Rodorval Ramalho: “É um equívoco criminalizar a política, como muitas vezes fez Bolsonaro”

Entrevista

Jozailto Lima

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Rodorval Ramalho: “É um equívoco criminalizar a política, como muitas vezes fez Bolsonaro”

6 de fevereiro de 2021
“Fascismo é primo-irmão do comunismo e do socialismo. Bolsonaro representa o contrário disso”

Um pensador de direita, cristão católico e, obviamente, convicto, destemido e muito honesto intelectualmente no que pensa, esboça e expõe.

Este é o sociólogo e professor da Universidade Federal de Sergipe, Rodorval Ramalho, 57 anos, para quem o violento guru da família Bolsonaro é uma santidade a serviço do Brasil.

Olavo de Carvalho é o maior educador do Brasil. Foi ele que reintroduziu, em larga escala, a alta cultura no nosso meio. Foi o responsável pelo despertar de milhares de consciências para a necessidade de se afastar do lixo intelectual que se ensina nas escolas e nas universidades”, diz Ramalho.

E é a partir desse prisma liberalíssimo e ousado que Rodorval Ramalho vai passar a limpo aqui uma série de convicções, fatos e visões da vida brasileira sob o signo do bolsonarismo e do Estado liberal. 

Para começo de conversa, Rodorval Ramalho vai dizer que não subscreve qualquer visão que identifique pendores fascistas no jeito de ser e de agir do presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro.  

“Não subscrevo porque essa visão é risível. Qualquer leitura, minimamente qualificada, do fenômeno do fascismo derruba essa avaliação”, afasta ele.

E ajunta: “O fascismo é uma ideologia totalitária, pois quer concentrar no Estado os poderes político, econômico e cultural. Aliás, o fascismo é primo-irmão do comunismo e do socialismo. Bolsonaro representa justamente o contrário disso”.

Professor Rodorval Ramalho e seus quatro, num momento de festa em família
Na infância, ao lado dos amigos Nêgo e Allan: um peladeiro do Brasil F. C.

“O que a Rede Globo e a Folha de S. Paulo estão fazendo, para ficar em dois dos maiores grupos, é um crime. Não há nada que o presidente faça que esses órgãos não distorçam e critiquem. Mesmo assim, Bolsonaro não se rende às perseguições”, diz.

Como um pensador católico, uma espécie de Tristão de Ataíde - Alceu de Amoroso Lima -, ele levanta o crachá em favor das religiões e dos poderes delas.

“As religiões são os instrumentos culturais mais poderosos para entramos em contato com o grande mistério da vida e do mundo”, diz ele. Rodorval é intolerantemente contra o aborto.

José Rodorval Ramalho nasceu no dia 4 de março de 1963, no bairro da Liberdade, em Campina Grande, na Paraíba - no mesmo dia e mês 10 anos depois do nascimento Arthur Antunes Coimbra, o Zico do Flamengo. “O meu maior ídolo”, diz ele, deixando na poeira o titio Olavo de Carvalho.

Rodorval Ramalho é filho de Roldão Mangueira de Figueiredo e de Maria Célia Ramalho - Roldão era um sertanejo, empresário no auge do algodão em Campina Grande e líder, já no fim da vida, do famoso movimento messiânico Borboletas Azuis.

A dona Maria Célia Ramalho o filho tem como uma “belíssima sertaneja do Vale do Piancó, rádio-atriz, comerciante, namoradeira e braba que só a molesta”. Rodorval teve por padrasto Vamberto Pinto Rocha, um boêmio e comerciante, grande amor da vida de Célia, que foi quem na prática o criou.

Ele é casado Daniela Nogueira Amaral, baiana de Serrinha, formada em Letras pela UFES e professora de língua portuguesa. Com ela, é pai de duas adolescentes - Maria Célia, de 13, e Dirck, a caçula, de 11.Duas danadas. E divide a paternidade Daniel, 19 anos, filho do primeiro casamento de Daniela com o engenheiro Leonel Duarte Guimarães.

Rodorval Ramalho numa mesa de trabalho na UFS, discutindo o peso do pensamento conservador

“Ainda temos quatro criaturas que enchem a casa de alegria e de preguiça - Gumbal e Mabel, shitzus, e Yachiru e Yoruiche, duas gatas vira-latas”, diz ele.

Rodorval estudou no Educandário São Judas Tadeu e no Instituto Crianças do Brasil, fundamental, e Alfredo Dantas, médio, em Campina Grande, e em 1988 formou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB. Depois fez mestrado e doutorado em Ciências Sociais pela UFPB e PUC-SP, respectivamente.

É professor e pesquisador do Departamento de Ciências Sociais e do Núcleo de Graduação em Ciências da Religião. E antes desses parangolés formativos todos, trabalhou desde os 11 anos - sem deixar de estudar.

“E isso me fez muito bem. Comecei num bar da família e aos 14 fui trabalhar com meu irmão, Germano Ramalho, como despachante. Assumi o escritório com 16 e fiquei por lá até os 20. Quando estava concluindo a graduação, ajudei a criar uma ONG de assessoria a movimentos populares, onde fiquei até os 30. Como tudo isso era trabalho informal, minha aposentadoria só virá lá pelos 67 anos”, diz ele, entre risos. Apesar das ideias que defende, Rodorval é um sujeito permeado por um constante bom-humor.

Surpreendentemente para alguns desavisados, o professor Rodorval Ramalho já foi filiado ao Partido dos Trabalhadores, em Campina Grande, onde ingressou em 1982 e se afastou em 1993.

“Mais do que alinhamento e continência, vivi no PT, intensamente, durante 12 anos. Militância 24 horas. Durante esse período, tudo o que eu fazia era apenas um meio para fortalecer o PT”, diz. A Entrevista com Rodorval vale o tempo da leitura.

O cacique Rodorval Ramalho na tribo com as suas três mulheres: Dan, Maria Célia e Dirck
LEITURA DAS ELEIÇÕES PARA MANDO DO CONGRESSO
“Sintetizo as duas eleições em uma frase: foram uma vitória do presidencialismo de coalizão. Esse modelo exige que o Executivo negocie com o Legislativo e o Judiciário os termos da governabilidade. O problema é que tais negociações sempre se deram de forma fisiológica, com a cooptação parlamentar e concessões corporativas ao Judiciário”


JLPolítica - Qual é a leitura que o senhor faz das eleições para os comandos das duas Casas do Congresso Nacional na última segunda-feira, dia 1º?

