Entrevista

Jozailto Lima

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Sérgio Lucas, juiz e cantor: “A boa música é poesia com regras próprias”

JLPolítica - O senhor não planejou a magistratura?
SL -
Eu não sonhava em ser magistrado e, incrivelmente, fui aprovado em dois concursos. Sou cristão e acredito nos desígnios divinos. O que sempre almejei, desde o início da minha carreira e para minha vida, é ser digno do papel que Ele me reservou. Ultimamente tenho tido a oportunidade de substituir na desembargadoria e tenho aprendido como é julgar em um órgão colegiado. Posso testemunhar que o ritmo de trabalho é extremamente desgastante. Se for da vontade do senhor Deus me distinguir a ponto de integrar a nossa Egrégia Corte de Justiça, que Ele me dê as aptidões necessárias para o exercício dessa atribuição.

Em 1979, aos 14 anos, ao lado do pai André Lucas, encontro com sua majestade o Rei do Baião, Luiz Gonzaga: à esquerda, com Gonzaga lhe apalpando o ombro
Sérgio Menezes Lucas nasceu em Aracaju no dia 2 de julho de 1965

JUDICIÁRIO DO POSSÍVEL PELA PAZ DOS CONFLITOS
“A Justiça é um caminho a ser percorrido. Nosso Judiciário é formado por homens e mulheres abnegados e cônscios do papel de pacificação de conflitos. Somos seres humanos que tentamos suplantar a nossa falibilidade com esforço diuturno”

JLPolítica - Qual é o seu conceito da Justiça praticada em Sergipe e no Brasil atualmente? Ela se presta ao que etimologicamente enuncia no nome?
SL -
A Justiça é um ideal. É um caminho a ser percorrido. O nosso Judiciário é formado por homens e mulheres abnegados e cônscios do seu papel de pacificação de conflitos. Somos, magistrados e servidores, seres humanos que tentamos suplantar a nossa falibilidade com esforço diuturno. Por outro lado, vemos, com preocupação, que a população do país é pouco propensa à solução extrajudicial dos conflitos, o que faz do Judiciário desaguadouro de demandas que poderiam ser resolvidas sem a necessidade de sua intervenção. No que tange ao Estado de Sergipe, somos o único Tribunal do país com tripla premiação Diamante do Conselho Nacional de Justiça. Isso é motivo de nosso orgulho e, certamente, do nosso Estado.

JLPolítica - Na magistratura, o senhor sonha com o topo dela, que é a desembargadoria?
SL -
Quando eu era estudante universitário e, ao mesmo tempo, servidor da Justiça do Trabalho, imaginava que, a exemplo dos meus colegas de trabalho, eu iria advogar. Para minha tristeza, fui o primeiro servidor da Justiça do Trabalho a ter a carteira negada pela OAB, mesmo com base no antigo Estatuto que previa impedimento e não incompatibilidade. À época, estávamos na efervescência da Assembleia Nacional Constituinte e os bacharelandos em direito sonhávamos em integrar o Ministério Público que estava ganhando atribuições e responsabilidades que faziam o ideal de todos os jovens sedentos por mudanças.

Num dos papeis que Sérgio leva muitíssimo a sério: o de pai. Aí, com os dois marmanjos e com Maria Beatriz de Oliveira Lucas, que já lhe tornou avô de Iasmin Vitória Oliveira Lucas, 15, e Iago Gabriel Herzog Lucas, 12

QUE O JUDICIÁRIO RETOME PRESENCIALMENTE
“Sou totalmente favorável ao retorno. A demanda da minha unidade judicial está represada. São milhares de necessitados e quase todos dependem da Defensoria Pública. Esta não consegue atender a contento pessoas desprovidas de fácil acesso à tecnologia”

JLPolítica – O senhor não gostou da magistratura alagoana?
SL -
Apaixonei-me pelo Estado vizinho. Fiz amigos que são presentes até os dias de hoje. Vivi as primeiras experiências da magistratura na Terra dos Marechais. Ocorre que os meus familiares, os meus amigos de infância e de adolescência, as minhas raízes são sergipanas e tive a dádiva divina de, também, ser aprovado em concurso para a magistratura do meu Estado.

