Rômulo Rodrigues: “Entre os quatro pleiteantes ao Governo, Fábio Mitidieri é o que tem mais errado”

Entrevista

Jozailto Lima

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Rômulo Rodrigues: “Entre os quatro pleiteantes ao Governo, Fábio Mitidieri é o que tem mais errado”

 

“A eleição de Lula no 1º deverá ser buscada a unhas e dentes por todos os democratas do país”

 

Escrevendo para jornais, sites ou conversando nos bastidores dos partidos, dos sindicatos e da vida política e social, o operário aposentado Rômulo Rodrigues, 78 anos, ostenta um ar de cientista político e destila convicções que se confirmam muito coerentes.

Um cientista político, digamos assim, meio diferente. Do tipo passional e parcial. Apaixonado ou apaixonadíssimo. Militante orgânico. Doido de pedra, ou varrido, pelo Partido dos Trabalhadores e, obviamente, pelo seu cardeal Luiz Inácio Lula da Silva que, de tanto idolatrá-lo, acredita que vai salvar o Brasil, a humanidade e possivelmente alguns desencontrados de galáxias ainda não descobertas.

 

Essa capacidade de leitura do velho Rômulo Rodrigues é desenvolvida sob o guarda-chuva de muito respeito da parte dos seus pares de esquerda ou de centro-esquerda, e com certa reverência por quem é do outro lado e pensa integralmente no oposto dele. Assim como ele respeita a todos nessa seara. Com esse jeitão dele, já apagou muito incêndio na política, mas também já promoveu alguns outros.

 

Na mais das vezes, Rômulo Rodrigues é um cidadão cordial. Cartesianamente cordial, num território onde a cordialidade anda sempre abespinhada, por demais cravejada pelos espinhos do contraditório, do pensamento que diverge e que gera beições de desagrados.

 

É assim, por exemplo, que ele aponta equívocos no modo de fazer política do senador Rogério Carvalho, PT, e na pré-candidatura da vice-governadora Eliane Aquino, PT, a deputada federal nas eleições deste ano. Ele a vê como pedra boa para disputar o Senado.   

 

Quando os objetos de análises são Lula e o PT, Rômulo velho do sertão do Caicó converte-se numa manteiga empapada em visgos de tendenciosidades. “A eleição de Lula no primeiro turno é difícil, mas deverá ser buscada a unhas e dentes por todos os democratas do país para evitar uma provável onda de violência do fascismo em um segundo turno”, prefixa ele.

 

Fazer uma autocrítica e um mea culpa do modo de ser e de agir do seu PT!? Qual o quê! “Mea culpa de quê? Das narrativas falaciosas de Roberto Jeferson, do capitão do mato Joaquim Barbosa, de Moro e da quadrilha de Curitiba?”, reage ele.

 

“Sobre a minha militância, só faria depois de ouvir a dos milicos, dos banqueiros, dos membros do partido da justiça, do partido midiático, dos capitalistas em geral e de seus prepostos”, reforça.

 

No que diz respeito ao presidente Jair Bolsonaro, Rômulo prefere ver o cão besuntado de enxofre. “Jair Bolsonaro teve o mérito de trazer à tona a enorme quantidade de neonazistas e fascistas que estavam escondidos nos armários Brasil afora”, diz.

 

“Ao insistir na propagação do ódio, externou e deu forma ao feminicídio, ao racismo, ao preconceito, à intolerância religiosa, à homofobia e a tudo de ruim que está acontecendo em seu projeto militar e militarista. No geral, não dá para ver mérito algum em um cidadão que foi expulso de sua corporação como terrorista, que com 28 anos como deputado federal disse que usava as verbas de gabinete para comer gente e institucionalizou o crime da rachadinha”, fulmina ele, aí já nada cordial.

 

E é aqui, nesta encruzilhada, que Rômulo Rodrigues atribui um papel salvante ao seu PT e ao vovô Lula neste 2022 e nos ano a seguir. “O próximo governo nacional do PT tem que trazer de volta um país no qual se respire liberdade”, teoriza o velho brujo.

