Orlando Mendonça: “Só colocaria minha mãe num asilo em última instância”

Entrevista

Jozailto Lima

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Orlando Mendonça: “Só colocaria minha mãe num asilo em última instância”

“O Asilo Rio Branco é para indigente. Não adianta vir pra cá pedir se tem condições de cuidar”
23/7/2022-19h

 

O industrial Orlando Mendonça, 75 anos, é um cidadão discreto e arredio a tudo que seja ostentação para as ações que desempenha na vida particular e pública.

Mas ele é do tipo que brilha os olhos e se agiganta quando o assunto são o carinho, o cuidado, a atenção e a dedicação aos idosos do Asilo Rio Branco, entidade que preside desde que tinha 45 anos - há 30, portanto.

Seu Orlando Mendonça, que já foi um dia representante comercial da área de alimentação e hoje fabrica biscoitos e bolachas com a sua conhecida Fabise, é um sujeito tão discreto que esta é, em 30 anos, a primeira vez que ele senta com um jornalista para uma entrevista de fôlego.

Para falar do que faz e de como faz em favor do Asilo Rio Branco, dos seus internos e da gestão dessa entidade filantrópica que está completando 111 anos neste 2022.

Mais do que isso: para falar do prazer e da alegria com que se dedica a essa causa. E atenção: 100% como um filantropo. Ou seja, com remuneração zero.

Essa concessão na fala de Orlando Mendonça parece coisa de empatia, pois ele não encrespou. Não dificultou em nada a interlocução para a produção e a feitura desta Entrevista.

Apenas pediu para que o foco não fosse a sua vida pessoal e que tudo se prendesse exatamente ao institucional da ação que ele toca com o pé numa imensa confiabilidade da gente e das instituições sergipanas.

E sobre isso, Orlando tem mesmo enorme prazer. Encara as dificuldades da filantropia com naturalidade e visceralidade. É capaz das maiores bravuras pelo Asilo Rio Branco.

Ali, ele companha tudo olho no olho. Não deixa faltar nada. Se é feliz nessa missão? “Oxe: meu Deus do céu! Eu sou mais do que feliz. Entendo e aprendi que isso aqui foi uma oportunidade que tive na minha vida”, responde ele.

“Nunca pensei que eu ia chegar a esse ponto de encontrar felicidade fazendo filantropia. Hoje compreendo que todo homem deveria ter essa oportunidade de encontrar um ambiente para praticar filantropia”, diz.

Orlando Mendonça só não se sente calmo e nem manso diante de gente que desrespeite seus próprios idosos, não os acolha e, tendo condições materiais, mande-os para os asilos.
“Tem pessoas que vêm pedir e eu nego, com reprimenda: “Você tenha vergonha e vá cuidar de seu pai, da sua mãe, porque ele cuidou de você muito tempo e você tem condições. Contrate uma cuidadora e bote em casa”. Tem gente que sai daqui chorando e a culpa certamente não é minha”, diz.
Esta Entrevista está cheia de boas humanidades. Pelo que pensa, pelo que diz e sobretudo pela quebra de silêncio de Orlando Mendonça.

Orlando Carvalho Mendonça nasceu em Maruim no dia 5 de abril de 1947 e é filho de Dider Mendonça e de Valdice do Prado Carvalho Mendonça.

Orlando Carvalho é casado com Tânia Maria Machado Tojal Mendonça e é pai de Dider José Tojal Mendonça, de Débora Cristina Tojal Mendonça, de Danielle Cristina Tojal Mendonça e já é avô de seis netos - três casais gerados por cada um dos filhos.

Ele tem ensino médio completo. “Não tem nada fácil, mas eu gosto de ser industrial. Quando você se dedica e é zeloso, tudo vale e funciona”, diz, diante da sua condição de produtor de alimentos e exportador para meia banda do Nordeste – desde a Bahia ao Ceará.

Homem de negócio, Orlando Mendonça consegue, a partir de Sergipe, atender da Bahia ao Ceará
Orlando Mendonça nasceu em 5 de abril de 1947 e é filho de Dider Mendonça e de Valdice do Prado Carvalho Mendonça

QUEM PODE SER RECEBIDO NO RIO BRANCO?
“Pelo que manda o estatuto, é aquela pessoa desamparada de tudo. É aquele que não tem ninguém para mantê-lo. Essa é a prioridade da instituição e nós temos cumprido a risca”

JLPolítica - Qual é o perfil do idoso recepcionado hoje pelo Asilo Rio Branco?
Orlando Carvalho Mendonça -
Pelo que manda o estatuto, é aquela pessoa desamparada de tudo. É aquele que não tem ninguém para mantê-lo. Essa é a prioridade da instituição e nós temos cumprido a risca.

