Entrevista

Jozailto Lima

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Roberto Goes: “Sergipe detém o título de Reino do Indubrasil no país”

APTIDÃO PARA A BOA PRODUÇÃO DE CARNES
“A produção de carne está associada com a estrutura óssea, a cobertura muscular e a precocidade de acabamento. Portanto, a raça é uma das grandes opções na produção de carne de qualidade, porque a docilidade ajuda no desempenho do confinamento e na maciez da carne”

JLPolítica - Mesmo assim, o que faz Sergipe ter bom destaque na cena nacional do Indubrasil?
RG -
Certamente a competência no processo de seleção e a qualidade genética dos rebanhos. Uma vocação diferenciada, porque a gado Indubrasil sergipano é destaque no Brasil e no exterior.

JLPolítica - Quem é o maior criador de Indubrasil do Brasil e onde atua?
RG -
Em número da matrizes, existe um pecuarista no Mato Grosso do Sul com um rebanho muito grande e que faz cruzamento para corte com Nelore. No exterior, tem um fazendeiro na Nicarágua com 600 matrizes registradas Indubrasil, sendo o maior rebanho na esfera internacional.

JLPolítica - De qual esfera tratará a pesquisa que a UFS começa a fazer no campo desta raça?
RG -
A pesquisa da UFS é inicialmente para identificar e multiplicar animais com as características leiteiras que o mercado de leite do varejo deseja. Depois, novas pesquisas serão desenvolvidas para demonstrar e identificar as características do Indubrasil puro e nos cruzamentos, com o objetivo de sua eficiência econômica e produtiva.v

Roberto Goes e a renca de irmãos e irmãs: Sonia Goes Barros, Iara Goes, Epifânio Goes (de camisa vinho) Fátima Goes, atrás dele, e Horácio Dantas Goes, ao fundo
Roberto Fontes Goes nasceu no dia 28 de fevereiro de 1951 em Riachão do Dantas

DA NATUREZA RENOVADORA DA PECUÁRIA
“A pecuária, por sua natureza, é uma atividade estável, perene, que atravessa gerações. Todavia, muitos investidores urbanos perceberam que a pecuária é uma oportunidade para bons negócios. Neste contexto, novos pecuaristas estão entrando na atividade”

JLPolítica – Mas oito criadores em Sergipe não lhe parece um número bastante reduzido?
RG -
São oito rebanhos no processo de registro da ABCZ. Não é pouco por causa do valor genético destes rebanhos, que são fornecedores de genética para todo o Brasil e para países como EUA, México, Colômbia, Costa Rica, Senegal e Tailândia.

JLPolítica - Quem detém o maior rebanho de Indubrasil em Sergipe?
RG -
Não saberia informar, porque são números semelhantes e o diferencial estaria na quantidade de material genético (sêmen e embriões) produzido.

JLPolítica - Qual foi a importância de Oviedo Teixeira no contexto dessa raça em Sergipe?
RG -
Seu Oviedo fez parte de uma geração extraordinária de grandes selecionadores da Indubrasil. O Sujeito, como era carinhosamente chamado por todos, foi um grande selecionador e incentivador de novos criadores. Mas a lista de grandes referências sergipanas que receberam o reconhecimento nacional e internacional é vasta: Martinho Almeida, Horácio Goes, Edmundo Freire, Djenal Queiroz, Nelson Pinto, José Antônio, Murilo Dantas, Ronaldo Calumby, Paulo Gonçalves, Antônio de Belinho, José Mariano e muitos outros grandes selecionadores que fizeram a história da raça em Sergipe e no Brasil.

Novilha Indubrasil antes do primeiro cio: pelagem branca, que predomina na espécie possivelmente herdada da parte Nelore que lhe dá origem

O QUE A PECUÁRIA MUNDIAL VÊ NO INDUBRASIL
“A pecuária mundial busca precocidade, rusticidade e docilidade. São características que resultam na redução de custos e no aumento da eficiência. Quando o Indubrasil entra neste trabalho de cruzamentos, entrega ao pecuarista o retorno desejado a todos”

JLPolítica - Qual é a performance desta raça no campo leiteiro?
RG –
A Indubrasil é uma raça de dupla aptidão. Nos sistemas de produção comercial, o gado de leite mais aceito é resultado de cruzamento entre raças europeias e zebuínas. Portanto, Indubrasil com Holandês ou Jersey é uma solução para uma pecuária eficiente e produtiva.

JLPolítica - Dizia-se antigamente que a vaca Indubrasil tinha problemas sérios na primeira mamada, na primeira poja, dos seus bezerros, em virtude das tetas grandes e grossas demais. Isso ainda é um problema?
RG -
A raça já evoluiu bastante e eliminou algumas dificuldades de manejo, como as tetas mais grossas. Atualmente, o Indubrasil está apto para desempenhar sua função na pecuária sem nenhum embaraço ou restrição.

