Sheyla Galba: “O tratamento oncológico digno é real, e vai crescer no Brasil inteiro”

Entrevista

Jozailto Lima

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Sheyla Galba: “O tratamento oncológico digno é real, e vai crescer no Brasil inteiro”

2 de outubro de 2021
“Aracaju precisa de um olhar diferenciado, mais próximo e mais acolhedor para o cidadão”

A causa humana a que se dedica a professora Sheyla Galba, 45 anos, não é das mais simples, posto ser a todo tempo cercada de dores e ameaças à vida das pessoas - sobretudo a das mulheres.

Além disso, a causa dela - a do enfrentamento e do combate ao câncer entre mulheres - é crescente e, por vezes, negligenciada pelo poder público com suas burocracias excessivas e suas prioridades escassas.

Mas excesso de burocracia e escassez de prioridade não fazem parte da história pessoal de Sheyla Galba que, para ecoar mais e mais a defesa dessa causa, fez-se vereadora de Aracaju nas eleições do ano passado e empresta ao mandato uma dedicação exclusiva às mulheres em situação oncológica.

Aliás, antes mesmo de acessar o Parlamento Municipal da capital de Sergipe, ela já havia hasteado a bandeira do Mulheres de Peito, um coletivo que viu o drama das mulheres e buscou uma intervenção efetiva.

Se o mandato pelo Cidadania é consequência dessa luta, nada mais justa que Sheyla Galba procure fazer dele o que exatamente faz: “uma instituição” essencialmente a serviço dessa causa.

Daí, o reconhecimento que ela faz. “Desde que assumi o mandato na Câmara Municipal de Aracaju nossa luta por um tratamento digno contra o câncer ganhou mais voz e força”, diz.

“Utilizamos diversos discursos para relatar os amplos problemas na oncologia do Estado e cobrar soluções. Além disso, temos buscado junto à Secretaria Municipal de Saúde fazer com que Aracaju também se responsabilize pelos pacientes oncológicos, pois é aqui que eles são tratados e onde está a maior parte dos casos de câncer em Sergipe, incluindo os novos casos estimados”, reforça Sheyla Galba.

Sheyla Galba se aferra tanto à causa que defende, que diz que seu mandato não lhe serviria se um dia ela achasse que a luta por um tratamento digno para todos na esfera do câncer seria algo impossível. “No dia que eu tiver esse sentimento, eu abandono a política e esta luta”, diz ela.

E dá um diagnóstico triste. “Eu ouvi claramente de médicos conceituadíssimos, profissionais da saúde com experiência no tratamento e profissionais com experiência em gestão a informação de que temos recursos, temos mão de obra, o que precisamos é acabar com a burocracia que emperra que ocorra um tratamento de qualidade para a população”, diz.

“Eu acredito sim nesse slogan que criamos. O tratamento oncológico digno é real. Tanto é real que existe em Barretos, está existindo em Lagarto, e vai crescer no Brasil inteiro. Mas poderão até dizer que é assim porque é particular, mas é financiado pelo SUS e por doações. Então, eu acredito sim e isso não é utopia”, complementa. 

Com 2.929 votos em 2020, Sheyla Galba se elegeu vereadora como a 14ª mais votada: aí em dia diplomação
Mulher de garra forte, Sheyla Galba se desnuda num ensaio fotográfico durante tratamento. Kate Salomão, a autora da foto, morreu de câncer neste sábado, 2
LEGISLAR EM PRMEIRO MANDATO E SOB PANDEMIA
“Eu diria que foram meses de muito aprendizado. Acredito que precisamos fazer muito pelos aracajuanos. Aracaju precisa de um olhar diferenciado para o cidadão. Um olhar mais próximo, mais acolhedor. Acredito que quando as sessões forem presenciais também teremos oportunidade de ver melhor como funciona o parlamento”


JLPolítica - Como a senhora tem encarado estes nove primeiros meses de mandato na Câmara de Vereadores de Aracaju?
Sheyla Galba -
Eu diria que foram meses de muito aprendizado. Ainda estou conhecendo melhor o funcionamento da Casa em si, mas estou muito orgulhosa do trabalho que venho desempenhando. Acredito que precisamos fazer muito pelos aracajuanos. Aracaju precisa de um olhar diferenciado para o cidadão. Um olhar mais próximo, mais acolhedor. Acredito que quando as sessões forem presenciais também teremos oportunidade de ver melhor como funciona o parlamento.

JLPolítica - A senhora fundou a Associação Mulheres de Peito, a partir de uma luta por um tratamento digno contra o câncer para todas. Como foi entrar para a política depois desse processo?
SG -
Eu e mais quatro mulheres fundamos a Associação Mulheres de Peito. Naquele momento, buscávamos melhorias para nosso atendimento. Não vou ser hipócrita: ali, pensávamos em nós. De repente, o grupo foi crescendo quando percebemos que centenas de outras pessoas estavam com problemas em seus tratamentos.