Rodorval Ramalho - Sintetizo as duas eleições em uma frase: foram uma vitória do presidencialismo de coalizão. Esse modelo exige que o Executivo negocie permanentemente com o Legislativo e o Judiciário os termos da governabilidade. O problema é que tais negociações sempre se deram de forma fisiológica, com a cooptação parlamentar e concessões corporativas ao Judiciário. Bolsonaro tentou não somente fugir do famoso toma-lá-dá-cá, como desprezou a necessidade de ter uma base parlamentar sólida. Resultado: aprendeu que o tal presidencialismo de coalizão ainda está vivo e com o apetite de sempre.   

JLPolítica - O senhor considera ter havido excesso do presidente Jair Bolsonaro na obtenção dos resultados?

Rodorval Ramalho - Bolsonaro fez o que todos fizeram e o que, ingenuamente, disse que não iria fazer. No meu entendimento, ele deveria ter negociado com o Centrão desde o começo do governo. As reformas teriam andado com mais rapidez e algumas políticas de Estado teriam fluído de forma mais tranquila. Muitos estranham essa aliança e estão com toda razão, pois o presidente confundiu, na sua campanha, aliança política com corrupção. Assim, logo que ele procurou as lideranças para, finalmente, compor uma base de governo, o acusaram de corrupto. Embora tal acusação não proceda, o presidente está pagando o preço pelos seus discursos eleitorais. Porém, acho importante que ele abandone a natureza disruptiva do seu mandato. O melhor pensamento conservador nos ensina a evitar revoluções e aprimorar as evoluções.

JLPolítica - O que se pode esperar da pauta do Senado e da Câmara Federal a partir de agora?

Rodorval Ramalho - O que todos esperam é que as reformas sejam retomadas, sobretudo as administrativa, tributária e patrimonial - amplo processo de privatização. Precisamos de um Estado subsidiário, atuando onde precisa atuar e não fazendo concorrência ao mercado. Espera-se, igualmente, que a instabilidade política seja superada. O momento é dificílimo, especialmente por causa da pandemia e não podemos ficar perdendo tempo com lacrações no lugar errado.

JLPolítica - Até que ponto estas escolhas dos comandos do Senado e da Câmara podem afastar do caminho de Bolsonaro os fantasmas de tantos pedidos de impeachment?

Rodorval Ramalho - Esse fantasma acompanha todo e qualquer presidente. O impeachment é um instrumento importante da democracia brasileira. Mas, para que se viabilize precisa combinar baixa popularidade, hostilidade ao presidencialismo de coalizão e crise econômica. Essa aliança com o Centrão talvez diminua a tensão no Congresso. Como a economia está se recuperando - para os padrões pós-pandemia - e a popularidade do presidente ainda é alta, é pouco provável que tenhamos impeachment. Mas, como diria Magalhães Pinto, política é como nuvem, e está sempre se deslocando.

Em militância de rua com amigos pelo impeachment de Dilma Rousseff
DA ALIANÇA COM O CENTRÃO E O IMPEACHMENT
“Esse fantasma acompanha todo e qualquer presidente. O impeachment é um instrumento importante da democracia brasileira. Mas, para que se viabilize precisa combinar baixa popularidade, hostilidade ao presidencialismo de coalizão e crise econômica. Essa aliança com o Centrão talvez diminua a tensão no Congresso”


JLPolítica - Qual é a performance que o senhor identifica dessas duas Casas nos dois primeiros anos do atual Governo Federal?

Rodorval Ramalho - Apesar de um período atípico, em decorrência da pandemia e de um governo sem base parlamentar, elas conseguiram avançar com a reforma da Previdência e algumas políticas de renda para os setores mais necessitados sobreviverem à pandemia. No mais, foi aquela lerdeza típica dos parlamentos, com muito tempo perdido em torno de discussões sem grande importância.

JLPolítica - É precipitação ou choro de viúva associar Arthur Lira a Eduardo Cunha nos modos de operar e nas expectativas futuras?

Rodorval Ramalho - Ninguém chega à Presidência dessas Casas legislativas com bandeiras reformistas. Lembremos que a composição do Congresso é feita a partir de eleições proporcionais - na Câmara - e majoritárias - no Senado. Nesses processos, emerge o “Brasil profundo”, um mundo onde os valores republicanos não são hegemônicos, onde votos para o parlamento não são valorizados, onde as redes fisiológicas estão sempre vivas, onde as estruturas familiares ainda dão o tom da política. Portanto, não esperemos grandes aprimoramentos institucionais vindos dessas novas direções das Casas. Apenas pressionemos para que, pelo menos, as reformas possam avançar e a corrupção se mantenha controlada.

JLPolítica - O senhor também vê a ação do ex-presidente Rodrigo Maia como nefasta ou desconexa?

Rodorval Ramalho - De forma alguma. Minhas críticas a Rodrigo Maia são outras. Ele e o pai são de origem de esquerda. O pai foi próximo do Partidão e na volta do exílio no Chile colou no populismo brizolista. Entraram no DEM e, desde então, querem transformar o partido numa agremiação de centro-esquerda - algo parecido com o Partido Democrata americano. O problema é que eles não têm bases políticas para isso. Então, sempre que conflitam com o “baixo clero” partidário saem perdendo. O vexame da candidatura de Baleia Rossi foi o exemplo mais recente. Além disso, eles compraram o discurso da esquerda sobre Bolsonaro e passaram a hostilizá-lo, em lugar de se aproximar e “amansar a fera”, como manda a “sabedoria” política brasileira e estão fazendo agora segmentos do Centrão. Quanto ao comportamento dele na Presidência da Câmara, foi politicamente equivocado e a derrota do seu candidato mostra bem isso. Eles devem sair do DEM e migrar para uma estrutura partidária que afete mais progressismo.

JLPolítica - Mas legar poder absoluto ao presidente Jair Bolsonaro não pode ser um perigo à democracia e a estabilidade nacional?

Rodorval Ramalho - Nunca, nenhum presidente pós-Constituição de 1988 teve poder absoluto, muito menos Bolsonaro. Fernando Henrique Cardoso e Lula foram presidentes fortes porque costuraram amplas alianças parlamentares, embora através de métodos imorais. Vamos esperar que essa ampla aliança de Bolsonaro com o Centrão não resulte em práticas corruptas. Insisto que é um equívoco criminalizar a política, como muitas vezes fez Bolsonaro, confundindo alianças e corrupção. Espero, igualmente, que o presidente se mantenha de olho na chave do cofre.

