Márcio Macedo: “Prisão de Lula seria uma aberração para o Brasil e o mundo”

Entrevista

Jozailto Lima

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Márcio Macedo: “Prisão de Lula seria uma aberração para o Brasil e o mundo”

Publicado 8 de julho 20h00 - 2017

O vice-presidente da Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores, Márcio Macedo, não dá o braço a torcer à crise em que vive o seu partido e a maior liderança dele, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ele assumiu o posto na semana passada com a dura missão de levantar o nariz do partido frente à sucessão presidencial do ano que vem. Pensando quase que como um menino fundamentalista, Márcio Macedo acha que o PT é madeira de lei. Que enverga, mas não tora.

“Sim, (estamos presentes) nos 27 Estados e em mais de quatro mil cidades brasileiras. É de uma capilaridade extraordinária. O PT é como os Correios e o Banco do Brasil: tem em todo lugar”, diz.

“Ter uma presidente da República impechmenteada e sobreviver a isso, é porque tem força. É um dos maiores em preferência nacional, muito distante do segundo e do terceiro. Isso mostra a capilaridade muito grande de que falo, porque está presente na maioria dos municípios”, ressalta.

Por esta lógica e pelo poder pessoal de Luiz Inácio Lula da Silva, Márcio Macedo acha que o PT volta à Presidência da República em 2018. Ele não vê perigo de interdição de Lula, via justiça ou prisão.

VICE-PRESIDÊNCIA DO PT
"Compete-me ajudar a montar os palanques nos Estados. Acompanhar e cuidar da preparação para as eleições nacional e estaduais; ajudar a gerir o partido junto à presidente e Lula"

“Achamos que se isso (prisão) acontecesse, seria uma ruptura do processo democrático. Seria rasgar a Constituição e a maior injustiça que a Justiça poderia fazer. Não pode um guardião da justiça, um juiz, cometer um crime contra a Justiça. Lula é um homem inocente e não há nenhuma prova material contra ele. Então, achamos que uma prisão dele seria uma aberração para o Brasil e para mundo”, opina Márcio.

Ele defende a deposição do presidente Michel Temer, mas por meio de eleições diretas, e não por golpe, como acha que Dilma Rousseff foi apeada do poder. “Essa crise não terá fim se não for pelas eleições diretas, que é o que nos diferencia de setores que querem derrubar o Temer com indiretas. Quem tem que colocar o presidente da República no posto é o povo. Se escolher bem, ótimo. Se escolher mal, é outra história. A primeira questão é essa: a saída da crise pela eleição direta”, diz.

Aos 46 anos, o biólogo Márcio Macedo já obteve alguns feitos importantes na vida. Um deles foi quase apagar da sua biografia os vestígios baianos que marcam a sua origem. Já conseguiu uma aba vistosa na Wikipédia, onde aparece o primeiro passo da sua diáspora: lá, está registrado como nascido em 18 de setembro de 1970, em Esplanada. As datas estão corretas. Mas ele é de Rio real, e o quinto de uma família de seis.

Com Fernando Pimentel, governador de Minas Gerais
“Um partido com as nossas características, que perde os dois principais líderes – Deda e Zé Eduardo – num curto espaço de tempo, claro que sofre as consequências”

JLPolítica – Foi surpresa para o senhor essa escolha para a Vice-Presidência, ou já achava que daria nisso?
Márcio Macedo – A forma como cheguei à Direção Nacional, num momento de crise profunda e com um trabalho de recuperação administrativa e financeira do partido, com o planejamento e a reestruturação, me fortaleceu muito. Além disso, ajudei bastante na condução política. Então, foi um processo natural. O fato de meu nome ter sido ventilado para presidente do partido também contribuiu.

JLPolítica – Do ponto de vista orgânico, como está o PT hoje?
MM – Olhando para o partido como uma empresa de economia mista, diria que o PT é uma empresa saudável hoje. Não deve nada a ninguém, e tem planejamento para o ano inteiro e para esse processo até 2018.