JLPolítica - Quantos são os hóspedes do Asilo Rio Branco neste mês de julho de 2022?
OCM -
Hoje eles estão em 42 e isso significa uns 80% lotação da instituição, porque podemos ir até 60.

JLPolítica - De que vive instituição?
COM -
A gente vive de doação. Não existe nenhuma verba específica para manter isso aqui, de ninguém - nem o Estado, nem o Município e nem o Governo Federal manda um centavo para cá. E, aliás, hoje também eu nem quero. Diria que esse é um dinheiro muito complicado.

JLPolítica - Complicado como?
OCM -
Complicado porque só vem através de político e a política dá com uma mão e quer, por vezes, com a outra e isso não dá para a gente. A nossa filosofia aqui é diferente. É uma instituição particular que hoje chamam de ONG - Organização Não-Governamental. Antes era só uma instituição.

No dia a dia do Asilo Rio Branco, velhice e problemas de saúde não impedem a confraternização

PERFIL DO COLABORADOR DO ASILO
“O perfil é o da pessoa bondosa - e ainda tem muita gente com esse traço. É ser caritativa, é gostar do ser humano e preocupar-se com aqueles abandonados. E tem um detalhe curioso nessa causa: você quando ajuda ao idoso não espera uma retribuição”

JLPolítica - A pandemia atrapalhou ou ajudou à causa do Rio Branco?
OCM -
Atrapalhou, e muito. A pandemia afastou a sociedade daqui, aqueles que nos visitavam, que nos davam cobertura material e espiritual, que é a sociedade.

JLPolítica - Mas qual seria o perfil da pessoa colaboradora de uma causa como a do Rio Branco?
OCM -
O perfil é o da pessoa bondosa - e ainda tem muita gente com esse traço. É ser caritativa, é gostar do ser humano e preocupar-se com aqueles abandonados. E tem um detalhe curioso nessa causa: você quando ajuda ao idoso não espera uma retribuição, um agradecimento dele futuramente, ao contrário da criança. Cada um de nós conhece muita gente que ajuda criança na ideia de que “quando ela crescer, pode até me recompensar, me ajudar e tal”. É um pensar no futuro. Com o idoso não. Esse ser está aqui para concluir a vida. Então só ajuda a essa causa aquele que realmente tem bom coração.

JLPolítica - O senhor diria que essa pessoa de bom coração, o cristão que ajuda o idoso, estaria talvez, pensando nele no futuro, no que vai ser?
OCM -
É possível. O idoso pode ser para cada um de nós um espelho da vida.

JLPolítica - Tem algum colaborador que, especialmente, chama a atenção do senhor e da instituição?
OCM -
Não, e se tiver eu não vou revelar. Sabe por que? Porque os que fazem caridade, em grande maioria, não querem que sejam revelados. Não querem aparecer. Lhe digo, por exemplo, que recebo doações aqui com a observação: “Está aqui, mas, por favor, não quero recibo, não quero nada”. São pessoas que não querem aparecer. A gente aqui da gestão também não gosta e priva por não receber em espécie. A gente recebe sempre em favores, em alimentos e em outros gestores humanitários.

Orlando Mendonça é um camarada muito família e diz que hoje os filhos - Dider, Débora Cristina e Danielle Cristina - mandam mais nele do que ele nos filhos

DO SIGILO DE QUEM COLABORA
“Os que fazem caridade, em grande maioria, não querem que sejam revelados. Não querem aparecer. Lhe digo, por exemplo, que recebo doações com a observação: “Está aqui, mas, por favor, não quero recibo, não quero nada”

JLPolítica - Em doações financeiras, não?
OCM -
Não. Nós pelo menos evitamos ao máximo isso. Eu nunca vi uma campanha do Asilo Rio Branco pedindo dinheiro a ninguém.

JLPolítica - Por que o senhor não a faz?
OCM -
Porque é complicado. Se entra o dinheiro, você tem que ter um patrulhamento, além de quem está dando, do tipo qual a intenção, quem está recebendo. Geralmente isso vem em gêneros alimentícios, material de higienização. Aí eu quero fazer uma reforma, chamo um grupo de amigos e a gente compra o material faz.