JLPolítica - Que problemas seriam esses?
SG -
Eram máquinas quebradas, filas na radioterapia, entre outros. Em seguida, lutamos por melhorias no Hospital de Cirurgia e para que o governador Belivaldo Chagas pagasse a carreta que o Tribunal de Contas do Estado havia encaminhado recursos. Isso tudo fez com que eu sentisse a necessidade de estar na política para lutar de maneira efetiva por políticas públicas mais eficientes para que todos tenham um tratamento oncológico digno.

Mulheres de Peito, em dia de primeiro encontro para a fundação do grupo
MANDATO A SERVIÇO DA ONCOLOGIA E SUAS DORES
“Desde que assumi o mandato na Câmara Municipal de Aracaju nossa luta por um tratamento digno contra o câncer ganhou mais voz e força. Utilizamos diversos discursos para relatar os amplos problemas na oncologia do Estado e cobrar soluções”


JLPolítica - Após uma grande renovação na Câmara de Aracaju no ano passado, a sociedade aracajuana pode se ver bem representada?
SG -
Creio que todos que estão vereadores por Aracaju são legítimos representantes da população, eleitos de forma democrática pelo povo. Cada um exerce o mandato da maneira como julga ser a mais correta, mas sempre buscando defender os direitos dos cidadãos. Se estão certos ou não, somente o povo é que pode julgar.

JLPolítica - Mas a senhora, como se avalia?
SG -
O que posso falar é em relação ao trabalho que eu tenho buscado é que é o de fiscalizar a gestão municipal, visitando as comunidades para ouvir as demandas e cobrando do poder público as devidas soluções. E, pelos diálogos que tenho mantido com os aracajuanos, sinto que tenho seguido no caminho certo e busco melhorar diariamente para servir cada vez mais à população aracajuana.

JLPolítica - Ainda falando das Mulheres de Peito, sua luta é antiga, mas nesse primeiro ano de mandato na Câmara, que ações específicas a senhora destaca na luta contra o câncer?
SG -
Desde que assumi o mandato na Câmara Municipal de Aracaju nossa luta por um tratamento digno contra o câncer ganhou mais voz e força. Utilizamos diversos discursos para relatar os amplos problemas na oncologia do Estado e cobrar soluções. Além disso, temos buscado junto à Secretaria Municipal de Saúde fazer com que Aracaju também se responsabilize pelos pacientes oncológicos, pois é aqui que eles são tratados e onde está a maior parte dos casos de câncer em Sergipe, incluindo os novos casos estimados.

Família chegou junto, com alegria e descontração, durante tratamento a que Sheyla Galba se submeteu
HÁ MÁQUINAS DE RADIOTERAPIA, MAS HÁ FILA
“Recentemente, fiz um pronunciamento na Câmara denunciando problemas na radioterapia. Quando eu fazia tratamento, enfrentei inúmeras interrupções por causa de quebras constantes da máquina. Porém, para minha surpresa, mesmo com as máquinas funcionando, existe uma fila de espera no Hospital João Alves Filho”


JLPolítica - E no campo legislativo, o que foi feito?
SG -
Conseguimos aprovar o Projeto de Lei que institui o Dia Municipal de Combate ao Câncer, que é o 30 de janeiro, com o intuito de promover ações educativas e preventivas relacionadas ao câncer, ampliando os debates sobre as políticas públicas de atenção integral aos pacientes oncológicos. Além disso, reforçar o alerta à sociedade sobre a importância de conhecer os sinais e sintomas do câncer, visando o diagnóstico precoce. Foi um primeiro passo de muitos que estamos buscando em prol dos pacientes oncológicos do nosso Estado.

JLPolítica - Não lhe parece que a luta por um tratamento digno para todos - slogan de sua campanha - parece algo simplesmente comercial e que jamais conseguirá atingir?
SG -
No dia que eu tiver esse sentimento, eu abandono a política e esta luta. Nesta sexta-feira, no primeiro dia do mês de outubro, eu presidi uma sessão especial na Câmara de Vereadores de Aracaju, onde promovemos um amplo debate sobre os desafios para o tratamento oncológico. Vou lhe dizer uma coisa: eu ouvi claramente de médicos conceituadíssimos, profissionais da saúde com experiência no tratamento e profissionais com experiência em gestão a informação de que temos recursos, temos mão de obra, o que precisamos é acabar com a burocracia que emperra que ocorra um tratamento de qualidade para a população. Então, Jozailto, eu acredito sim nesse slogan que criamos. O tratamento oncológico digno é real. Tanto é real que existe em Barretos, está existindo em Lagarto, e vai crescer no Brasil inteiro. Mas poderão até dizer que é assim porque é particular, mas é financiado pelo SUS e por doações. Então, eu acredito sim e isso não é utopia. 

JLPolítica - Como está a “eterna batalha” pelos equipamentos de radioterapia? O problema se resolveu ou continua o impasse?
SG -
Recentemente, fiz um pronunciamento na Câmara denunciando problemas na radioterapia. Quando eu fazia tratamento, enfrentei inúmeras interrupções por causa de quebras constantes da máquina. Porém, para minha surpresa, mesmo com as máquinas funcionando, existe uma fila de espera no Hospital João Alves Filho.

