradoria Geral do Estado e várias outras. Todas essas categorias me homenagearam e eu fico muito honrado por poder ter cumprido o meu papel e por ter recebido o reconhecimento. Eles me homenagearam porque a ação do mandato contribuiu com vários avanços e reivindicações dessas categorias. Foram várias intermediações e negociações junto ao governo, com busca de atendimento. Então esse é um papel que eu cumpri como parlamentar e que me dá muito orgulho. Outro papel é aquele que o Executivo realiza obras, por exemplo, mas para isso precisa da aprovação e da sustentação dos parlamentares. Quem não lembra do tão controverso projeto do Proinvest? Era um projeto no qual Déda tinha uma imensidão de obras a realizar, mas no período houve um rompimento com o grupo de Amorim, nós ficamos com minoria na Assembleia e as obras que ficaram foram forçadamente negociadas entre Marcelo Déda e a bancada de Amorim, porque tínhamos minoria. Mas numa série de outras obras, onde está lá a placa do governador, do vice, que são os executores, com justiça, mas em muitas ocasiões, para aquela obra ser feita foi preciso pedir autorização a Assembleia para conseguir um empréstimo em instituição oficial. Ou seja, existe a participação do parlamento também no que é feito pelo Executivo em termos de obras e realizações. No último dia 24/02/2001 nós votamos um projeto que trata do Cartão Mais, que estende até junho do próximo ano uma contribuição financeira para as pessoas pobres, em função da pandemia. Quer dizer, isso ocorreu porque o governador não poderia fazer isso por decreto e teve que mandar para a Alese. Quem vai executar é o governador Belivaldo Chagas, mas obviamente tem a participação dos deputados. Então é outra função do parlamento. Os deputados que fazem oposição, que por sinal votaram a favor desse projeto que me referi, fazem a fiscalização, o embate, às vezes têm razão nas suas críticas, mas na maioria das vezes fazem por fazer, porque são oposição, mas faz parte da regra do jogo, e isso é outra coisa.

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MANDATO AFERIDO PELO TRANSPARÊNCIA BRASIL
“Em termos de legislação, o Instituto Transparência Brasil, há mais ou menos seis anos, me colocou como o deputado mais produtivo em termos legislativo no Estado de Sergipe. E esta eficiência não é em função do número de projetos, e sim do conteúdo”


JLPolítica - Alguma instituição já aferiu o seu desempenho parlamentar?
Francisco Gualberto - Em termos de legislação, o Instituto Transparência Brasil, há mais ou menos seis anos, me colocou como o deputado mais produtivo em termos legislativo no Estado de Sergipe. E esta eficiência não é em função do número de projetos, e sim do conteúdo. Cito alguns que estão em vigor: Sergipe é o único Estado que tem um fundo específico para a revitalização de bacias hidrográficas. É o único Estado do Brasil, pois nenhum outro governador aceitou essa proposta. Foi o governador Marcelo Déda quem sancionou e o projeto é do deputado Francisco Gualberto. Cito também que é o primeiro Estado do Brasil que aprovou uma lei de assédio moral apresentada por mim e sancionada por Déda. Muitos advogados ganharam causas em favor de trabalhadores que sofreram assédio tendo por base a lei estadual de nossa autoria. Outra: cansei de ver abrir um concurso público para o Estado e aquelas pessoas que estão abaixo da linha da pobreza saiam fazendo rifa para pagar a taxa de participação do concurso, iam para a Assembleia pedir dinheiro aos deputados, aos familiares, e faziam até mendigagem. Mas uma lei nossa isenta de pagamento para concurso público de Estado todos aqueles que estejam inscritos em qualquer programa de assistência social do governo. É uma lei que eu considero importante. Tem outra que está em vigor e as pessoas usam praticamente toda semana: a lei diz que o cidadão que for roubado ou furtado basta que ele apresente um BO e terá direito à segunda via de qualquer documento fornecido pelo Estado sem pagar um centavo. Antes, quando o cidadão era roubado ou furtado, passava por duas situações difíceis: primeiro a violência que sofria pelo roubo e depois tinha que pagar porque foi roubado. Mas uma legislação nossa acabou com isso. Essas são algumas das leis que nós aprovamos e entendemos que são importantes. Assim como vou apresentar agora uma lei que é fruto de um convênio que já existe entre a Secretaria de Educação e a Associação dos Oftalmologistas de Sergipe. Trata-se de um programa relacionado à visão das crianças de escolas públicas. Muitas vezes se vê uma criança que não está aprendendo porque não está enxergando bem o que o professor está expondo no quadro ou no slide. Ou seja, não está alcançando a demonstração que o professor está fazendo. Os médicos da Associação de Oftalmologistas fazem o exame e oferecem os óculos, isso já existe de forma conveniada. O que queremos é que ao invés de ser um convênio, que pode ser desfeito com facilidade por um governo que não se interesse por um programa como esse, seja transformado isso em lei. Ao invés de ser um convênio, ser uma política de Estado. É um projeto que mesmo que não haja reconhecimento e nem divulgação para a população, mas a gente fica com a sensação do dever cumprido como parlamentar. São muitas leis de minha autoria. Temos uma revista publicada com um elenco de leis importantes que nós aprovamos. Por isso que o Transparência Brasil me deu essa honra de fazer uma divulgação a nível nacional.             