JLPolítica - Talvez a fiscalização financeira seja tão incômoda que nem compensa, não é?
OCM -
É exatamente isso. Preferimos só o lado filantrópico, e não deve mexer com dinheiro. Para não complicar.

JLPolítica - Quantos servidores a instituição tem?
OCM -
Hoje são trinta e dois.
 

Dois big boss da filantropia: Orlando Mendonça e Henrique Prata, do Hospital de Amor de Barretos e de Lagarto

DO PORQUÊ DE NÃO LIDAR COM DINHEIRO
“Porque é complicado. Se entra o dinheiro, você tem que ter um patrulhamento, além de quem está dando, do tipo qual a intenção, quem está recebendo. Geralmente isso vem em gêneros alimentícios, material de higienização”

JLPolítica - De quanto é folha de pagamento?
OCM -
Rapaz, não é simples: você tem aqui um regime de 24 horas, são dois turnos. Eu não paro à noite, tenho não só a refeição das cinco horas da tarde, mas tem o lanche das oito horas da noite, que tem dois para poderem acompanhar, de quarto em quarto. Eles não param, e ainda tem vigilante. Mas hoje a folha de mantimento, de pessoas, de tudo, beira os R$ 100 mil. O quanto recebemos de doação dá para cobrir a folha de pagamento, que hoje é em torno de R$ 45 mil. O resto, é como diz no popular: “nós se vira”.

JLPolítica - Seu Orlando, mas se uma pessoa física ou jurídica quiser, por filantropia própria, colaborar com R$ 2 mil, R$ 3 por mês com o Asilo Rio Branco, ela estaria impedida?
OCM -
Não, em hipótese alguma.

JLPolítica - Mas o senhor diz que não faz campanha para pedir...
OCM -
Não faço. Quando é da necessidade maior, eu pessoalmente vou às fontes. Não gosto é de varejo. Gosto de atacado: “Ó, fulano de tal, estamos precisando aqui de uma cesta básica de uns R$ 3 mil, R$ 4 mil em alimento e tal, e pronto”. Ainda essa semana fui pedir no GBarbosa: “Hei, estou precisando de fraldas, veja aí umas 500 ou 600”.

JLPolítica - E o senhor é correspondido nos seus pedidos?
OCM -
Na maioria das vezes, sim. Senão eu não mantinha isso aqui. Se for olhar aqui, você vê essa mobília linda, não é, que nada combina com nada. Por quê? Porque foi doação e eu recebo de braços abertos. Isso foi da minha casa, aquilo do meu escritório todo (diz, em referência aos objetos da sala que ele usa como escritório). Eu não tenho nenhum problema com isso. Mas veja que não tem luxo nenhum. Só o básico. Tudo que dão aqui, eu aceito.

Orlando Mendonça é avô de seis netos -Ricardo, Orlando Neto, Giovana, Marina, Mariane e Gustavo -, se sente contemplado com carinho de todos e é retribuidor

ARTE DE PEDIR CONFORME A NECESSIDADE
“Quando é da necessidade maior, eu pessoalmente vou às fontes. Não gosto é de varejo. Gosto de atacado: “Ó, fulano de tal, estamos precisando aqui de uma cesta básica de uns R$ 3 mil, R$ 4 mil em alimento e tal, e pronto”

JLPolítica - É satisfatório o grau de acompanhamento dos idosos hospedados por parte dos seus parentes?
OCM -
Eu prefiro dizer que é regular. Satisfatório, não, porque imagine que se você coloca sua mãe aqui você não tem lá tanto amor por ela, e fim de papo, não é? Vai depender de outras questões, porque não quero ofender ninguém. Mas eu só colocaria minha mãe num asilo de idoso em última instância. Tem pessoas que vêm pedir e eu nego, com reprimenda: “Você tenha vergonha e vá cuidar de seu pai, da sua mãe, porque ele cuidou de você muito tempo e você tem condições. Contrate uma cuidadora e bote em casa”. Tem gente que sai daqui chorando e a culpa certamente não é minha.

JLPolítica - Tem gente de classe alta que procura os préstimos do Asilo Rio Branco?
OCM -
Sim, e como tem! Para mim, isso é o descarte de humano, não é?

