Linda Brasil: “Por um parlamento atento à visibilidade das pessoas inviabilizadas”

Entrevista

Jozailto Lima

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Linda Brasil: “Por um parlamento atento à visibilidade das pessoas inviabilizadas”

19 de junho de 2021
“Espero deixar um legado de profundas transformações na estrutura legislativa”

A vitória – surpreendente e acachapante – da vereadora Linda Brasil, PSOL, em 2020, sinalizou muitas coisas positivas. Mas também deixava claro que estava atrelada a um grande desafio: o de representar, em sua essência, o primeiro mandato de uma mulher trans em Aracaju. E, desde janeiro de 2021, quando assumiu o mandato, a parlamentar vivencia as dores e delícias desse status. 

A última delas ocorreu na quarta-feira, dia 16, quando Linda teve um projeto de lei rejeitado por oito votos contrários, sem justificativa plausível. Mas essa não foi a única dor, tampouco terá sido a última. O mandato de Linda Brasil foi construído exatamente a partir dessas dificuldades e para suplantá-las, como ela mesma garante. 

“Ainda não temos no país como um todo uma cultura, uma forma de agir, uma prática comportamental que seja respeitosa conosco. A Câmara é o espelho e reflete este contexto social”, afirma Linda Brasil. “Comecei a vida política de maneira mais consciente em 2013, na UFS, a partir do episódio em que um professor não quis me chamar pelo nome social e me constrangeu em sala de aula”, lembra.

Daí em diante, ela passou a buscar direitos e a estar mais atenta às violências institucionais e sociais. “Foi quando consegui, com muita luta e apoio de discentes e docentes e setores da sociedade, que a Reitoria da UFS fizesse uma portaria regulamentando o uso do nome social para pessoas trans, nos inserindo e nos dando visibilidade nos trâmites internos”, revela. Nessa época, Linda conheceu o Coletivo Mulheres de Aracaju e começou a entender mais sobre as bandeiras feministas, transfeministas, ingressando de corpo e alma na militância política.

Durante a campanha de 2020 junto com a saudosa amiga, Neide Silva, que está no plano espiritual e a também muito querida drag queen Karolyne Prinscipal
Diplomação de Linda Brasil como vereadora de Aracaju

Mas Linda encontra forças na necessidade de vencer essas barreiras e tem, no seu partido, o apoio de que precisa, rechaçando comentários de que o PSOL teria dificultado a sua chegada à Câmara. “Minha experiência partidária é ótima. Nunca fui apenas uma figura pública, construo o PSOL na base, participando das plenárias, das reuniões, dos atos, fazendo panfletagem, me relaciono bem com toda a militância. A diversidade de pensamento que existe lá dentro e o respeito que se tem a partir disso é que faz do PSOL o meu partido”, garante.

E, assim, vencendo os desafios e se reconfortando com o pioneirismo que conquistou, Linda Brasil vai entrando para a história da política sergipana, construindo um legado de resistência, como também pela necessidade de se olhar com delicadeza para questões de garantias de direitos. “Espero deixar um legado de profundas transformações na estrutura legislativa da Câmara, um legado de políticas públicas para o conjunto da classe trabalhadora, além de uma mensagem simbólica e uma marca no coração das pessoas que as estimule transformar seus espaços, suas vidas individualmente e coletivamente”.

Linda Brasil Azevedo Santos nasceu na cidade de Santa Rosa de Lima, em 14 de abril de 1973, filha de Maria Carmen Azevedo Santos e Apolinário José dos Santos. É solteira, não tem filhos e participou da primeira eleição partidária em 2016, quando se candidatou a vereadora e obteve 2.308 votos, não tendo sido eleita por causa da questão da legenda, apesar de ter mais votos que quatro vereadores eleitos. Em 2018, foi candidata a deputada estadual, conquistando a confiança de 10.107 pessoas, e recebendo votos em todos os 75 municípios do Estado. 

Em 2020, foi a primeira mulher trans eleita vereadora e a mais votada entre todos os candidatos. “Agradeço a confiança da população que permitiu existir este marco histórico na câmara de Aracaju e também para Sergipe”, diz ela. Tem formação acadêmica em Letras Português-Francês, desde 2017, pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. É mestra em Educação e integrante da Associação e Movimento Social de Transexuais e Travestis – Amosertrans – e da CasAmor. Confira a seguir a Entrevista dessa voz que tem muito a dizer e ensinar.