JLPolítica - Na metade que lhe resta deste seu mandato, tem algo que o senhor gostaria de elevar à condição de lei estadual?
Francisco Gualberto -
Falei de projetos importantes na pergunta anterior, mas acabei de protocolar um projeto de lei que valoriza a história e a cultura de São Cristóvão. Coloca em lei complementar uma realidade que já existe. Todos nós sabemos que São Cristóvão foi a cidade por onde tudo começou em Sergipe. Quem for ler a justificativa de meu projeto verá que a cidade foi fundada em três locais de diferentes, por questões de segurança da época. Era preciso estar no alto, não dava para ser na parte baixa, era preciso ficar próxima a um rio, enfim, ter as condições geográficas para assegurar a defesa contra as invasões. São Cristóvão também foi a primeira capital do Estado de Sergipe, e é uma cidade cujo patrimônio arquitetônico por si só demonstra a sua importância para o nosso Estado. Por outras questões, a cidade deixou de ser capital e Aracaju assumiu esse papel. Mas existe uma referência a São Cristóvão que é de domínio público: “São Cristóvão, a cidade mãe de Sergipe”. Se você observar, ali no Luiz Alves, no lado direito, há uma apresentação da cidade numa placa. Se observar também a publicidade que a prefeitura faz buscando conscientizar a população no combate ao coronavírus está lá escrito: a cidade mãe de Sergipe. Frequentadores que não são da cidade também têm conhecimento dessa referência histórica a São Cristóvão. Portanto, não temos a intenção que essa referência seja apenas um reconhecimento do atual prefeito Marcos Santana, mas que seja um reconhecimento legal da história e colocada em lei de forma que ultrapasse os governos. Assim que essa lei for aprovada na Alese, o prefeito irá colocar na Lei Orgânica da cidade, para que essa referência ao valor histórico de São Cristóvão esteja em documentos entranhados a nível estadual e municipal. Portanto, não será uma questão do atual prefeito, e sim da cidade e sua importância histórica. Esse projeto pode não ter importância para muita gente, mas para quem sabe o que significa o registro de um história dessas, sabe que se trata de algo importante.    