JLPolítica - O senhor acha estranho que a pessoa descarte um parente?
OCM - E como acho, de modo que se eu tivesse poderes, mandava prender uma pessoa dessa na hora. Era para sair preso daqui.

JLPolítica - De quais camadas sociais vem a maior procura por um espaço numa instituição como o Asilo Rio Branco?
OCM -
Com essa minha maneira de administrar, praticamente deixo claro aos amigos e à sociedade o seguinte: o Asilo Rio Branco é para indigente e tal. Não adianta vir pra cá pedir se tem condições de cuidar. O Asilo não vai aceitar, e ponto final.

Asilo Rio Branco: uma das entidades mais antigas do Brasil, com fundação lá em 1911

QUEM TEM AMOR AOS PAIS EVITA O ASILO
“Imagine que se você coloca sua mãe aqui você não tem lá tanto amor por ela, e fim de papo, não é? Vai depender de outras questões, porque não quero ofender ninguém. Mas eu só colocaria minha mãe num asilo de idoso em última instância”

JLPolítica - Mas quais são mesmos os critérios reais e finais para aceitar alguém aqui?
OCM -
A prioridade é de ser uma pessoa abandonada, como lhe falei. Que seja uma pessoa que não tenha ninguém para cuidar dela. Essa, sim, me interessa. A mim não interessa se é você, se é um irmão meu ou o arcebispo que está pedindo. Não quero saber. Quero é ver a pessoa. Venha aqui, eu vejo, converso com ela, sinto a necessidade, o grau de enfermidade, de mobilidade, etc, e então eu lhe faço a admissão.

JLPolítica - Tem alguma entidade médica que lhe dê suporte aqui? Que faça consultas, que venha fazer visitas?
OCM -
Entidade médica em si, não. Tenho um médico que é maçom, Augusto Cesar Lira Machado. Esse é um abnegado, está aqui conosco há mais de 20 anos e faz a filantropia dele. Gratuitamente, óbvio. É aquele médico que nos dá o suporte de exame médico, e a gente vai vivendo.

JLPolítica - O senhor tem ideia do custo médio de uma pessoa idosa a ser cuidada pelo asilo?
OCM -
Hoje está bem próximo dos R$ 3 mil. Veja o que se tem aqui: a pessoa vem e fica até o final da vida. Mora aqui. Aí você tem todo o ciclo - da alimentação, da higienização, da cozinha, da lavanderia, do remédio. É tudo.

Orlando Carvalho Mendonça: “Nunca pensei que eu ia chegar encontrar felicidade fazendo filantropia”

“TENHA VERGONHA E VÁ CUIDAR DE PAI E MÃE”
“Tem pessoas que vêm pedir e nego, com reprimenda: “Você tenha vergonha e vá cuidar de seu pai, da sua mãe, porque ele cuidou de você muito tempo e você tem condições. Contrate uma cuidadora e bote em casa”. Tem gente que sai daqui chorando e a culpa certamente não é minha”

JLPolítica - Tem semi-internados por aqui?
OCM -
Não. Só aceitamos internos. É para morar e viver aqui.

JLPolítica - Entre remédios e alimentação, quais as despesas que mais pesam?
OCM -
Hoje é a alimentação. Tudo bem que a gente recebe, exatamente para isso, muita ajuda, e aí fica mais suave. Mas, em rigor, seria a alimentação. A pessoa chega aqui andando, falando, e dentro de algum tempo vai definhando, caindo, passa para o andajá, para a cadeira de roda, aí não se levanta mais - aí são a alimentação, a higienização e os remédios que pesam. Nos remédios sempre tem a colaboração do Posto Sinhazinha. Vamos lá, pedimos uma coisa e outra.

JLPolítica - Há uma Associação Estadual Sergipana das instituições cuidadoras de pessoas idosas?
OCM -
Tem os conselhos - o estadual e o municipal.

JLPolítica - Essas instituições se fazem presentes aqui?
OCM -
Não. Vêm fazer fiscalização e vão embora. Indicam erros ou carências, e eu mando cuidar da vida deles, por que não sabem o que estão fazendo.

