Entrevista

Jozailto Lima

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Roberto Goes: “Sergipe detém o título de Reino do Indubrasil no país”

“O Indubrasil dá precocidade, rusticidade e docilidade que a pecuária mundial busca”
6 de setembro de 2020 - 8h00

O peso e o respeito que o pequeno Estado de Sergipe angariou ao longo dos anos como criador, selecionador e melhorador genético da raça bovina Indubrasil certamente são dignos de destaque.

E, seguramente, a reeleição do pecuarista Roberto Goes, 69 anos, no mês passado para a Presidência da Associação Brasileira dos Criadores de Indubrasil - ABCI - é uma coroação clássica disso. Desse destaque, dessa importância.  

Roberto Goes vai conduzir as atividades Associação Brasileira dos Criadores de Indubrasil até 2022. Com uma prática herdada do pai, o respeitável homem público Horácio Dantas de Goes, Roberto se dedica à criação desses dóceis, bonitos e valorados animais no município de Riachão do Dantas.

Isso faz de Roberto, administrador de Empresas por formação, um apaixonado roxo por tudo que diga respeito ao Indubrasil - e que ninguém ouse depreciar essa raça e suas potencialidades perto dele.

Roberto Goes e mais apenas sete outros pecuaristas locais conseguem colocar Sergipe na rota de extrema importância do cultivo desses animais perante o Brasil e o mundo. “Sergipe tem papel de liderança pela qualidade genética dos rebanhos Indubrasil. Inclusive recebeu o título de Reino do Indubrasil”, diz ele.

Roberto não vê problema algum no fato de Sergipe ter apenas e somente esses oito criadores. “Não é pouco por causa do valor genético destes rebanhos, que são fornecedores de genética para todo o Brasil e para países como EUA, México, Colômbia, Costa Rica, Senegal e Tailândia”, diz.

Mas, afinal, o que é o Indubrasil? Ele é tido como o animal símbolo da única raça bovina genuinamente brasileira. É fruto da cruza entre o Nelore, o Gir e o Guzerá, e isso se deu há cerca de 120 anos em Uberaba, Minas Gerais.

E não são só bonitos - configurados sob uma carcaça alongada, porte alto, de boa caixa física, de orelhas compridas e sob cores branca e azul claro e escuro forte. São sobretudo comerciais e rentáveis.

“A pecuária mundial busca precocidade, rusticidade e docilidade. São características que resultam na redução de custos e no aumento da eficiência. Quando o Indubrasil entra neste trabalho de cruzamentos, entrega ao pecuarista o retorno desejado a todos”, avisa Roberto Goes.

Segundo o presidente da ABCI, o Indubrasil vai bem na produção de leite, de carne e nesse cruzamento com uma série de outras raças para diversos fins. “Neste contexto, o Indubrasil recebe o apelido de Soberano nos Cruzamentos”, diz ele.

Nesta Entrevista, Roberto Goes vai destacar a evolução da raça no país, a expansão internacional dela, a entrada de novos pecuaristas no setor e dará detalhes do que pensa em realizar no comando da ABCI até 2022.

Roberto Fontes Goes nasceu no dia 28 de fevereiro de 1951 em Riachão do Dantas. Ele é filho de Horácio Dantas de Goes e de Creuza Fontes Goes.

Roberto Goes tem formação superior em Administração de Empresas e é casado como a médica Ruth Rosendo, com quem é pai de Creuza Goes, 33 anos, Cleide Goes, 32 e Roberta Goes, 27.

Ele tem diversas incursões pela vida pública. Para começar, aos 21 anos ele foi eleito prefeito de Riachão do Dantas em 1972, com mandato até 1977, e em 1983, até 1988. Em 1990 elegeu-se deputado estadual, cujo mandato foi até 94. 

Um Roberto Goes magricela e já prefeito de Riachão: chega lá aos 21 anos em 1972
Roberto Fontes Goes nasceu no dia 28 de fevereiro de 1951 em Riachão do Dantas

O QUE A PECUÁRIA MUNDIAL VÊ NO INDUBRASIL
“A pecuária mundial busca precocidade, rusticidade e docilidade. São características que resultam na redução de custos e no aumento da eficiência. Quando o Indubrasil entra neste trabalho de cruzamentos, entrega ao pecuarista o retorno desejado a todos”

JLPolítica - Qual é a performance desta raça no campo leiteiro?
RG –
A Indubrasil é uma raça de dupla aptidão. Nos sistemas de produção comercial, o gado de leite mais aceito é resultado de cruzamento entre raças europeias e zebuínas. Portanto, Indubrasil com Holandês ou Jersey é uma solução para uma pecuária eficiente e produtiva.

