Entrevista

Jozailto Lima

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Ricardo Marques: “Vejo a política como uma missão, não como uma profissão”

3 de abril de 2020
“O Brasil é maior que pessoas, lados ideológicos e vai além de Lulas e Bolsonaros”

O vereador de Aracaju Ricardo Marques, Cidadania, 51 anos, é um estreante na vida política e sobretudo nas lides parlamentares. Mas não é um estranho no ninho dessa atividade em si.

Com mais de 25 anos de ação jornalística na prática, nas lidas das ruas e na intermediação das demandas das pessoas via rádio e TV, Marques sempre emprestou suas antenas a uma sintonia fina com tudo o que é atravessado pela política. Ou com tudo que a política perpassa.

De modo que quando Ricardo Marques decidiu encarar uma disputa eleitoral e se viu vitorioso nela, não se sentiu alheio ao espaço conquistado e desempenhado desde o dia 1º de janeiro deste ano.

Ricardo Marques está fazendo, sim, um mandato de vereador da capital de Sergipe com um viés muito próprio e diferenciado. Literalmente desassombrado. Propositivo, de uma interlocução direta com seus pares e, sobretudo, com as pessoas reais.

“Estamos a cada dia que passa aperfeiçoando nosso mandato e na busca por uma melhor compreensão do ritmo da Câmara Municipal. Muito antes de almejar ser um político, construí meu nome e minha carreira profissional na mídia através de um trabalho representativo e fiscalizador do poder público”, reforça ele.

“Como um vereador, por ora continuo sendo o mesmo indivíduo de outrora. Aqueles que acompanham minha atuação nas redes sociais podem ver por si mesmos que na maior parte do tempo estou nas ruas fazendo aquilo para o que fui eleito. Todos os dias estou nas ruas a fiscalizar as obras da prefeitura, pois entendo que um vereador tem por obrigação legal não tão somente criar leis, mas acima de tudo representar o povo que está nas ruas, e para tanto me faço ausente do gabinete sempre que possível”, diz.

Nessa pouca vivência de 90 dias, Ricardo Marques diz estranhar a maneira como o parlamento municipal de Aracaju, composto em sua expressa maioria por governistas, parece deslocado da realidade para atender às necessidades de quem comanda o Poder Executivo da capital.   

“Aracaju não é mais a cidade da qualidade de vida, todavia aqueles que porventura dedicarem alguns minutos do seu dia para acompanhar a sessão parlamentar verão que estamos vivendo numa cidade europeia ou coisa que o valha, por causa dos inúmeros elogios e honrarias dedicados ao prefeito no decorrer da sessão”, diz Marques.

Vereador eleito Ricardo Marques em dia de diplomação, no ano passado
Na TV Sergipe, sua escola de comunicação mais duradoura, Ricardo Marques chegou à Diretoria de Jornalismo

Ricardo Marques não leva o nome do pai nos documentos pessoais, encara isso com certa normalidade, mas um dia já procurou por ele. “Conheci minha mãe biológica já adolescente, porém não conheci meu pai. Soube apenas que era da cidade de Salvador. No passado, tive mais vontade conhecê-lo”, afirma.

Ricardo Marques tem formação acadêmica em Comunicação Social pela Universidade Federal de Alagoas, mas começou o curso pela Universidade Federal de Sergipe - migrou para Maceió por questões de trabalho, mas retornou às origens assim que se formou em 1999.

Ele passou pelas duas principais TVs do Estado – Sergipe e Atalaia -, tem especialização em Comunicação e Marketing pela Pio Décimo, tira uma de coach e é dono da DRT de número 787 do Estado de Sergipe.

Ricardo Marques é casado com a publicitária Cecília Machado de Jesus Marques, com quem é pai de Milena Marina de Jesus Marques, de 10 anos, e tem também Sofia Morena Marques, 18,  filha de um outro relacionamento.

