Entrevista

Jozailto Lima

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Mario Leony, delegado: “Estamos no topo do ranking de hediondos assassinatos de LGBT’s”

MAIS TOLERÂNCIA DE GÊNERO, MELHOR DESEMPENHO
“Pesquisas evidenciam que ambientes corporativos que apostam na diversidade de raça, gênero, orientação sexual em seus quadros, empresas que investem em políticas institucionais voltadas à valorização da diversidade são mais criativas e, por consequência, mais produtivas. Na Segurança não é diferente”

JLPolítica - Qual é a leitura que o senhor faz dos seus quase 10 mil votos obtidos para deputado federal em 2018 pelo PSOL? Foram poucos, razoáveis ou muitos?
ML -
Foram muitos votos, ainda mais em se tratando de uma candidatura com parcos recursos, que disputou corações e consciências para além do populismo punitivista e da compra de votos nos chamados “currais eleitorais”. Tivemos votos em praticamente todos os municípios. Saímos fortalecidos e legitimados, vitoriosos por termos contribuído, junto com as demais candidaturas, para que o PSOL atingisse a cláusula de barreira, elevado a um novo patamar no cenário político.

JLPolítica - Como o senhor vê a “delegalização” da eleição de Aracaju este ano e por que ficará de fora dela, sem nada disputar?
ML -
Vejo com preocupação. Sinal de que a população está refém dos altos índices de violência e talvez busque salvadores da pátria, super-heróis que não existem na vida real. É, também, sinal de que tem gente lucrando com o caos da segurança pública, tanto na iniciativa privada, com a terceirização da segurança quanto na representatividade política muitas vezes pautada no discurso populista punitivista do “bandido bom é bandido morto”, ou na autoproclamada moralidade anticorrupção que se esvazia ao revelar-se “seletiva”. Poucos avanços serão promovidos na Segurança Pública enquanto vivermos em uma sociedade marcada por tantas desigualdades. Nosso compromisso é com a superação dessas desigualdades e reafirmamos que a agenda da Segurança Pública pode e deve caminhar junto com a dos direitos humanos. Pretendo, sim, participar do processo eleitoral apoiando as candidaturas do PSOL e apresentando, junto com os demais camaradas, uma alternativa à esquerda para Aracaju.

JLPolítica - O senhor ainda sonha com um espaço na Câmara Federal em 2022?
ML -
Como diz Raulzito em sua canção, “Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. Acredito na luta coletiva dos movimentos sociais, na luta socialista da classe trabalhadora. Quanto ao parlamento, seria um orgulho poder representar os sergipanos em um mandato do PSOL, um partido que tem se revelado mais que necessário na atual conjuntura, com uma bancada aguerrida, que tem feito diferença na Câmara dos Deputados.

JLPolítica - O papel desempenhado hoje pelo delegado Alessandro Vieira, como senador, lhe contempla enquanto cidadão e policial?
ML -
O delegado Alessandro Vieira é meu contemporâneo e sempre nos tratamos com respeito e urbanidade recíprocos. Enquanto gestor da Polícia Civil de Sergipe, foi um dos idealizadores do Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis e apoiador da causa LGBT, mas infelizmente não me sinto representado politicamente por ele. A primeira grande decepção foi a declaração pública de apoio à candidatura do Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais, um indivíduo que em 30 anos no Congresso nada produziu de relevante para a sociedade brasileira, apenas “empregou” os filhos na política. Um indivíduo declaradamente machista, racista e lgbtfóbico, que nunca teve apreço à democracia a ponto de homenagear um dos torturadores da Dilma naquele espetáculo de horrores que foi o impeachment. Em seu mandato, Alessandro votou a favor da reforma da Previdência e da mercantilização da água que facilitará a privatização do saneamento, portanto não está comprometido com a classe trabalhadora. Igualmente, não vislumbro nele compromisso com a agenda política reivindicada pelos policiais antifascismo.