JLPolítica - O senhor, que já testou positivo para a Covid-19 e passou bem pelo processo, tem que opinião sobre este puxa-e-encolhe de voltar ou não às atividades presenciais do Poder Judiciário de Sergipe?SL - Sou totalmente favorável ao retorno. Sou titular de uma Vara de Família que fica situada na periferia e que era uma antiga Vara de Assistência Judiciária. A demanda da minha unidade judicial está represada. São milhares de necessitados e quase todos dependem da Defensoria Pública. Esta, apesar dos esforços, não consegue atender a contento pessoas desprovidas de fácil acesso à tecnologia. Comerciários, feirantes, entregadores, farmacêuticos, trabalhadores do transporte e da limpeza não têm a opção de “trabalhar por nós” na segurança de suas casas. Mas, aceitariam de bom grado que os apoiadores do “fique em casa” paguem os seus salários.

JLPolítica - O senhor não acredita boi trabalho à distância?
SL -
O teletrabalho é um paliativo e não uma panaceia. A administração deve e está disponibilizando os meios necessários para o retorno. É ela quem define prazos e modos, inclusive cessando o acesso ao teletrabalho e, em sendo o caso, tomando medidas contra a usurpação de suas atribuições.

Aqui, com Maria Beatriz e os netos Iasmin Vitória e Iago Gabriel Herzog

ISONOMIA NO TRATAMENTO AOS ARTISTAS
“Não é justo que as atrações de outros Estados continuem recebendo bons cachês até a data da apresentação enquanto os artistas locais continuem mendigando para receber, com atraso, pagamentos irrisórios”

JLPolítica - Mas para o senhor, qual é mesmo a responsabilidade do poder público sobre a produção e difusão das artes de um modo geral e de seus autores?
SL -
A preservação da cultura é uma obrigação do poder público, que deve ter agendas propositivas. Calendário definido e divulgação são ações inerentes a essa obrigação.

JLPolítica - Para o senhor, como foi viver um São João sem espetáculo público, como o deste ano?
SL -
  Foi inusitado e triste, porque muitos dos nossos músicos, técnicos e demais integrantes da cadeia produtiva musical têm os festejos juninos como principal época para apresentarem os seus trabalhos e angariarem recursos.

JLPolítica - O que o senhor programa para o seu futuro próximo na música?
SL -
Quero continuar a ter a música como uma aliada. Quero, na medida do possível, divulgar as nossas riquezas culturais como fazem os nossos artistas.

Aqui, no dia da posse como juiz de Sergipe no já distante 1994

DAS RAZÕES DO AFETO POR PORTO DA FOLHA
“Na segunda metade da minha adolescência passei a frequentar a antiga “Curral do Buraco”. Encantei-me com a riqueza cultural do local, com o fato de ser a única cidade do Estado com um sotaque próprio, com comunidades indígena e quilombolas vivendo como vizinhos”

JLPolítica - Seu primeiro disco chama-se “Buraqueiro”, que é o gentílico paralelo e informal dos nascidos em Porto da Folha. Além do seu pai nascido neste lugar, o que é que lhe prende a esta cidade?
SL -
Na segunda metade da minha adolescência passei a frequentar a antiga “Curral do Buraco” - daí o gentílico paralelo e informal de que fala a sua pergunta. Encantei-me com a riqueza cultural do local, com o fato de ser a única cidade do Estado com um sotaque próprio, com comunidades indígena e quilombolas vivendo como vizinhos, por ter a maior Festa de Gibão do Brasil. Tenho muitos amigos buraqueiros, sou cidadão portofolhense e há uma troca de simpatia e afeto.

JLPolítica - Mas sua memória afetiva primeira, a de formação, está mais para Porto da Folha e ou para Canhoba?
SL -
A primeira, nunca neguei, é Canhoba. Frequentei esta cidade desde a tenra idade. Tenho muitos parentes e amigos naquele município. Mas não me atenho a comparações. Ambas as cidades fazem parte da minha história e ocupam significativo espaço em meu coração.