“Os problemas são muitos, não podemos enquanto representantes do povo nos cerrar em nossos gabinetes e não ouvir de perto o clamor do cidadão e tampouco perder a oportunidade de olhar no olho daqueles que nos confiaram o seu voto”, diz.

De tantas boas afirmações, a Entrevista com Ricardo Marques pede para ser lida.

O candidato Ricardo Marques no corpo a corpo durante a campanha do ano passado
EM BUSCA DA COMPRENSÃO DO LEGISLATIVO
“Penso que 90 dias são insuficientes para entender todo o trâmite legislativo. Estamos a cada dia que passa aperfeiçoando nosso mandato e na busca por uma melhor compreensão do ritmo da Câmara Municipal de Aracaju”


JLPolítica - Os 90 dias de vereador de Aracaju já lhe foram o suficiente para apropriar o ritmo do Poder Legislativo da capital de Sergipe?
Ricardo Marques -
Gostaria de dizer que sim, mas penso que 90 dias são insuficientes para entender todo o trâmite legislativo. Estamos a cada dia que passa aperfeiçoando nosso mandato e na busca por uma melhor compreensão do ritmo da Câmara Municipal de Aracaju.

JLPolítica - Quais são as deficiências de ser um vereador de expressa minoria num conjunto de 24 outros com esmagadora visão governista?
Ricardo Marques -
É um trabalho árduo e limitante em certa medida. Não usaria a palavra deficiência, entendo que o jogo político precisa ser jogado, mas vez ou outra tenho a percepção de que a base aliada do prefeito não entende que a oposição vêm para somar e que todos nós ocupantes de uma cadeira no parlamento possuímos um objetivo em comum. Que fomos eleitos para legislar, fiscalizar e representar não apenas aqueles que nos elegeram, mas a todos os cidadãos. Nosso trabalho em primeira instância deve ser em prol da cidade de Aracaju.

JLPolítica - Qual é a sua definição de não ser um vereador enclausurado em gabinete?
Ricardo Marques -
Muito antes de almejar ser um político, construí meu nome e minha carreira profissional na mídia através de um trabalho representativo e fiscalizador do poder público. Como um vereador, por ora continuo sendo o mesmo indivíduo de outrora. Aqueles que acompanham minha atuação nas redes sociais podem ver por si mesmos que na maior parte do tempo estou nas ruas fazendo aquilo para o que fui eleito. Todos os dias estou nas ruas a fiscalizar as obras da prefeitura, pois entendo que um vereador tem por obrigação legal não tão somente criar leis, mas acima de tudo representar o povo que está nas ruas, e para tanto me faço ausente do gabinete sempre que possível.

Ricardo Marques e Danielle Garcia, entre os quais nasceu uma boa amizade. Ele sonha com ela governadora de Sergipe
FORA DO PÊNDULO SITUAÇÃO E OPOSIÇÃO
“Meu trabalho primário é honrar os votos e sobretudo a confiança dos que me elegeram. Penso que um parlamentar não deveria limitar-se à situação ou oposição. Serei favorável a tudo aquilo que julgar benéfico aos aracajuanos e contrário a tudo aquilo que não for”


JLPolítica - Qual é o trajeto de opositor que o senhor traça para o seu mandato de vereador?
Ricardo Marques -
Meu trabalho primário é honrar os votos e sobretudo a confiança dos que me elegeram. Penso que um parlamentar não deveria limitar-se à situação ou oposição. Serei favorável a tudo aquilo que julgar benéfico aos aracajuanos e contrário a tudo aquilo que não for. Algo que pode parecer óbvio para quem está do lado de fora da política institucional, mas não é o que tenho percebido enquanto vereador por ora.