Mario Leony esteve no Castro, bairro LBGT de São Francisco, EUA, onde fica o Museu da Memória LGBT e onde morou Marvey Milk, primeiro ativista gay a ser eleito para um mandato público daquele país
Mario Leony e o delegado Orlando Zaccone, um dos fundadores do Policiais Antifascismo. Eles dividem instante flash no Congresso dos Policiais Antifas em Recife em 2109

JLPolítica - O senhor identifica um partido que faça a diferença nessa seara?
ML -
O PSOL está na vanguarda dessas lutas e sempre foi recordista de candidaturas LGBT's em relação a outros partidos. Neste mês o Diretório Nacional aprovou a destinação de mais recursos a candidaturas à vereança de mulheres (30%), negros e negras (50%), indígenas, quilombolas e LGBT’s (15%), Pessoas Com Deficiência -PCD - (10%), em relação a candidaturas de homens brancos na mesma faixa de prioridade. A sobreposição dessas condições levará ao acúmulo dos percentuais.

JLPolítica - Como o senhor enxerga o tratamento dado ao público LGBT’s para vender produtos e louvar sua capacidade de consumo turístico? Isso não seria elevar um segmento social à dimensão de um produto?
ML -
Sim. Preocupa-me quando as empresas visam simplesmente o lucro imediato, sem engajamento efetivo com a causa LGBT’s, sem compromisso com a representatividade e a inclusão. É o culto ao “pink money” enquanto apropriação de uma causa pelo sistema capitalista. Para além da lacração, das frases de efeito, da publicidade voltada apenas para o consumo, precisamos investigar se essas empresas investem na contratação de LGBT’s nos quadros de funcionários, se revertem parte de seus lucros para instituições que ajudem LGBT’s em situação de risco, se promovem campanhas de prevenção à violência, etc.

JLPolítica - Como devem ser encaradas, no campo do preconceito, essas ideias de dizer que a pessoa pode ser gay, mas não afeminado, sapatona, mas sem perder a feminilidade?
ML -
São ideias horrendas, pois quem mais sofre com a lgbtofobia são aqueles que rompem com esse binarismo de gênero, aqueles que transgridem a cartilha que nos impõe determinado padrão associado ao feminino e ao masculino.

Com a militante Linda Brasil em uma passeata de repúdio à violência contra as mulheres em Estância

CONGRESSO NACIONAL RACISTA E HOMOFÓBICO
“A Lei do Feminicídio só foi aprovada quando a palavra “gênero” foi substituída por “sexo”, pois para transfóbicos o gênero seria definido por um genital ou por critérios meramente biológicos. A intenção nada cristã da bancada fundamentalista era a de excluir mulheres travestis e transexuais do rol das potenciais vítimas de  
feminicídio”

JLPolítica - É fácil e possível definir o que faz uma pessoa ter desejo sexual por outra do mesmo sexo, ou isso é um tabu indevassável?
ML -
Essa é a nossa natureza, instintual e afetiva, que repercute socialmente.

JLPolítica - Qual é a sua visão do modo como os meios de mídia pautam e tratam a homoafetividade e suas demandas?
ML -
Ainda existe muito despreparo, preconceito, estigmatização e desrespeito ao nome social e à identidade de gênero. Mas os avanços são notórios e os meios de comunicação têm papel fundamental para a informação e conscientização da população, fomento às denúncias de violações de direitos, cobrança da responsabilização dos agressores, promoção e visibilidade da agenda política que vem sendo construída em prol da cidadania LGBTIA+.

JLPolítica - Entre LGBT’s e mulheres, na política quem mais sofre segregação?
ML -
O machismo estrutural é o cerne da questão, responsável pela desigualdade de direitos e oportunidades, e consequentemente pela falta de proporcionalidade na representatividade de mulheres e LGBTS’s na política. Precisamos caminhar juntos e com olhar interseccional no enfrentamento desse sistema de opressões muito bem orquestrado, na busca de soluções para a superação dessas desigualdades.