Linda Brasil e a mãe Carminha no dia da solenidade de formatura em Letras Francês na UFS
DO AMBIENTE DA CMA
“Ser uma mulher trans, no país que mais mata pessoas trans é ainda mais difícil. Para você ter uma ideia, ano passado foram 175 assassinatos registrados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais, este ano até o início de abril, foram 56 assassinatos. Então assim, ainda não temos no país como um todo uma cultura, uma forma de agir, uma prática comportamental que seja respeitosa conosco. A Câmara é o espelho e reflete este contexto social”


JLPolítica - Qual é o saldo positivo que a senhora terá da sua prática legislativa nestes seis meses?
Linda Brasil - 
O saldo positivo está muito relacionado ao aprendizado, o que é gratificante. A capacidade ampliada de fazer articulação política e diálogo com os movimentos sociais, o contato solidário com boa parte das e dos colegas de parlamento e a possibilidade, que estamos descobrindo, de potencializar os instrumentos de visibilidade que o legislativo possui. Tudo isso nos ajuda a defender população mais vulnerável, as mulheres, as minorias políticas, além de ter a nossa voz ampliada pelos instrumentos da Câmara Municipal. Nesses seis meses, apresentamos uma diversidade imensa de proposituras, já foram protocoladas mais de 100 entre indicações, moções, requerimentos e Projetos de Lei. O parlamento é um local de visibilidade política, de atuação sobre assuntos de extrema importância para a cidade, isso nos ajuda a fazer debates públicos de assuntos que muitas vezes são pouco falados.

JLPolítica - A senhora encontra no Poder Legislativo uma ambiência saudável e à altura das expectativas de uma mulher trans?
Linda Brasil - 
Em boa parte do tempo sim. Mas o desafio de ser uma mulher no Brasil ainda é enorme, principalmente do ponto de vista da cultura do respeito, do entendimento da equidade de gênero, e diante de tanta violência sexista. É um desafio em pleno século XXI conseguir fazer, por exemplo, com que as pessoas percebam práticas machistas e misóginas tão incorporadas no cotidiano. Ser uma mulher trans, no país que mais mata pessoas trans é ainda mais difícil. Para você ter uma ideia, ano passado foram 175 assassinatos registrados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais, este ano até o início de abril, foram 56 assassinatos. Então assim, ainda não temos no país como um todo uma cultura, uma forma de agir, uma prática comportamental que seja respeitosa conosco. A Câmara é o espelho e reflete este contexto social.

JLPolítica - Quando esse ambiente deixa de ser saudável?
Linda Brasil - 
Em algum momento vamos todas, todos e todes reproduzir esses comportamentos. As pessoas as vezes se dizem sem preconceito, só que na prática é difícil. Entendo até que nem sempre é por maldade, ainda assim preciso me posicionar e é preciso que entendam quando faço isso que não é pessoal. A população aracajuana pediu, através de minha eleição, que o parlamento de Aracaju se mostre atento a estas pautas, atento a visibilidade de pessoas invisibilizadas. Ao que me parece até o momento estamos tendo abertura, acolhimento por parte expressiva sim dos vereadores e, especialmente, das vereadoras que me acolhem e juntas conseguimos nos fortalecer.

Linda Brasil entregando homenagem feita ao seu orientador de espiritualidade Benjamin Teixeira de Aguiar em show de Zéq Oliver 2018
DO LEGADO DO MANDATO
“Que fique o registro histórico que esta mandata lutou para defender os interesses das populações menos favorecidas, as pessoas mais vulneráveis, que propôs ações, políticas públicas e intervenções para que a dignidade humana seja sempre respeitada”