 

“Onde as oportunidades de acesso às universidades voltem a ser oferecidas aos filhos dos trabalhadores e trabalhadoras, onde seja regatada a igualdade de gênero, de raça, de oportunidade de trabalho, de acesso à cultura e tudo o mais que tinha e que o golpe civil, militar, judicial e de classes roubou”, diz.

 

No plano local, ele vê reduzidas as chances de Edvaldo Nogueira, PDT, ser escolhido candidato ao Governo do Estado pela ala governista e tem uma visão muito crítica em relação ao possível selecionado, o deputado Fábio Mitidieri, PSD.

 

“Entre os quatro pleiteantes ao Governo de Sergipe, Fábio Mitidieri é o que tem mais errado na estratégia ao forçar sua indicação pelo governador Belivaldo Chagas, deixando implícito, algumas vezes, que se não for o escolhido poderá apoiar o candidato do PT, Rogério Carvalho, e tentar ganhar um senador na família. Edvaldo, com certeza, já tem ou está construindo um plano B para o caso de ser preterido”, afirma. Essa definição da candidatura governista, admite Belivaldo Chagas, será feita na segunda-feira, dia 14.

 

Rômulo Rodrigues nasceu no dia 26 de junho de 1943 em Caicó, no Rio Grande do Norte, de onde carrega uma cumplicidade que ele não aliena em nome nada - “Trago do Caicó uma certeza: nas minhas costas, ninguém monta, principalmente quem me deve conta”. Ele é filho de Júlio Rodrigues Barbosa e Rosália Rangel.

 

Rômulo Rodrigues com o saudoso filho Rafael Pereira Rodrigues em 1980, ainda bebê
Rômulo Rodrigues e Lula em Aracaju no dia 13 de dezembro de 1985 lançando a primeira candidatura de Marcelo Déda a prefeito

EDVALDO E ULICES FORA DO ROTEIRO DE BELIVALDO
“É possível que nem Edvaldo Nogueira nem Ulices Andrade venham a ser o escolhido por Belivaldo Chagas. O prefeito de Aracaju pode e deve ter um plano B, já que passou por situação análoga quando da reeleição de Marcelo Déda em 2004 em Aracaju, quando houve um movimento para tirá-lo da chapa”

JLPolítica - Hoje são 6 de março e restam 28 dias para o 2 de abril, data limite para quem pretender desincompatibilizar-se para a disputa de mandato em 2 de outubro. Neste caso específico, encaixam-se Edvaldo Nogueira, prefeito de Aracaju, e Ulices Andrade, conselheiro do Tribunal de Contas. Que leitura o senhor faz do futuro trajeto desses dois dentro da sucessão sergipana de 2022?

Rômulo Rodrigues - É possível que nem Edvaldo Nogueira nem Ulices Andrade venham a ser o escolhido por Belivaldo Chagas. O anúncio tornado público, somente Edvaldo terá sobrevida política dentro da sucessão sergipana. O prefeito de Aracaju pode e deve ter um plano B, já que passou por situação análoga quando da reeleição de Marcelo Déda em 2004 em Aracaju, quando houve um movimento para tirá-lo da chapa.

 

JLPolítica - Entre os quarto governistas pleiteantes ao Governo de Sergipe - Edvaldo, Fábio Mitidieri, Laércio Oliveira e Ulices - quem mais erra nas estratégias de se fazer viável?

RR - Entre os quatro pleiteantes ao Governo de Sergipe, Fábio Mitidieri é o que tem mais errado na estratégia ao forçar sua indicação pelo governador Belivaldo Chagas, deixando implícito, algumas vezes, que se não for o escolhido poderá apoiar o candidato do PT, Rogério Carvalho, e tentar ganhar um senador na família.

 

JLPolítica - Um desses quatro “corre perigo” de se eleger governador de Sergipe no dia 2 de outubro ou num segundo turno. A olhar por hoje, qual deles mais se aproxima disso?

RR - Entre os quatro postulantes, o que tem mais campeonatos disputados e jornadas adversas nas disputas políticas é o prefeito de Aracaju, que vem se firmando como liderança política desde as lutas estudantis contra a ditadura militar. Ele sabe o tempo de plantar e de colher, item que o coloca bem à frente dos demais.