JLPolítica - O que significa não aceitar a clausura de uma caixinha ideológica?
Ricardo Marques -
Não tenho nada contra o debate saudável e benemérito de ideias e pensamentos, o que não aceito é ser associado a esse ou aquele espectro político ideológico. Alguns vereadores da base do prefeito tentam vez ou outra durante a sessão parlamentar colar em mim a pecha de ser um vereador de direita. Todavia, estes mesmos esquecem que partindo de um ponto de vista histórico e aludindo à época da revolução francesa, que é quando surgem tais espectros no debate público, eu seria considerado de esquerda, justamente por ser “oposição” ao prefeito Edvaldo Nogueira. Em resumo, aqueles que acompanham as sessões do parlamento já se aperceberam que voto nos projetos que chegam até aquela casa independentemente do lado que o apresente. Meu compromisso é com o povo. Esse é o principal lado que todos deveriam estar, e ponto final.

JLPolítica - O senhor já chega fazendo objeções ao modo de Nitinho comandar o Poder Legislativo de Aracaju?
Ricardo Marques -
De forma alguma. Nitinho é uma pessoa ímpar, um presidente honorabilíssimo, tem uma história de superação e que enquanto presidente do parlamento não mede esforços para equalizar as relações entre base e oposição. Se vez ou outra não acerta a mão, não faz por mal, creio eu. Devemos lembrar que política é algo vivo e em constante transformação. Para ficar em um exemplo palpável que eu mesmo pude perceber, a transparência da Câmara de Aracaju é infinitamente melhor do que foi nas gestões anteriores, não quero dizer que está perfeita, mas o avanço das informações ali contidas é digno de aplauso, e o mérito é em grande medida do vereador Nitinho Vitale que em conjunto com os servidores da casa modernizaram e automatizaram o trabalho parlamentar do nosso município. Minha objeção a Nitinho Vitale é pontual e dita em alto e bom som, mas sempre em tom respeitoso.

Na infância, Ricardo Marques ao lado da mãe Joana e dos avós maternos. Ela hoje tem 84 anos e ele a guarda em alta conta
VEREADORES DESLOCADOS DO MUNDO REAL
“Aracaju não é mais a cidade da qualidade de vida, todavia aqueles que porventura dedicarem alguns minutos do seu dia para acompanhar a sessão parlamentar verão que estamos vivendo numa cidade europeia ou coisa que o valha, por causa dos inúmeros elogios e honrarias dedicados ao prefeito e ao governador no decorrer da sessão”


JLPolítica - Qual é o maior problema público da cidade de Aracaju e que depende da classe política para ser solucionado?
Ricardo Marques -
O maior problema que percebo hoje como vereador é o deslocamento do mundo real que alguns parlamentares parecem viver. Aracaju não é mais a cidade da qualidade de vida, todavia aqueles que porventura dedicarem alguns minutos do seu dia para acompanhar a sessão parlamentar verão que estamos vivendo numa cidade europeia ou coisa que o valha, por causa dos inúmeros elogios e honrarias dedicados ao prefeito e ao governador no decorrer da sessão. Os problemas são muitos, não podemos enquanto representantes do povo nos cerrar em nossos gabinetes e não ouvir de perto o clamor do cidadão e tampouco perder a oportunidade de olhar no olho daqueles que nos confiaram o seu voto.

JLPolítica - De onde vem a sua vontade política de representar pessoas via mandato?
Ricardo Marques -
Desde pequeno sempre gostei de lutar e representar as pessoas, seja em grupo de jovens da igreja ou na universidade. Porém a grande a vontade para política partidária floresceu em entrevistas que fiz durante anos como jornalista. Não foram raras as vezes que chegava em casa abatido em saber que apesar dos meus questionamentos na função de repórter as repostas eram frias, demagógicas e apenas para enrolar o eleitor até a próxima eleição. Relutei durante muitos anos até tomar a decisão que mudaria minha história de vida e profissional. Levei em conta a responsabilidade que tenho com esta geração. Precisava fazer algo mais.