JLPolítica - Dizia-se antigamente que a vaca Indubrasil tinha problemas sérios na primeira mamada, na primeira poja, dos seus bezerros, em virtude das tetas grandes e grossas demais. Isso ainda é um problema?
RG -
A raça já evoluiu bastante e eliminou algumas dificuldades de manejo, como as tetas mais grossas. Atualmente, o Indubrasil está apto para desempenhar sua função na pecuária sem nenhum embaraço ou restrição.

JLPolítica - O Indubrasil não tem uma carcaça grande demais e incompatível com a produção de carne?
RG -
A produção de carne está associada com a estrutura óssea, a cobertura muscular e a precocidade de acabamento. Portanto, a raça é uma das grandes opções na produção de carne de qualidade, porque a docilidade ajuda no desempenho do confinamento e na maciez da carne.

JLPolítica - Mas o Indubrasil vai bem em confinamento?
RG -
Sim. Com elevado ganho de peso, excelente desenvolvimento, precocidade de acabamento e a docilidade, o Indubrasil é top neste quesito.

JLPolítica - Há Indubrasil geneticamente mocho, ou ele vem sempre com cornos?
RG -
Existem alguns rebanhos mochos de Indubrasil. Porém a grande maioria deles possui chifres.

JLPolítica - Qual é o peso do pequeno Estado de Sergipe no contexto da criação e do melhoramento genético desses animais?
RG -
Sergipe tem papel de liderança pela qualidade genética dos rebanhos Indubrasil. Inclusive recebeu o título de Reino do Indubrasil.

Roberto Goes, com a esposa Ruth Rosendo, as filhas Creuza, Cleide e Roberta Goes, os genros e netos. Os genros são Caíque Ribeiro, Rodrigo Bezerra e Renan Rocha

DO FETICHE QUE MOVE QUEM SE DEDICA A ESSA RAÇA
“Para o selecionador, aquele que cria o gado puro, a grande satisfação é contribuir para o desenvolvimento da pecuária. Essa, posso assegurar, é uma realização pessoal que é difícil descrever, porque está ligada a valores que ultrapassam gerações em cada família”

JLPolítica - Tem havido renovação de criadores no Brasil?
RG -
A pecuária, por sua natureza, é uma atividade estável, perene, que atravessa gerações. Todavia, muitos investidores urbanos perceberam que a pecuária é uma oportunidade para bons negócios. Neste contexto, novos pecuaristas estão entrando na atividade, inclusive na esfera do Indubrasil, o que muito nos agrada.

JLPolítica - Quem se dedica a estes animais também cultiva outras raças no campo da pecuária?
RG -
Geralmente sim, fazendo do Indubrasil justamente a base do gado para os cruzamentos para corte e para leite de que tenho falado aqui.

JLPolítica - É mito a imagem de que o Indubrasil é um animal sensível, que não aguenta climas pesados e pastos rústicos?
RG –
Sim, é mito. O Indubrasil é justamente um gado muito rústico e aguenta desafios em todas as regiões brasileiras. Até na África.

JLPolítica - Quais as vantagens de se dedicar à criação da raça Indubrasil?
RG -
Como atividade econômica, os resultados são satisfatórios. Como realização pessoal, é a raça mais bela e dócil da pecuária, algo por si só cativante e gratificante.

JLPolítica - Com quais outras raças o cruzamento do Indubrasil se daria melhor?
RG -
Para leite, com a Holandesa, a Jersey e a Pardo Suíço. Para o corte, temos o Nelore e algumas raças europeias, como Angus, Simental, Charolais ou Hereford.

JLPolítica - Do ponto de vista do comportamento no trato, qual o principal traço do Indubrasil?
RG -
A docilidade do Indubrasil é seu principal diferencial. Traz resultados nos sistemas de produção a pasto ou confinamento.

Reprodutor: “Neste contexto, o Indubrasil recebe o apelido de Soberano nos Cruzamentos”, diz Roberto

DA INTEGRAÇÃO ENTRE A ABCI E A ABCZ
“Somos Associações parceiras, e especificamente a ABCZ tem uma parceria estratégica com a ABCI. Enquanto somos uma associação promocional do Indubrasil, a ABCZ tem a responsabilidade do programa de melhoramento genético e do arquivo zootécnico das raças zebuínas, de onde deriva a Indubrasil”

JLPolítica - Qual é o principal fetiche desenvolvido por quem se dedica a essa raça?
RG -
Para o selecionador, aquele que cria o gado puro, a grande satisfação é contribuir para o desenvolvimento da pecuária. Essa, posso assegurar, é uma realização pessoal que é difícil descrever, porque está ligada a valores que ultrapassam gerações em cada família. Para o pecuarista que utiliza a raça nos cruzamentos, é certamente o momento de apurar os resultados econômicos da atividade com a utilização do Indubrasil.

