Tereza Cristina Cerqueira: “O canto da minha aldeia deve ecoar por toda a cidade e pelo mundo”

Entrevista

Jozailto Lima

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Tereza Cristina Cerqueira: “O canto da minha aldeia deve ecoar por toda a cidade e pelo mundo”

27 de novembro de 2021
“Eu fiz um livro para minha gente e meu lugar”

Este livro de que fala a pedagoga, professora, pesquisadora e escritora Tereza Cristina Cerqueira da Graça, Malinos, Zuadentos, Andejos e Sibites: o Aribé nos anos 70 e 80, é grande no título, no tamanho físico e, sobretudo, no propósito.

E assim, grande, ele está aí como mais um contributo ao memorialismo sergipano, à civilização sergipana e aribéziana. Com um pouco mais de 500 páginas, foi lançado na penúltima sexta-feira, 19 de novembro.

“Desde o início queria falar de gente, de pessoas e de lugares onde transitavam essas pessoas. Eu fiz um livro para minha gente e meu lugar. Mas penso que o “canto da minha aldeia” deve ecoar por toda a cidade, pelo Estado, pelo país, pelo mundo”, revela a autora, sem restrições e bairrismos.

Malinos, Zuadentos, Andejos e Sibites: o Aribé nos anos 70 e 80” exigiu de Tereza Cristina Cerqueira da Graça quatro anos entre a pesquisa, a escrita e o apronte final para o lançamento.

“É bom esclarecer que não me contentei com o conteúdo das entrevistas. A memória trai, confunde, embaralha. Fui checar informações em documentos e jornais locais - foram mais de quatro décadas de jornais diários pesquisados -, em notícias veiculadas na internet, textos acadêmicos e livros publicados”, diz.

Disso resultou aquele livro longo, muito fiel à alma do velho Aribé e dos seus tantas personagens das décadas de 1970 e 1980, mas nada maçante.

“De tão saborosa, a leitura pode nos fazer crer em um menor esforço da pesquisadora. Aí está a principal característica da escritora: a leveza como força da narrativa. Penso que o livro de Tereza Cristina não é volumoso somente por ter tantas boas histórias, de personagens reais, mas também por ser um livro para ser abraçado”, diz a pesquisa em literatura Roseneide Santana, que o resenhou aqui neste Portal três dias após o lançamento.

E “abraçada” foi como se sentiu a autora na noite de lançamento, que ela preferiu fazer no coração do bairro Aribé - hoje Siqueira Campos -, num jardim de infância pelo qual passou uma série dos seus personagens como estudantes.   

“Para mim, isso foi o coroamento de um trabalho que envolveu muita gente. E as pessoas estavam ansiosas para tê-lo nas mãos. Estou muito feliz com a recepção que Malinos teve. Inclusive de pessoas que não vivenciaram ou conheceram aquele Aribé”, diz

Tereza Cristina Cerqueira da Graça e os dela: os três filhos e os três netos
Lançamento de Malinos na sexta, 19: um sucesso de público

Tereza Cristina fez Pedagogia pela UFS, com conclusão do curso em 1979 e tem uma carreira profissional visceralmente ligada à esta área, na qual chegou a ser secretária Municipal de Educação de Aracaju de 2005 a 2011, durante os governos dos prefeitos Marcelo Déda e Edvaldo Nogueira.

Ela é doutora em Educação pela PUC do Rio Grande do Sul desde 2016, com a tese “Reordenamento de Rede Escolar no Brasil e em Portugal”.

Mas, antes, Tereza Cristina se fez especialista em Ciências Sociais pela UFS, em 1990, com a monografia “Aracaju Cede ou Concede?: a organização dos professores municipais de Aracaju (1985-1990)”, e mestre em Educação, também pela UFS em 1998, com a dissertação “Pés-de-Anjo e Letreiros de Neon: ginasianos na Aracaju dos Anos Dourados”.

Foi professora da rede municipal de Aracaju de 1977 a 2011, quando aposentou-se, e da rede estadual de Sergipe, de 1981 a 2013, da qual saiu também como aposentada. Mas ensinou também em universidades.

Foi conselheira do Conselho Estadual de Educação de 1993 a 1999 e de 2008 a 2015, coordenou o Patrimônio Cultural e depois vice-presidente da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Esportes - Funcaju -, de 2001 a 2003.