Orlando Mendonça com o amigo José Francisco da Rocha, o grande Rochinha

O SUPORTE DO MÉDICO FILANTROPO
“Tenho um médico que é maçom, o César Vieira Machado. Esse é um abnegado, está aqui conosco há mais de 20 anos e faz a filantropia dele. Gratuitamente, óbvio. É aquele médico que nos dá o suporte”

JLPolítica - O senhor estima que sejam quantas as instituições em Sergipe a cuidar das causas das pessoas idosas?
OCM -
Não sei. Não me preocupo muito com os outros. Eu sei que tem o Same, que tem instituição em São Cristóvão, tem em Itabaiana. Tem várias e a mais antiga é o Asilo Rio Branco mesmo.

JLPolítica - O avanço do envelhecimento da população brasileira deve gerar que tipo de preocupação nas instituições que cuidam de idosos no Brasil?
OCM -
É aquela história: tenho meus limites, não posso trabalhar com mais do que 50 ou 60 deles, então se aumenta lá fora o número de idosos a gente vai ficar sem condições de cuidar. Aí é a parte do governo. Por que de quem é a obrigação de cuidar dos desassistidos? Da família. Quando a família falta, é de quem? Do Estado. Quando o Estado não liga, vem nós a tomar conta.

JLPolítica - Qual o conceito que o senhor tem do papel do Estado, no Brasil, com a pessoa idosa? O senhor acha que o Estado brasileiro se preocupa com o idoso, com pessoas em fase de envelhecimento?
OCM -
Veja: o Estado brasileiro diz que se preocupa. Sei que ele edita muitas leis, cria muitos conselhos, mas não manda dinheiro, não manda nada. Nem remédio. Então não adianta.

JLPolítica - O senhor quer dizer que, na prática, tem pouca serventia a suposta preocupação dele?
OCM -
Sim. Muito da política: “Eu faço, pinto, aconteço, eu vou fazer”. Sim, mas não chega aqui. Aliás, em 1911, quando o Asilo Rio Branco foi criado, não tinha Ministério Público, não tinha não sei o quê, e hoje tem tudo lá. Eles se reúnem lá em Brasília e emitem suas cartilhas - recebi aqui um dia desses uma cartilha sobre o idoso, sem nunca terem consultado uma das instituições mais antigas do Brasil, que é o Asilo Rio Branco. Nunca vieram aqui, nunca fizeram uma entrevista para saber o que é e o que não é o Asilo e tal. Mas de lá, eles acham que sabem tudo. Leem alguma nomenclatura aí do exterior, não sei o quê e tal, porque vou levar lá para o Brasil, e vendem aqui com filosofias alemãs, americanas, querendo aplicar à vida brasileira e não funciona. Aí fica nisso daí.

Orlando Mendonça com o ex-governador João Alves Filho, na entrega de uma comenda maçônica

CUSTO MAIOR VEM DA ALIMENTAÇÃO
“Hoje é a alimentação. Tudo bem que a gente recebe, exatamente para isso, muita ajuda, e aí fica mais suave. Mas, em rigor, seria a alimentação”

JLPolítica - Aos 75 anos, o senhor é um idoso lúcido e ativo. Qual o seu conceito da cultura brasileira para com a pessoa idosa? O senhor acha que o Brasil vê o idoso de que modo?
OCM -
Isso você tem que dividir e segmentar para fazer a análise. Há pouca preocupação. Quem mais precisa é quem mais se preocupa. As camadas mais baixas.

JLPolítica - O senhor acha que, por lei, pode se mudar a cultura de trato do idoso no Brasil?
OCM -
Não pode. Essa é uma questão de educação. De educação escolar e familiar. Tem que formar as pessoas para aquilo, para o bom trato.

JLPolítica - Se os seus três filhos decidissem lhe colocar em um asilo, o senhor se sentiria como?
OCM -
Eu nem penso nessas hipótese. Mas, se ocorresse, seria é uma ingratidão muito grande como a que se dá com a maioria dos que chegam aqui, que se sentem traídos pela família. Não tem um idoso que venha para cá que venha satisfeito. Nenhum.