JLPolítica - O senhor acha que a velha cantilena da necessidade de ajuda aos artistas por parte do poder público é algo apenas de Sergipe, ou isso é universal?
SL -
O que o poder público tem obrigação de fazer é não aumentar o fosso que nos separa das atrações alienígenas. Isonomia de tratamento seria o primeiro sinal de respeito. Não é justo que as atrações de outros Estados continuem recebendo bons cachês até a data da apresentação enquanto os artistas locais continuem mendigando para receber, com atraso, pagamentos irrisórios.

A “santa ceia” da família reunida: Sérgio, um religioso que bate continência pra Deus

FÉ NA MÚSICA SERGIPANA
“Sou bairrista, irremediável e ufanisticamente bairrista. Sou fã da nossa música e dos nossos artistas. Assisti à fase áurea da nossa produção musical em meados da década de 80 e parte da década de 90 e tenho visto com esperança o atual momento”

JLPolítica - Enquanto cultor e autor, qual é o seu sentimento frente à música que se faz hoje e sempre em Sergipe?
SL -
Sou bairrista, irremediável e ufanisticamente bairrista. Sou fã da nossa música e dos nossos artistas. Assisti à fase áurea da nossa produção musical em meados da década de 80 e parte da década de 90 e tenho visto com esperança o atual momento, embora ache que há espaço para um reconhecimento ainda maior.

JLPolítica - Como o senhor encara este debate eterno no entorno de uma suposta deficiência na prática da sergipanidade pelos sergipanos?
SL -
Esse é de fato um assunto recorrente. Lamentavelmente, à exceção do ciclo de intelectuais e de alguns poucos apaixonados pela nossa cultura, a nossa sergipanidade ocorre muito da boca pra fora. Somos o único Estado em que o povo pergunta qual a atração artística “de fora” irá abrilhantar as festas e entende que os eventos somente têm valor se importamos artistas.

JLPolítica - As artes - incluindo aí a música, o teatro, a literatura, a dança e o cinema - têm mais compromisso com a prática e o exercício dessa sergipanidade do que outras atividades, ou isso é algo difuso?
SL -
Como disse, o sentimento de sergipanidade é identificável em ciclos de intelectuais. E esses, em sua grande maioria, são cultores da arte. 

Nesta foto, Sérgio Lucas, ao fundo, faz pose juntamente com familiares de esposa Karina Angélica - sogros, cunhados e sobrinhos

LUIZ GONZAGA POR RUMO E NORTE
“Ter referência não é o mesmo que ter âncora travadora. Tanto assim o é que a música nordestina evoluiu, que temos diversidade de artistas com produções que não são forrozeiras e que fazem sucesso mundial”

JLPolítica - O senhor tem lado nessa polêmica que tenta apartar poetas de compositores e letristas?
SL -
Sou compositor e conheço a dificuldade de produzir uma narrativa tendo os limites da sonoridade e da métrica. Acho que um bom letrista deve ter o pé na poesia. Por outro lado, os exclusivamente poetas, por terem uma maior liberdade, podem ir mais profundamente nas temáticas que se dispõem a enfrentar.

JLPolítica - Então o senhor identifica em grandes letristas, como Noel Rosa, Zé Dantas, Aldir Blanc, Humberto Teixeira, Chico Buarque, João Silva, Vander Lee, Caetano Veloso ou Gilberto Gil um pouco do que há em Carlos Drummond de Andrade ou Manuel Bandeira?
SL -
Sim. Cada um com suas dificuldades e genialidades. Acho que o Prêmio Nobel de Literatura concedido ao compositor, letrista e cantor Bob Dylan torna ainda mais tênue essa linha divisória. Para resumir, a boa música é poesia. Uma poesia com regras próprias.