Com o ex-deputado federal Jean Willys, o companheiro Sérgio Fernandes e Fabrício Rosa, do Movimento dos Policiais Antifascismo

JLPolítica - Qual o papel do Movimento Nacional dos Policiais Antifacismo, no atual contexto?
ML -
É o da luta pela garantia das liberdades democráticas, pelo reconhecimento e valorização do policial enquanto trabalhador, pela desmilitarização da segurança pública e das vidas, pelas reformas estruturais que se fazem necessárias: unificação das polícias com ciclo completo e carreira única, pela conquista da agenda antiproibicionista e o fim da perversa política de “guerra às drogas”, pelo enfrentamento das verdadeiras drogas a serem combatidas: o racismo, o machismo e a lgbtfobia institucionais.

JLPolítica - O senhor acha que pessoalmente caiu naquele grampo do Governo Federal que recentemente o STF refutou?
ML -
Acredito que sim, pois milito no coletivo nacional dos policiais antifascismo e me orgulho de ter assinado o manifesto em defesa da democracia popular, contra esse desgoverno que tem flertado com o autoritarismo, contra a ameaça da ruptura da ordem democrática institucional, contra as recentes tentativas de criminalização do nosso movimento, contra as milícias e grupos paramilitares reais que têm se organizado com a proteção e conivência de muitas autoridades contra a agenda de retirada de direitos dos trabalhadores.

JLPolítica - O senhor espera mais transparência sobre as intenções desse relatório?
ML -
Sim. Agora o conteúdo desse dossiê, produzido contra intelectuais e policiais antifascismo, precisa ser revelado, pois não podemos permitir o aparelhamento estatal em prol de perseguições políticas e ideológicas pelo governante de plantão. Não aceito ser bisbilhotado, secretamente investigado, monitorado, apenas por ser crítico ao Governo Bolsonaro. Nosso movimento tem providenciado as medidas jurídicas necessárias a nossa salvaguarda.

\"Acredito na luta coletiva dos movimentos sociais, na luta socialista da classe trabalhadora\", afirma

LGBTFOBIA COMO CRIME RACISMO REDUZIRÁ PRECONCEITO
“Essa jurisprudência do STF é de imensa valia para que os governos se debrucem sobre políticas públicas de atendimento a essa população, de prevenção e contenção da violência contra LGBT’s, e que atos discriminatórios sejam severamente punidos”

JLPolítica - As forças armadas estão menos preconceituosas?
ML -
Todas as instituições centenárias e submetidas a uma rígida disciplina são herméticas, tradicionalistas, menos abertas aos reclamos e mudanças de valores em nossa sociedade. Mas nessas instituições também existem corpos dissidentes e resistências, que são retaliadas, mas seguem na luta. Ser LGBT não pode ser considerado impedimento para ingresso nas Forças Armadas e já contamos com recomendação do MPF nesse sentido, assim como em 2015 o STF eliminou o termo “pederastia”, claramente homofóbico, em norma que pune atos sexuais em lugares sujeitos à administração militar. As mulheres trans ainda lutam para permanecerem na ativa. Recentemente a primeira transexual de que se tem notícia da Força Aérea Brasileira conseguiu o direito de se aposentar como subtenente após 20 anos de luta para garantia do benefício integral e após ter sido obrigada a deixar o serviço militar por ser considerada “incapaz” apenas em razão de sua identidade de gênero.

JLPolítica - Institucionalmente, no espaço que o senhor ocupa na Polícia Judiciária de Sergipe já foi alvo de segregação e preconceito?
ML -
Por ocupar um cargo de chefia, sou privilegiado e, em certa medida, blindado. Mas não passo ileso à homofobia, só que de uma forma velada, menos explícita.

JLPolítica - A família ainda é um grande entrave nessas questões de orientação sexual?
ML -
Infelizmente, as famílias, que deveriam garantir acolhimento e fortalecimento desses jovens para os desafios em sociedade para muitos LGBT’s, se tornam verdadeiros infernos, tendo que conviver com a rejeição, as violências física e psicológica, sendo por vezes até a expulsos de casa, o que tem causado o adoecimento de muitas dessas pessoas. A situação tem se agravado nesse período de pandemia, o que reforça a necessidade de uma potente rede de acolhimento e proteção.v

Em militância por inteiro: “Chegará o dia em que a sociedade olhará para trás e se chocará com a proibição dos casamentos homo/transafetivos”