JLPolítica - Quem é a figura humana e difusa que compõe os 24.637 eleitores que deram o quinto mandato de deputado a Gualberto em 2018?
Francisco Gualberto -
Se a pergunta quer se referir ao perfil de quem me elegeu, aí não é fácil responder. Porque nós temos seis mandatos, cinco de deputado e um de vereador de Aracaju, tivemos mais três eleições, a exemplo de 1994 quando fui candidato a senador e tive 70 mil votos. Foi uma votação tão extraordinária que quatro anos depois, em 1998, José Almeida Lima foi candidato a senador com apoio de Déda, Jackson, Valadares, e teve 48 mil votos. Eu tive 70 mil sozinho no PSTU. Portanto, é impossível dizer qual foi o perfil de quem votou em mim, a gente sabe o que predominou, mas o perfil é amplo. E até hoje continua assim. Os votos que recebo são fruto da boa vontade das pessoas, da compreensão a respeito da política que faço. Na última eleição tive votos nos 75 municípios de Sergipe. Aqui na capital, tive o apoio de uma série de militantes conhecidos, muitos que foram às ruas reivindicar em favor da democracia, dos direitos do povo, dos trabalhadores, defender os projetos progressistas e a esquerda sergipana. Então é um extrato muito interessante, que logicamente será esquecido com o tempo, mas que está registrado em mais de 300 entrevistas escritas que tenho no meu arquivo. Sem contar com o período que era em fita cassete, nós transformamos em DVD e hoje já tenho pendrive com gravação de muitas entrevistas. Nesse período de pandemia não estou viajando para fazer a política mais presencial, mas em muitas ocasiões antes eu pegava uma entrevista feita nos anos 90 e botava no carro para ir ouvindo o que eu dizia e o que defendia naquele período. Isso para servir de parâmetro para o que digo hoje ou possa dizer amanhã.   

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DIVERGÊNCIAS CLARAS EM RELAÇÃO A BOLSONARO
“Nada no mundo me faz votar em Bolsonaro, enquanto eu tiver vida e vontade própria. Isso é uma questão de concepção. Eu sou um defensor da vida, ele um aliado do coronavírus. Portanto, aliado da morte. Eu sou defensor de que o Brasil já deveria ter vacina para toda sua população, se isso fosse tratado no tempo certo. Ele, defensor de que não tenha vacina”


JLPolítica - Quem de fato é a figura humana de Francisco Gualberto por trás do deputado Francisco Gualberto?
Francisco Gualberto - Além do que já está descrito politicamente numa pergunta anterior na qual falei de minha trajetória, como ser humano, se trata de um filho da pobreza que foi para uma escola aos 13 anos de idade, portanto até essa idade vivia o analfabetismo, que comeu farinha com açúcar, manjobona no côco, que é algo em extinção, que comeu moqueca de jaca mole, e que não passou mais dificuldade porque no Caípe Velho, onde vivi até os nove anos, ia pra maré pegar siri, aratu ou peixinho para comer com farinha. Do ponto de vista social, Francisco Gualberto é isso. Do ponto de vista de alguns aspectos humanos, o mesmo Francisco Gualberto que muitas vezes enfrentou a violência e a dificuldade, que reagiu a muitas situações até de forma que se fosse hoje talvez não reagisse, mas reagi, é o mesmo que publicou sete livros, entre poesia e prosa. O último foi um livro que fez um apanhado dos seis livros de poesia que publiquei ao longo do tempo, com o primeiro sendo publicado em 1977 e o último em dezembro de 1994. O jornalista Gilson Sousa fez um trabalho de seleção e edição dessas poesias e nós publicamos do início do ano passado o livro chamado “Na linha do tempo”. Portanto, sou um operário que enfrentou pancada da polícia, prisão, fome, desemprego, mas que escreve poesia. E não pretendo ser poeta. Para mim basta escrever a poesia. Também componho músicas, tenho algumas gravadas por Giló, Antônio Carlos Du Aracaju, Carlos Moreno, Carlos Santana, Sílvio Rocha, e não pretendo ser compositor. Para mim basta compor. E também canto, e não estou buscando ser cantor. Para mim basta cantar. Se sou poeta, compositor ou cantor, deixo isso por conta de quem me escuta ou de quem lê algo que escrevi. Sei que na arte quem manda não é quem faz. Quem manda é a expectativa de quem consome o que você faz. Portanto, Francisco Gualberto é um pouco disso. Eu diria que é um ser humano comum, com algum bom senso. Posso citar uma coisa que acredito ser muito positiva em mim: não guardo ódio, nem rancor. Não sei fazer isso. Posso reagir de forma até inesperada por alguns em momentos de conflito, de dificuldade, principalmente se for em legítima defesa, pois está na Constituição e é natural do ser humano. Mas não me lembro de nenhuma pessoa por quem meu coração guardou dela um pingo de ódio. Isso me faz viver mais feliz, com todas as contrariedades que a vida traz, principalmente com a política, com todas as decepções e tristezas. Mas isso me faz atravessar esse caminho de flores e espinhos com mais leveza e tranquilidade.