 

FÁBIO MITIDIERI ESTÁ LONGE DE GOVERNAR SERGIPE

“O deputado Fábio Mitidieri, inegavelmente vem se movimentando com desenvoltura nos dois mandatos de deputado federal. Mas ainda está longe do desafio de governar Sergipe a partir de 2023, com os destroços da pandemia, do desgoverno Bolsonaro e do que vai ser o mundo depois da guerra da OTAN”

JLPolítica - Qual seria o desenho previsível do comportamento de Edvaldo Nogueira se ele for preterido da disputa ao Governo pelos parceiros governistas?
RR -
Edvaldo, com certeza, já tem ou está construindo um plano B para o caso de ser preterido. Ainda neste pleito, como jogador experiente no xadrez da política, poderá lançar um outsid, se credenciar para fazer o sucessor de 2024, levantar a cabeça e olhar para cima.

 

JLPolítica - O senhor subscreve os supostas defeitos atribuídos a Edvaldo Nogueira pelos irmãos dele “de cachaça e de cruz” da política?
RR -
Desconheço as atribuições. Só sei que, sendo a política a prática mais nobre do ser humano, como cachaça é de abrir o apetite, dar coragem e fazer os enfrentamentos das melhores ideias com mais vigor. Desconheço Edvaldo como o pagador de promessa carregando alguma cruz pesada da política.


JLPolítica - O senhor identifica estatura política e funcional no deputado Fábio Mitidieri para representar uma candidatura ao Governo de Sergipe?
RR -
Ainda não. O deputado Fábio Mitidieri, inegavelmente vem se movimentando com desenvoltura nos dois mandatos de deputado federal. A seu favor, tem o crédito de ter votado contra a farsa do impeachment da presidente Dilma, hoje comprovada pelo STF. Mas ainda está longe do desafio de governar Sergipe a partir de 2023, com os destroços da pandemia, do desgoverno Bolsonaro e do que vai ser o mundo depois da guerra da OTAN.

Tempos bons: em 2004 Rômulo Rodrigues recebe o diploma de camarada do ano das mãos de Déda e Max Prejuízo, pela Casa

LAÉRCIO, UM DOS QUE CAUSAM MAL À POLÍTICA

“Na minha leitura, o deputado Laércio Oliveira é um arrivista político que veio de Pernambuco ganhar muito dinheiro em Sergipe, se elegeu para mandatos de deputado federal à custa do poder econômico e fez uso para seus interesses na relatoria da famigerada Lei da Terceirização”

JLPolítica - Olhando com isenção e precisão, o senhor vislumbra Laércio Oliveira de fato pleiteando mandato de governador, ou ele está ali batendo bola para se emplacar candidato a senador?

RR - Na minha leitura, o deputado Laércio Oliveira é um arrivista político que veio de Pernambuco ganhar muito dinheiro em Sergipe, se elegeu para mandatos de deputado federal à custa do poder econômico e fez uso para seus interesses na relatoria da famigerada Lei da Terceirização. Cabe bem no conceito de Ulisses Guimarães: “Não é a política que causa mal ao povo, são pessoas que causam mal à política”.
 

JLPolítica - Lula estaria sendo desleal aos esforços pessoais de Rogério Carvalho se, pra atender a uma pareceria com Gilberto Kassab, desmontasse a candidatura do PT ao Governo de Sergipe em nome de uma candidatura do PSD?
RR -
Difícil se identificar gestos de deslealdade em Lula. São 40 anos de perseguição desenfreada pela mídia corporativa, sem se dobrar e sem fugir da luta. Para esta eleição, Lula tem dito que é estratégico vencer no primeiro turno, o que não é fácil, e que o Brasil exige sacrifícios políticos como estamos vendo. Se vencer, precisará de bancadas grandes e fortes no Senado e na Câmara. Daí vem a diferença entre dois senadores e nenhum senador.

 

JLPolítica - O senhor identifica algum rabicho de razão e lógica para que os rogeristas - seguidores de Rogério Carvalho - estejam de beiço inchado para com o senhor?

RR - Não identifico! O que identifico é que tem gente se manifestando pela paixão, o que é até razoável, mas deixando de ver a necessidade de uma estratégia para derrotar o fascismo. Questão de cegueira política.