JLPolítica - O senhor identifica uma certa Lgbtfobia institucional nos órgãos de segurança pública de Sergipe e do Brasil?
ML –
Culturalmente, os agentes de segurança foram adestrados e cobrados a atuarem como “cães de guarda da moral e dos bons costumes dominante” ao reprimirem os LGBT’s, enquadrados durante muito tempo nas famigeradas contravenções de vadiagem e vítimas de diversas violações. Até hoje encontramos resquícios disso em episódios de abusos de autoridade perpetrados por policiais, ou de descaso no atendimento das ocorrências em que LGBT’s figurem como vítimas. Infelizmente contabilizamos diversos episódios ocorridos no Brasil e em Sergipe.

JLPolítica - O que a Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBT tem feito para atenuar isso?
ML -
A Renosp LGBT tem investido em campanhas de conscientização da população, em campanhas de resgate da autoestima dos LGBT’s. Tem feito participação em grupos de trabalho que visem assegurar a contribuição da sociedade civil na formulação, monitoramento e avaliação das políticas públicas, com foco na prevenção, cobrado e participado da formulação de normas técnicas voltadas ao atendimento da população LGBT, abordagens, revistas; cobrança da formação permanente dos trabalhadores da segurança pública para o acolhimento qualificado, dentre outras iniciativas.

JLPolítica - O senhor considera que haja um público significativo de pessoas com orientação não heterossexual nos órgãos de segurança, de justiça e nos parajudiciários, como os Ministérios Públicos?
ML -
Sem dúvida. Estamos em todos os lugares e queremos ocupar esses espaços com respeito e dignidade. Pesquisas evidenciam que ambientes corporativos que apostam na diversidade de raça, gênero, orientação sexual, etc, em seus quadros, empresas que investem em políticas institucionais voltadas ao respeito e à valorização da diversidade são mais criativas e, por consequência, mais produtivas. Na Segurança Pública não é diferente. Nossa maior missão é a mediação, a resolução de conflitos em sociedade. Nesse sentido, quanto mais as corporações policiais forem representativas da sociedade em sua pluralidade, mais criativos e eficientes seremos em nosso labor, apesar de todas as contingências e adversidades que enfrentamos.

Um Mario Leony à cata de votos em 2018: obteve quase 10 mil para deputado federal e mantém a chama acesa

HOMOFOBIA E A TRADIÇÃO JUDAICO-CRISTÃ
“A lgbtfobia no Brasil é um grande paradoxo. O país que mais consome pornografia envolvendo pessoas trans é o que mais assassina travestis e transexuais no mundo. Nos chocamos com os países fundamentalistas que criminalizam homossexuais, mas estamos no topo do ranking de hediondos assassinatos de LGBT’s”

JLPolítica - Há uma afirmação social recorrente segundo a qual negros praticam racismo contra negros. O senhor identifica esta postura entre os homossexuais?
ML -
Sim, pois somos todos criados numa cultura racista, machista e lgbtfóbica que desumaniza, descaracteriza, invisibiliza, humilha e oprime. Então, lamentavelmente, vemos negros reproduzindo racismo. Na polícia, muitos agem como capatazes de senhores de escravos dos tempos modernos. Assim como vemos mulheres e LGBTs naturalizarem as opressões que sofrem e reproduzirem machismo e lgbtfobia. Daí a importância das lutas identitárias. O ódio e o preconceito precisam ser desnaturalizados. Ademais, precisamos ressignificar nossas existências.

JLPolítica - O senhor acha que os legisladores brasileiros ajudam a assegurar mais cidadania às pessoas com orientação homo, ou mais atrapalham?
ML -
Mais atrapalham. Temos vários exemplos e poderia citar alguns: a cidadania LGBT foi moeda de troca quando a bancada igrejeira chantageou a presidente Dilma e ameaçou somar-se à oposição para convocação do então ministro Palocci a prestar contas no Congresso Nacional sobre o seu enriquecimento ilícito. A condição foi a suspensão do kit anti-homofobia que seria utilizado na formação dos educadores, reconhecido pela Unesco como importante material pedagógico a ser trabalhado nas escolas. A presidente cedeu à chantagem nada cristã, suspendeu a distribuição do material e deu uma declaração desastrosa de que seu governo “não faria propaganda de opção sexual”.