PT FORTE
"Hoje é o momento mais forte do PT com os movimentos sociais. É o reencontro nas ruas pela defesa da democracia. As elites jogaram o país na crise para tirar a presidente e não resolveram os problemas"

JLPolítica – O PT está organizado nos 27 Estados?
MM – Sim, nos 27 Estados e em mais de quatro mil cidades brasileiras. É de uma capilaridade extraordinária. O PT é como os Correios e o Banco do Brasil: tem em todo lugar (risos).

JLPolítica – Do ponto de vista de representatividade no Parlamento e no Executivo, como está o Partido?
MM – O PT governa cinco Estados: Bahia, Ceará, Minas Gerais, Piauí, Acre. Dos quais, três são colégios eleitorais muito fortes – Minas, que é o segundo do Brasil, e a Bahia, que é o primeiro do Nordeste e terceiro ou quarto do Brasil. O Ceará é bastante abrangente. É o mesmo extrato de antes. No Congresso, somos a segunda bancada da Câmara. Então, mantém uma força parlamentar razoável.

Márcio Macedo acha que o PT volta à Presidência da República em 2018

LPolítica – Qual é mesmo a atribuição que lhe dão nesse processo de preparar o PT para 2018?
MM – Compete-me ajudar a montar os palanques nos Estados. Acompanhar e cuidar da preparação do partido para as eleições nacional e estaduais; ajudar a gerir o partido na relação com as secretarias e a articulação política, junto à presidente do partido e o presidente Lula.

JLPolítica – Diante de tudo que aconteceu com o PT – impeachment de uma presidente dele e várias acusações –, o que este partido pode ainda fazer pelo Brasil?
MM – Com todas as nossas contradições, que são inerentes às organizações humanas, o PT está atravessando uma crise que não é simples e nem fácil. Ter uma presidente da República impechmenteada e sobreviver a isso, é porque tem força. É um dos maiores em preferência nacional, muito distante do segundo e do terceiro. Isso mostra a capilaridade muito grande de que falo, porque está presente na maioria dos municípios. Outra coisa significativa é essa franja que orbita concomitantemente com o PT, que são os movimentos sociais que têm políticas muito solidárias. Isso dá uma força real.

JLPolítica – O senhor quer dizer que com tudo isso, essa força não esmoreceu?
MM – O PT nunca esteve numa relação tão próxima com os movimentos sociais. A política, e a própria democracia, tem suas contradições nesse sentido. Por exemplo: hoje é o momento mais forte do PT com movimentos sociais. É o reencontro nas ruas pela defesa da democracia. Então, o golpe de Estado foi malsucedido. As elites jogaram o país na crise para tirar a presidente e não resolveram os problemas. Pelo contrário, o país tem mais de 14 milhões de desempregados e vive uma das piores recessões, estagnando o desenvolvimento. Sem falar nas reformas contra o povo. É um modelo malsucedido. Setores da classe média estão envergonhados, arrependidos, e no imaginário coletivo a presença que se sobressai é a do que foi feito nos governos de Lula e de Dilma, como os programas sociais, o ciclo virtuoso com o PT.

LAVA JATO
“A Lava Jato é uma operação de combate à corrupção que nós entendemos que tem que ser feita  Não pode é ser seletiva, apenas para alguns. Tem que respeitar a lei e o Estado Democrático de Direito

 JLPolítica – A sua linha é de que “quem muito fez, poderá fazer muito mais”. Possivelmente esse será o marketing do PT em 2018. E hoje todos os indicativos apontam para a eleição de Lula. O senhor acha que, se eleito, ele teria condições de fazer o Governo ou teria dificuldades?
MM – Isso é reconhecido por quem apoia Lula e por quem não apoia: hoje, só há uma liderança nacional com força real, e ela é Luiz Inácio Lula da Silva. Ele é um homem talhado na luta social e na política. Ganhando a eleição, ele vai construir a unidade nacional. Esse discurso da dificuldade era o que se falava quando ele chegou ao Governo em 2002. Ele chegou e fez um governo de coalizão. É claro que o processo do golpe dividiu a sociedade brasileira e trouxe um componente que não é da tradição do nosso país, que é a intolerância, o ódio. Acho que isso tem que ser superado com as políticas públicas.