Jair Bolsonaro, fascista jamais: “Ele tem disposição liberal na economia, descentralizadora na administrativa e na política é um voluntarista”
O EQUÍVOCO DA CRIMINALIZAÇÃO DA POLÍTICA
“Nenhum presidente pós-Constituição de 1988 teve poder absoluto, muito menos Bolsonaro. Fernando Henrique e Lula foram fortes porque costuraram amplas alianças parlamentares, embora através de métodos imorais. Insisto que é um equívoco criminalizar a política, como muitas vezes fez Bolsonaro, confundindo alianças e corrupção”


JLPolítica - Sim, mas no ano passado ele liderou movimentos contra a estabilidade democrática dos dois demais poderes da República.

Rodorval Ramalho - Não entendo que ele tenha liderado movimentos de desestabilização dos poderes da República. O que houve foram momentos de tensão porque o Legislativo e, principalmente, o Judiciário estavam tentando inviabilizar o governo dele com intromissões absurdas, nunca vistas em governos anteriores e não poiadas na Constituição. Nesses momentos, o presidente agia politicamente junto às suas bases de apoio, sobretudo através das redes sociais, para demonstrar força e capacidade de resistência. Nesse sentido, é provável que o clima de tensão diminua e o Judiciário se limite às suas funções, o que vai demandar muito trabalho de articulação com os membros dessa tão desmoralizada Corte Suprema brasileira. 

JLPolítica - Na sua visão, foi puro pragmatismo o que fez Jair Bolsonaro deixar a não-política de lado para atrair o Centrão ao seu centro?

Rodorval Ramalho - Sem dúvida nenhuma. Ele viu que se equivocou na tentativa de governar com as tais Frentes Temáticas. Além disso, ele não imaginou que o STF fosse se tornar tão agressivo e invasivo dos poderes do Executivo. Com essa nova maioria, até mesmo a Suprema Corte deve recuar, pois o Congresso tem lá suas prerrogativas, que se fossem usadas poderia colocar alguns ministros em maus lençóis. Em todo caso, Bolsonaro não vai fugir das críticas. Quando não queria negociar, era autoritário. Agora, quando abriu canais de diálogo, é fisiológico, corrupto, etc.

JLPolítica - Quais os prejuízos para essa mudança de postura dele?

Rodorval Ramalho - A grande expectativa é até quando o presidente vai evitar a corrupção no seu governo. São dois anos inéditos na história recente do país. E olha que toda a grande imprensa, parte do Ministério Público e todos os partidos de oposição vivem com uma lupa na mão. Mas, até agora, nada.

JLPolítica - Por que o senhor não subscreve a opinião dos que veem em Jair Bolsonaro um certo pendor para o fascismo?

Rodorval Ramalho - Não subscrevo porque essa visão é risível. Qualquer leitura, minimamente qualificada, do fenômeno do fascismo derruba essa avaliação. O fascismo é uma ideologia totalitária, pois quer concentrar no Estado os poderes político, econômico e cultural. Aliás, o fascismo é primo-irmão do comunismo e do socialismo. Bolsonaro representa justamente o contrário disso. Ele tem disposição liberal na economia, descentralizadora na estrutura administrativa, e na política ele não segue um modelo específico, é um tanto voluntarista. Na cultura eu não vou nem falar, porque nesse campo ele não tem dito nada, a não ser acabar com a mamata da Lei Rouanet, no que está corretíssimo. Chega de “artista de edital”. Portanto, somente um ambiente intelectual imbecilizado e degradado moralmente pela influência da esquerda universitária é que aceita essa relação entre Bolsonaro e o fascismo.

Num dos eventos do Cinform Convida, debatendo a crise do sindicalismo
FOI PURO PRAGMATISMO BOLSONARO ATRAIR O CENTRÃO?
“Sem dúvida nenhuma. Ele viu que se equivocou na tentativa de governar com as tais Frentes Temáticas. Além disso, não imaginou que o STF fosse se tornar tão agressivo e invasivo dos poderes do Executivo. Com essa nova maioria, até mesmo a Suprema Corte deve recuar, pois o Congresso tem lá suas prerrogativas”


JLPolítica - Por que e no que o senhor vê virtudes no modo de ser e de atuar de Jair Bolsonaro?

Rodorval Ramalho - Antes de qualquer coisa, devemos entender o fenômeno Bolsonaro como uma resposta ao pântano em que se transformou a política brasileira na era PT. O menor problema do PT foi roubar, pois isso a esquerda faz em todos os lugares por onde passa - sindicatos, ONGs, universidades e governos em geral, no Brasil e no mundo. Além do mais, os brasileiros já estavam acostumados com o nosso padrão moral na política. O pior legado do PT, embora tudo tenha começado com o PSDB, foi a corrupção da “alma brasileira”.

JLPolítica - Que mais pecados o senhor bota na conta do PT?

Rodorval Ramalho - Aborto, ideologia de gênero, guerra racial e sexual, doutrinação escolar, normalização da criminalidade, entre outros. Esses dois fatores - corrupção do patrimônio público e da alma - são variáveis incontornáveis na análise da emergência do bolsonarismo. O elemento populista também deve entrar nessa equação, principalmente pela falta de mediação entre o líder e o povo, ou seja, pelo diálogo direto, para além dos organismos representativos e, muitas vezes, contra eles. Mas, sem querer introduzir sociologuês na nossa conversa, também entendo que existe algo de carismático na emergência do poder político do presidente, no sentido explorado por Max Weber. Segundo ele, há três formas de dominação legítima. A forma tradicional, a racional - burocrática - e a carismática. A natureza desse último tipo de dominação - que não tem nada a ver com as linhagens religiosas cristãs - pode nos auxiliar a compreender algumas razões através das quais amplos segmentos do eleitorado escolheu Bolsonaro e recusou os outros nomes tradicionais e do establishment. Nesse sentido, acrescento, ainda, que Bolsonaro dá um verdadeiro soco no estômago do esteticismo brasileiro. Ou seja, ele quebra todas as formalidades e ritualísticas do cargo, pelo bem e pelo mal, como a dizer que não aceita a mise-en-scéne acaciana da política tradicional. Obviamente, que é culturalmente impossível não ritualizar as nossas esferas de ação, seja ela qual for, inclusive a da política. Como estratégia eleitoral, funcionou. Mas, talvez a maior falha dele seja esse impulso destrutivo, como se nada houvesse de bom na nossa política. Se ele tivesse uma formação mais conservadora, certamente a sua atitude seria outra. Mas é esse conservadorismo naif o que temos pro jantar de hoje. 

JLPolítica - É construtivo o modo como o seu guru e da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho, prescreve o ódio no campo da política? O modelo dele educa ou malversa pessoas?