Atualmente ela é a segunda vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do qual é sócia desde 2003. “Malinos, Zuadentos, Andejos e Sibites: o Aribé nos anos 70 e 80” é um livro que Tereza Cristina levou no muque. Fez tudo por conta própria, da pesquisa à edição. 

“Na verdade, foram três anos de pesquisa e escrita diárias. Mas, veio a pandemia e não pude publicar e lançar como gostaria. Aí acrescentei mais personagens. Foram quatro anos ao todo. Todas as minhas publicações anteriores foram institucionais. Desta vez, quis testar minha capacidade de publicar um livro sem esse tipo de apoio. Acho que deu e está dando certo”, diz ela.

A leitura desta Entrevista, como a do livro, já sinalizada por Roseneide Santana, é um deleite. Bom proveito.

Tereza Cristina no Memorial José Augusto Sergipano: cantor é um dos nascidos no Aribé
ORIGEM DO INTERSSE PELA HISTÓRIA DO ARIBÉ
“Desde que escrevi o livro sobre o bairro Industrial - De Massaranduba à Industrial -, me interessei em escrever sobre o Siqueira Campos - aliás, fui cobrada por amigos e parentes. Outros trabalhos foram surgindo e somente quando terminei o doutorado em 2016 iniciei. Segui o recorte temporal - anos 1970-80 - da minha juventude no Siqueira”


JLPolítica - Qual é, ou foi, o ponto motriz para a senhora escrever Malinos, Zuadentos, Andejos e Sibites: o Aribé nos anos 70 e 80?
Tereza Cristina Cerqueira da Graça -
Desde que escrevi o livro sobre o bairro Industrial - De Massaranduba à Industrial - 2003/ PMA-Funcaju -, me interessei em escrever sobre o Siqueira Campos - aliás, na época, fui cobrada por amigos e parentes. Outros trabalhos foram surgindo e somente quando terminei o doutorado em 2016 iniciei a pesquisa - a primeira entrevista foi em março de 2017.

JLPolítica - Por ter concebido um livro grande, a senhora não incorreu no risco do esquecimento de alguns personagens evocados nele?  
TCCG -
Todo e qualquer objeto de pesquisa e estudo tem que ter recortes - de conteúdo, de temporalidade, de territorialidade. Segui o recorte temporal - anos 1970-80 - da minha juventude no Siqueira Campos, pois foram, seguramente, as décadas mais agitadas do bairro nos aspectos artísticos, culturais, políticos. Conheci e estive próxima de quase todos os personagens retratados no livro. Mas com certeza, há artistas e personagens que não consegui abarcar. O Siqueira teve, por exemplo, um grupo musical muito famoso - “As Moendas”, formado por quatro irmãs nascidas no bairro. Cantaram e gravaram com Vinicius, Toquinho. Procurei Lina Souza e a entrevistei. Entretanto, ela já tinha um trabalho escrito, pronto. Me disse que estava aguardando publicação. Então, me limitei a colocar uma nota no livro, explicando a ausência desse grupo.

JLPolítica - Como a senhora chegou àquele enorme arsenal de figuras da época?
TCCG -
Meus pais ouviam José Augusto Sergipano e lembro das pessoas acenando e se aglomerando em torno dele nas ruas do bairro, quando ele chegava em Aracaju. Fui colega de José Antônio, Brasinha, e de Severo D’Acelino na Escola Técnica. Participei da fundação da Associação de Moradores e Amigos do Siqueira Campos - AMAS -, com Agnaldinho do Bar dos Estudantes. Meus irmãos mais novos eram da turminha que cantava e tocava nas calçadas com Pantera, militei no PT com Rivando Góis. Meus avós eram muito amigos da mãe de Hilton Lopes, que morava na mesma rua que eu - a Bahia. Frequentei hi-fis de garagem e festinhas com Carvalhinho do Repente. Tut Fred parava na porta lá de casa e ficava conversando com meu pai - tive um namorico com Edson Moura do Black Samba. Só não sabia que Lucinha Fontes, nem Isabel Nunes, Sergival e Sérgio Lucas nasceram ou moraram no Siqueira