JLPolítica - Foi fácil chegar lá ou o senhor teve de mercantilizar sua ação para se reeleger quatro vezes de 2006 a 2018?
Francisco Gualberto -
Eu considero essa pergunta um tanto quanto agressiva. Pode não ser má intencionada, mas é agressiva. Porque quem conhece a história de um operário que veio marchando politicamente como eu marchei, imaginar que eu poderia mercantilizar uma eleição está equivocado. Eu prefiro acreditar que a pergunta não está bem colocada. É totalmente fora de foco. (O JLPolítica não só prefere acreditar, como está certíssimo de que a reatividade demasiada agressiva do deputado Francisco Gualberto às vezes embota o seu raciocínio e o priva de dizer melhor dele numa seara de mercantilização da política que naturalmente não o atinge).

JLPolítica - Qual é o grau de acerto nos que veem um certo apassivamento e abrandamento político do senhor a partir da envergadura de tantos mandatos?
Francisco Gualberto -
Eu faço política mantendo concepção e princípio. Porém, para se chegar à manutenção desses princípios e concepções muita coisa precisa ficar clara. Por exemplo, nada no mundo me faz votar em Bolsonaro, enquanto eu tiver vida e vontade própria. Isso é uma questão de concepção. Eu sou um defensor da vida, ele um aliado do coronavírus. Portanto, aliado da morte. Eu sou defensor de que o Brasil já deveria ter vacina para toda sua população, se isso fosse tratado no tempo certo. Ele, defensor de que não tenha vacina. Não consegue nem negar isso. E não somente ele, seus apoiadores também, inclusive representantes da imprensa, como a Bandeirantes, a Record, o SBT, uma série de setores que trabalham até para que as pessoas não usem máscara nem mantenham o distanciamento social. Portanto, isso se chama concepção. Acho que nada é mais importante do que a vida. Agora, para se chegar a não votar num Bolsonaro, se percorre um caminho, uma tática. Essa história de abrandamento ou não abrandamento não significa jamais mudança de concepção ou de princípio. Significa compreender como é que você recebe as homenagens, que já me referi nessa entrevista, ajudando aos trabalhadores. Antes eu ajudei de um jeito, no movimento sindical, na luta, na greve, na mobilização. Depois pude ajudar na negociação, na intermediação com o governo. Portanto, essa coisa de querer rotular é simplismo. Se a análise for mais profunda, a gente vê que para se matar a sede você pode tomar alguns tipos de água, e não apenas a água de um único fabricante. 

Plenário da Câmara Federal: um espaço que quer ocupar em 2023
“ÚNICO QUE TEVE A HONRA DE LIDERAR TRÊS GOVERNOS”
“Quando aceitei ser líder do Governo Déda, depois continuei como líder no Governo Jackson e num período do Governo Belivaldo, acertei e guardarei isso como troféu. Primeiro, sou o único deputado operário na história da Assembleia. Segundo, o único que teve a honra de liderar três governos”


JLPolítica - O senhor teria mais prudência nos embates se tivesse de começar na vida de mandatos com a experiência que tem hoje?
Francisco Gualberto - Se eu não acreditasse que a experiência é válida, não acreditaria que um médico precisa muitas vezes fazer residência, que um engenheiro civil precisa fazer estágio, que tantos outros profissionais precisam passar por um laboratório da vida na profissão e ele se torna muito mais competente com o passar do tempo. E eu não sou diferente de nenhum ser humano. Obviamente que a postura que tive em muitas ocasiões no início do mandato, talvez tivesse uma outra agora. Sem mudar de concepção e sem vender a alma ao diabo, muito menos abrir mão de princípios. Eu acredito tanto na experiência que numa ocasião, quando eu era vereador, em 2001, alguém disse que meu projeto era inconstitucional, e eu teria que aceitar isso porque ele tinha passado cinco anos sentando nos bancos da universidade, e portanto era advogado. Eu, num tom de brincadeira, disse a ele: “Olha, você passou cinco anos sentando nos bancos da universidade, mas eu sou de São Cristóvão e por mais de 20 anos passei em frente à universidade todo dia, duas ou três vezes. Portanto, me sinto com doutorado em alguma área, e meu projeto é constitucional”. E o projeto foi aprovado.