JLPolítica - Que exemplos mais lhe marcaram na campanha para vereador ano passado?
Ricardo Marques -
Foram várias histórias que estão na minha memória. Poucas pessoas imaginavam que eu teria coragem de deixar uma carreira sólida de mais de 25 nos de profissão para concorrer a um mandato público. Quando me vi oficialmente na campanha, notei que não seria fácil. Parte dos concorrentes, quase 800, estava em pré-campanha há meses, alguns até com anos de planejamento. Com apenas 45 dias de campanha, eu só tinha uma saída: ir para as ruas e gastar sola de sapato, como diria os mais experientes. Diante de um momento desafiador para todos nós por causa da pandemia, encontrei gente cansada, desiludida com a política e carentes de atenção. O olhar, as conversas e as necessidades desse povo não saem da minha mente.

Ricardo Marques com a esposa Cecília Machado de Jesus Marques e a filha Milena Marina de Jesus Marques
NA PROPOSIÇÃO DE UM EXEMPLO FUTURO
“Vejo a política como uma missão, não como uma profissão. Como profissional, sou jornalista aqui em Aracaju e em qualquer lugar do Brasil. Estou vereador e quero dar minha contribuição para a minha cidade. Quero estimular outras pessoas a se engajarem na vida pública”


JLPolítica - É uma questão de vida ou morte ter um desdobramento deste mandato ou até avançar para outro tipo de mandato legislativo?
Ricardo Marques -
Muita gente tem me perguntado sobre isso, o que me causa uma surpresa. No momento, me vejo como um aprendiz. Por ora, irei honrar com toda dedicação o mandato que me foi concedido pelo povo.

JLPolítica - Para o senhor, qual é o significado da atividade política?
Ricardo Marques -
Vejo a política como uma missão, não como uma profissão. Como profissional, sou jornalista aqui em Aracaju e em qualquer lugar do Brasil. Estou vereador e quero dar minha contribuição para a minha cidade. Quero estimular outras pessoas a se engajarem na vida pública. Sergipe precisa de novas caras e novas ideias.

JLPolítica - Quanto por cento da sua eleição o senhor deve às mídias sociais?
Ricardo Marques -
É impossível estimar com certeza esse índice, mas vivemos em uma sociedade cada vez mais conectada, eu mesmo fui testemunha ocular da mudança do sinal analógico para o digital nos meios de comunicação. A política é apenas mais um pilar da vida em sociedade que haveria de ressignificar-se em tempos digitais e a pandemia veio para acelerar esse processo de digitalização das campanhas políticas, nesse sentido sou um comandante ainda navegando em águas turvas, mas disposto a aprender sempre.

O paizão Ricardo Marques em momento de descontração com a filha Sofia Moreno Marques
DE ONDE VIERAM OS 2.501 VOTOS DO ANO PASSADO?
“A nossa campanha foi intensa, aguerrida e pé no chão. Não prometi nada que não poderia cumprir e não conheço todos que votaram em mim. O voto é secreto. Eu mesmo revisitei alguns lugares que passei durante a campanha para agradecer os votos, e isso era o mínimo que poderia fazer”


JLPolítica - O senhor tem noção de quem sejam as 2.501 pessoas que lhe deram um voto no ano passado?
Ricardo Marques -
A nossa campanha foi intensa, aguerrida e pé no chão. Eu não prometi nada que não poderia cumprir e tampouco utilizei discursos falsos para conquistar essa votação que considero expressiva e significativa. Mas retomando sua pergunta, não conheço todos que votaram em mim. O voto é secreto. Eu mesmo revisitei alguns lugares que passei durante a campanha para agradecer os votos, e isso era o mínimo que poderia fazer.