A adolescente Tereza Cristina dos anos 70, que assiste a tudo e a tudo capta do progressivo Aribé
UM PERSONAGEM QUE CHAMOU A ATENÇÃO
“Em termos de história de vida, eu diria que um desses foi Severo D’Acelino. Um menino negro pobre, vendedor ambulante, marinheiro, paciente de hospital psiquiátrico, fundador de um grupo teatral que nasceu engajado com questões étnico-raciais, ator protagonista de filmes e novelas nacionais, escritor, ícone do movimento negro sergipano”


JLPolítica - A senhora chegou a conhecer Mariano Salmeron?
TCCG -
Não conheci Mariano Salmeron, que faleceu em 1954 - eu nem era nascida -, mas os demais personagens destacados no livro foram também próximos a mim e a minha família: Leozírio era amigo do meu pai; quando doentes, meus pais levavam a gente para o Seu Zé da Farmácia - todo farmacêutico era uma espécie de médico da família naquela época. Estudante universitária, estagiei na escola de Dona Eulina, conheci  Seu Florival alfaiate, embora não tivesse muita aproximação na época. Enaldo e Murilão eram quase irmãos, frequentavam nossa casa para estudar, jogar cartas, bater papo; tomar cerveja. Então, a escolha da maioria dos artistas e personalidades resulta do critério da proximidade, da afetividade.

JLPolítica - Um deles, ou alguns deles, lhe chamou a atenção em especial?
TCCD -
Em termos de história de vida, eu diria que um desses foi Severo D’Acelino. Um menino negro pobre, vendedor ambulante, marinheiro, paciente de hospital psiquiátrico, fundador de um grupo teatral que nasceu engajado com questões étnico-raciais, ator protagonista de filmes e novelas nacionais, escritor, ícone do movimento negro sergipano.

JLPolítica - A senhora não acha que figuras como Hilton Lopes e Severo D’Acelino merecem um livro à parte?
TCCG -
Creio, mas não somente Hilton Lopes e Severo. Penso que quase todos os artistas retratados no livro renderiam livros à parte. Cada um deles tem trajetórias de luta e persistência em suas artes, guardam curiosos percursos de vida. Mas deixo isso para futuros pesquisadores.

Tereza Cristina e o monumental Severo D’Acelino, que ela tem como persona mais marcante do bairro
DAS GRANDES FONTES DE PESQUISAS
“É bom esclarecer que não me contentei com o conteúdo das entrevistas. A memória trai, confunde, embaralha. Fui checar informações em documentos e jornais locais - foram mais de quatro décadas de jornais diários pesquisados -, em notícias veiculadas na internet, textos acadêmicos e livros publicados”


JLPolítica - Quais foram suas principais fontes de pesquisa para apreender e amalgamar a importância do Aribé e de sua gente naqueles anos de 1970 a 1980 do século passado?
TCCG -
É bom esclarecer que não me contentei com o conteúdo das entrevistas. A memória trai, confunde, embaralha. Fui checar informações em documentos e jornais locais - foram mais de quatro décadas de jornais diários pesquisados -, em notícias veiculadas na internet, textos acadêmicos e livros publicados, como se pode ver nas páginas deste livro.

JLPolítica - Quando Malinos saca 13 figuras da música e apenas uma do teatro, ele está segregando uma atividade perante outra, ou o teatro não se deu bem naquele período pesquisado?
TCCG -
Sem dúvida, a música foi mais presente no Aribé daquelas décadas. Tive notícias de um pintor, mas ele já tinha falecido há alguns anos e a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Na literatura, conheci pessoalmente Jane Vieira e o grande Santo Souza, fui colega de escola de Ivo Mariano, filho dele. Mas não quis entrar nesta área. Encontrei um trabalho que trata do teatro de Bosco Scaffs - monografia de Tetê Nahas. Mas Bosco deu aulas de teatro para adolescentes e jovens na sua própria casa, quando morou lá por pouco tempo. Procurei um outro ator/diretor conhecido no bairro, mas seu trabalho era mais ligado à Igreja dos Capuchinhos, no bairro América. Não tive informações sobre outro grupo com a longevidade e a importância do Grfacaca de Severo.