Rômulo Rodrigues e a esposa Severina Pereira Rodrigues, o seu amor sem fim

NUNCA CONJUROU CONTRA INTERESSES DE ROGÉRIO
“Talvez eu seja um dos companheiros que mais tem sido sincero com ele e o ajudado. Em uma retrospectiva de tudo que conversamos, discutimos e divergimos desde 2010, ele mesmo confessou que eu tinha razão. O problema é que faço as críticas diretas e incisivas e tenho um leque forte de testemunha que comprovam”

 JLPolítica - Mas quais são os motivos alegados por eles e pelo próprio Rogério para essa chateação?

RR - Exatamente o que eu disse: os de não admitir que Rogério tem muitos acertos na sua trajetória política, mas cometeu alguns erros, tais como o voto do orçamento paralelo e a justificativa. Ele é um talento, tem capacidade de ser um novo líder em Sergipe, mas a vaidade e a subordinação aos áulicos o prejudicam.


JLPolítica - Em algum instante o senhor esteve conjurando contra os propósitos e os interesse políticos e eleitorais de Rogério?

RR - Nunca. Talvez eu seja um dos companheiros que mais tem sido sincero com ele e o ajudado. Em uma retrospectiva de tudo que conversamos, discutimos e divergimos desde 2010, ele mesmo confessou inúmeras vezes que eu tinha razão. O problema é que faço as críticas diretas e incisivas e tenho um leque forte de testemunha que comprovam.
 

JLPolítica - Mas o senhor mantém o seu ponto de vista de que Rogério estaria praticando política estudantil ao enfrentar com um tridente o govenador Belivaldo Chagas?

RR - Com certeza. O rompimento com o Governo de Belivaldo não poderia ter acontecido se não fossem dois motivos: 1) O rompante bem ao feitio do que chamamos política estudantil - que só vale para a política estudantil; 2) Um vácuo de direção partidária, que dá a impressão de se movimentar como corda de caranguejo.

A família Rômulo Rodrigues num flash instantâneo de felicidade

DAS FALTAS E AUSÊNCIAS DE DÉDA E ZÉ EDUARDO

“A falta que fazem Marcelo Déda e José Eduardo é enorme. José Eduardo era focado na unidade e organização do PT, como líder inquestionável. Déda era a dimensão da política, e com certeza estaria ocupando o lugar que havia conquistado: o de líder inconteste de Sergipe e, provavelmente, seria senador eleito em 2014”

JLPolítica - O senhor acha uma medida acertada ou perigosa estarem os governista sergipanos trabalhando a sucessão de Belivaldo como se não tivesse um único pré-candidato da oposição a ser levado a sério? (Pondere-se que Rogério não pode ser considerado de oposição, por ser do mesmo nicho).

RR - Na política, os atores têm que observar dois jogos: o de movimento e o de posição. Às vezes eles se confundem e é daí que vêm os erros, os que são comuns e os crassos. Os vencedores são sempre os que erram menos.
 

JLPolítica - Esta é uma pergunta um pouco fora de rota, mas se Marcelo Déda não tivesse morrido tão precocemente, estaria ocupando que lugar na política de Sergipe hoje?

RR - A falta que fazem Marcelo Déda e José Eduardo é enorme. José Eduardo era focado na unidade e organização do Partido dos Trabalhadores, como líder inquestionável. Marcelo Déda era a dimensão da política, e com certeza estaria ocupando o lugar que havia conquistado: o de líder inconteste do Estado de Sergipe e, provavelmente, seria senador eleito em 2014, o que poderia ter alterado o roteiro do impeachment da presidente Dilma.

 

JLPolítica - Esoteriocamente falando, o senhor vê algo no contexto das mortes prematuras de Déda e de Zé Eduardo Dutra, ambos muito amigos, ambos muito importantes no âmbito da política e ambos levados por uma mesma doença?

RR - Se tiver algo em comum nas duas tragédias, só posso identificar como descuido. A dedicação de quem milita para valer no campo da esquerda, com as formações teóricas que eles tinham, leva muitos de nós a esquecer que nossos corpos precisam de mais atenção.