JLPolítica - Por que o Cidadania foi a sua opção partidária?
Ricardo Marques -
Sou de grupo, porém não tenho apelo a sigla partidária. Para mim, o ideal seria concorrer sem ter que ficar atrelado a um partido, mas a legislação não permite. Desde que surgiu a possiblidade de concorrer, tenho buscado ficar perto de pessoas que têm ideais parecidos com os meus. O Cidadania vêm buscando inovar e evoluir. Acolheu integrantes de movimentos de renovação política e trata a diversidade de opinião como um ativo, como algo que deve ser celebrado, buscando construir consensos a partir da convergência de pensamentos. Além disso, o Cidadania não “fecha questão”. Ou seja, não obriga o parlamentar a votar de uma forma específica. Essa liberdade é muito importante para mim.

JLPolítica - Qual é o futuro desse partido em Sergipe?
Ricardo Marques -
O Cidadania está crescendo e se fortalecendo. Após as eleições de 2020, houve um aumento de filiações, este movimento segue ocorrendo e a tendência é aumentar até 2022. Vejo um futuro de crescimento do partido.

Na TV Atalaia, de Walter Franco, ele diz que foi muitíssimo bem recebido. Aqui, com o decano dos apresentadores, Gilvan Fontes
DO FUTURO POLÍTICO DE DANIELLE GARCIA
“Eu gostaria muito de ver a Danielle Garcia no legislativo federal, como deputada ou senadora. Ou até governadora de Sergipe. Mas essa é uma escolha de Danielle. É claro que haverá um diálogo conjunto com todos do partido a partir da definição da nossa estratégia coletiva, mas acima de tudo é uma escolha pessoal dela”


JLPolítica - O senhor fez carga forte em apoio à candidata Danielle Garcia à Prefeitura de Aracaju em 2020. O senhor perdeu contato com ela?
Ricardo Marques -
De forma alguma. Temos contato constante tanto nas atividades e diálogos do partido quanto na vida pessoal. Somos amigos para além da política.

JLPolítica - Danielle Garcia necessariamente deve ser candidata a algo em 2022? E a quê especificamente?
Ricardo Marques -
Essa é uma escolha de Danielle. É claro que haverá um diálogo conjunto com todos do partido a partir da definição da nossa estratégia coletiva, mas acima de tudo é uma escolha pessoal de Danielle. Eu gostaria muito de vê-la no legislativo federal, como deputada ou senadora. Ou até como governadora de Sergipe. Mas como disse, essa escolha é dela.

JLPolítica - Em 2022, o Cidadania deve ter candidato ao Governo de Sergipe? E necessita ser especificamente o senador Alessandro Vieira?
Ricardo Marques -
Existe um pleito coletivo de que o partido tenha candidatura majoritária. Precisamos de representantes que tragam uma perspectiva de política baseada em dados, fatos, evidências que seja executadas com total lisura, eficiência e transparência e com participação da sociedade. Hoje não temos candidatos com este perfil e acreditamos que o Cidadania pode suprir essa demanda para o Estado. Ainda não foi definido o nome deste representante. Está cedo ainda. Neste momento, nosso foco é lutar coletivamente, mas cada um na sua área específica, para sanar as demandas da pandemia.

Ricardo Marques e seus salamaleques como apresentador no Balanço Geral, na TV Atalaia
O DESAGRADO PELAS AÇÕES DE BOLSONARO
“O Brasil é maior que pessoas ou lados ideológicos. O país não pode ficar atrelado a polos. Somos mais de 210 milhões de brasileiros que vão além de Lulas e Bolsonaros. Na eleição de 2018, o presidente foi eleito porque parte da população queria mudanças. Infelizmente, muitas atitudes dele me desagradam, como por exemplo o trato com colegas de profissão, as insinuações radicais, o atraso das ações de combate à pandemia”


JLPolítica - O Cidadania ganhou ou perdeu ao ter o nome vinculado ao bolsonarismo?
Ricardo Marques -
Se teve esta vinculação, desconheço. O Cidadania é um partido de centro, independente, democrata. Pelo que sei, não esteve na base aliada ao Governo.