JLPolítica - As Academias de Letras e Artes das quais o senhor participa lhe contemplam e lhe preenchem em que nível?
SL -
Talvez muitos não saibam, mas tenho alguns textos publicados em compilações. Sou prefaciador de alguns livros e tenho uma página de expressões idiomáticas sergipanas no Instagram, que é a mais completa página de expressões regionais daquela rede social. Ainda assim, vejo-me na academia como representante da música.

Sérgio Lucas numa imagem do vídeo da música Amo Aracaju, que lhe rendeu mais de 50 mil visualizações na internet

“SOU ABERTO ÀS PARCERIAS”
“Normalmente componho sozinho. Tenho poucas músicas em parceria. Gosto de receber melodias e trabalhar a parte da letra da composição. Sou aberto às parcerias e me sinto honrado e feliz quando sou convidado”

JLPolítica - Afinal, o que é a música para o senhor?
SL -
A música é a primeira entre todas as artes. Não estou falando em importância, porque isso depende da percepção individual. Falo em primazia, dos tempos em que os sons uniam para defesa ou ataque a inimigos, predadores ou caças. Individualmente, a música é, para mim, mais que um deleite. É uma válvula de escape que me permite suportar as agruras da vida e, também, da profissão.

JLPolítica - Até quando o senhor acha que a música brasileira feita no Nordeste vai bater continência para Luiz Gonzaga no campo da significação?
SL -
Eu creio que sempre. Gonzagão foi mais do que um pioneiro. É uma referência, uma bússola e, por sua qualidade e significação, um eterno motivo de orgulho, o que justifica-se toda essa reverência que lhe fazem os que produzem música nesse quase continente chamado Nordeste do Brasil.

JLPolítica - Mas esse apego ao passado não embaça o futuro?
SL -
Não vejo dessa forma. Ter referência não é o mesmo que ter uma âncora travadora. Tanto assim o é que a música nordestina evoluiu, que temos diversidade de artistas com produções que não são forrozeiras e que fazem sucesso mundial.

Num instante em companhia do cantor e compositor pernambucano Jorge de Altinho

DOS PRÉ-REQUISITOS PARA UMA BOA COMPOSIÇÃO
“Dou muita ênfase à letra, à mensagem, ao trato estético com as palavras. Não faço restrições de gênero musical. No entanto, abomino músicas de orgia e ostentação tão em voga nos últimos tempos”

JLPolítica - Foi difícil gravar com Adelmário Coelho, Flávio José e Alcimar Monteiro, e que prazer estético isso lhe rendeu?
SL -
 Não foi difícil. Nos três casos, o contato foi intermediado por amigos em comum, e aqui cito-os: John Kleber, Dida Araújo e Ricardo Santiago. O prazer foi, na verdade, a realização de sonhos de fã.

JLPolítica - Em poucos discos gravados, o senhor já teve mais de meia dúzia de sergipanos como convidados seus. O senhor sente necessidade dessa ação gregária?
SL -
Tive a sorte e a alegria de ser muito bem recebido pelos artistas de nossa terra. Muitos deles são meus ídolos. Ter a possibilidade de gravar uma música juntos, de receber seus ensinamentos, é uma alegria sem tamanho.

JLPolítica - Esse gregarismo se repete nas composições ou o senhor é solitário na hora de compor?
SL -
Normalmente componho sozinho. Tenho poucas músicas em parceria. Gosto de receber melodias e trabalhar a parte da letra da composição. Sempre tive essa facilidade desde os tempos de adolescente, quando fazia paródias. Sou aberto às parcerias e me sinto honrado e feliz quando sou convidado. 

Em encontro com o músico e mecenas sergipano Mingo Santana: muita deferência para que é produzido musicalmente em Sergipe

DOS LIMITES ENTRE MÚSICA E MAGISTRATURA
“A magistratura é a minha prioridade. Já aconteceu de ter plantão do Judiciário em plena noite de São João e aí sequer pensei em permutar. Aprendi com o tempo: marco minhas férias para os nossos períodos festivos”

JLPolítica - O senhor preferiria ser rotulado de um magistrado cantador ou de um magistral cantador?
SL -
Atrevo-me a achar que sou mesmo o primeiro. Mas com certeza gostaria de merecer o segundo título.