JLPolítica – Mas o senhor acha que a eventual eleição de Lula aplaca o grau de intolerância que o país está vivenciando?
MM – Primeiro, tem uma premissa aí: essa crise não terá fim se não for pelas eleições diretas, que é o que nos diferencia de setores que querem derrubar o Temer com eleições indiretas. Quem tem que colocar o presidente da República no posto é o povo. Se escolher bem, ótimo. Se escolher mal, é outra história. A primeira questão é essa: a saída da crise pela eleição direta. O Lula tem experiência, tem força política, tem maturidade, não é um homem que tem ódio no coração, sabe do papel dele para o país e para a história. Então, há uma chance de vencer a intolerância e o ódio e o país voltar a crescer. Não é uma tarefa simples nem fácil. A sociedade está fragmentada.

Ele não vê perigo de interdição de Lula, via justiça ou prisão

JLPolítica – Dá para aplicar, numa eventual gestão de Lula entre 2019 e 2022, o mesmo princípio governativo que ele aplicou entre 2003 e 2010?
MM – O país é outro, sobretudo depois de um golpe e de uma crise como essa. Então, tem que se analisar à luz da própria conjuntura. Mas tem princípios que são os mesmos. Isto é, nós acreditamos que o povo não é problema, que é a saída: mercado de massas, investimento regional, programas sociais. Então, isso precisa ser retomado e ampliado, transformado em política de Estado. É óbvio que a condição política será definida de acordo com a conjuntura.

 JLPolítica – Mas o novo projeto de Brasil com o novo-velho Lula passaria apenas por isso ou teria outras variantes?
MM – Estamos num processo de estudo da nova conjuntura do país e preparando um novo programa para a nação. Esses princípios são os que tiveram no passado e vão estar no presente e no futuro. Mas tem que se debruçar sobre temas que não foram debatidos, como as reformas trabalhista, agrária e política, o diálogo sobre a democratização da mídia, a superação do presidencialismo de coalizão, para evitar que fique refém de um Parlamento conservador e atrasado. Tudo isso estará no novo plano.

JLPolítica – Do ponto de vista do presente, o PT descarta a possibilidade de Lula vir a ser preso?
MM – Achamos que se isso acontecesse, seria uma ruptura do processo democrático. Seria rasgar a Constituição e seria a maior injustiça que a Justiça poderia fazer. Não pode um guardião da justiça, um juiz, cometer um crime contra a Justiça. Lula é um homem inocente e não há nenhuma prova material contra ele. Então, achamos que uma prisão dele seria uma aberração para o Brasil e para mundo.

LULA
“Lula tem experiência, força política e maturidade. Não é um homem que tem ódio no coração, sabe do papel dele para o país e para a história. Há uma chance de vencer a intolerância e o ódio e o país voltar a crescer”

JLPolítica – Os petistas têm dificuldade de separar o episódio do impeachment da ocorrência do Lava Jato. Por quê?
MM – Mas são coisas diferentes. A Lava Jato é uma operação de combate à corrupção que nós entendemos que tem que ser feita mesmo. Não pode é ser seletiva, apenas para alguns. Tem que respeitar a lei e o Estado Democrático de Direito, e que combata a corrupção. O impeachment foi uma orquestração das elites, setores da grande mídia, do Judiciário, do Ministério Público, de um Parlamento conservador e um mercado insatisfeito, sobretudo os rentistas. Essa combinação arrancou do poder uma presidente eleita democraticamente pelo povo.

JLPolítica – O que significa, do ponto de vista econômico, político e democrático, para o Brasil, segurar mais um ano e meio de Michel Temer?
MM – Significa uma tragédia. Minha opinião é de que se Michel Temer não quiser ir para o lixo da história, como está indo, como já foi, teria que ter hombridade de convocar eleições diretas para o Brasil. O Governo dele acabou. Está sangrando. O país está em bancarrota. Falta liderança do presidente, falta comando. Sobra impopularidade. Ele está envolvido em corrupção, comprovadamente – não é delação, é comprovação, com vídeos, com áudios, provas materiais.