JLPolítica - Quais foram os maiores contratempos que a senhora e o seu mandato tiveram que enfrentar neste período?
Linda Brasil - 
O mais recente aconteceu com a rejeição do meu primeiro Projeto de Lei (PL 07/2021), que propunha colocar a Semana da Visibilidade Trans no Calendário Oficial de Aracaju. Esse tema repercutiu muito nessa última semana, porque a despeito do que quiserem dizer ou julgar sobre minha atuação, há algo que é um fato: “conhece-se a árvore pelos frutos”. Qualquer pessoa que ler o projeto verá que é uma iniciativa simples, mas cheia de significado pedagógico e simbolismo de luta por dignidade e reconhecimento das trajetórias das pessoas trans. Então não votar por conta de que eu deixei de fazer isso ou aquilo, é tentar desviar de analisar o que o seu comportamento revelou sobre si na hora da votação. Consciente ou inconscientemente, a pessoa não se colocou a favor de dar visibilidade às pessoas trans, do ponto de vista da municipalidade este fruto não é bom. Espero que entendam que não é um capricho meu, como tentam distorcer, é sobre o impacto que o projeto poderia ter nas vidas das pessoas. Ficarei muito feliz, por exemplo, se o prefeito enxergar a importância do projeto e enviasse para a Câmara para a gente votar ainda este mês ou este ano, talvez. Seria um ato grandioso. É sobre fazer política para ajudar a combater violências contra pessoas. Sou cristã e excluir, julgar que alguém é menos ser humano não é do ensinamento de Jesus.

JLPolítica - Foi verdade ou boato que o PSOL de Sergipe trabalhou contra a sua expectativa eleitoral em 2020?
Linda Brasil - 
Boato. Minha experiência partidária é ótima. Nunca fui apenas uma figura pública, construo o PSOL na base, participando das plenárias, das reuniões, dos atos, fazendo panfletagem, me relaciono bem com toda a militância. A diversidade de pensamento que existe lá dentro e o respeito que se tem a partir disso é que faz do PSOL o meu partido.

JLPolítica - O PSOL, local e nacionalmente, lhe proporciona que estabilidade e que estrutura para a manutenção do seu mandato?
Linda Brasil - 
Nesse contexto de violência política de gênero, a principal ação do partido é de acolhimento e articulação política entre todos os mandatos e figuras públicas. A gente se ajuda e se defende juntos. Participo de algumas articulações e ações nacionais de protocolos conjuntos de projetos, ações de redes sociais. Planejamos a mandata fazendo reuniões de seminários com diversos parlamentares e membros da direção nacional. E no dia a dia a nossa estabilidade vem do acolhimento, do respeito, do diálogo, de abrir espaços para crítica e autocrítica, da superação das divergências. 

Com as irmãs: Any, Conceição e Elizabete
ELEIÇÃO DE 2022
“Esse debate está em aberto, depende muito da estratégia que o partido estabelecer como prioridade. Mas, hoje, nossa militância sabe que temos sim condição de eleger um mandato estadual e talvez até um federal”


JLPolítica - A reatividade agressiva que tem surgido nas diversas regiões brasileiras contra os mandatos obtidos no ano passado por mulheres trans atinge também o da senhora?
Linda Brasil - 
Sim. Até foi veiculada no dia 31 de maio, uma entrevista minha e de outras parlamentares do PSOL no Fantástico, da Rede Globo, sobre esse tema da violência política de gênero. Desde que entrei na Câmara tenho sofrido ataques e os mais pesados se utilizam do fundamentalismo religioso, do discurso de ódio para tentar me deslegitimar como pessoa. Tenho denunciado estes ataques às autoridades policiais e entrado com processos judiciais. As vezes, temo por minha vida física porque como você pode notar, há uma cultura fundamentalista pseudo-cristã que estigmatiza nosso corpo como sendo algo ligado à prática sexual e que classificam as pessoas desta forma. Ou seja, não são levados em consideração os valores pregados por Jesus e Maria, que se baseavam em comportamentos de respeito e de analisar o caráter e o coração. Lamentavelmente, eles nem percebem que atacam a si mesmos e que se desviam de Jesus.

JLPolítica - O que é que, politicamente, a senhora pretende ter entregue à sociedade sergipana em forma de mandato ao fim destes quatro anos?
Linda Brasil - 
Jozailto, nós chamamos de mandata. Já deixando esta reflexão como legado de que as transformações são importantes e elas começam em pequenas ações cotidianas. E de que precisamos usar o que existe a favor da vida humana. A língua, a economia, a política devem estar a favor da vida digna para todas, todas e todes. Espero deixar um legado de profundas transformações na estrutura legislativa da Câmara, um legado de políticas públicas para o conjunto da classe trabalhadora, além de uma mensagem simbólica e uma marca no coração das pessoas que as estimule transformar seus espaços, suas vidas individualmente e coletivamente. Que fique o registro histórico que esta mandata lutou para defender os interesses das populações menos favorecidas, as pessoas mais vulneráveis, que propôs ações, políticas públicas e intervenções para que a dignidade humana seja sempre respeitada, que lutou por educação, saúde, transporte de qualidade, que ao menos tentou fazer o plano diretor virar realidade e esteve ao lado das lutas para que o meio ambiente e a sustentabilidade fossem pautadas na cidade. Uma mulher que se posicionou com respeito as colegas e aos colegas sem deixar de se indignar com o que prejudica pessoas e nos afasta da concretização de justiça social. Uma mandata que amou e em algum nível mudou as coisas.