JLPolítica - Pessoalmente, o que o senhor pensa da pessoa pública do presidente Jair Bolsonaro?
Ricardo Marques -
O Brasil é maior que pessoas ou lados ideológicos. O país não pode ficar atrelado a polos. Somos mais de 210 milhões de brasileiros que vão além de Lulas e Bolsonaros. Na eleição de 2018, o presidente foi eleito porque parte da população queria mudanças, principalmente no que tange à corrupção. Naquele momento, ele foi eleito por aparecer como uma alternativa diferente dos demais que sempre estiveram no poder. Infelizmente, muitas atitudes dele me desagradam, como por exemplo o trato com colegas de profissão, as insinuações radicais, o atraso das ações de combate à pandemia e no fato de até hoje não termos uma coordenação nacional para isso.

JLPolítica - O senhor não expõe a perigo a sua carreira de profissional de comunicação social ao abraçar uma atividade política eleitoral?
Ricardo Marques -
Como já disse em resposta anterior, tenho uma profissão. Posso trabalhar como jornalista aqui ou em outra cidade do Brasil. Além disso busco fazer outras atividades na área de publicidade e também como empreendedor.

Ricardo Marques em sua face coach, uma atividade que ele também pratica
A PANDEMIA E O DEFEITO DOS GESTORES
“Poderiam ouvir as pessoas. Nossos gestores precisam sair dos gabinetes. Tem vida fora dos palácios, ainda mais neste momento tão desafiador. Nossos gestores precisam olhar além do que mostram os relatórios e os números. Por exemplo: sabe há quanto tempo as pessoas andam de ônibus lotados nessa pandemia? Desde o começo dela”


JLPolítica - O senhor tem tido atitudes críticas aos gestores do Estado e de Aracaju no enfrentamento aos problemas da pandemia. O que poderia ser feito de diferente por eles?
Ricardo Marques -
Poderiam ouvir as pessoas. Nossos gestores precisam sair dos gabinetes. Tem vida fora dos palácios, ainda mais neste momento tão desafiador. Nossos gestores precisam olhar além do que mostram os relatórios e os números. Por exemplo: sabe há quanto tempo as pessoas andam de ônibus lotados nessa pandemia? Desde o começo dela. Ao assumir o mandato, tenho conversado com passageiros, motoristas e cobradores, empresários, além de outros setores envolvidos. Nos últimos dias, a Prefeitura de Aracaju convocou os colegas vereadores da bancada da situação para anunciar algumas medidas. Grande parte baseadas nas indicações e sugestões que apresentei. Ainda bem que temos uma legislatura renovada. Muitos desses colegas vieram ser solidários a mim. Mesmo com um ano de atraso, todas as medidas são bem-vindas. Antes tarde do que nunca. Infelizmente, a pandemia ainda não elevou o caráter humano e republicano para a gestão pública.

JLPolítica - O jornalismo é a sua primeira atividade funcional?
Ricardo Marques -
De carteira assinada, sim. Porém fui educado a trabalhar desde cedo. Lembro que minha avó mandava eu pegar amêndoa no quintal para vender na porta de casa. Trabalhei em rádio e na TV Gazeta de Alagoas durante o tempo em que fiz faculdade em Maceió.

JLPolítica - Mas o que o senhor fez antes de ser um trabalhador da comunicação?
Ricardo Marques -
Minha mãe tinha dois sonhos para a minha vida. Ser médico ou ser missionário. Juro que tentei realizar os dois. Na juventude, fui estagiário da antiga SMTU, hoje SMTT de Aracaju. Fiz vestibular para Medicina na UFS num ano em que as greves eram intermináveis. Depois fui para um seminário teológico na Bahia. Parei o curso teológico e fui fazer Comunicação na federal de Sergipe. Fui chamado para trabalhar numa rádio em Maceió, Alagoas, e transferir a faculdade para a Ufal. 