Rodorval Ramalho - Olavo de Carvalho é o maior educador do Brasil. Foi ele que reintroduziu, em larga escala, a alta cultura no nosso meio. Foi o responsável pelo despertar de milhares de consciências para a necessidade de se afastar do lixo intelectual que se ensina nas escolas e nas universidades. Olavo de Carvalho foi o primeiro a romper o circuito de ferro cultural da esquerda, mostrando que o ambiente intelectual brasileiro era uma farsa, que ele docemente chamou de “imbecil coletivo”. Foi Olavo de Carvalho que mostrou que a grande imprensa brasileira estava acabando. Como ele fez essa profecia há mais de 20 anos, acertou em cheio.

JLPolítica - A obra dele continua validada?

Rodorval Ramalho - Sim. A sua trilogia - A Nova Era e a Revolução Cultural, O Imbecil Coletivo, O Jardim das Aflições - ainda está por ser refutada. Olavo é responsável pela divulgação de dezenas de autores consagrados mundialmente, mas censurados pela intelectualidade universitária, como são os casos de René Girard, Eric Voegelin, Richard Dawson, Mises, Hayek, entre muitos outros. Apesar de tudo isso e muito mais, o que algumas pessoas veem nele é apenas o seu performático anti-esteticismo nas redes. Não digo isso para blindá-lo de críticas, de forma alguma. Eu mesmo acho que ele nunca se sai bem nas análises de conjuntura, inclusive porque não tem as informações de submundo da política. Além disso, ele é muito sensível às críticas, briga com quase todo mundo e sempre vai “por cima” nas divididas. Mas é inegável o papel essencial dele na nossa guerra cultural que, aliás, nós nem sabíamos que estava em curso e muito menos como agir diante dela. Atualmente, já contamos com vários intelectuais liberais e conservadores para nos auxiliar na nossa formação. Mas, quem estava, como eu, em 1996, procurando fugir do inferno em que me encontrava, só pude contar, praticamente, com Olavo. E isso eu não vou conseguir pagar nunca. Entretanto, ser influenciado pelas ideias de outrem, principalmente quando esse tem uma formação intelectual sólida, nada tem a ver com a ingenuidade caricata de tomá-lo por guru.

Segundo Rodorval, “Olavo de Carvalho é o maior educador do Brasil, responsável pelo despertar de milhares de consciências para a necessidade de se afastar do lixo intelectual”
DA RAZÃO DE EXISTIREM BOLSONARO E BOLSONARISMO
“Devemos entender o fenômeno Bolsonaro como uma resposta ao pântano em que se transformou a política brasileira na era PT. O menor problema do PT foi roubar, pois isso a esquerda faz em todos os lugares. O pior legado do PT foi a corrupção da “alma brasileira””.


JLPolítica - Entre Bolsonaro e a mídia, quem mais joga pesado na relação tensa e belicosa?

Rodorval Ramalho - Sem dúvida nenhuma, a grande mídia. O que a Rede Globo e a Folha de S. Paulo estão fazendo, para ficar em dois dos maiores grupos, é um crime. Não há nada que o presidente faça que esses órgãos não distorçam e critiquem. Mesmo assim, Bolsonaro não se rende às perseguições. Ele faz o que os petistas de antigamente queriam que Lula fizesse, pois todos odiavam a Globo. Mas Lula preferiu ganhar dinheiro e passar “leite condensado” nos lábios da sua base de militontos.

JLPolítica - Nessas cotoveladas, o senhor não vê uma semelhança perigosa entre Bolsonaro e todos os poderosos que quiseram implantar estados autoritários ao redor do mundo?

Rodorval Ramalho - Absolutamente, não! O presidente não é aliado de nenhuma ditadura, ao contrário do PT que era aliado e financiava todas as ditaduras do mundo, da América Latina à Ásia, passando pela África. O presidente critica a imprensa, mas nunca enviou ao Congresso projetos de controle “social” da mídia, como fez o PT. O presidente nunca capturou refugiados políticos para devolvê-los às ditaduras das quais fugiam, como fez o PT no caso dos atletas cubanos. O presidente nunca foi cúmplice de terroristas e traficantes de drogas, como foi o PT, no caso das Farc e de outros grupelhos islâmicos. O presidente Bolsonaro nunca recorreu ao empresariado - pelo menos até aqui - para fraudar os processos democráticos através de mensalões e petrolões, como fez o PT. Então, que ações do presidente podem ser vistas como autoritárias? Volto ao fetiche esteticista brasileiro: ser desbocado e não cumprir uma ritualística desgastada não faz de ninguém autoritário. No máximo, mal educado.

JLPolítica - Qual é a diferença que vai se impor entre a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e a tentativa de reeleição dele em 2022?

Rodorval Ramalho - A grande diferença é que ele não será mais um outsider. Está mais insider do que nunca. Certamente, perderá o apoio de um segmento de classe média que esperava, ingenuamente, que ele implodisse o sistema. Por outro lado, avança nos segmentos mais populares, menos moralistas politicamente, inclusive porque estão habituados a votar em políticos pragmáticos em suas regiões. Além disso, será uma campanha mais organizada e com alta capilaridade, em decorrência da ampliação gigantesca de prefeituras dos partidos aliados.

JLPolítica - Mas ele reúne perspectiva de sucesso eleitoral?

Rodorval Ramalho - Sim, e o que ainda tem facilitado essas perspectivas eleitorais dele é a absoluta falta de um nome consistente na oposição, que tudo indica chegará bastante fragmentada nas eleições de 2022. Em todo caso, é bom lembrar que os cenários do segundo turno não são tão confortáveis para o presidente. Ele terá um ano e meio para atrair mais uma parte desse eleitorado e evitar uma eleição plebiscitária - ele contra todos, no segundo turno.

No Seminário Maior, palestrando sobre um tema que domina bem: o poder das religiões
“OLAVO DE CARVALHO É O MAIOR EDUCADOR DO BRASIL”.
“Foi ele que reintroduziu a alta cultura no nosso meio. Foi o responsável pelo despertar de milhares de consciências para a necessidade de se afastar do lixo intelectual que se ensina nas escolas e universidades. Olavo foi o primeiro a romper o circuito de ferro cultural da esquerda, mostrando que o ambiente intelectual brasileiro era uma farsa”


JLPolítica - O senhor não vislumbra no modelo de direitismo posto em prática no Brasil a partir de meados de década passada algo escatológico, violento e pouco simpático?