JLPolítica - E nem foi somente essa a concessão?
ML -
Sim. A Lei do Feminicídio só foi aprovada quando a palavra “gênero”, prevista no projeto original, foi substituída por “sexo”, pois para os transfóbicos, em sua miopia, o gênero seria definido por um genital ou por critérios meramente biológicos. Em verdade, a intenção nada cristã da bancada fundamentalista era a de excluir mulheres travestis e transexuais do rol das potenciais vítimas de feminicídio. Em Sergipe os debates de gênero e diversidade foram excluídos da matriz curricular das escolas e, em efeito cascata, diversos projetos de lei foram aprovados com o objetivo de amordaçar professores em Aracaju, Poço Verde, Estância, Umbaúba, Itaporanga D’Ajuda, dentre outras cidades. Posteriormente o Tribunal de Justiça de Sergipe reconheceu a inconstitucionalidade dessas leis, mas não impediu seu impacto negativo na formulação das políticas públicas nos municípios, a evidenciar o despreparo e a falta de qualificação técnica daqueles que deveriam legislar para o povo em sua diversidade.

Com o companheiro, arquiteto Sérgio Fernandes em lua de mel em Portugal

JLPolítica - De onde vem a segregação à doação de sangue pela pessoa gay?
ML -
Vem da aidsfobia, mas hoje não falamos mais em grupos de risco e sim em comportamentos de risco. O risco em contrair uma DST advém de um comportamento sexual e não da orientação sexual de alguém que se dispõe a doar sangue. Apenas em 2020 o STF, por maioria de votos, considerou inconstitucionais dispositivos de normas do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária que excluíam do rol de habilitados para doação de sangue “homens que tiveram relações sexuais com outros homens e/ou as parceiras sexuais destes nos 12 meses antecedentes”.

JLPolítica - O senhor acha que a classificação jurídica da Lgbtfobia como racismo pode ajudar a diminuir a curso do preconceito no Brasil?
ML -
Sim, enquanto não for aprovado no Congresso Nacional o Estatuto da Diversidade, tal qual o ECA, o Estatuto do Idoso, a Lei Maria da Penha, dentre outras leis protetivas de segmentos vulnerabilizados da sociedade. Essa jurisprudência do STF é de imensa valia para que os governos se debrucem sobre políticas públicas de atendimento a essa população, de prevenção e contenção da violência contra LGBT’s, e que atos discriminatórios sejam severamente punidos.

JLPolítica - Atos discriminatórios têm sido comuns em Sergipe?
ML -
Em Aracaju, por exemplo, no ano de 2018 uma magistrada constrangeu um casal de lésbicas ao proibi-las de participar de uma cerimônia de casamento coletivo, mesmo após a jurisprudência firmada pelos tribunais superiores, conduta esta que hoje poderia vir a ser subsumida na Lei de Racismo. Quando pensamos em racismo obviamente nos reportamos à escravidão do povo negro no Brasil, último país do mundo ocidental a “abolir” a escravidão. Um passado que nos envergonha. Mas não foi uma novidade o reconhecimento pelo STF da aplicabilidade da Lei do Racismo para além de um critério fenotípico, pois o Supremo já havia mantido a punição de escritor e editor responsável pela publicação de livro com conteúdo antissemita.

Mario Leony cartunizado por André Chagas como o delegado do amor

RELEVÂNCIA DA ADOÇÃO HOMOPARENTAL
“Isso consiste em garantias e na maior dignificação do ser humano. “O amor recebendo o devido reconhecimento jurídico”. Eu e meu companheiro estamos habilitados para adoção há mais de dois anos e na expectativa de uma gestação mais demorada”

JLPolítica - Onde estaria a raiz ou a matriz maior da homofobia brasileira?
ML -
Na tradição judaico-cristã que colonizou praticamente todo o mundo ocidental.