JLPolítica - O magistrado atrapalha o cantor e compositor ou vice-versa?
SL -
Não acho nem uma coisa e nem outra. Coloquei limites claros e a magistratura é a minha prioridade. Já aconteceu de ter plantão do Judiciário em plena noite de São João e aí sequer pensei em permutar. Aprendi com o tempo: marco minhas férias para os nossos períodos festivos.

JLPolítica - Quais seriam os pré-requisitos para que uma composição seja tida como boa na esfera do forró, do samba ou de qualquer canção?
SL -
Eu dou muita ênfase à letra, à mensagem, ao trato estético com as palavras. Não faço, a princípio, restrições de gênero musical. No entanto, abomino músicas de orgia e ostentação tão em voga nos últimos tempos.  

Sérgio Lucas costuma fazer da amizade um patrimônio duradouro e plausível: neste grupo, eles celebram 36 anos de encontro de sins

CIENTE DOS ESPAÇOS QUE BUSCA
“Eu costumo dizer que tenho uma caminhada musical. Comecei tarde e não pretendo parar, pois na música também me realizo. Mas minha carreira, na verdade, é da magistratura”

JLPolítica - Com três CDs e dois EPs gravados, e tudo começado em 2013, já aos 48 anos, o senhor considera que tem uma carreira musical?
Sérgio Lucas -
Eu costumo dizer que tenho uma caminhada musical. Comecei tarde e não pretendo parar, pois na música também me realizo. Só quem conhece o prazer de ouvir uma obra sua no rádio ou na televisão, ou ainda saber que alguém gosta e sabe cantar uma música de sua autoria pode mensurar o quanto é gratificante. Mas minha carreira, na verdade, é da magistratura.

JLPolítica - Pelo fato de ser um juiz que compõe, canta e faz shows, o senhor sente, na prática, estranhamento das pessoas frente aos ritos sisudos, exigidos pela magistratura, e os lúdicos, permitidos por um compositor?SL - Achei, sinceramente, que esse estranhamento seria mais forte. Aliás, foi um dos motivos pelos quais retardei o lançamento das minhas músicas. Depois, felizmente, a recepção superou todas as minhas expectativas.

JLPolítica - Mas já foi, ainda que indiretamente, chamado a atenção para a sua condição de músico frente à de magistrado por alguém da magistratura ou de fora dela?
SL -
 Sim, claro. Tenho amigos e parentes que se preocupam comigo e, pela proximidade, externam essa preocupação. Fazem-no por cuidado e não como reprimenda.

JLPolítica - O senhor próprio já se autovigiou nessa mistura?
SL -
Desde o momento em que retardei o lançamento de minhas músicas, que me recusava a colocar minha voz até os dias de hoje. Tenho obrigação de não expor negativamente a minha profissão e não fujo dessa obrigação.

Um-metido-a-atleta: aí num ajuntamento de veteranos do vôlei sergipano

“A nossa sergipanidade ocorre muito da boca pra fora”
16 de agosto de 2020 - 8h

Sérgio Lucas é um dos reconhecidos compositores da música brasileira feita em Sergipe, um bom e rigoroso intérprete de si mesmo no que faz na linha do forró - xaxados, xotes, baiões, toadas - e um juiz do Judiciário do Estado de Sergipe com 26 anos de carreira e uma prestação de serviços sem máculas funcionais.

Sérgio Lucas está na segunda entrância e a ficha funcional dele não tem uma advertência sequer. Aos 28 anos, 1994, Sérgio pôs o pé na magistratura de Sergipe - dois anos antes houvera posto na de Alagoas. Mas queria a da sua casa.

Aos 14 anos, levado pelo pai, o militar André Lucas, Sérgio Lucas assistiu anestesiado e de camarote a um show de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, em Ribeirópolis. Isso era 1979 e o fato se constitui num privilégio para poucos.