JLPolítica - O senhor, portanto, acha que a família ainda é o grande berço para o cuidado da adolescência à velhice?
OCM -
Sem dúvida. Não pode ser diferente. Não tem outro meio. Se você imaginar que sua mãe ficou com você nove meses no ventre, depois, juntamente com seu pai, cuidou de você quando não sabia andar, não sabia falar, não sabia comer, não sabia fazer sua higienização - em bebê, ela passa um ano, até dois anos, cuidando de você, amamentando, levando para o médico, não dormindo à noite às vezes por causa de doença -, como é que depois você casa, cria família e acha que “eu não posso cuidar de minha mãe porque isso e porque aquilo?”. Esses são os fatos que eu ouço aqui diariamente: “ah, mas minha mulher não se dá com ela. Eu moro em um apartamento pequeno. Meu pai incomoda muito. Meus filhos fazem muito barulho. Minha casa é pequena, não cabe meu pai, não cabe minha mãe”. Ou seja, isso me dói muito. Às vezes eu aceito determinado idoso porque vejo o abandono dele, tem os que são maltratados, chegam aqui com complexo de inferioridade terrível, com a situação de autoestima lá em baixo. Eu tenho pena. E penso: se ficar ali com os dele, vai morrer precocemente. Aí eu aceito.

Orlando Mendonça em companhia do governador de Sergipe, Belivaldo Chagas, foi Barretos conhecer o Hospital de Amor

O GOVERNO DEVERIA FAZER MAIS
“É aquela história: tenho meus limites, não posso trabalhar com mais do que 50 ou 60 deles, então se aumenta lá fora o número de idosos a gente vai ficar sem condições de cuidar. Aí é a parte do governo”

JLPolítica - Quais são as socializações que a instituição pratica aqui? Tem umas festinhas, tem música?
OCM - Tem! Todas as datas, todas as quermesses, Dia dos Pais, Dia das Mães, Carnaval, São João, Natal - tudo a gente comemora aqui. Os aniversários são lembrados aqui dentro mesmo. Mesmo na pandemia, a gente comprava um bolinho, guaraná e, entre a gente, fazia as comemorações. Aqueles que têm parentes - alguns têm, outros não têm -, ainda chamamos os parentes para participar de tudo dos eventos.

JLPolítica - O senhor percebe o comportamento da família lá fora por quem está aqui interno? Há muita intriga de parentes que chegam para a instituição?
OCM -
Há sim. Teve um aqui que nós pedimos que levassem o idoso, porque a família o perturbava demais. Ele pedia para entrar e quando veio, esses parentes perturbavam o idoso e a gente também. Por quê? Eram quatro filhos, dois queriam que ele ficasse interno e dois não queriam. Não sabíamos que dois não queriam, e admitimos, aí ficou a briga e a discussão entre os quatro. Quando vem gente aqui fazer a entrevista e tem muitos filhos procuro conversar com todos para ver a opinião, porque se um disser que não quer eu não admito o idoso.

JLPolítica - A admissão tem que ser consensual?
OCM -
Sim. Porque senão, é problema. Porque ficam “ah, meu pai caiu, meu pai disse que não dormiu ontem à noite”, e começam a criticar a gente. Isso é ruim, porque ele pode chegar lá e dizer uma inverdade: “Ó, o Asilo Rio Branco maltrata o idoso”. O idoso não fala nada. Não diz isso. Mas o filho dissidente, com raiva, diz isso. Já tiveram aqui vários problemas com esse tipo de personalidade. Tem sempre um desorientado da vida. Não cuida do pai porque não quer ou porque não tem condições e quando acha alguém que cuida aí fica com inveja - “Está cuidando do meu pai, eu não pude cuidar” -, e aí começa a encontrar defeitos.

JLPolítica - Isso tem alguma serventia?
OCM -
Nenhuma. Isso não ajuda a gente. Só atrapalha nosso trabalho. Aqui a gente chega de manhã cedo e todo mundo tem que ir tomar banho, não tem perdão. Querendo ou não, vai para a higienização. Vai quem anda, vai quem não anda. Toma banho na cama e tal - de lá eu oriento que eles venham andando, de cadeira de rodas, mas venham para o salão. E para quê?

Orlando Mendonça recebendo da Assembleia Legislativa de Sergipe o Título de Maçom do Ano

ESTADO OMISSO FRENTE AOS IDOSOS
“Muito da política: “Eu faço, pinto, aconteço, eu vou fazer”. Sim, mas não chega aqui. Em 1911, quando o Asilo Rio Branco foi criado, não tinha Ministério Público, não tinha não sei o quê, e hoje tem tudo lá. Eles se reúnem lá em Brasília e emitem suas cartilhas”

JLPolítica - Para socializarem-se.
OCM -
Exatamente. Para conversar, ver o colega, bater um papo. Estou aqui diariamente, desde as 7h da manhã, aí converso com todos, só não estou aqui dia de sábado e domingo, mas de segunda a sexta, estou diariamente, às 7 horas. Procuro trazer a brincadeira que cada um gosta - um gosta de falar de mulher, outro gosta de falar de futebol e eu vou me adaptando, brincando com todos eles.