Remar é preciso: equipe da Associação Mulheres de Peito, nas águas do Rio Sergipe
FALTA TRANSPARÊNCIA NA UNIDADE DE RADIOTERAPIA
“O que causa estranheza é que a justificativa apresentada para o problema é que há necessidade de mais profissionais, o que não tem cabimento, visto que recentemente foi divulgada a possibilidade de desligamento de profissionais que atuam na oncologia. Como é que se fala em desligamento de profissionais e a justificativa pela fila na radioterapia é a falta de profissionais?”


JLPolítica - Isso chega a durar que tempo?
SG -
Há pessoas que estão aguardando há dois meses para iniciar o tratamento. O pior é que não há transparência em relação a números de pacientes nesta condição. Segundo informações levantadas junto à gerente da Unidade de Radioterapia, 60 pacientes estão realizando tratamento nas duas máquinas. Porém, o que chama a atenção é que quando eu fazia tratamento eram 90 pacientes tratados em apenas uma máquina. Portanto, a gente precisa saber onde está o problema. Se em duas máquinas só tratam 60, por que existem mulheres e homens aguardando na fila para fazer radioterapia?

JLPolítica - Que justificativa o poder público oferece para isso?
SG -
O que causa estranheza é que a justificativa apresentada para o problema é que há necessidade de mais profissionais, o que não tem cabimento, visto que recentemente foi divulgada a possibilidade de desligamento de profissionais que atuam na oncologia. Como é que se fala em desligamento de profissionais e a justificativa pela fila na radioterapia é a falta de profissionais?Faço um apelo para que a secretária de Estado da Saúde e o governador do Estado tenham mais carinho e sensibilidade para com os pacientes oncológicos.

JLPolítica - E quanto aos medicamentos: as pacientes estão sendo assistidas em conformidade?
SG -
Atualmente não há falta de medicamentos. Porém, esse também é mais um dos problemas que volta e meia os pacientes com câncer enfrentam. Inclusive, desde que assumi o mandato relatei diversas vezes a falta de medicamentos, a exemplo dos utilizados para tratar linfoma, carcinoma, leucemia e mieloma. Na pandemia, a secretaria de Estado da Saúde dizia que o problema era a logística e a falta de matéria-prima. Porém, um paciente conseguiu comprar um dos medicamentos. Mesmo assim a Secretaria manteve a posição à época. Seguimos acompanhando e em diálogo constante com os pacientes oncológicos para evitar que o problema volte a ocorrer e, se ocorrer, cobrar a solução rápida, pois os tratamentos não podem ser interrompidos.

Sheyla Galba e as mulheres colegas de luta por um atendimento melhor no Hospital de Cirurgia
DAS POSSIBILIDADES POLÍTICAS FUTURAS
“Sei aonde posso chegar e aonde minhas pernas alcançam. Não sou política profissional. Tenho metas e vou segui-las com determinação e coragem. Não tenho medo de, se preciso for, colocar meu nome à disposição do partido para outros mandatos. Mas quando lhe falo sobre coragem e determinação é porque vou lutar pela minha causa, vou lutar pela saúde do meu povo”


JLPolítica - Falemos um pouco mais de política: a senhora disputará um mandato eletivo em 2022? Tentará um mandato na Alese? Já tem algum compromisso firmado?
SG -
Costumo dizer que o único compromisso firmado que tenho é com Deus e com a população que me quis vereadora nesse momento. Tenho focado minhas atenções no trabalho da Câmara Municipal de Aracaju, buscando honrar cada voto recebido e a confiança de ser uma das representantes dos aracajuanos no parlamento. Já nas discussões internas do partido e em diálogos com minha assessoria, coloquei meu nome à disposição do partido e dos sergipanos para participar do pleito de 2022. Estamos estudando a legislação que foi aprovada recentemente pelo Congresso e continuarei avaliando o cenário político do nosso Estado e no momento certo tomarei a decisão de qual caminho seguirei.

JLPolítica - Mas a senhora estaria preparada até para não disputar uma eleição no ano que vem?
SG -
Sei que você está me fazendo essa pergunta por causa da atual legislação eleitoral. Sei das dificuldades que terei. Mas deixo claro duas coisas para você: primeiro, não tenho apego ao mandato e ao poder. Segundo, não tenho medo de desafios. Sei aonde posso chegar e aonde minhas pernas alcançam. Não sou política profissional. Tenho metas e vou segui-las com determinação e coragem.

JLPolítica - Isso quer dizer um embate com grandes figurões da política?
SG -
Também! Não tenho medo de, se preciso for, colocar meu nome à disposição do partido para outros mandatos. Mas quando lhe falo sobre coragem e determinação é porque vou lutar pela minha causa, vou lutar pela saúde do meu povo. Isso sim é a única garantia que posso lhe dar nesse momento.

Sheyla Galba trava uma luta afiada por uma melhor política de radioterapia em Sergipe
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