JLPolítica - É óbvio pensar que é de Minas Gerais, por ser berço e surgimento, a melhor performance nesse segmento?
RG -
A pecuária mineira é uma potência nacional. É histórico, é vocação. Minas também contribui com grandes lideranças ruralistas, inclusive é em Uberaba a sede da ABCZ. Porém, falando em performance na pecuária, a tecnologia está disponível para todos e a pecuária de excelência é praticada hoje de Norte a Sul do Brasil.

JLPolítica - Das três raças que geram a Indubrasil, tem preponderância de alguma específica sobre este animal final?
RG -
A formação do Indubrasil com Nelore, Guzerá e Gir é um caso de sucesso mundial. Ele é um zebuíno composto que tornou-se raça pura e com excelente desempenho para a pecuária dos trópicos. Foi uma mistura tão bem feita e tão abençoada que não é possível identificar a superioridade de uma das três no Indubrasil. O Indubrasil é resultado da soma das três, por isso algo espetacular!

JLPolítica - Comercialmente falando, qual é o principal apelo dessa raça?
RG -
A pecuária mundial busca precocidade, rusticidade e docilidade. São características que resultam na redução de custos e no aumento da eficiência. Quando o Indubrasil entra neste trabalho de cruzamentos, entrega ao pecuarista o retorno desejado a todos.

JLPolítica - Qual é a representatividade do Indubrasil no campo leiteiro?
RG -
No início, muitos rebanhos Indubrasil foram base para a produção de vacas de leite cruzadas com o Holandês e o Pardo Suíço. Estes cruzamentos eram aprovados pelo desempenho das meio-sangue. Atualmente, a raça busca através da pesquisa atender as demandas da qualidade do leite, como por exemplo teores de nutrientes e eliminação de processos alérgicos.

JLPolítica - Ser cerca de apenas 300 mil animais no contexto de 210 milhões de bovinos no país não há aí uma ameaça de extinção?
RG -
Absolutamente não. Estes dados são de uma quantidade de fêmeas registradas, é o topo da pirâmide da genética. Na base da pirâmide está o gado comercial, que vai receber a genética de quem está na elite, no topo da pirâmide. Outra consideração importante é justamente a da necessidade de haver outras raças para serem utilizadas nos cruzamentos. E neste contexto, o Indubrasil recebe o apelido de Soberano nos Cruzamentos.

Matrizes do Indubrasil: animais marcados por uma beleza física encantadora e bom valor de mercado

DA UNIDADE DOS CRIADORES BRASILEIROS
“Buscamos o retorno de criadores de Indubrasil em todos os estados brasileiros ao associativismo. O Brasil é enorme. As distâncias dificultam o intercâmbio entre os pecuaristas. Mas, felizmente, a tecnologia das redes sociais ajudou nesta tarefa”

JLPolítica - O que foi de mais importante que a ABCI realizou em seus três primeiros anos de gestão?
Roberto Goes -
Inicialmente, buscamos o retorno de criadores de Indubrasil em todos os estados brasileiros ao associativismo. O Brasil é enorme. As distâncias dificultam o intercâmbio entre os pecuaristas. Mas, felizmente, a tecnologia das redes sociais ajudou nesta tarefa. Depois deste primeiro passo, elaboramos um planejamento de ações para promover e incentivar os registros de muitos rebanhos que estavam sem o devido protocolo do registro.

JLPolítica - Quais são suas metas para os próximos três anos?
RG -
Agora entramos em uma fase de intercâmbio internacional com os criadores de Indubrasil de todo o mundo, e uma das metas é promover um encontro internacional de quem se dedica a esta raça. No campo da pesquisa, também iniciamos parcerias com a UFS para provar as qualidades do Indubrasil na pecuária moderna. Estes serão as duas mais importantes ações da ABCI. Também continuamos o trabalho de expansão da raça no Brasil, com o ingresso de novos selecionadores.

JLPolítica - Por que fica com Sergipe e não com um Estado maior o comando da ABCI?
RG –
Exatamente porque Sergipe tem lideranças muito fortes no Indubrasil. São homens de grande capacidade e de boa força de trabalho dentro da raça. Além de que, geneticamente, os rebanhos sergipanos são referência no Brasil e no mundo.

JLPolítica - Antes do senhor, outro sergipano presidiu a ABCI?
RG -
Não. Embora outros dedicados sergipanos sempre fizeram parte da Diretoria da Associação, este projeto de união e promoção do Indubrasil foi o que nos deu a confiança para estar à frente da ABCI e para a renovação desse nosso mandato.