JLPolítica - Tem joguinho aqui? Dama, dominó, essas coisas?
OCM -
Tem um dominozinho. Mas o idoso, pela sua índole, gosta de ficar quieto e só. A gente força o idoso à mobilidade, mas é contra a formação dele. Contra a sua natureza. Tiro isso por mim, que já sou um idoso, que gosto de ficar em casa. Chega as 6h, uma filha diz: “Meu pai, queria levar o senhor em uma lanchonete, a um restaurante tal, a um aniversário de uma neta”. E eu: “Minha filha, não vou. Traga a pizza que eu como. Ir lá, não. Agora, faça aqui que eu participo, eu danço e tal”. Sair de minha casa para ir para o restaurante depois das 6h, só se houver necessidade maior. Então com o idoso aqui é a mesma coisa. Entendo o idoso porque eu sou um deles. Mas me dizem: “O senhor precisa fazer um baile, não sei o quê e tal”. E eu respondo: “Faça, minha senhora, venha fazer o baile aqui, está aberto e vamos botar eles para dançar”. Outros, “ah, por que o senhor não faz uma horta?”. Eu já tentei e digo: “Horta? A senhora entende de horta? Quer fazer a horta? Vai ser facinho. A senhora vem aqui, encontra alguém que queira trabalhar”.

JLPolítica - Isso é sugestão de parentes?
OCM -
É de visitantes. “Veja bem, a senhora não está aqui? Não tem 42 internos? Vá lá, converse com quem quiser. Leve a vassoura e peça para um deles varrer o quarto para você ver”. Chegou aqui uma vez uma promotora, fiscalizando: “Ah, mas aquela senhora está comendo de mão”. “Sim, sabe a idade dessa senhora que está comendo de mão? 92 anos. Ela veio de não sei onde, nem o nome tenho aqui”. “Mas, senhor, não pode deixar comer de cócoras e com a mão”. “Faça o seguinte, doutora: vá conversar com ela e peça para ela comer de garfo”. Rapaz, a doutora volta chorando: “É muito bruta”. “E é, doutora? A senhora a acha bruta, é? Não. Oriente ela”. “Não. Não adianta não”. “E por que a senhora está nos criticando pelo fato de ela comer de mão? Doutora, oh, doutora!”. De modo que até hoje aqui tem quem coma de não. Não adianta: Maria de tal só come com a mão. Agora, porque que o árabe come com a mão e não é pecado? Ainda limpa a mão na saiote, porque não tem papel higiênico. E por que vou criticar ela que gosta de comer de mão? Minha mãe fazia bolinho de feijão para mim e me dava. Eu sou do interior, tomei banho foi de barreiro, o quê que tem?

JLPolítica - O senhor é feliz com o que faz?
OCM -
Oxe: meu Deus do céu! Eu sou mais do que feliz. Entendo e aprendi que isso aqui foi uma oportunidade que tive na minha vida. Nunca pensei que eu ia chegar a esse ponto de encontrar felicidade fazendo filantropia. Hoje compreendo que todo homem deveria ter essa oportunidade de encontrar um ambiente para praticar filantropia. Tenho encontrado muitos empresários amigos meus, angustiados e tal, que quando faço uma solicitação me agradecem, com a ponderação: “Eu não faço doação, não tenho oportunidade, até gostaria. Ando no meu carro com vidro fechado, não dou esmola a ninguém porque tenho medo. Na minha empresa, ninguém tem acesso a mim. Nos meus ambientes, ninguém tem acesso, então eu não faço filantropia. Obrigado por permitir que eu faça”. Entendeu como é?

Maçonaria reconhece os seus trabalhos dele e o contempla com uma decoração

SE SEUS FILHOS LHE MANDASSEM PRO ASILO?
“Eu nem penso nessas hipótese. Mas, se ocorresse, seria é uma ingratidão muito grande como a que se dá com a maioria dos que chegam aqui, que se sentem traídos pela família. Não tem um idoso que venha para cá que venha satisfeito”

JLPolítica - O senhor foi chamado a essa missão aos 45 anos. Faria de novo, se fosse convocado?
OCM -
Sim, sim. Mas estou procurando sucessor aqui há quase 15 anos e não acho.