Rômulo Rodrigues ao lado do seu mito Luiz Inácio Lula da Silva durante um jantar: el salvador

ELIANE AQUINO SEM VIGOR PRA DEPUTADA FEDERAL

“E já disse pessoalmente isso a ela. Na minha leitura, a eleição para deputado ou deputada federal é a mais difícil com a nova lei. Eliane pode ocupar um espaço importante no vazio político e não pode ir para uma disputa que encerre sua carreira política, se perder”

JLPolítica - Mas, no geral, o senhor identifica algum tipo de vazio de liderança na política de Sergipe?

RR - Vazio total e tem gente deixando passar em branco. Dos tempos da ditadura militar para cá, Sergipe teve quatro líderes políticos de estaturas nacional: Seixas Dória, João Alves, Marcelo Déda e Jackson Barreto. Deles, só Jackson permanece, mas sem o fôlego de outrora, e isto é sentido no samba do crioulo doido que é cantado nas rodas políticas atuais.


JLPolítica - O senhor acha que a pré-candidatura da vice-governadora Eliane Aquino a deputada federal tem vigor? Ela pode mesmo se eleger deputada federal?

RR - Acho que não e já disse pessoalmente isso a ela. Na minha leitura, a eleição para deputado ou deputada federal é a mais difícil com a nova lei. Eliane pode ocupar um espaço importante no vazio político e não pode ir para uma disputa que encerre sua carreira política, se perder. Vejo que, a disputa colocada para ela é a de senadora onde, a depender do desempenho, mesmo perdendo, poderá se manter forte no cenário político.


JLPolítica - Com a candidatura de Eliane, qual será o destino do projeto do deputado federal João Daniel? Ele se reelege ou se pulveriza?

RR - Se houver a disputa de João Daniel e Eliane Aquino para o mandato de deputado federal, com a grande perspectiva de só eleger um dos dois, quem sai perdendo é o Partido dos Trabalhadores, com o desaparecimento de um dos seus quadros mais importantes. Mesmo assim, deixemos passar o 31 de maio.

Aqui, com a família Rodrigues, Lula, Marcos Santana e Olivier Chagas: Rômulo Rodrigues se sente o pinto no lixo

 

DA FRAQUEZA DOS TRÊS MANDATOS NO SENADO

Reconheço apenas o de Rogério Carvalho, apesar dos erros citados, pelo seu compromisso com as bandeiras da classe trabalhadora, dos excluídos e do desenvolvimento inclusivo de Sergipe. Só torço para que ele entenda bem o que é ser um senador da República e o seu papel de liderança política de Sergipe”

JLPolítica - Qual é o seu conceito dos mandatos dos três senadores que hoje representam o Estado de Sergipe?

RR - Reconheço apenas o de Rogério Carvalho, apesar dos erros citados, pelo seu compromisso com as bandeiras da classe trabalhadora, dos excluídos e do desenvolvimento inclusivo do Estado de Sergipe.

 

JLPolítica - Mas o senhor subscreve 100% o modo de Rogério Carvalho desempenhar o mandato dele?

RR - Não subscrevo, até para não ser contraditório com o que disse. Só torço para que ele entenda bem o que é ser um senador da República e o seu papel de liderança política de Sergipe.

 

JLPolítica - Na sua visão, qual é hoje o nome político que se apruma no horizonte para resgatar esta vaga do Senado em 2022?

RR - Já está implícito em tudo que eu disse: o melhor nome, e o cavalo pode estar sendo selado, é o de Eliane Aquino, que inclusive resolve muito dos problemas da política do Estado e de Lula.

Ato em defesa dos trabalhadores na constituinte em 1986

DA URGÊNCIA DE ELEGER LULA NO PRIMEIRO TURNO

“A utopia está a 100 passos de você. Você dá 10 passos à frente e ela se afasta 10. A eleição de Lula no primeiro turno é difícil, mas deverá ser buscada a unhas e dentes por todos os democratas do país para evitar uma provável onda de violência do fascismo em um segundo turno”
 

 JLPolítica - O senhor acha a eleição de senador deste ano, com um mandato só, mais difícil do que a de 2018, que dispunha de duas vagas?
RR - A eleição solteira para o Senado tem a vantagem de poder ser disputada com uma estratégia bem montada para adesão do voto, sem a loucura da cata ao segundo voto.