JLPolítica - Qual é o limite entre puxar ou não um facão e enrabar um desafiador que lhe seja visto como insolente?
Francisco Gualberto -
É muito importante que eu não responda a essa pergunta, mas que eu a devolva. A resposta para essa pergunta está em cada homem e em cada mulher. Qual é o limite que leva um ser humano a praticar esse ou aquele ato? Se cada um responder, eu também estou respondendo. (O JLPolítica considera que esta é outra resposta dada com o sumo estranho e desnecessário da reatividade, na qual o parlamentar perde uma chance histórica e humanizada de passar a limpo episódio acontecido em sua vida. Aliás, quando não é perguntado sobre o tema, Gualberto faz boa análise da ira humana e pessoal, e até se revela um não cultor do ódio).   

JLPolítica - O senhor errou, e faz algum tipo de mea culpa, ao ter assumido a liderança de Governos na Alese?
Francisco Gualberto -
Quando aceitei ser líder do Governo Marcelo Déda, depois continuei como líder no Governo Jackson Barreto e num período do governo Belivaldo Chagas, acertei e guardarei isso como troféu. Primeiro, sou o único deputado operário, na concepção da palavra, na história da Assembleia Legislativa. Segundo, sou o único deputado que teve a honra de liderar três governos, conviver e fazer encaminhamentos, inclusive com deputados que num momento foi oposição e em outro foi situação. E sem falsa modéstia, acredito que nós cumprimos bem essa tarefa. Tanto assim penso que hoje tenho amigos que foram meus adversários ferrenhos. Prova de que eu conduzi bem. E quando numa das perguntas expliquei as homenagens que recebi, prova que o meu papel como líder do governo serviu ao Estado de Sergipe e serviu ao povo sergipano. Mas logicamente que desagradei uma série de pessoas e, inclusive mesmo sendo da minha classe, são mais oportunistas que os representantes da elite. Já me mostraram um áudio no qual dois burgueses, num restaurante de luxo aqui de Sergipe, diziam: “Temos que votar num candidato tal, porque aquele grupo cumpre um papel que a gente não precisa cumprir, destruir os aliados”. Então fui líder do Governo enfrentando o oportunismo e a desfaçatez dentro do meu próprio partido. Tem pessoas com várias personalidades, e isso reflete na política. Portanto, passar por tudo isso e ver o que foi o Governo Marcelo Déda, só se eu fosse um imbecil de dizer que não significa uma trajetória vitoriosa.

Caso de amor com o PT pode ser interrompido com outra filiação
“NÃO SOU UM VICE-PRESIDENTE DE FANTASIA”
“Ser vice-presidente de um parlamento é honroso, gratificante e importante. Do ponto de vista da prática, no meu caso, é extraordinário. Sou vice de Luciano Bispo, que é o presidente da Casa, e componho uma Mesa com importantes parlamentares, como Luciano Pimentel, Jeferson Andrade e outros, e a gente contribui com a vida daquela Casa”


JLPolítica - Um líder de Governo não vende um pouco dos dedos e dos anéis para servir a quem ele serve?
Francisco Gualberto - Se o nobre jornalista conhece algum líder do governo com essas características, deve se dirigir a ele, não ao deputado Francisco Gualberto.

JLPolítica - Qual é o maior pecado da política, segundo a visão do ser social Francisco Gualberto?
Francisco Gualberto -
Essa resposta está no inverso da resposta da última pergunta. A meu ver, a maior virtude da vida é a gratidão e você ser verdadeiro. Você se apresentar como é de fato, como ser humano que é, que tem virtudes e que tem defeitos. 