JLPolítica - O senhor acha que a lgbtfobia do Brasil ainda é grande e muito diferente da de outras culturas sociais do mundo?
ML -
A lgbtfobia no Brasil é imensa e um grande paradoxo. O país que mais consome pornografia envolvendo pessoas trans é o que mais assassina travestis e transexuais no mundo. Nos chocamos com os países fundamentalistas que criminalizam homossexuais em pleno século XXI, mas estamos no topo do ranking de hediondos assassinatos de LGBT’s.

JLPolítica - Hoje estaria mais palatável viver no Brasil sob uma orientação homoafetiva em comparação com os anos 60 a 80?
ML -
Hoje vivemos uma realidade bem diferente em um mundo globalizado, mas não podemos perder de vista a luta daqueles que abriram trincheiras para que hoje possamos falar abertamente sobre as questões de gênero e diversidade. O Relatório Nacional da Comissão da Verdade tem um capítulo destinado à censura, às perseguições e torturas sofridas por LGBTS’s durante a ditadura militar. Foi nessa conjuntura que o movimento LGBT começou a se organizar no Brasil. Já durante a redemocratização tivemos que enfrentar o recrudescimento da violência contra nossa comunidade com o advento da Aids, inicialmente estigmatizada como a “peste gay”. Essa memória de resistência não pode ser apagada, inclusive precisamos celebrar em 2021 os 40 anos de fundação do Dialogay em Sergipe e o legado deixado para o nosso movimento na atualidade.

Com Linda Brasil no evento Maria Cristo, promovido pelo Instituto Salto Quântico e comandado por Benjamim Teixeira de Aguiar

JLPolítica - Qual é a distinção entre casamento civil igualitário e a união estável?
ML -
O casamento é mais formal no âmbito do Direito das famílias e necessita do registro civil. Já a união estável prescinde de formalização, mas os efeitos jurídicos dos dois institutos jurídicos se tornaram praticamente os mesmos, com os avanços na legislação e na jurisprudência. A diferença é o que estado civil muda quando há casamento, além da garantia de maior segurança jurídica. Por exemplo, se a união estável não estiver formalizada, o companheiro terá que provar que vivia em união estável para se tornar um herdeiro.

JLPolítica - Qual a relevância dos avanços concernentes à adoção de crianças no campo homoparental?
ML -
Isso consiste na ampliação do sistema de garantias e na maior dignificação do ser humano. “O amor recebendo o devido reconhecimento jurídico”, como bem asseverado pelo professor Enézio de Deus, mestre em Família na Sociedade Contemporânea. Os LGBT’s, via de regra, estão aptos à reprodução biológica. Até mesmo casais considerados inférteis, independentemente da sua orientação sexual, também contam com os avanços da ciência na busca da parentalidade biológica. Mas a adoção cumpre importante função social na constituição de um lar para o adotado, e qualquer consideração que passe pela orientação sexual e/ou identidade de gênero como impeditivo é preconceito.

JLPolítica - O senhor pensa em adotar?
ML -
Sim, eu e meu companheiro estamos habilitados para adoção há mais de dois anos e na expectativa de uma gestação mais demorada. Nossa relação foi fertilizada no período em que cuidamos da minha tia, madrinha e mãe do coração nos últimos anos de vida em que ela enfrentou o Alzheimer. Os polos se inverteram e a convivência com Lulu qualificou nosso afeto e, em alguma medida, nos despertou para a dupla paternidade.

JLPolítica - Qual o significado de as pessoas trans poderem retificar seus registros civis para assumirem o nome do gênero com o qual elas mais se identificam?
ML -
A possibilidade de retificação em cartório foi libertadora, pois os corpos trans sempre foram regulados, controlados e estigmatizados tanto pela ciência médica quanto pela jurídica. O não reconhecimento do nome social provocava profundas cicatrizes no corpo e na alma dessas pessoas, maculadas em sua autoimagem e autoestima, em todos os âmbitos da vida social. Imagina o constrangimento vivido por essas pessoas na escola, em repartições públicas e ambientes de trabalho, por exemplo, quando não reconhecidas na forma como se expressam em sua identidade de gênero. Hoje essas pessoas não precisam mais judicializar esse pleito, nem precisam apresentar uma infinidade de laudos, médicos e psicológicos, garantida a autodeclaração.