JLPolítica - Por que a senhora escolheu um título tão grande para seu livro, e ainda com quatro adjetivos?
TCCG -
Tenho mania de criar títulos enormes e nesse caso não vi como fazer diferente. Trouxe para o texto palavras que hoje em dia estão em desuso, pela influência da linguagem televisiva e midiática. Enquanto escrevia o livro, logo no início me mandaram um chamado Dicionário Sergipanês. Lembrei na hora da minha avó - fui criada ouvindo e falando aquelas palavras. Então, decidi incorporar ao texto. Quem lê todo o livro, vai concordar que não tem termos mais apropriados para aqueles meninos e meninas senão malinos, zuadentos, andejos e sibites.

Tereza Cristina e a vice-governadora Eliane Aquino, presença na noite de autógrafo
O ARIBÉ E A MIGRAÇÃO DAS IMPORTÂNCIAS
“Naquelas décadas, o bairro já era subcentro comercial da capital, mas mesclava casas comerciais com residenciais, bares, restaurantes. Atualmente, o que se chama centro do bairro - ruas Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Carlos Correia, Pernambuco e Sergipe - é puro comércio. A vida noturna transferiu-se para a periferia, notadamente no limite com o José Conrado de Araújo”


JLPolítica - Percebe que quando a senhora fala do Aribé é também da sua história pessoal que está falando ?
TCCG -
Certamente. Falo dos personagens e de mim, dos meus amigos, das minhas turmas. Das coisas que gostávamos de fazer, da música que ouvíamos e dançávamos. Dos lugares que costumava frequentar. Portanto, trato de um pedaço da minha própria trajetória de vida.

JLPolítica - Qual é o paralelo que o Aribé guarda hoje em relação ao Siqueira Campos?
TCCG -
Naquelas décadas, o bairro já era subcentro comercial da capital, mas mesclava casas comerciais com residenciais, bares, restaurantes. Atualmente, o que se chama centro do bairro - ruas Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Carlos Correia, Pernambuco e Sergipe - é puro comércio. A vida noturna transferiu-se para a periferia, notadamente no limite com o bairro José Conrado de Araújo. Aliás, o Siqueira perdeu um bom pedaço do seu território quando criaram esse novo bairro no final dos anos 1960. Explico isto no texto.

JLPolítica - Há um bairro aracajuano hoje em dia que seja catalisador da alma da cidade?
TCCG -
Não sei responder a isto. É preciso viver o bairro, conhecer os lugares e as pessoas. É mais fácil citar bairros que não traduzem essa catalização. A Atalaia, por exemplo, nunca foi nem é.

Tereza Cristina e o professor e escritor Jorge Carvalho, um dos nomes do memorialismo sergipano
DO TEMPO INVESTIDO NA PESQUISA
“Na verdade, foram três anos de pesquisa e escrita diárias. Mas, veio a pandemia e não pude publicar e lançar como gostaria. Aí acrescentei mais personagens. Foram quatro anos ao todo. Todas as minhas publicações anteriores foram institucionais. Desta vez, quis testar minha capacidade de publicar um livro sem esse tipo de apoio. Acho que deu e está dando certo”


JLPolítica - Quais foram as maiores dificuldades para a senhora na pesquisa e na edição do livro?
TCCG -
A quantidade de fontes jornalísticas foi seguramente uma dificuldade - mais de quatro décadas de jornais diários - e quanto à edição, não tive apoios institucionais. Mas também devo dizer que não os procurei. Todas as minhas publicações anteriores foram institucionais - Prefeitura de Aracaju, Governo de Sergipe, Universidade Federal de Sergipe. Desta vez, quis testar minha capacidade de publicar um livro sem esse tipo de apoio. Acho que deu e está dando certo.

JLPolítica - A senhora fez tudo sozinha ou contou com grupo de alunos em amparo?
TCCG -
Enquanto pesquisava e escrevia o livro, eu lecionava na Unit, mas nunca envolvi meus alunos neste trabalho, pois o tinha, desde sempre, como um projeto pessoal. Tive ajuda do meu irmão, Davi, formado em História, que pesquisou os jornais. São cadernos e mais cadernos com os títulos das matérias que ele achava que me interessaria. Eu adquiri parte do acervo de jornais do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe - que está disponível na internet – site da Bicen/UFS. Eu escolhia os títulos e fotografava as matérias. A Internet facilitou muito meu trabalho.