JLPolítica - É chato e sem preenchimento de ação e de sentido ser vice-presidente do Poder Legislativo de Sergipe?
Francisco Gualberto -
Ser vice-presidente de um parlamento é honroso, gratificante e importante. Do ponto de vista da prática, no meu caso, é extraordinário. Eu sou vice de Luciano Bispo, que é o presidente da Casa, e componho uma Mesa com importantes parlamentares, como Luciano Pimentel, Jeferson Andrade e outros, e a gente contribui com a vida daquela Casa. Não sou um vice-presidente de fantasia. O presidente conversa comigo, me consulta. Não sou um inconveniente que procura atrapalhar a administração e quer impor posições. Até porque mesmo que eu fosse, a postura de Luciano não permite isso. Porque ele nos procura para conversar, ouvir, dialogar. Então ser vice-presidente daquela Casa é algo que também está positivamente escrito na biografia deste operário. Mas tem outro aspecto, que é o da composição legal das casas parlamentares. Não existe nenhum presidente sem vice. Até porque o vice é o substituto automático em eventualidades. Portanto, tem papel legal, tem papel de estrutura de poder, e no nosso caso tem papel de construção e de ajuda no funcionamento da Casa. Eu agradeço a todos os deputados que votaram nessa chapa.  

CUT: nela Francisco Gualberto bateu ponto e levantou crachá como presidente
SIM, PODE DEIXAR O PARTIDO DOS TRABALHADORES
“Não sei ainda dizer qual, mas sei de características do partido no qual posso me filiar. Os convites que tive, de três partidos, muito me honraram. Eles não me violentam pelas suas histórias, mas nesse momento não estou batendo o martelo sobre este tema. Cada dia com sua agonia”


JLPolítica - O senhor foi político de apenas três partidos - o MDB da iniciação, o PSTU e o PT, dedicando a este último a maior parte do seu tempo de militância. Pode experimentar um quarto a partir dos seus 65 anos a serem inaugurados no próximo abril?
Francisco Gualberto - Pode. Não sei ainda dizer qual, mas sei de características do partido no qual posso me filiar. Os convites que tive, de três partidos, muito me honraram. Eles não me violentam pelas suas histórias, mas nesse momento eu não estou batendo o martelo sobre este tema. Cada dia com sua agonia. No momento que for preciso e possível tratar isso de forma legal, trataremos.   

JLPolítica - O que é que o senhor vê de defeito na atual legislação eleitoral brasileira?
Francisco Gualberto -
A legislação que regeu a última eleição foi anunciada como a que iria corrigir o que antes existia de distorção. Exemplo: em São Paulo Tiririca elegeu três deputados federais com sua votação. Um com cerca de 200 votos. Então disseram que iriam acabar com isso e aprovaram a atual legislação. Mas o que é que vimos na prática? Teve um vereador com cerca de 3,8 mil ou 4 mil votos e ficou fora. E outro entrou com 1,4 mil. Porque foi levado em conta a lei que tratou das sobras. Um partido elegeu dois vereadores e teve uma sobra de 10 mil votos, um outro nem atingiu o coeficiente, mas a soma dos votos foi 4 mil. Portanto, o mais votado desse que teve 4 mil de sobra entrou no lugar de outro que teve 4 mil votos, mas só tinha uma sobra de 3 mil. Eu vejo esse aspecto como discutível, e acredito até que o Congresso Nacional deva mexer nisso. Imagino que isso deva ser tratado.  

JLPolítica - Neste momento parece haver um desacordo entre o senhor e o modo como o PT é conduzido em Sergipe. No que o senhor diverge ou no que o senhor estaria sendo excluído?
Francisco Gualberto -
Exceto num movimento que fiz com Ana Lúcia Menezes, porque não havia mais limite para suportar o que o grupo dela fazia comigo, como tentar me abater, me desmoralizar, negar minha história, eu nunca fui à imprensa tratar dos problemas internos do PT - diferentemente deles, que usam a imprensa para expor a vísceras do partido. Logicamente que as lideranças do PT de Sergipe sabem de uma série de aspectos com os quais estou totalmente inconformado. Mas só trataremos disso na forma e no tempo que forem convenientes, e se for conveniente tratar. Se não, cuidarei do futuro, assim como cuidei do passado.