JLPolítica - Mas também não se incomoda com não achar?
OCM -
Não, e assim eu vou ficando, não é. Mas a gente vai cansando, naturalmente.

JLPolítica - Como é que o senhor concilia suas obrigações de homem um industrial com as de gestor do Asilo Rio Branco?
OCM -
Rapaz, a gente vai readaptando a vida. Saio de casa antes das 7h, venho para o Asilo Rio Branco, chego aqui impreterivelmente às 7h, daqui saio entre as 8h30 e as 9h, dependendo de alguma coisa, até um pouquinho mais. Pronto, vou para a fábrica e de lá ao meio-dia almoço com amigos. Estou perdendo amigos da minha geração - depois dos 70 morrem muitos -, como o querido Noel Barbosa.

JLPolítica - Respeitemos a memória dos mortos, mas Seu Noel era um parceiro do Rio Branco?
OCM -
Era. Aliás, ele mais do que isso: era meu conselheiro aqui. Noel Barbosa era um generoso calado. Ele não dizia nada a ninguém do que fazia. Mas era generoso e do que ele fez só sabe eu. Nem a família sabia.

No Asilo Rio Branco são 42 internos hoje, mas capacidade que pode ir até o dia 60

HISTÓRICO DE FAMÍLIAS QUE PERTURBAM
“Teve um aqui que nós pedimos que levassem o idoso, porque a família o perturbava demais. Ele pedia para entrar e quando veio, esses parentes perturbavam o idoso e a gente também. Por quê? Eram quatro filhos, dois queriam que ele ficasse interno e dois não queriam”

JLPolítica - Quando é fundado o Asilo Rio Branco?
OCM -
Ele é de 1911. Foi fundando por Idalino Oliveira, que morreu antes de inaugurá-lo.

JLPolítica - Ele nasce em que condições? Já nasce desse tamanho e aqui nesse espaço?
OCM -
Não. O Asilo Rio Branco começou ali onde era o Clube do Trabalhador, que é em frente ao Arquidiocesano. E era administrado, naquela época, pela Igreja Católica.

JLPolítica - Qual é o tamanho dessa área hoje?
COM -
São mais de 70 mil metros quadrados. Isso corresponde a mais de 16 tarefas. Mas era o dobro, quando ele recebeu isso aqui numa doação. Era um sítio, acho que de um Zé Maria, algo assim - eram 42 tarefas. Era de um lado e outro da pista - esses prédios aí, essa rua aqui ao lado, tudo era daqui.
Era enorme.

JLPolítica - A especulação imobiliária não fica cobiçando essa área em que está implantado o Asilo?
OCM -
Sim, fica. Sempre cobiçou. Sempre, sempre. Mas a gente sempre diz: “Isso aqui é uma coisa que, a cada dia que passa, fica mais valorizada e então temos que pensar no Asilo Rio Branco como a utilização por alguém que dê uma renda vitalícia a ele. Para sua subsistência”. Já refiz uma locação aí na frente, anos atrás, ao grupo que comprou o GBarbosa. A gente alugou essa frente aí porque eles criariam um hipermercado, mas houve uns enguiços, e não deu certo. Mas passaram aí uns cinco ou seis anos e o aluguel era bom. Fizemos um fundo de caixa. Penso como empresário e para mim o Rio Branco é como se fosse uma empresa. Não procurando dar lucro - imagine, que loucura -, mas não podendo também ter prejuízo. Eu não posso gastar nada. Brigo aqui diariamente com o pessoal da equipe antiga. Sou muito rigoroso.

Orlando Mendonça: “Imagine que se você coloca sua mãe num asilo você não tem lá tanto amor por ela, e fim de papo, não é?”

PARTICIPAÇÃO E COM INTERATIVIDADE
“De segunda a sexta, estou diariamente, às 7 horas. Procuro trazer a brincadeira que cada um gosta - um gosta de falar de mulher, outro gosta de falar de futebol e eu vou me adaptando, brincando com todos eles”

JLPolítica - Em que condições físicas estão as instalações do Asilo Rio Branco?
OCM -
Ah, estão ótimas. Não está carente de reforma. Já fizemos aqui nesse decorrer de três décadas praticamente um outro asilo de adaptações de sanitárias a acomodações

Orlando Mendonça e a esposa, dona Tânia Maria Machado Tojal Mendonça - penúltima à direita - comandando uma confraternização na grande família
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