 

JLPolítica - Seria perigoso para Jackson Barreto se aventurar pela terceira vez nessa disputa, tendo sido eliminado em duas delas?

RR - Veja bem: no dia primeiro de abril de 2019 tive uma conversa muito demorada com Jackson Barreto na sede do PMDB e disse que a história política dele não poderia se encerrar com uma derrota e que ele deveria voltar em 2022 disputando o mandato de deputado federal para construir a volta por cima e pensar em encerrar sua grande trajetória política. Continuo pensando assim.


JLPolítica - Das grandes lideranças contemporâneas da política de Sergipe - João Alves, Jackson Barreto, Antônio Carlos Valadares, Albano Franco, Marcelo Déda - quem mais errou em suas performances?

RR - Acho difícil alguém ter uma balança para pesar erros e acertos, bem como uma trena para medi-los. Mesmo assim repito: o maior de todos eles foi Marcelo Déda com sua dimensão exuberante. Entretanto, a melhor história política é a de Jackson Barreto. Cito apenas um fato: deputado federal em primeiro mandato, em plena ditadura militar, foi a Madri para a posse de Violeta Chamorro, La Passionara, como deputada federal constituinte, após a queda do ditador Francisco Franco. Ela era uma revolucionária eleita deputada pelo Partido Comunista Espanhol.

Rômulo Rodrigues faz festa em 2004 pela reeleição de Marcelo Déda ao lado do eterno filhote Rafael

SEM BOLSONARO, O BOLSONARISMO SUCUMBE

“Se o Brasil tiver a sorte de se desfazer do governo Bolsonaro, com certeza o bolsonarismo logo sucumbirá. Porém, ao mal maior, que foi o renascer do fascismo e do neonazismo, que está impregnado nos estamentos militares, vai ter que ser intensificado o combate sem trégua”

JLPolítica - É uma utopia de petistas achar que Luiz Inácio Lula da SiIva pode ganhar a eleição de presidente este ano ainda num primeiro turno? Por que o senhor acredita tanto nessa hipótese?
RR - A utopia está a 100 passos de você. Você dá 10 passos à frente e ela se afasta 10. A eleição de Lula no primeiro turno é difícil, mas deverá ser buscada a unhas e dentes por todos os democratas do país para evitar uma provável onda de violência do fascismo em um segundo turno.

JLPolítica - O senhor consegue visualizar os atropelos e perrengues de uma eventual gestão de Lula a partir de 2023, como consequência do saldo do direitismo deixado por Jair Bolsonaro e pelo bolsonarismo?
RR - Não vejo atropelo. Lula já tem a receita de governar com a inclusão pelo direito e a inclusão pela renda que deu muito certo em tempos de calmaria e a política de enfrentamento à crise do capitalismo de 2007, que deixou o Ocidente de queixo caído.

 

JLPolítica - O senhor consegue vislumbrar as consequências da animosidade do Brasil presidido por mais quatro anos por Bolsonaro? O que de fato ocorreria com o país?

RR - Se o Brasil tiver a sorte de se desfazer do governo Bolsonaro, com certeza o bolsonarismo logo sucumbirá. Porém, ao mal maior, que foi o renascer do fascismo e do neonazismo, que está impregnado nos estamentos militares, vai ter que ser intensificado o combate sem trégua.

Rômulo Rodrigues em 1º de maio de 1971, dia em que Severina Pereira Rodrigues lhe amarrou pelo sim

DA DURA MISSÃO DE UM FUTURO GOVERNO DO PT 

“O próximo governo nacional do PT tem que trazer de volta um país no qual se respire liberdade, onde as oportunidades de acesso às universidades voltem a ser oferecidas aos filhos dos trabalhadores e trabalhadoras, onde seja regatada a igualdade de gênero, de raça, de oportunidade de trabalho, de acesso à cultura e tudo o mais que tinha e que o golpe civil, militar, judicial e de classes roubou”

JLPolítica - Por que o senhor não consegue identificar a mais mínima fagulha de virtude em Bolsonaro?