Em 2000, ele obtém o primeiro mandato eletivo de vereador de Aracaju
DO SONHO E DO PROJETO DE SER FEDERAL
“Não é somente uma questão de honra. Acessar a Câmara Federal é uma questão de sonho, de responsabilidade e de convicção de que posso contribuir com o debate dos temas grandiosos que envolvem os interesses do povo de Sergipe e do Estado brasileiro. Se este operário tiver essa honra, só terei que comemorar e agradecer a quem me ajudar a cumprir esse papel”


JLPolítica - O senhor vê futuro numa candidatura de Rogério Carvalho ao Governo de Sergipe ano vem fora do tronco dos atuais governistas?
Francisco Gualberto - Primeiro, não tenho qualquer intenção de ser a palmatória ou o julgador de uma pretensa candidatura de Rogério Carvalho. Segundo, não tenho nenhuma convicção de que ele será candidato a governador. Portanto, não tenho nada a comentar.

JLPolítica - É uma questão de honra para o senhor acessar a Câmara Federal em 2022?
Francisco Gualberto -
Não é somente uma questão de honra. Acessar a Câmara Federal é uma questão de sonho, responsabilidade e convicção de que posso contribuir com o debate dos temas grandiosos que envolvem os interesses do povo de Sergipe e do Estado brasileiro. Se este operário tiver essa honra de, a nível nacional, poder se colocar de forma a contribuir com o avanço do nosso povo, eu só terei que comemorar e agradecer a quem me ajudar a cumprir esse papel.  

JLPolítica - Esta intenção reflete cansaço da Alese?
Francisco Gualberto -
Você imagine um atleta de futebol que jogou no Flamengo ou no Vasco, ou outro que jogou no São Paulo ou Corinthians, e de repente o que jogou num destes times precisa mudar. Se acontecer com ele o que está acontecendo comigo, não será uma questão de cansaço. É uma questão de dever cumprido num time e ir cumprir um papel importante noutro time. Portanto, acredito que estou cumprindo o meu papel e sempre cumpri na Assembleia Legislativa. Agora quero cumprir um papel importante no Congresso Nacional. Quem está cansado, quando corre um quilômetro não aguenta correr três. Tanto não se trata de cansaço que eu quero dar a minha contribuição ao Brasil, assim como dou hoje ao Estado de Sergipe.

Em 2003, ele acessa a Alese como segundo suplente, a partir da fatalidade do assassinato de Joaldo Barbosa
O QUE É BOLSONARO SENÃO UM GENOCIDA?
“Eu espero não estar sendo agressivo, mas fazendo uma análise sobre o coronavírus e o presidente Bolsonaro, qualquer pessoa de bom senso pode tratá-lo como um genocida. Porque se a política dele contribui para que menos pessoas sejam assistidas e mais pessoas morram, o que é isso senão um crime contra a saúde pública?


JLPolítica - Mas dizem por aí os politicólogos que a campanha de deputado federal de 2022 não sairá por menos de R$ 10 milhões. Isso lhe é um paredão impeditivo?
Francisco Gualberto - Não posso entrar nessa discussão. Nunca foi parâmetro para a política que faço. Nunca tive mandato baseado nesses comentários, que também existem, sobre quanto se deve gastar numa candidatura de deputado estadual. Portanto, para mim é inócua essa discussão quanto à realização do desejo de ser deputado federal.