JLPolítica - Ainda hoje, oito meses depois, lhe cativam e espantam positivamente os 5.773 votos obtidos pela senhora no ano passado?
Linda Brasil - 
As duas coisas kkkk (sorrisos nervosos). Me cativam por receber esta confiança e os olhares de pessoas que querem e apostam neste projeto de transformação da sociedade aracajuana e brasileira em um ambiente civilizado, laico de empenho em corrigir distorções sociais que favorecem quem já é favorecido economicamente e esmaga quem não é. E me espanta pelo peso de responsabilidade, mas mais pelos ataques conscientes e inconscientes por parte de pessoas e setores sociais que isto traz. A ponto de poder estar em jogo a vida física.

Junto com os colegas vereadores prestando solidariedade e apoio aos profissionais de saúde e pacientes durante o incêndio do Hospital Nestor Piva em 28 de abril deste ano
MACHISMO TRANSFÓBICO NA CMA
“Eu entendo que tenho um papel a cumprir de debater essas questões em uma perspectiva histórica e pedagógica, questionando estruturas sociais naturalizadas. Enfrento uma estrutura em que se reproduz machismo, lgbtfobia, racismo, capacitismo e outros preconceitos. Mas encaro todas essas questões como um processo que se expressa através de indivíduos, mas que só pode ser superado através de mudanças estruturais”


JLPolítica - No seu planejamento de campanha, a senhora se imaginava vir a ser eleita com quantos votos?
Linda Brasil - 
A meta era 4 mil votos, mas eu pensava que conseguia  uns 3.700. Como deputada tive em Aracaju pouco mais de 6.500 votos, então imaginei um pouco mais da metade.

JLPolítica - Eleitoralmente, a senhora voltará à bater às portas da Alese novamente em 2022, como fez em 2018?
Linda Brasil - 
Esse debate está em aberto, depende muito da estratégia que o partido estabelecer como prioridade. Mas, hoje, nossa militância sabe que temos sim condição de eleger um mandato estadual e talvez até um federal.

JLPolítica - Ser psolista pressupõe-se oposicionista. Nesta condição, como a senhora se vê frente a uma maioria de colegas essencialmente governistas no Legislativo de Aracaju?
Linda Brasil - 
Ser oposição não é a nossa essência. O que nos define é a defesa da classe trabalhadora e o que nos coloca na oposição à atual administração é a avaliação de que o prefeito não governa para a maioria da população.

Com a vereadora Erika Hílton (Psol-SP) e o deputado distrital Fábio Félix (Psol-DF) durante atividade/campanha de Boulos em SP
QUESTÕES DE GÊNERO E COR
“Garantindo a esses setores condições de ocupar espaços na política, nas escolas e universidades, no mercado de trabalho. Mudando legislações arcaicas, garantindo reconhecimento e respeito pelas suas vivências, garantindo vida digna, moradia, acesso às políticas públicas. Todas essas formas já existem, mas a sociedade brasileira é governada pela elite do atraso”


JLPolítica - O machismo transfóbico entre os seus muitos pares homens na Câmara é alto?
Linda Brasil - 
Eu entendo que tenho um papel a cumprir de debater essas questões em uma perspectiva histórica e pedagógica, questionando estruturas sociais naturalizadas. Nesse sentido, eu diria que sim. Enfrento uma estrutura em que se reproduz machismo, lgbtfobia, racismo, capacitismo e outros preconceitos. Mas encaro todas essas questões como um processo que se expressa através de indivíduos, mas que só pode ser superado através de mudanças estruturais. Por isso, tenho protocolado diversos projetos de lei que tem um caráter educativo, que promove debate, conscientização e cidadania de minorias políticas.