Mario Leony, em 2018, na multidão levantando a bandeira do Ele Não: “Não aceito ser bisbilhotado, secretamente investigado, monitorado, apenas por ser crítico ao Governo Bolsonaro”

TEMPO E AVANÇO SOBRE A BARBÁRIE
Chegará o dia em que a sociedade olhará para trás e se chocará com a proibição dos casamentos homo/transafetivos, tal qual a proibição dos casamentos interraciais em regimes de apartheid”

JLPolítica - O senhor considera que o Brasil tem avançado em legislação LGBT, ou não é bem assim?
Mário Leony -
Infelizmente, ainda há falta de representatividade nos parlamentos e convivemos com bancadas predominantemente conservadoras nas casas legislativas, em todos os âmbitos da Federação. No Congresso Nacional são sepultados quaisquer projetos de lei que visem assegurar nossa plena cidadania. Os avanços verificados se dão no âmbito da jurisprudência pátria, ao levarmos para o Judiciário nossas demandas, especialmente ao STF, guardião maior da Constituição e da dignidade da pessoa humana.

JLPolítica - Qual é a significação do direito ao casamento civil igualitário entre pessoas do mesmo sexo para o bem-estar delas?
ML -
O célebre escritor gaúcho Luís Fernando Veríssimo asseverou que “quando o casamento parecia a caminho de se tornar obsoleto, substituído pela coabitação sem nenhum significado maior, chegam os gays para acabar com essa pouca-vergonha”. Acredito que nossa liberdade não deva sucumbir aos valores da “tradicional família monogâmica pseudocristã”, entretanto a proibição do casamento civil sempre invisibilizou e vulnerabilizou nossas relações. Trago o exemplo do amigo Wellington Noronha, advogado que no auge de sua carreira foi brutalmente assassinado, quando seu companheiro durante mais de 15 anos foi surpreendido por um arrolamento que beneficiava apenas a família biológica, tendo que recorrer ao Judiciário para reconhecimento da união estável.

JLPolítica - Todas as decisões nessa esfera têm cheiro de recente.
ML -
Basta pensar que apenas em 5 de maio de 2011 o STF reconheceu as uniões estáveis homo/transafetivas como entidades familiares, a partir de voto primoroso do ilustre jurista, poeta e humanista propriaense, o ministro Ayres Britto. Essa decisão histórica foi o passaporte para a jurisprudência dominante em favor do casamento civil igualitário, da adoção homoparental, dos direitos previdenciários em favor desses casais e seus filhos, dentre outros direitos civis que hoje nos são assegurados.

JLPolítica - Qual é a condição do senhor atualmente neste terreno?
ML -
Mantenho união estável com o arquiteto Sérgio Fernandes desde o ano de 2007.A minha profissão é de risco e por isso sentimos a necessidade de formalizarmos nossa união em cartório em 2015. Nossas famílias não podiam continuar a viver na clandestinidade. Chegará o dia em que a sociedade olhará para trás e se chocará com a proibição dos casamentos homo/transafetivos, tal qual a proibição dos casamentos interraciais em regimes de apartheid.

Leony em ação de militante durante a Parada LGBT de Sergipe em 2013 com trabalhadores da segurança pública

“As verdadeiras drogas a serem combatidas são o racismo, o machismo e a lgbtfobia institucionais”
30 de agosto - 8h00      

Prestes a fazer 46 anos, o bacharel em direito e delegado da Polícia Judiciária do Estado de Sergipe Mario Leony se constituiu numa persona multifocada, atenta e contributiva no território das lutas em favor dos direitos das pessoas do universo LGBT’s em Sergipe e no Brasil.

A partir da sua própria condição de homossexual trabalhador no topo da Segurança Pública, Mario Leony tem um olhar atento, inclusivo, diferente, mas sem concessões e que vai direto ao ponto da necessidade institucional de garantias de mais direitos reais e mais respeito às pessoas e às suas orientações sexuais.