RR -Jair Bolsonaro teve o mérito de trazer à tona a enorme quantidade de neonazistas e fascistas que estavam escondidos nos armários Brasil afora. Ao insistir na propagação do ódio, externou e deu forma ao feminicídio, ao racismo, ao preconceito, à intolerância religiosa, à homofobia e a tudo de ruim que está acontecendo em seu projeto militar e militarista. No geral, não dá para ver mérito algum em um cidadão que foi expulso de sua corporação como terrorista, que com 28 anos como deputado federal disse que usava as verbas de gabinete para comer gente, institucionalizou o crime da rachadinha, botou três filhos na rota de tal crime e defendeu no plenário da Câmara dos Deputados um assassino, torturador e criminoso cruel com seu exemplo de ser humano.

 

JLPolítica - O que os candidatos a presidente da República e ao Governo de Sergipe vão ouvir do povo brasileiro e sergipano nesse 2022?

RR - Provavelmente ouvirão muito descrédito com a política e que a juventude deseja cultura, educação, oportunidade de trabalho e liberdade.


JLPolítica - O que o Brasil pode e deve esperar de um novo Governo nacional do PT?

RR - O próximo governo nacional do PT tem que trazer de volta um país no qual se respire liberdade, onde as oportunidades de acesso às universidades voltem a ser oferecidas aos filhos dos trabalhadores e trabalhadoras, onde seja regatada a igualdade de gênero, de raça, de oportunidade de trabalho, de acesso à cultura e tudo o mais que tinha e que o golpe civil, militar, judicial e de classes roubou.

JLPolítica - Mas senhor não faz nenhum mea culpa para o modo de ser e de agir do PT nos seus quatro governos nacionais?

RR - Mea culpa de quê? Das narrativas falaciosas de Roberto Jeferson, do capitão do mato Joaquim Barbosa, de Moro e da quadrilha de Curitiba? Sobre a minha militância, só faria depois de ouvir a dos milicos, dos banqueiros, dos membros do partido da justiça, do partido midiático, dos capitalistas em geral e de seus prepostos.

 

JLPolítica - Por que o senhor gosta tanto da logística, do cipoal e do imbróglio político no sentido dos bastidores?

RR - Logo cedo na militância aprendi que a gente não faz as coisas segundo sua vontade e sim obrigado pelas circunstâncias. Foram elas, as circunstâncias, que me tangeram pelas estradas das resoluções de conflitos trabalhistas e políticos. Aqui, no campo da política, quando os independentes do PT negaram a posse de Marcelo Déda, sem mandato e eleito democraticamente presidente estadual do partido, e eu fui incumbido de resolver o impasse. E resolvi. Outro, foi uma crise que poderia pôr em risco o mandato de senador de José Eduardo, oriunda de uma causa trabalhista, que também resolvi.

Família Rodrigues é quatrocentona no RN: Aqui teve até a Banda de Música do Caicó no tradicional almoço de 2004

PT FAZER UM MEA CULPA, JAMAIS!

“Mea culpa de quê? Das narrativas falaciosas de Roberto Jeferson, do capitão do mato Joaquim Barbosa, de Moro e da quadrilha de Curitiba? Sobre a minha militância, só faria depois de ouvir a dos milicos, dos banqueiros, dos membros do partido da justiça, do partido midiático, dos capitalistas em geral e de seus prepostos”

JLPolítica - Qual a justificativa para que, até hoje, aos quase 80 anos, e gostando tanto da política, o senhor nunca tenha obtido um mandato público?

RR - Não foi por falta de tentativas. A mais significativa foi a candidatura a governador em 1998, que costumo dizer que perdi a eleição por um dia: o dia da eleição, em que o povo não votou em mim. Teve para marcar posição e teve em que detectei uma reação interna muito grande contra minha candidatura.


JLPolítica - O que aconteceu para que, ao final do dia e ao pé da ata, o senhor deixasse de ser o candidato a senador das forças de esquerda, incluindo o PT, em 1990, e em seu lugar aparecesse um outro nome?