JLPolítica - A senhora está em paz com as suas pautas relativas aos direitos humanos?
Linda Brasil - 
Totalmente em paz. A gente tem uma estrutura de sociedade muito conservadora e que na disputa política e ideológica que se faz hoje distorce o sentido da defesa dos direitos humanos. Defender direitos humanos é defender todas as vidas, acolhendo seus erros, compreendendo suas vivências, sem fazer distinção, sem preconceito, assim como Jesus Cristo fez. A gente costuma dizer que Jesus foi o primeiro militante de direitos humanos da história e que se tivesse vivo no Brasil de hoje seria novamente crucificado, inclusive pelas mesmas pessoas que falam em seu nome.

JLPolítica - Até que ponto o seu mandato consegue tirar da invisibilidade as pessoas e as pautas LGBT, as mulheres e os negros aracajuanos?
Linda Brasil - 
Quando o movimento ressalta e comemora que sou a primeira mulher trans eleita vereadora, as pessoas cisgêneras e heterossexuais não entendem o porquê de tanta euforia. A questão é que não é comum ter uma mulher como eu naquele lugar, aliás não é comum ter mulheres naquele lugar, simplesmente porque não foi feito para nós. Os homens dominam os espaços de poder. Então chegar até lá já é dar visibilidade para as pessoas LGBTs e a gente sabe que incomoda, mas ao mesmo tempo promove mudanças. Faz com que aspectos da nossa cidadania passe a ser discutido de uma forma como antes não acontecia. Já protocolamos 17 Projetos de Lei que colocam essas questões no centro do debate da política da cidade. Isso é garantir visibilidade, representação, lutar por direitos e vida digna.

Com o pai Apolinário e a mãe Carminha
LUTA POR MORADIA
“Se houvesse uma política de ocupação e destinação desses imóveis para quem não tem teto para morar, reduziria o déficit habitacional de 25 para 6 mil moradias. Isso seria um avanço gigantesco na garantia constitucional do direito à moradia. Mas parece que não tem interesse, aí as construtoras vão lucrando com a especulação imobiliária enquanto cresce o número de pessoas sem condição de pagar aluguel e em situação de rua”


JLPolítica - Entre o seu pai e a sua mãe, com quem a senhora teve mais embates na firmação da sua identidade de gênero?
Linda Brasil -
Felizmente, toda a minha família sempre foi acolhedora comigo. Sempre houve respeito e carinho.

JLPolítica - Em regra e em tese, um pai é mais radical do que uma mãe na aceitação da orientação sexual de filhos que divirjam da orientação dele?
Linda Brasil - 
A sua premissa dialoga com o que chamamos de machismo estrutural, porque a todas e todos nós é ensinado que mulher é um ser inferior (o jornalista Jozailto Lima e o Portal JLPolítica não subscrevem esta visão de machismo estrutural). Por isso, é inconcebível que uma pessoa que nasce e é designada para o sexo superior rejeite essa designação para se tornar alguém cuja a importância social é inferiorizada, menosprezada. Eu acho que é difícil tanto para um pai quanto para uma mãe, cuja formação seja baseada nessa perspectiva reduzida, aceitar a diversidade e infinidade existente de orientação sexual e identidade de gênero. Mas não tenho a menor dúvida de que tem existido cada vez mais abertura nas famílias para esse tipo de diálogo e acolhimento. É para isso também que a gente luta. O movimento de Mães Pela Diversidade, por exemplo, faz um trabalho brilhante com relação a isso.

JLPolítica - Qual é o real legado da sua mãe para a senhora?
Linda Brasil -
Amor e trabalho para que a bondade se espalhe no cotidiano.

Em evento da CasAmor antes da pandemia
DEBATE NACIONAL
“Sou uma defensora ferrenha da necessidade de tirar esse governo genocida e fascista do poder. Então tenho me preocupado muito e debatido no PSOL a construção de uma Frente de Esquerda para as eleições para derrotar esse projeto autoritário de poder”


JLPolítica - De que forma as questões de gênero, de orientação sexual e de cor podem tomar um lugar mais digno no centro da sala brasileira?
Linda Brasil - 
Garantindo a esses setores condições de ocupar espaços na política, nas escolas e universidades, no mercado de trabalho. Mudando legislações arcaicas, garantindo reconhecimento e respeito pelas suas vivências, garantindo vida digna, moradia, acesso à políticas públicas. Todas essas formas já existem, mas a sociedade brasileira é governada pela elite do atraso, como diz o sociólogo Jessé Souza, que teima em não acertar as suas contas com a escravidão, genocídio da população indígena, genocídio da população LGBT. Então a gente ainda tem muita luta pela frente.