Rodorval Ramalho - Não observo nada disso. Escatológica é a esquerda identitária, que fica promovendo happenings em que enfiam uma cruz no ânus, peças teatrais onde aparecem nus se lambendo, protestos onde defecam em cima da imagem do presidente, e por aí vai. Violentos são os Black Blocks, os militantes do MST e o PCC, sempre prontos para atuar em auxílio da esquerda. Pouco simpática, talvez. Afinal, a direita tem afrontado o senso comum das classes falantes nas universidades, nas mídias e nas redes sociais. É sempre bom lembrar que o maior ato de violência política durante a campanha eleitoral de 2018 foi a tentativa de homicídio do candidato Bolsonaro por parte de um ex-militante do PSOL. Por último, mas não por fim, existe alguém mais antipática do que aquela atriz da Globo, que fica requentando um feminismo histérico dos anos 60 como se fosse revolucionário e é apenas brega, teatral e afetado?

JLPolítica - Para além do modelo Trump, onde vai ser encontrado algo igual?

Rodorval Ramalho - O Ocidente vive um momento muito difícil. O cristianismo perdeu protagonismo, os Estados-nação estão sendo sufocados por crises fiscais e pelas megacorporações, a ideologia politicamente correta está contaminando nossas relações sociais em níveis insuportáveis, as big techs têm avançado sobre as liberdades individuais, enfim, o cenário é de devastação da civilização mais próspera e mais livre da história da humanidade. A prosperidade acostumou mal aqueles que imaginam que esse é o estado natural da vida em sociedade.

JLPolítica - A democracia estaria nas cordas do labirinto?

Rodorval Ramalho - As liberdades foram ampliadas sem o necessário lastro moral dos seus usuários. Além disso, as democracias não podem impedir, pela sua própria natureza, que os seus inimigos as usem para destruí-la. Existe, claramente, um projeto de concentração de poder em instituições internacionais e uma tentativa de destruir as comunidades nacionais, o que tem sido denominado de globalismo. Esse estado de coisas tem encontrado resistências em alguns países, como são os exemplos da Polônia, da Hungria, de Israel, dos EUA - apesar da derrota de Trump -, da Colômbia e do Brasil, na figura de Bolsonaro. Não sou otimista em relação ao nosso futuro imediato. Acho que as grandes corporações, a China e o Islã estão avançando celeremente. Um cenário dominado por esses três atores é o fim das liberdades individuais. 

JLPolítica - O Brasil vive atualmente duas pandemias - uma do coronavírus e a outra de desacreditação dele. O senhor tem lado nessa guerra?

Rodorval Ramalho - Não enxergo dessa forma. Não vejo ninguém desacreditando do vírus. O que vejo é a grande mídia promovendo o terror e uma outra pandemia, a do cientificismo. Comecemos com o tal do “fique em casa”. Está mais do que provado, cientificamente, que o lockdown não é eficiente para evitar o contágio. Vejamos o caso de São Paulo, que ainda promove restrições duríssimas à livre circulação e, no entanto, tem uma média mais alta que a brasileira em termos de mortos por milhão. Lembro que logo no início da pandemia a “ciência” do ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta mandava só procurar o hospital em último caso. Hoje, sabemos que é exatamente o contrário. Os cretinos fundamentais acusam o presidente de genocida, o que é um absurdo, pois quem promove as estratégias de enfrentamento do vírus são as unidades da federação e os municípios. O que eles não dizem é que o Brasil é o 26º colocado no ranking mundial de mortes por milhão de habitantes. É a melhor experiência de combate ao vírus em toda a América Latina, com exceção do Peru.

Na eleição de Arthur Lira, Rodorval vê Bolsonaro dando braços positivos ao presidencialismo de coalizão
QUEM MAIS ERRA ENTRE BOLSONARO E A MÍDIA?
“Sem dúvida, a grande mídia. O que a Globo e a Folha estão fazendo é um crime. Não há nada que o presidente faça que esses órgãos não distorçam. Mesmo assim, Bolsonaro não se rende. Faz o que petistas de antigamente queriam que Lula fizesse, pois todos odiavam a Globo. Mas Lula preferiu passar “leite condensado” nos lábios da sua base de militontos”


JLPolítica - O senhor não identifica nada de positivo na turma do fique em casa?

Rodorval Ramalho - Essa turma do “fique em casa” é hipócrita, fingida, histérica e embotada pela ideologia. Os pandeminions não aceitam nada que não seja ficar em casa e manter a terra parada. Claro que eles não querem que essa ordem fingida do “fique em casa” alcance os militares, trabalhadores rurais, de farmácias, de padarias, de postos de gasolina, de empresas de água, de companhias telefônicas, de empresas de energia, da limpeza pública, dos motoboys - que levam a comidinha para todos - e uma série de outros abnegados trabalhadores. O que é relativamente eficiente nós sabemos: máscara, álcool e dois metros de distância. A vacina, sim, vai ajudar, mesmo que tenha sido produzida à contrapelo de todo o protocolo típico para esse tipo de imunizante.   

JLPolítica - Como um cientista social, como é que o senhor vê os ataques às ciências de um modo geral?

Rodorval Ramalho - Como já indiquei, não existem ataques à ciência, mas uma discussão acerca dos limites e extrapolações de certos discursos supostamente baseados na ciência. O que eu acredito que está em questão é o cientificismo, que é aquele raciocínio segundo o qual a ciência é inquestionável. Ora, os limites epistemológicos do discurso científico já foram explicitados desde o começo do século XX, sobretudo na área da física. O mundo quântico é realismo fantástico puro. A ideia de uma “ciência exata” é apenas um resquício da arrogância iluminista.

JLPolítica - Isso está fora de contexto?

Rodorval Ramalho - Ninguém que pensa a ciência nesses termos é levado a sério no debate acadêmico. O irônico é que as mesmas pessoas que vivem dizendo que estamos vivendo num mundo pós-moderno, na época da pós-verdade, num ambiente onde tudo é relativo, são as mesmas pessoas que querem nos convencer de que, finalmente, a ciência vai nos redimir. Não vai, infelizmente, pois a ciência pode muito, mas não pode tudo.

JLPolítica - Neste, instante que tipo de ciência estaria mais encurralada?

Rodorval Ramalho - Nesse debate, o prêmio “Vexame do momento” fica com as tais ciências humanas. Estas, sim, impotentes epistemologicamente, principalmente quando misturadas com as mais confusas ideologias. Se existe uma ciência que está indo pro “ralo”, por causa da incapacidade de separar “o que é” do que “deve ser” são as ciências humanas. O pior é que até mesmo aquela aura de sofisticação intelectual que já teve não existe mais. Sobraram pouco mais do que um bando de militantes gaguejando uma língua com gênero neutro para destruir o restinho de inteligência do companheirxs. É claro que existem algumas exceções, mas são totalmente impotentes para reverter o quadro.