E Mario Leony faz tudo isso com uma certa naturalidade, sem populismo e nem afetações graciosas, mas também sem baixar a guarda da necessidade de uma militância perene na busca por direitos institucionais. Ele, sabe, no entanto, que a causa que defende é dura, espinhosa e pela qual há muitíssimo ainda a ser feito e conquistado.

“Vivemos uma realidade bem diferente em um mundo globalizado, mas não podemos perder de vista a luta daqueles que abriram trincheiras para que hoje possamos falar abertamente sobre as questões de gênero e diversidade”, constata Mario Leony.

“O Relatório Nacional da Comissão da Verdade tem um capítulo destinado à censura, às perseguições e torturas sofridas por LGBTS’s durante a ditadura. Foi nessa conjuntura que o movimento LGBT começou a se organizar no Brasil. Já durante a redemocratização tivemos que enfrentar o recrudescimento da violência contra nossa comunidade com o advento da Aids, estigmatizada como a “peste gay”. Essa memória de resistência não pode ser apagada, inclusive precisamos celebrar em 2021 os 40 anos de fundação do Dialogay em Sergipe e o legado deixado para o nosso movimento na atualidade”, diz.

Quando estão em cena a lgbtfobia e os danos derivados dela, não há, da parte de Mario Leony, nenhuma relativização nessa “realidade bem diferente” de que ele fala.

“A lgbtfobia no Brasil é imensa e um grande paradoxo. O país que mais consome pornografia envolvendo pessoas trans é o que mais assassina travestis e transexuais no mundo. Nos chocamos com os países fundamentalistas que criminalizam homossexuais em pleno século XXI, mas estamos no topo do ranking de hediondos assassinatos de LGBT’s”, adverte.

Essa visão realista e crítica de Mario não embaça nele o reconhecimento de alguns ganhos. “O STF reconheceu as uniões estáveis homo/transafetivas como entidades familiares, a partir de voto primoroso do ilustre jurista, poeta e humanista propriaense, o ministro Ayres Britto. Essa decisão histórica foi o passaporte para a jurisprudência dominante em favor do casamento civil igualitário, da adoção homoparental, dos direitos previdenciários em favor desses casais e seus filhos, dentre outros direitos civis que hoje nos são assegurados”, constata Mario.

Vivendo uma união estável com o arquiteto Sérgio Fernandes desde 2007, Mário Leony está planejando ampliar a família. “Sim, eu e meu companheiro estamos habilitados para adoção há mais de dois anos”, diz ele.

Com isso e com toda a evolução da área, apesar de ele se queixar profundamente de que o Congresso Nacional seja demasiado lento e reacionário, o militante Mario Leony aposta na possibilidade de tornar decrépita uma série de visões ainda em cena no terreno da diversidade e da orientação sexual das pessoas.

“Chegará o dia em que a sociedade olhará para trás e se chocará com a proibição dos casamentos homo/transafetivos, tal qual a proibição dos casamentos interraciais em regimes de apartheid”, diz.

Mario de Carvalho Leony nasceu no dia 29 de outubro de 1974 em Salvador, na Bahia. Ele é filho de Mario Dias Leony e de Neusa de Carvalho Leony.

Formou-se em Direito pela Universidade Católica de Salvador e tornou-se um especialista em Gestão Estratégica em Segurança Pública pela Universidade Federal de Sergipe e em Ciências Criminais pela Universidade do Amazonas.

Mario de Carvalho Leony ingressou, por concurso público, na Polícia Civil de Sergipe no mês de setembro de 2001 - “e o mundo não se acabou”, diz ele, rindo -, e está no Departamento de Combate a Homicídios e Proteção à Pessoa, lotado na 3ª Divisão.

Mas já passou pelas Delegacias dos municípios de Indiaroba, Salgado, Itaporanga, São Cristóvão, Nossa Senhora do Socorro, pelas 5ª, 7ª, 2ª e 9ª Delegacias Metropolitanas, em Aracaju.

Mario Leony e o companheiro, arquiteto Sérgio Fernandes, juntos desde 2007. “Estamos habilitados para adoção há mais de dois anos”