JLPolítica - Os diversos níveis do legislativo têm força e poder para inverter a tragédia do meio ambiente que atravanca as cidades e os campos brasileiros?
Linda Brasil - 
Tem força, mas não tem interesse. O agro não é pop, como propagandeia a Rede Globo. Toda a nossa noção de progresso se baseia na destruição da vida comum nas comunidades de povos tradicionais, da natureza. É uma lógica de modernização sangrenta. Quantas vidas são ceifadas por ano em conflitos agrários desde que o Brasil é Brasil? Para piorar, a gente tem hoje um Ministério do Meio Ambiente que em vez de proteger, comete e encoberta crimes ambientais, e ainda lucra com isso.

JLPolítica - Como o mandato da senhora visualiza as questões e demandas da moradia popular de uma cidade como Aracaju?
Linda Brasil - 
Essa é uma das nossas atuações centrais. Dados da própria Prefeitura, de 2019, apontam um déficit habitacional de 25 mil casas. Enquanto o Centro de Aracaju, por exemplo, tem muitos imóveis vazios que poderiam ter essa destinação. O Ministério Público já apontou, por meio da Promotoria do Meio Ambiente, que o número de casas e terrenos abandonados, sem cumprir função social e devendo muito imposto, já soma 19 mil. Se houvesse uma política de ocupação e destinação desses imóveis para quem não tem teto para morar, reduziria o déficit habitacional de 25 para 6 mil moradias. Isso seria um avanço gigantesco na garantia constitucional do direito à moradia. Mas parece que não tem interesse, aí as construtoras vão lucrando com a especulação imobiliária enquanto cresce o número de pessoas sem condição de pagar aluguel e em situação de rua.

Nas ruas, lutando por vacina para todos, renda básica, justiça social, fim do genocídio da população e o impeachment do presidente
DIÁLOGO COM O EXECUTIVO
“Assim que assumi, um dos primeiros atos foi enviar um ofício para o gabinete do prefeito solicitando uma reunião. Queria apresentar questões que consideramos estratégicas para cidade, mas nunca nem recebemos resposta. Já protocolei 41 indicações à Prefeitura e nunca recebi retorno de nenhuma, nem para dizer que a indicação não poderia ser atendida”


JLPolítica - Como tem sido a procura da senhora e do seu mandato pelos debates nacionais?
Linda Brasil - 
Eu me envolvo em tudo. Gosto sempre de estar por dentro dos debates nacionais e de apresenta-los na Câmara, porque o que acontece em Brasília influencia em nossa vida aqui. Tenho participados de lives e audiências públicas com outros parlamentares para discutir grandes pautas como, a reforma administrativa, privatizações. Sou uma defensora ferrenha da necessidade de tirar esse governo genocida e fascista do poder. Então tenho me preocupado muito e debatido no PSOL a construção de uma Frente de Esquerda para as eleições para derrotar esse projeto autoritário de poder.

JLPolítica - A senhora e seu mandato se dão por contemplado no diálogo com a gestão municipal de Aracaju?
Linda Brasil - 
De modo algum. Assim que assumi, um dos primeiros atos foi enviar um ofício para o gabinete do prefeito solicitando uma reunião. Queria apresentar questões que consideramos estratégicas para cidade, mas nunca nem recebemos resposta. Já protocolei 41 indicações à Prefeitura e nunca recebi retorno de nenhuma, nem para dizer que a indicação não poderia ser atendida, enquanto meus colegas vereadores divulgam e agradecem o acolhimento de suas indicações, durante as sessões. Nenhum vereador ou vereadora da oposição é convidado para atos públicos da Prefeitura, por exemplo. Infelizmente, não existe uma postura republicana como na época do saudoso Marcelo Déda. Mas, eu sigo firme no meu papel de legislar e fiscalizar.

JLPolítica - O modo de o Brasil público e oficial encarar a pandemia do coronavírus lhe assusta ou lhe agrada?
Linda Brasil - 
Me assusta e me deixa indignada. São quase 500 mil mortes evitáveis, se o negacionismo não guiassem a nossa população para uma política de Estado de genocídio. Derrotar esse presidente genocida é a luta mais importante hoje, porque isso significa frear as mortes e os retrocesso seculares que esse desgoverno impôs à nossa população. Eu espero que todas as lideranças políticas de esquerda, progressistas e democráticas desse país se unam em um projeto de derrota do obscurantismo.


 

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