Depois do show, ainda foi acolhido pelo velho Lua, que lhe abraça durante uma conversa com André Lucas como se estivesse a prever naquele menino o destino de alguém que reproduziria mais tarde o mesmo gênero de sua vasta e reconhecida obra. Ali, naquele idade, Sérgio Lucas já era versado em fazer paródias, talvez semente do compositor que lhe habita hoje.

Mas ao cursar direito pela Universidade Federal de Sergipe e cair na magistratura - pensava antes numa carreira pelo Ministério Público -, Sérgio Lucas deu um pouco de cotovelada na música que jazia em seu interior. Nunca a trouxe à baila com o devido rigor. Postergou-a.

Veio fazer isso somente em 2013, já aos 48 anos, quando grava e lança seu primeiro CD, “Buraqueiro”, e a partir dele estabelece uma relação profissional com o ato de compor, cantar, gravar e fazer shows.

O magistrado cantador admite que por um bom tempo se “autovigiou” nessa mistura entre os rigores da magistratura e a música. “Desde o momento em que retardei o lançamento de minhas músicas, que me recusava a colocar minha voz até os dias de hoje”, diz ele.Mas quando se entregou, Sérgio gostou do resultado - e o leva a sério. Claro que Sérgio alimenta bem mais a magistratura. A propósito disso, faz até um trocadilho bem esportivo, ao estilo do humor lá dele: na música, tem “uma caminhada”. Na magistratura, “uma carreira”.

Mas faz uma concessão atenuante. “Comecei tarde e não pretendo parar, pois na música também me realizo. Só quem conhece o prazer de ouvir uma obra sua no rádio ou na televisão, ou ainda saber que alguém gosta e sabe cantar uma música de sua autoria pode mensurar o quanto é gratificante”, constata ele.

Nesta caminhada, Sérgio Lucas já vai com três CDs e dois EPs gravados. E já conseguiu trazer para o seu centro cantante figuras de proas da música nordestina, com quem divide o canto em seus CDs, como Adelmário Coelho, Flávio José e Alcimar Monteiro.

Isso tudo, pelo inegável afeto que ele nutre pela música. “A música é a primeira entre todas as artes. Individualmente, a música é, para mim, mais que um deleite. É uma válvula de escape que me permite suportar as agruras da vida e, também, da profissão”, diz.

Nesta Entrevista, apesar de não viver materialmente da música, Sérgio Lucas levanta o crachá em favor de mais respeito da parte do poder público aos sergipanos que vivem dela, anuncia deferência solene para com a música feita sem Sergipe, questiona as práticas da sergipanidade e confirma que alimenta o sonho do topo da magistratura, que é o posto de desembargador mais à frente.

“Ultimamente tenho tido a oportunidade de substituir na desembargadoria e tenho aprendido como é julgar em um órgão colegiado. Posso testemunhar que o ritmo de trabalho é extremamente desgastante. Se for da vontade do senhor Deus me distinguir a ponto de integrar a nossa Egrégia Corte de Justiça, que Ele me dê as aptidões necessárias”, diz.

Sérgio Menezes Lucas nasceu em Aracaju no dia 2 de julho de 1965. É filho de André Lucas e Lucien Gomes Menezes Lucas e é casado com a empresária do setor de estética e beleza Karina Angélica Freire Lucas, com quem é pai de Sérgio Roberto Freire Menezes Lucas, 23 anos, um bacharel em direito, e de André Rodrigo Freire Menezes Lucas,21, bacharelando em direito.

Antes, ele é pai da assistente social Maria Beatriz de Oliveira Lucas, 34 anos - que já lhe deu dois netos, Iasmin Vitória Oliveira Lucas, 15 anos, e Iago Gabriel Herzog Lucas, 12.

Sérgio Lucas formou-se em direito em 1990, tem especialização em Direito Civil e Direito Processual Civil, além ter cursado as Escolas Superiores da Magistratura de Alagoas e Sergipe.

Sérgio Lucas, com esposa Karina Angélica Freire Lucas e os dois rebentos Sérgio Roberto Freire Menezes Lucas e André Rodrigo Freire Menezes Lucas