JLPolítica - O Indubrasil não tem uma carcaça grande demais e incompatível com a produção de carne?
RG -
A produção de carne está associada com a estrutura óssea, a cobertura muscular e a precocidade de acabamento. Portanto, a raça é uma das grandes opções na produção de carne de qualidade, porque a docilidade ajuda no desempenho do confinamento e na maciez da carne.

JLPolítica - Mas o Indubrasil vai bem em confinamento?
RG -
Sim. Com elevado ganho de peso, excelente desenvolvimento, precocidade de acabamento e a docilidade, o Indubrasil é top neste quesito.

JLPolítica - Há Indubrasil geneticamente mocho, ou ele vem sempre com cornos?
RG -
Existem alguns rebanhos mochos de Indubrasil. Porém a grande maioria deles possui chifres.

JLPolítica - Qual é o peso do pequeno Estado de Sergipe no contexto da criação e do melhoramento genético desses animais?
RG -
Sergipe tem papel de liderança pela qualidade genética dos rebanhos Indubrasil. Inclusive recebeu o título de Reino do Indubrasil.

Roberto Goes, com a esposa Ruth Rosendo, as filhas Creuza, Cleide e Roberta Goes, os genros e netos. Os genros são Caíque Ribeiro, Rodrigo Bezerra e Renan Rocha

DO FETICHE QUE MOVE QUEM SE DEDICA A ESSA RAÇA
“Para o selecionador, aquele que cria o gado puro, a grande satisfação é contribuir para o desenvolvimento da pecuária. Essa, posso assegurar, é uma realização pessoal que é difícil descrever, porque está ligada a valores que ultrapassam gerações em cada família”

JLPolítica - Tem havido renovação de criadores no Brasil?
RG -
A pecuária, por sua natureza, é uma atividade estável, perene, que atravessa gerações. Todavia, muitos investidores urbanos perceberam que a pecuária é uma oportunidade para bons negócios. Neste contexto, novos pecuaristas estão entrando na atividade, inclusive na esfera do Indubrasil, o que muito nos agrada.

JLPolítica - Quem se dedica a estes animais também cultiva outras raças no campo da pecuária?
RG -
Geralmente sim, fazendo do Indubrasil justamente a base do gado para os cruzamentos para corte e para leite de que tenho falado aqui.

JLPolítica - É mito a imagem de que o Indubrasil é um animal sensível, que não aguenta climas pesados e pastos rústicos?
RG –
Sim, é mito. O Indubrasil é justamente um gado muito rústico e aguenta desafios em todas as regiões brasileiras. Até na África.

JLPolítica - Quais as vantagens de se dedicar à criação da raça Indubrasil?
RG -
Como atividade econômica, os resultados são satisfatórios. Como realização pessoal, é a raça mais bela e dócil da pecuária, algo por si só cativante e gratificante.

JLPolítica - Com quais outras raças o cruzamento do Indubrasil se daria melhor?
RG -
Para leite, com a Holandesa, a Jersey e a Pardo Suíço. Para o corte, temos o Nelore e algumas raças europeias, como Angus, Simental, Charolais ou Hereford.

JLPolítica - Do ponto de vista do comportamento no trato, qual o principal traço do Indubrasil?
RG -
A docilidade do Indubrasil é seu principal diferencial. Traz resultados nos sistemas de produção a pasto ou confinamento.

Reprodutor: “Neste contexto, o Indubrasil recebe o apelido de Soberano nos Cruzamentos”, diz Roberto

DA INTEGRAÇÃO ENTRE A ABCI E A ABCZ
“Somos Associações parceiras, e especificamente a ABCZ tem uma parceria estratégica com a ABCI. Enquanto somos uma associação promocional do Indubrasil, a ABCZ tem a responsabilidade do programa de melhoramento genético e do arquivo zootécnico das raças zebuínas, de onde deriva a Indubrasil”

JLPolítica - Qual é o principal fetiche desenvolvido por quem se dedica a essa raça?
RG -
Para o selecionador, aquele que cria o gado puro, a grande satisfação é contribuir para o desenvolvimento da pecuária. Essa, posso assegurar, é uma realização pessoal que é difícil descrever, porque está ligada a valores que ultrapassam gerações em cada família. Para o pecuarista que utiliza a raça nos cruzamentos, é certamente o momento de apurar os resultados econômicos da atividade com a utilização do Indubrasil.