Rodorval Ramalho num dos muitos eventos de formatura no universo da UFS
MODELO DE DIREITISMO BRASILEIRO NÃO É VIOLENTO
“Escatológica é a esquerda identitária, que fica promovendo happenings em que enfiam uma cruz no ânus, peças teatrais onde aparecem nus se lambendo, protestos onde defecam em cima da imagem do presidente. Violentos são os Black Blocks e os militantes do MST sempre prontos para atuar em auxílio da esquerda”


JLPolítica - O senhor vê o atual bloco de governistas de Aracaju e do Governo de Sergipe fazendo o sucessor de Belivaldo Chagas em 2022?

Rodorval Ramalho - É o mais provável. Ganharam quase tudo nas eleições municipais de 2020. E o campo oposicionista é um caos. A oposição mais tradicional está esfacelada. O PT está fora da disputa, mesmo que o senador Rogério Carvalho, o mais inteligente deles, tente entrar na briga, pois ainda pesa muito carregar a cruz petista, vide o fracasso da candidatura de Márcio Macedo para a Prefeitura da capital. O senador Alessandro Vieira é uma figura inodora, não é de direita nem de esquerda, nem de centro. Muito pelo contrário. Ele e Eduardo Amorim são almas gêmeas. A direita é uma tribo onde não há índios. Só caciques. E, o pior, sem votos. Esses segmentos ainda não fizeram a transição da atuação nas redes para a ação política no mundo real. Uma outra variável importante será a participação de Bolsonaro na disputa local, mas pouco provável que ele queira carregar nas costas nomes de pouca densidade eleitoral. Laércio Oliveira seria um nome até natural para ser o candidato do presidente por aqui, mas as atividades empresariais desse deputado parecem restringir as suas liberdade e fidelidade políticas. 

JLPolítica - Um dia o senhor já deu umbigada de alinhamento e de continência no PT. O que lhe faz mudar tanto de itinerário?

Rodorval Ramalho - Mais do que alinhamento e continência, vivi no PT, intensamente, durante 12 anos. Militância 24 horas. Durante esse período, tudo o que eu fazia era apenas um meio para fortalecer o PT. Os fins estavam sempre justificando esses meios. Aparelhávamos tudo, como ainda hoje fazem: sindicato, associação de moradores, movimentos de juventude, ONGs, igrejas, time de futebol, velório... Naquela época, ainda estávamos chocando o “ovo da serpente”, conscientemente ou não.

JLPolítica – Com que viés o senhor agia?

Rodorval Ramalho - Pessoalmente, eu agia com aquela arrogância ignorante da juventude: muito fígado e pouco cérebro. Mas, alguma coisa começou a mudar depois do impeachment de Collor, quando o PT se recusou a participar de um governo de unidade nacional, de apoio a Itamar Franco. Naquele período, fiquei ao lado de Luiza Erundina, que se tornou ministra e foi punida pelo partido. Naquele momento, algo quebrou na minha fidelidade ideológica.

JLPolítica - O que o senhor percebeu ali?

Rodorval Ramalho - Notei que a burocracia partidária não estava interessada em melhorar o processo de modernização brasileira, com um governo democrático e que garantisse renda para os segmentos mais populares. O partido não queria partilhar poder. Para mim, a sua vocação totalitária ficou clara a partir dali. Em 1994, ainda votei em Lula, mas já não era mais militante, e já estava fazendo o mestrado. Desde então, acompanho a política e até participo do debate público, mas sem filiação partidária. Em 1998, votei em Ciro, procurando uma alternativa ainda à esquerda. Mas, o coronel cearense me desiludiu logo, com os seus arroubos coletivistas e sua subserviência ao petismo. A partir daí, votei nos tucanos, na falta de coisa melhor.

Rodorval e Daniela, em companhia das beldades shitzus Gumbal e Mabel, em ato de ação de graça e passeio
“NÃO VEJO NINGUÉM DESACREDITANDO DO VÍRUS”
“O que vejo é a grande mídia promovendo o terror e a pandemia do cientificismo. Os cretinos fundamentais acusam o presidente de genocida, o que é um absurdo. O que eles não dizem é que o Brasil é o 26º colocado no ranking mundial de mortes por milhão de habitantes”


JLPolítica - É partir daí que o senhor faz a conversão à direita?

Rodorval Ramalho - Durante todo esse tempo, fui estudando e conhecendo novos autores, conservadores e liberais. Essas leituras e meu amadurecimento existencial foram me afastando do universo de valores da esquerda. Nessa linhagem, a maior patologia é a ilusão gnóstica de refundar ontologicamente o mundo. Existe, aqui, uma revolta contra Deus e uma tentativa, canhestra, de substituí-lo. Tais tentativas deixaram mais de cem milhões de cadáveres no caminho, fracassos econômicos gigantescos, ditaduras totalitárias crudelíssimas e otras cositas más. No entanto, ainda tem muita gente encantada por esse inferno, que já me atraiu, mas do qual já me livrei. 

JLPolítica - Do que acusam Sergio Moro e o Ministério Público Federal nos feitos no âmbito da Lava Jato é o suficiente para inocentar Lula e os petistas?

Rodorval Ramalho - Não. Os petistas são réus confessos. Os depoimentos, as provas, a devolução de milhões, tudo isso já teria enterrado para sempre Lula e a quadrilha petista caso estivéssemos numa República consistente. Mas, aqui, do lado de baixo do Equador, a banda não toca exatamente como manda o receituário republicano. Pessoalmente, avalio que a Lava Jato foi até longe demais. Quem imaginaria que um ex-presidente fosse preso, juntamente com governadores e altos segmentos empresariais? Obviamente, existe um movimento para salvar Lula e os demais comparsas no STF. O fiel da balança será o ministro indicado por Bolsonaro. Vamos ver se o distinto ministro faz a coisa certa.

JLPolítica - O senhor acha que a universidade pública brasileira corre risco de desaquecimento de importância?

Rodorval Ramalho - A universidade pública brasileira, que é o que temos de melhor no ensino superior, vive uma crise profunda, apesar do autoengano e da resistência de amplos setores das elites acadêmicas para reconhecer tal fato. A universidade está numa situação disfuncional. Na área das ciências naturais, não produz inovação tecnológica. Na das ciências humanas, não cultiva a alta cultura nem produz ciência alguma. Nos dois casos, entregam profissionais de baixíssima qualidade ao mercado, de médicos a professores. Além disso, o impacto científico do que é produzido nela está muito aquém dos bilhões que são investidos.

JLPolítica - No terreno acadêmico, como é que o mundo vê o Brasil?