JLPolítica - Qual é a interlocução que a ABCI tem com a ABCZ e outras associações de criadores de bovinos do Brasil?
RG -
Somos Associações parceiras, e especificamente a ABCZ tem uma parceria estratégica com a ABCI. Enquanto somos uma associação promocional do Indubrasil, a ABCZ tem a responsabilidade dos registros, do programa de melhoramento genético e do arquivo zootécnico das raças zebuínas, de onde deriva a Indubrasil.

JLPolítica - Qual é a principal característica da raça Indubrasil que passa batida, desapercebida, a olho nu por leigos?
RG -
O desempenho do Indubrasil nos cruzamentos para corte e para leite é o principal ponto imperceptível. Esta característica surge com a soma de virtudes de cada raça. Portanto, para entender a força do Indubrasil não basta ficar admirando sua grande beleza, mas é fundamental buscar os resultados econômicos nos cruzamentos. É necessário utilizá-lo na reprodução.

Roberto é bem relacionado no mundo da pecuária. Aqui, com Rivaldo Borges, atual presidente da ABCZ, uma associação que uma universidade de estudos de zebuínos

DA NATUREZA RENOVADORA DA PECUÁRIA
“A pecuária, por sua natureza, é uma atividade estável, perene, que atravessa gerações. Todavia, muitos investidores urbanos perceberam que a pecuária é uma oportunidade para bons negócios. Neste contexto, novos pecuaristas estão entrando na atividade”

JLPolítica – Mas oito criadores em Sergipe não lhe parece um número bastante reduzido?
RG -
São oito rebanhos no processo de registro da ABCZ. Não é pouco por causa do valor genético destes rebanhos, que são fornecedores de genética para todo o Brasil e para países como EUA, México, Colômbia, Costa Rica, Senegal e Tailândia.

JLPolítica - Quem detém o maior rebanho de Indubrasil em Sergipe?
RG -
Não saberia informar, porque são números semelhantes e o diferencial estaria na quantidade de material genético (sêmen e embriões) produzido.

JLPolítica - Qual foi a importância de Oviedo Teixeira no contexto dessa raça em Sergipe?
RG -
Seu Oviedo fez parte de uma geração extraordinária de grandes selecionadores da Indubrasil. O Sujeito, como era carinhosamente chamado por todos, foi um grande selecionador e incentivador de novos criadores. Mas a lista de grandes referências sergipanas que receberam o reconhecimento nacional e internacional é vasta: Martinho Almeida, Horácio Goes, Edmundo Freire, Djenal Queiroz, Nelson Pinto, José Antônio, Murilo Dantas, Ronaldo Calumby, Paulo Gonçalves, Antônio de Belinho, José Mariano e muitos outros grandes selecionadores que fizeram a história da raça em Sergipe e no Brasil.

Novilha Indubrasil antes do primeiro cio: pelagem branca, que predomina na espécie possivelmente herdada da parte Nelore que lhe dá origem

APTIDÃO PARA A BOA PRODUÇÃO DE CARNES
“A produção de carne está associada com a estrutura óssea, a cobertura muscular e a precocidade de acabamento. Portanto, a raça é uma das grandes opções na produção de carne de qualidade, porque a docilidade ajuda no desempenho do confinamento e na maciez da carne”

JLPolítica - Mesmo assim, o que faz Sergipe ter bom destaque na cena nacional do Indubrasil?
RG -
Certamente a competência no processo de seleção e a qualidade genética dos rebanhos. Uma vocação diferenciada, porque a gado Indubrasil sergipano é destaque no Brasil e no exterior.

JLPolítica - Quem é o maior criador de Indubrasil do Brasil e onde atua?
RG -
Em número da matrizes, existe um pecuarista no Mato Grosso do Sul com um rebanho muito grande e que faz cruzamento para corte com Nelore. No exterior, tem um fazendeiro na Nicarágua com 600 matrizes registradas Indubrasil, sendo o maior rebanho na esfera internacional.

JLPolítica - De qual esfera tratará a pesquisa que a UFS começa a fazer no campo desta raça?
RG -
A pesquisa da UFS é inicialmente para identificar e multiplicar animais com as características leiteiras que o mercado de leite do varejo deseja. Depois, novas pesquisas serão desenvolvidas para demonstrar e identificar as características do Indubrasil puro e nos cruzamentos, com o objetivo de sua eficiência econômica e produtiva.v

Roberto Goes e a renca de irmãos e irmãs: Sonia Goes Barros, Iara Goes, Epifânio Goes (de camisa vinho) Fátima Goes, atrás dele, e Horácio Dantas Goes, ao fundo