JLPolítica - É óbvio pensar que é de Minas Gerais, por ser berço e surgimento, a melhor performance nesse segmento?
RG -
A pecuária mineira é uma potência nacional. É histórico, é vocação. Minas também contribui com grandes lideranças ruralistas, inclusive é em Uberaba a sede da ABCZ. Porém, falando em performance na pecuária, a tecnologia está disponível para todos e a pecuária de excelência é praticada hoje de Norte a Sul do Brasil.

JLPolítica - Das três raças que geram a Indubrasil, tem preponderância de alguma específica sobre este animal final?
RG -
A formação do Indubrasil com Nelore, Guzerá e Gir é um caso de sucesso mundial. Ele é um zebuíno composto que tornou-se raça pura e com excelente desempenho para a pecuária dos trópicos. Foi uma mistura tão bem feita e tão abençoada que não é possível identificar a superioridade de uma das três no Indubrasil. O Indubrasil é resultado da soma das três, por isso algo espetacular!

JLPolítica - Comercialmente falando, qual é o principal apelo dessa raça?
RG -
A pecuária mundial busca precocidade, rusticidade e docilidade. São características que resultam na redução de custos e no aumento da eficiência. Quando o Indubrasil entra neste trabalho de cruzamentos, entrega ao pecuarista o retorno desejado a todos.

JLPolítica - Qual é a representatividade do Indubrasil no campo leiteiro?
RG -
No início, muitos rebanhos Indubrasil foram base para a produção de vacas de leite cruzadas com o Holandês e o Pardo Suíço. Estes cruzamentos eram aprovados pelo desempenho das meio-sangue. Atualmente, a raça busca através da pesquisa atender as demandas da qualidade do leite, como por exemplo teores de nutrientes e eliminação de processos alérgicos.

JLPolítica - Ser cerca de apenas 300 mil animais no contexto de 210 milhões de bovinos no país não há aí uma ameaça de extinção?
RG -
Absolutamente não. Estes dados são de uma quantidade de fêmeas registradas, é o topo da pirâmide da genética. Na base da pirâmide está o gado comercial, que vai receber a genética de quem está na elite, no topo da pirâmide. Outra consideração importante é justamente a da necessidade de haver outras raças para serem utilizadas nos cruzamentos. E neste contexto, o Indubrasil recebe o apelido de Soberano nos Cruzamentos.

Matrizes do Indubrasil: animais marcados por uma beleza física encantadora e bom valor de mercado

DA UNIDADE DOS CRIADORES BRASILEIROS
“Buscamos o retorno de criadores de Indubrasil em todos os estados brasileiros ao associativismo. O Brasil é enorme. As distâncias dificultam o intercâmbio entre os pecuaristas. Mas, felizmente, a tecnologia das redes sociais ajudou nesta tarefa”

JLPolítica - O que foi de mais importante que a ABCI realizou em seus três primeiros anos de gestão?
Roberto Goes -
Inicialmente, buscamos o retorno de criadores de Indubrasil em todos os estados brasileiros ao associativismo. O Brasil é enorme. As distâncias dificultam o intercâmbio entre os pecuaristas. Mas, felizmente, a tecnologia das redes sociais ajudou nesta tarefa. Depois deste primeiro passo, elaboramos um planejamento de ações para promover e incentivar os registros de muitos rebanhos que estavam sem o devido protocolo do registro.

JLPolítica - Quais são suas metas para os próximos três anos?
RG -
Agora entramos em uma fase de intercâmbio internacional com os criadores de Indubrasil de todo o mundo, e uma das metas é promover um encontro internacional de quem se dedica a esta raça. No campo da pesquisa, também iniciamos parcerias com a UFS para provar as qualidades do Indubrasil na pecuária moderna. Estes serão as duas mais importantes ações da ABCI. Também continuamos o trabalho de expansão da raça no Brasil, com o ingresso de novos selecionadores.

JLPolítica - Por que fica com Sergipe e não com um Estado maior o comando da ABCI?
RG –
Exatamente porque Sergipe tem lideranças muito fortes no Indubrasil. São homens de grande capacidade e de boa força de trabalho dentro da raça. Além de que, geneticamente, os rebanhos sergipanos são referência no Brasil e no mundo.

JLPolítica - Antes do senhor, outro sergipano presidiu a ABCI?
RG -
Não. Embora outros dedicados sergipanos sempre fizeram parte da Diretoria da Associação, este projeto de união e promoção do Indubrasil foi o que nos deu a confiança para estar à frente da ABCI e para a renovação desse nosso mandato.