Rodorval Ramalho - Alguns apologistas - e beneficiários - do atual sistema, dizem que o Brasil está muito bem colocado no ranking de produção de artigos. Ora, de que adianta publicar artigos que ninguém lê e ninguém cita. Essa é a famosa “ciência de gaveta”. No ranking das Citações Por Artigo – CPP -, índice bem mais confiável de aferir qualidade ao que é publicado, o Brasil está muito abaixo de países com o mesmo PIB per capita. Nas chamadas ciências naturais, ainda podemos fazer mudanças em curto espaço de tempo, estimulando a inovação e financiando projeto de interesse nacional, pois isso tudo faz parte da natureza mesma da tradição nessa área e existem alguns grupos de pesquisa de qualidade internacional.

Angelo Antoniolli, muitas lambanças para tentar fazer o sucessor da UFS e mais de dois mil processos
PRÊMIO “VEXAME DO MOMENTO” ÀS CIÊNCIAS HUMANAS
“Estas, sim, impotentes, principalmente quando misturadas com as mais confusas ideologias. Se existe uma ciência que está indo pro “ralo”, por causa da incapacidade de separar “o que é” do que “deve ser” são as humanas. O pior é que até mesmo aquela aura de sofisticação intelectual que já teve não existe mais”


JLPolítica - E nas humanas?

Rodorval Ramalho - No caso das ditas humanas, é quase impossível mudar o rumo das coisas, pois o que observamos é a quase completa perda de racionalidade e a profunda ideologização das pesquisas, com a emergência de teorias absolutamente desgarradas do real, como é o caso dessas questões de gênero e da militância identitária, que reduzem a complexidade do ser humano, hipertrofiando uma das suas partes e tentando contornar as mil e uma outras. Naturalmente, por aqui também temos algumas exceções, mas que não tem poder algum para influenciar positivamente o “espírito do tempo” nessa área do conhecimento. Infelizmente, o Governo Bolsonaro ainda não iniciou um processo reformista nessas instituições e, pelo que observo, não iniciará. O que é uma pena, pois a universidade é a maior matriz de produção de sentidos, de narrativas, de imaginários ou seja lá do que se chame essas formas de pensamento. O fato é que para uma política ser aceita na sociedade antes ela passa pelos “laboratórios” dos campi universitários. Quem não compreender isso, está fadado a não entender o debate cultural. Claro que já temos no Brasil outros espaços de produção intelectual. Mas, são iniciativas pontuais, dispersas e com meios limitados, nada que se compare com os bilhões dos cofres públicos investidos na universidade.   

JLPolítica - Qual seria o real motivo de os seus pares doutores da UFS estarem sempre acocorados por trás da omissão opinativa frente às coisas práticas do Estado de Sergipe?

Rodorval Ramalho - Os casos são muito variados em todo o sistema. Existem universidades que possuem políticas muito claras para dialogar com a população. O caso da UFS é diferente. Aqui, nunca houve uma política estruturada de comunicação para a instituição. Os sucessivos reitores que por aqui passaram nunca tiveram preocupações com o que os americanos chamam de accountability, que é uma espécie de promoção e compartilhamento dos dados produzidos pela instituição, desde as suas produções científicas até o fluxo da execução orçamentária.

JLPolítica - As gestões da UFS não se fizeram transparentes perante essas necessidades?

Rodorval Ramalho - Na UFS tudo é nebuloso. Só na Justiça Federal, a instituição tem mais de dois mil processos. Numa instituição com esse perfil, o lema é cada um por si e Deus contra todos. Sempre me esforcei, pessoalmente, para dialogar com jornalistas e outros demandantes de informações produzidas na universidade. Na maioria das vezes, não me sinto capacitado para atender aos pedidos, mas sempre indico os nomes que poderiam ajudar. Alguns aceitam, mas a maioria tem dificuldade. Como não há políticas específicas, fica assim mesmo, no silêncio. 

JLPolítica - O senhor sofreu revanche por ser diferente e se expor por muitos anos em artigos no Cinform?

Rodorval Ramalho -Aquele período no Cinform foi fundamental para mim. Foi lá que organizei as ideias de tudo o que eu estava lendo e refletindo. Como sempre tive liberdade absoluta para escrever o que bem entendesse, acabei por fazer uma verdadeira metanóia pública. Faço questão de registrar que toda essa liberdade era garantida por você, como diretor de Jornalismo, e por toda a família Bonfim, que me tratava com todo carinho e respeito. Com relação ao ambiente universitário, sempre houve o que se chama de “espiral do silêncio”. Publicamente, não havia críticas nem diálogo. Em relação aos beneficiários do exercício do poder ao longo dos últimos 26 anos, uma verdadeira dinastia, sempre houve uma tensão permanente, pois avaliavam que eu expunha a universidade e isso era ruim para a sua imagem. Com respeito aos militontos de esquerda, sou persona non grata. Já invadiram eventos promovidos por mim e pessoas próximas, já picharam meu nome em banheiro, já tumultuaram aulas, já pediram para me substituir de disciplina. Enfim, o que puderem fazer para me calar, fizeram e fazem. Ainda bem que nos Departamentos aos quais sou ligado - Ciências Sociais e Ciências da Religião – o tratamento é bastante respeitoso e tolerante. Nunca tive atritos com esses colegas mais próximos, a não ser as discussões comuns a qualquer ambiente universitário.

Dos muitos artigos que escreveu para Cinform, fez-se um livro e ganhou até outdoors pelas ruas de Aracaju
“A UNIVERSIDADE NUMA SITUAÇÃO DISFUNCIONAL”
“A universidade pública brasileira, que é o que temos de melhor no ensino superior, vive uma crise profunda, apesar do autoengano e da resistência de amplos setores das elites acadêmicas para reconhecer. Na área das ciências naturais, não produz inovação tecnológica. Na das humanas, não cultiva a alta cultura nem produz ciência alguma”


JLPolítica - Afinal, quando se desatará o nó da sucessão na Reitoria da UFS?

Rodorval Ramalho - Estamos esperando, ansiosamente, pelas manifestações do MEC e da Justiça Federal local. Essas instâncias foram acionadas pela nossa candidata, a professora Denise Leal, que refundou o conceito de oposição na UFS, pela sua tenacidade e consistência política. Apesar do Ministério ter indicado uma reitora pró-tempore, que tem feito todos os esforços para não deixar a universidade parar, é importante resolvermos essa questão para que a instituição retome o seu curso, seja com uma nova direção, seja com a dinastia de sempre.  

JLPolítica - Por que a lista tríplice montada ano passado não deve valer?