Ricardo e sua grande Joana Marques dos Santos: aqui é uma conta de afeto que não se encerra nunca
DO ELO ENTRE JORNALISMO E POLÍTICA
“Todo jornalista tem um pouco da veia parlamentar na sua essência. Ainda na universidade, sempre estive à frente das demandas da comunidade em que estava inserido. Já como jornalista profissional, sempre fui muito questionador, não me contentava apenas com uma resposta. Sempre procurei fiscalizar as ações dos administradores, cobrar e sugerir possíveis prazos e soluções”


JLPolítica - Qual é o link entre o seu ativismo político e a atividade jornalística?
Ricardo Marques -
Todo jornalista tem um pouco da veia parlamentar na sua essência. Ainda na universidade, sempre estive à frente das demandas da comunidade em que estava inserido. Um fato que me lembro foi a instalação de uma rádio comunitária dentro do Departamento de Comunicação. Nessa época, praticamente, eu dormia dentro da Ufal. A rádio dava voz para os acadêmicos e para a comunidade circunvizinha. Já como jornalista profissional, sempre fui muito questionador, não me contentava apenas com uma resposta. Sempre procurei fiscalizar as ações dos administradores públicos, cobrar e sugerir possíveis prazos e soluções. Acredito que esses são papeis fundamentais de um parlamentar. Outro ponto semelhante é a relação de “ponte” entre as pessoas e o poder público. Hoje, estou vereador e quero contribuir para ter uma Câmara forte e pulsante, pois quando temos vereadores comprometidos e ativos a sociedade se sente representada e a cidade se desenvolve com maior rapidez.

JLPolítica - O senhor guarda algum tipo de gratidão ou ressentimento de sua passagem pela TV Sergipe?
Ricardo Marques -
Guardo muita gratidão. Na TV Sergipe eu fui lapidado como profissional. Comecei na madrugada como editor de texto e cheguei ao cargo de diretor de Jornalismo. Saí do jornalismo da Globo no dia em que me filiei a um partido político. Nenhum arrependimento por minhas escolhas. Também não posso esquecer do acolhimento que tive na TV Atalaia. Em 2018, quando ficou evidente que não iria concorrer na eleição daquele ano, a emissora de Walter Franco me abriu as portas de trabalho. Foi muito gratificante a forma como fui recepcionado pela direção e pelos novos colegas de trabalho. Para lá levei toda minha experiência e pude continuar com o jornalismo profissional que o sergipano conhece.

JLPolítica - O senhor sempre teve esta versão autoajudeira ou se apropriou dela agora?
Ricardo Marques -
Sim, sempre a tive, talvez por minha educação cristã. Jesus Cristo sempre foi meu referencial. Sou a imagem e a semelhança de Deus. E isso me faz forte. Também tem a ver com comunicação. O que penso demoradamente, possivelmente é aquilo que vou comunicar, seja por meio de palavras ou atos. A nossa mente pode ser uma aliada ou uma inimiga.

JLPolítica - O senhor não acha que um coach é apenas uma pessoa crivada de clichês? A que serve ele?
Ricardo Marques -
Não acho. Tudo que ajuda alguém, tem seu mérito, independentemente de se é por meio de clichês ou não. Mas o coach não aconselha. Ele faz perguntas para que a pessoa decida qual a direção a seguir. É trazer o ponto B - estado desejado - para o ponto A - estado atual -, fazendo uma conexão no tempo. Ele nos convida a sermos as melhores pessoas que podemos ser. O coach não é o profissional que se envolve em um assunto do qual não tenha conhecimento. Apesar de não ser especialista, ele consegue ajudar o aluno por meio do incentivo, mas sem entrar em uma área que não é dele. Obviamente existem coaches que são fraudulentos e vendem aquilo que não entregam. Assim como em todas as áreas, pessoas com caráter duvidoso tentam se passar por profissionais sérios e acabam manchando a imagem da carreira como um todo. Na minha vida, foi mais um processo conhecimento e de desenvolvimento pessoal.

 

 

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