JLPolítica - Qual é a interlocução que a ABCI tem com a ABCZ e outras associações de criadores de bovinos do Brasil?
RG -
Somos Associações parceiras, e especificamente a ABCZ tem uma parceria estratégica com a ABCI. Enquanto somos uma associação promocional do Indubrasil, a ABCZ tem a responsabilidade dos registros, do programa de melhoramento genético e do arquivo zootécnico das raças zebuínas, de onde deriva a Indubrasil.

JLPolítica - Qual é a principal característica da raça Indubrasil que passa batida, desapercebida, a olho nu por leigos?
RG -
O desempenho do Indubrasil nos cruzamentos para corte e para leite é o principal ponto imperceptível. Esta característica surge com a soma de virtudes de cada raça. Portanto, para entender a força do Indubrasil não basta ficar admirando sua grande beleza, mas é fundamental buscar os resultados econômicos nos cruzamentos. É necessário utilizá-lo na reprodução.

Roberto é bem relacionado no mundo da pecuária. Aqui, com Rivaldo Borges, atual presidente da ABCZ, uma associação que uma universidade de estudos de zebuínos

“O Indubrasil dá precocidade, rusticidade e docilidade que a pecuária mundial busca”
6 de setembro de 2020 - 8h00

O peso e o respeito que o pequeno Estado de Sergipe angariou ao longo dos anos como criador, selecionador e melhorador genético da raça bovina Indubrasil certamente são dignos de destaque.

E, seguramente, a reeleição do pecuarista Roberto Goes, 69 anos, no mês passado para a Presidência da Associação Brasileira dos Criadores de Indubrasil - ABCI - é uma coroação clássica disso. Desse destaque, dessa importância.  

Roberto Goes vai conduzir as atividades Associação Brasileira dos Criadores de Indubrasil até 2022. Com uma prática herdada do pai, o respeitável homem público Horácio Dantas de Goes, Roberto se dedica à criação desses dóceis, bonitos e valorados animais no município de Riachão do Dantas.

Isso faz de Roberto, administrador de Empresas por formação, um apaixonado roxo por tudo que diga respeito ao Indubrasil - e que ninguém ouse depreciar essa raça e suas potencialidades perto dele.

Roberto Goes e mais apenas sete outros pecuaristas locais conseguem colocar Sergipe na rota de extrema importância do cultivo desses animais perante o Brasil e o mundo. “Sergipe tem papel de liderança pela qualidade genética dos rebanhos Indubrasil. Inclusive recebeu o título de Reino do Indubrasil”, diz ele.

Roberto não vê problema algum no fato de Sergipe ter apenas e somente esses oito criadores. “Não é pouco por causa do valor genético destes rebanhos, que são fornecedores de genética para todo o Brasil e para países como EUA, México, Colômbia, Costa Rica, Senegal e Tailândia”, diz.

Mas, afinal, o que é o Indubrasil? Ele é tido como o animal símbolo da única raça bovina genuinamente brasileira. É fruto da cruza entre o Nelore, o Gir e o Guzerá, e isso se deu há cerca de 120 anos em Uberaba, Minas Gerais.

E não são só bonitos - configurados sob uma carcaça alongada, porte alto, de boa caixa física, de orelhas compridas e sob cores branca e azul claro e escuro forte. São sobretudo comerciais e rentáveis.

“A pecuária mundial busca precocidade, rusticidade e docilidade. São características que resultam na redução de custos e no aumento da eficiência. Quando o Indubrasil entra neste trabalho de cruzamentos, entrega ao pecuarista o retorno desejado a todos”, avisa Roberto Goes.

Segundo o presidente da ABCI, o Indubrasil vai bem na produção de leite, de carne e nesse cruzamento com uma série de outras raças para diversos fins. “Neste contexto, o Indubrasil recebe o apelido de Soberano nos Cruzamentos”, diz ele.

Nesta Entrevista, Roberto Goes vai destacar a evolução da raça no país, a expansão internacional dela, a entrada de novos pecuaristas no setor e dará detalhes do que pensa em realizar no comando da ABCI até 2022.

Roberto Fontes Goes nasceu no dia 28 de fevereiro de 1951 em Riachão do Dantas. Ele é filho de Horácio Dantas de Goes e de Creuza Fontes Goes.

Roberto Goes tem formação superior em Administração de Empresas e é casado como a médica Ruth Rosendo, com quem é pai de Creuza Goes, 33 anos, Cleide Goes, 32 e Roberta Goes, 27.

Ele tem diversas incursões pela vida pública. Para começar, aos 21 anos ele foi eleito prefeito de Riachão do Dantas em 1972, com mandato até 1977, e em 1983, até 1988. Em 1990 elegeu-se deputado estadual, cujo mandato foi até 94. 

Um Roberto Goes magricela e já prefeito de Riachão: chega lá aos 21 anos em 1972