JLPolítica - Até onde vai o seu grau de espanto perante o modo de o governo brasileiro enfrentar o coronavírus?
Francisco Gualberto -
Eu espero não estar sendo agressivo, mas fazendo uma análise sobre o coronavírus e o presidente Bolsonaro, qualquer pessoa de bom senso pode tratá-lo como um genocida. Porque se a política dele contribui para que menos pessoas sejam assistidas e mais pessoas morram, o que é isso senão um crime contra a saúde pública? Acredito até que num determinado momento algum organismo internacional o taxará de praticante de crime contra a humanidade. Eu acho que nesse caso devemos tecer esses comentários, mas não esquecer de que pior do que Bolsonaro é quem o apoia. É quem está no meio das ruas querendo entrar nos supermercados sem máscara, querendo agredir quem pede para que ele use uma máscara, copiando o genocida, dizendo que trata-se de uma gripezinha e nada vai acontecer, e morrendo mais de mil pessoas por dia no Brasil. É proporcionalmente à população do mundo onde mais morre gente pelo coronavírus. E o presidente da República diz coisas como “e daí?”, “todo mundo não tem que morrer mesmo?”, “eu sou Messias, mas não faço milagre”. Ele faz chacota com a vida humana. Então quem deve ter os adjetivos mais perfeitos para Bolsonaro são os seus aliados, porque se olham no espelho e podem se qualificar mais parecidamente com o adjetivo que Bolsonaro merece. Eu citei apenas um que qualquer pessoa de consciência sabe. Quem atenta contra a vida de forma coletiva é genocida.    

JLPolítica - O senhor certamente considera Jair Bolsonaro uma ameaça ao Estado Democrático de Direito. Mas até que ponto esta ameaça corre o risco de não ser revertida nas urnas de 2022?
Francisco Gualberto -
Que ele é uma ameaça às instituições democráticas e à democracia, não sou eu quem, digo. É ele quem diz e que demonstra isso. Aliás, sempre demonstrou. Foi deputado federal por 28 anos e as frases mais escutadas dele eram os elogios aos torturadores e negação de que existiu ditadura militar. Agredia mulheres, negros, índios, pobres e nordestinos. Esse é o Bolsonaro, e ele já começou a fazer uma nova ameaça copiando Donald Trump, que foi derrotado nos Estados Unidos, questionando as urnas eletrônicas. As mesmas urnas que o elegeram e que ele aceitou o resultado e está exercendo o mandato. E por que ele questiona? Porque admite a possibilidade de perder a eleição em 2022. E como é um homem do mau, pensa em criar confusão e arranhões na democracia brasileira, da mesma forma que Trump tentou fazer até depois que perdeu a eleição nos EUA. E agora não passa de um desmoralizado nos Estados Unidos, como ser humano e como político.

JLPolítica - Que danos e equívocos Bolsonaro comete ao derrubar o presidente da Petrobras e colocar no lugar dele um general do Exército?
Francisco Gualberto -
Bolsonaro, que sempre defendeu a ditadura militar, ao viver a contradição de ser eleito pelo voto direto e de forma democrática para ele deve ser uma tortura. Como é que ele tenta compensar isso? Colocando um general no Ministério da Saúde, outro na Casa Civil, outro na Infraestrutura, outro na Petrobras. Nas contas que fizemos recentemente, há 17 generais na linha de frente do Governo Federal, entre os da ativa e da reserva. Essa é a realização do seu sonho: viver com os generais. Não quero com isso dizer que um general não possa assumir uma função de governo. Não é isso. Mas o que Bolsonaro demonstra é exatamente o que descrevo - é a realização de seu sonho. Ele veste uma camisa azul e enxerga nela o verde-oliva. Ele é frustrado por não ter tido sucesso no Exército Brasileiro. Não teve competência para isso. Agora, ele sabe que com esses instrumentos uma ditadura militar pode ser implantada. É preciso prestar atenção nisso. Uma coisa é eu gostar de uma tesoura, outra coisa é eu entender que a tesoura é importante porque corta cabelo. E o que eu quero não é a tesoura, que é um instrumento, o que quero é cortar o cabelo. O amor que Bolsonaro tem não é pelas Forças Armadas, é pala ditadura armada. Pela retirada de direitos civis, de livre expressão. Ele quer a ausência da democracia. Tanto é que nos seus atos, os apoiadores usavam as faixas de apoio a ditadura militar com Bolsonaro no governo. Essa história de Bolsonaro só não vê quem não quer ver. E a gente falar demais só propaga, porque quem tem bom senso sabe o que está acontecendo e com certeza vai refletir e vai reagir no momento adequado.

 

 

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