O PT é como os Correios e o Banco do Brasil: tem em todo lugar”, diz.

JLPolítica – Mas o PT não faz mea-culpa pela existência de Temer hoje enquanto presidente?
MM – Não. Por que faríamos? Nós somos vítimas da orquestração da qual ele foi o instrumento. Ele e Eduardo Cunha. Ele é um dos mentores intelectuais e Cunha o pistoleiro que executou o crime. Nas regras atuais, as alianças e o presidencialismo de coalizão são instrumentos da democracia. E foi feita uma aliança assim. O PT não errou em fazer uma aliança. Aquele momento histórico exigia isso. Quem errou foram eles – vice-presidente e o PMDB, que traíram a parceira de chapa na calada da noite.

JLPolítica – O PT perdeu o fio da meada em Sergipe? Qual é o papel que cabe ao partido em 2018 aqui no Estado?
MM – Óbvio que estamos fazendo um processo de reconstrução do partido no Estado. Um partido com as nossas características, que perde os dois principais líderes – Déda e Zé Eduardo – num curto espaço de tempo, claro que sofre as consequências. Mas acho que o PT ainda demonstra vitalidade diante de tudo isso. Talvez se fosse outro, nem sobrevivesse. Mostra que tem uma militância forte.

JLPolítica – E dentro desta vitalidade cabe o que a ele em 2018 em Sergipe?
MM – Acho que nesse bloco liderado por Jackson Barreto, que é um bloco histórico que o PT ajudou a construir e liderou por um tempo, nós temos densidade eleitoral, militância e presença no Estado para reivindicar espaço na chapa majoritária e definir o programa para o futuro.

PMDB
"O PT não errou em fazer uma aliança. Aquele momento histórico exigia isso. Quem errou foram eles – vice-presidente e o PMDB, que traíram a parceira de chapa na calada da noite"

JLPolítica – E se o PMDB apoiar, nacionalmente, o PSDB, como fica?
MM – Eu não quero me meter na economia interna dos partidos, mas o PMDB tem uma característica interessante, peculiar, de ser vários partidos dentro de um partido. E as lideranças políticas, também chamadas de caciques estaduais, são muito fortes.

JLPolítica – Mas respeitadas?
MM – Não sei se respeitadas. São fortes. O PMDB da Bahia tem uma posição. O de Alagoas tem outra. No entanto, estão os dois sem força nacional. Não acredito que o partido vá fechar essa questão numa aliança. E outra coisa eu vi pela imprensa, mas não sei se é verdade, é que o próprio governador de Sergipe pode sair do PMDB. Ir para o Podemos. Não sei se se confirmará.

Acha que Dilma Rousseff foi apeada do poder

JLPolítica – Quando o senhor fala em pleitear espaço na chapa majoritária, está falando de vice-governador e senador ou de governador?
MM – Acho que quando a legislação permitir, o governador Jackson deve abrir o debate e coordenar esse processo, com a discussão de quais partidos devem compor a chapa majoritária. E estamos acreditando que o PT esteja dentro dessa chapa majoritária.

JLPolítica – O senhor defende o nome de Rogério Carvalho para senador?
MM – O nome de Rogério foi construído consensualmente dentro do PT e a instância partidária. Então não há crise com isso. Essas crises estão superadas.

SERGIPE 2018
"Quando Jackson abrir o debate e coordenar esse processo, com a discussão de quais partidos devem compor a chapa majoritária, estamos acreditando que o PT esteja dentro"

JLPolítica – O senhor disputaria eleição em 2018?
MM – Vou disputar. Só há duas chances de não: se Deus não permitir e se o PT não me der legenda.

 JLPolítica – E seria em que esfera?
MM – Pretendo disputar a deputado federal.

“O nome de Rogério foi construído consensualmente dentro do PT”
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