RR - A luta interna tem dessas coisas. Em fevereiro de 1988, circularam duas teses no PT e eu assinei uma delas, que deu origem à tendência interna Movimento Operário Popular – MOP -, que confrontava com a da Articulação de Déda, Zé Eduardo e muitos outros petistas. Logo em seguida teve um encontro do PT para a escolha do candidato a prefeito de Aracaju e o MOP apresentou a candidatura do sindicalista Edmilson Araújo, contra a de Marcelo Déda e deu empate. Num posterior segundo turno, Déda ganhou, Edmilson foi o vice e a campanha foi um desastre. Em 1990 meu nome foi aprovado como candidato a senador em todas os encontros municipais e no estadual que, por nossa indicação, colocou Zé Eduardo como candidato a governador. No dia do registro da chapa, fui avisado por Goisinho, que na liderança do PT na Assembleia Legislativa tinha sido redigida uma ata retirando meu nome e colocando o de Clóvis Barbosa. Demos o troco com uma campanha “Devolvam o PT aos trabalhadores” e Déda teve naquele 1990 apenas 10% da votação anterior na reeleição de deputado estadual.

 

JLPolítica - Os seus mandatos na esfera sindical lhe supriram?

RR - Com certeza. Contribuí na fundação do Sindiquímica, Sindimina, Sindicagese e outros sindicatos. Participei de importantes ocupações, como as da Barra da Onça, Borda da Mata, Pacatuba, e da fundação da Central Única dos Trabalhadores, da qual fui presidente por dois mandatos e um mandato na direção nacional, onde tive a honra de ter José Eduardo como meu suplente.

 

JLPolítica - O que foi possível fazer com eles ou em nome desses mandatos?

RR - Contribuí como negociador em importantes vitórias em campanhas salariais, marquei presença significativa na não privatização da Nitrofertil e extinção da Petromisa e no impedimento da saída do setor compras de Sergipe para a Bahia.

Rômulo Rodrigues recebe em visita o senador Zé Eduardo Dutra em seu sítio em dezembro de 2000

SINDICALISMO, OUTRA FRONTEIRA DE CONTRIBUIÇÃO

“Contribuí na fundação do Sindiquímica, Sindimina, Sindicagese e outros sindicatos. Participei de importantes ocupações, como as da Barra da Onça, Borda da Mata, Pacatuba, e da fundação da CUT, da qual fui presidente por dois mandatos e um mandato na direção nacional”

 JLPolítica - O senhor tem sido mais xingado do que elogiado pelas suas opiniões semanais como articulista no Jornal do Dia e aqui no JLPolítica?
RR - Não tenho acompanhado isso. Ao que parece, tenho contribuído para o debate político, e é o que importa. Trago do Caicó uma certeza: nas minhas costas, ninguém monta, principalmente quem me deve conta.

JLPolítica - O que lhe leva a estar, aos 78 anos, distante do seu Caicó há tantos anos e não conseguir apagar seu profundo apego pelas origens?
RR - A culpa é do escritor Tolstói, que me ensinou que para ser universal tem que elevar a sua aldeia. Considero que ninguém será completo na análise da Ciência Política se não tiver nascido e vivido em Caicó.

JLPolítica - O senhor tem lado na guerra da Rússia contra a Ucrânia?
RR - Em todo e qualquer conflito com vítimas, estou e estarei do lado das vítimas. No caso atual, como em todas as guerras, a primeira vítima é a verdade.

JLPolítica - Neste caso...
RR - Fica difícil uma leitura isenta quando só existe uma versão, que é a da Casa Branca, de onde a mídia brasileira conta sua versão. Quem atacou quem? A organização criminosa OTAN atacou ou provocou o ataque? E o Iraque e a Líbia? E o ataque ao Palácio de La Moneda e os recentes golpes de Estado mundo a fora? The Financial Times diz: Guerra na Ucrânia é a “melhor chance” de Biden salvar o mandato. Quanto mais duradoura, melhor. O chefe da diplomacia russa enfatiza: “luta contra o nazismo”. O presidente do México denuncia os EUA: desde o século 19, sempre realizam operações contra países da América Latina.

Rômulo Rodrigues num congresso de trabalhadores da Petrobras em 1994, defendendo teses
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