Rodorval Ramalho - O ex-reitor Ângelo Antoniolli fez uma verdadeira lambança no processo. Convencido de que podia tudo, boicotou a Medida Provisória que regulamentava as eleições, pois ela esvaziava o poder dele nos Conselhos, acabou com as “eleições diretas”, um erro político que o fez cair em desgraça na opinião dos três segmentos - alunos, professores e técnicos -, montou uma eleição indireta nos Conselhos, sem nenhuma regra, sem registro de candidaturas e, consequentemente, sem as propostas e o debate entre os candidatos. Não abriu o sistema de votação para auditoria, o que era necessário em virtude de um dos seus assessores ser o “contador dos votos”, e a ata da reunião é uma verdadeira fraude sobre o que ocorreu. Enfim, uma bagunça generalizada, tanto de ilegalidades quanto de manobras políticas. Faria muito bem à instituição a retomada do processo eleitoral, dessa vez com tudo dentro da legalidade, com as inscrições das chapas, os debates e a consulta da comunidade. Quem entrar na lista tríplice, parabéns. Quem não entrar, vá trabalhar e aguarde mais quatro anos.  

JLPolítica - Ao seu ver, as mídias sociais fazem bem ou mal ao Brasil e ao mundo?

Rodorval Ramalho - Mais bem do que mal. Essas mídias têm uma natureza profundamente democrática. Lembremos que “antigamente” o cidadão era apenas um receptor, geralmente passivo, do noticiário. As informações dos rádios, TVs e jornais tinham uma mão só - era de lá pra cá. Sempre houve certa interação com o público através daquelas “cartas dos leitores”, mas aquilo era limitado demais.

JLPolítica - O que muda?

Rodorval Ramalho - Atualmente, todo cidadão continua receptor, mas passou também a ser um emissor de notícias. Alguém pode dizer, como Umberto Eco, que essas redes deram voz a milhões de idiotas. Ora, se é isso que os sistemas escolares nos fornecem, falemos em mudanças nos sistemas escolares, em lugar de esculhambar essas maiorias. Mas, argumento de autoridade à parte, quem decide quem é idiota? Eu acho Guilherme Boulos e esse pessoal do PSOL uns beócios. Mas, nem por isso eu posso impedi-los de falar. A democratização da emissão de informação é fundamental numa democracia. Mas, pode vir outra pessoa e perguntar, e as fake news? Respondo: quer maior produtora de fake news do que a Globo, Folha de S. Paulo, Carta Capital e outras companheirxs?

Superpapai Rodorval sob a sombra das filhotas Maria Célia, de 13, e Dirck, de 11, em alcova de pandemia
SOB MÍDIA SOCIAL, O LIMITE É A LIBERDADE
“Sou radical em se tratando de liberdade de opinião. Problemas com a liberdade só se resolve com mais liberdade. Num ambiente verdadeiramente plural, temos que garantir que as pessoas possam falar mal de gay, de Cristo, de Maomé, de gente feia, de flamenguista, de político, de ministro do Supremo. Do diabo a quatro”


JLPolítica – Liberdade pode ser tutelada ou limitada?

Rodorval Ramalho - Não. Sou radical em se tratando de liberdade de opinião. Problemas com a liberdade só se resolve com mais liberdade. Pra mim, todos temos o direito de ofender os outros, só não pode acusar de ter realizado crimes. Num ambiente verdadeiramente plural, temos que garantir que as pessoas possam falar mal de gay, de Cristo, de Maomé, de gente feia, de flamenguista, de político, de ministro do Supremo. Do diabo a quatro. Hoje, vivemos uma verdadeira censura do politicamente correto. O caso das Big Techs é uma prova desse clima de degradação da liberdade de expressão. De que adianta uma democracia onde só se pode falar aquilo que o outro quer ouvir?

JLPolítica - Nesse momento diferenciado da vida brasileira, está sendo possível separar Estado de religião?

Rodorval Ramalho - Desde 1891 fizemos essa separação no Brasil. A questão é que segmentos expressivos das elites querem impedir a livre expressão das vozes religiosas. Aqui, vemos uma concepção equivocada de laicidade. E mais do que isso: uma perseguição aos religiosos, principalmente cristãos. A religião é a espinha dorsal de toda e qualquer sociedade. A única civilização que tentou abolir essa realidade, a cultura moderna, entrou em parafuso e está sob uma crise profunda. As religiões são os instrumentos culturais mais poderosos para entramos em contato com o grande mistério da vida e do mundo. Como nos lembra o sociólogo francês Émile Durkheim, foram as religiões que nos legaram as primeiras categorias da lógica, os primeiros sistemas de classificação dos fenômenos naturais e sociais. As religiões são responsáveis pela produção de grande sabedoria, expressa em símbolos, ritos, mitos, artes.

JLPolítica – Mas tempo contemporâneo referenda ou detona esse poder dela?

Rodorval Ramalho - Em ambiente moderno, tentaram encapsular o discurso religioso no espaço privado, numa tentativa de cassação de direitos políticos. Na Europa, a estratégia deu certo com relação ao cristianismo. No entanto, esqueceram de combinar com o Islã, que é a força política mais poderosa em ascensão no velho continente. No Brasil, as vozes religiosas, sobretudo cristãs e, mais especificamente, evangélicas, têm sido a salvação do debate sobre os valores mais caros à nação brasileira. Isso não prejudica em nada, muito pelo contrário, ratifica e reforça nossos fundamentos republicanos e laicos.

JLPolítica - Como o senhor viu aquele modelo de aborto aprovado pelos argentinos?

Rodorval Ramalho - A maior chaga do mundo moderno é a reinstauração do infanticídio, que é isso que significa a liberação do aborto nos países de primeiro mundo. Para quem abre a boca pra falar da superioridade inquestionável da ciência em meio à pandemia, procure na embriologia moderna quando começa a vida. Pois é: é exatamente no momento da fecundação do óvulo. A partir daí, a vida que ali está não se confunde com o pai ou a mãe. É uma vida única, precisando somente dos nutrientes que a farão desenvolver. O aborto é hoje o maior crime contra a humanidade. O que aconteceu na Argentina, onde 93% da população são contra o aborto, seguiu essa lógica macabra dos segmentos progressistas e de esquerda. Para piorar, essa mudança foi feita contra a vontade da esmagadora maioria da população. Aqui, no Brasil, onde 76% são contra essa prática. Essas trevas não podem prosperar. O PSOL está tentando ganhar no “tapetão” do STF a aprovação do infanticídio. Os defensores da vida devem ficar alertas. Não deixemos que mais essa abominação se instale no Brasil.

 

 

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