JLPolítica - Quanto tempo durou a elaboração?
TCCG -
Na verdade, foram três anos de pesquisa e escrita diárias. Mas, veio a pandemia e eu não pude publicar e lançar como gostaria. Aí, com mais um ano, acrescentei mais personagens. Foram quatro anos ao todo.

Tereza Cristina com a professora Betisabel Vilar e Vanda Salmeron: de assim em assim, lá se foram quase 400 livros autografados
UMA VIAGEM CAPAZ DE REFAZER AMIZADES PERDIDAS
“No percurso deste trabalho conheci muita gente, fiz muitos novos amigos e refiz amizades perdidas pela ação do tempo e da distância física. Conheci e reconheci lugares, lamentei ruínas - a exemplo do antigo Meu Refúgio, restaurante de caça e depois casa de show. Foram muitos reencontros prazerosos. Foi uma experiência de autoconhecimento que deixa brechas para outras pesquisas”


JLPolítica - Em síntese, o que o mergulho na pesquisa e na escrita de Malinos deixou de espólio pessoal para a senhora, para além das mais de 500 páginas oferecidas aos leitores?
TCCG -
No percurso deste trabalho conheci muita gente, fiz muitos novos amigos e refiz amizades perdidas pela ação do tempo e da distância física. Conheci e reconheci lugares, lamentei ruínas - a exemplo do antigo Meu Refúgio, restaurante de caça e depois casa de show. Foram muitos reencontros prazerosos. Foi uma experiência de autoconhecimento que, certamente, deixa brechas para outras pesquisas.

JLPolítica - Como a senhora conseguiu driblar uma possível e eventual monotonia de um livro tão grande e fazê-lo leve e palatável?
TCCG -
Acredito que isso se deu pela linguagem clara, objetiva e contornada pela poesia - minha e dos personagens; pela individualidade dos textos e, talvez, por esse jeito que tenho de contar histórias como se estivesse numa esteira, na porta de casa, como se fazia antigamente. 

JLPolítica - A pesquisadora de literatura e leitura, Roseneide Santana, neste Portal, disse que seu livro, apesar de logo e vário, pode ter os diversos textos dele lidos com vida própria, em separado. A senhora quis que fosse assim ou assim resultou empiricamente?
TCCG -
E Roseneide Santana está certa. Cada texto é um texto, que se pode ler separadamente e sem ordem pré-estabelecida. Entretanto, a história burocrática do bairro - crescimento socioeconômico, demografia, limites geográficos, etc - está dispersa nos textos de cada personagem ou do tema. Isto foi proposital. Desde o início queria falar de gente, de pessoas e de lugares onde transitavam essas pessoas.

De tanto fazer pela educação, Tereza Cristina recebe em 2008 homenagem especial do Conselho de Educação de Aracaju
UMA PLURALIDADE QUE DARÁ SEMPRE EM PESSOAS
“Cada texto é um texto, que se pode ler separadamente e sem ordem pré-estabelecida. Entretanto, a história burocrática do bairro - crescimento socioeconômico, demografia, limites geográficos, etc - está dispersa nos textos de cada personagem ou do tema. Isto foi proposital. Desde o início queria falar de gente, de pessoas e de lugares onde transitavam essas pessoas”


JLPolítica - Para a senhora, o que significa ter repassado quase 300 exemplares de Malinos na noite de autógrafos?
TCCG -
Para mim, isso foi o coroamento de um trabalho que envolveu muita gente. E as pessoas estavam ansiosas para tê-lo nas mãos. Estou muito feliz com a recepção que Malinos teve. Inclusive de pessoas que não vivenciaram ou conheceram aquele Aribé.

JLPolítica - Por que, em vez de numa livraria, num museu ou num espaço mais glamuroso, a senhora optou por lançá-lo no Jardim de Infância do Siqueira Campos?
TCCG -
Um livro sobre o Aribé ser lançado em outro espaço que não no Aribé não teria sentido. Eu queria que meus depoentes, especialmente os mais velhos e os mais humildes, pudessem se sentir em casa. Além disso, o espaço do Jardim Garcez Vieira é arborizado, amplo e muito bonito. Somente lá seria possível um reencontro emocionado como o que o evento promoveu. Além disso, boa parte dos meus personagens estudou naquele Jardim e alguns me falaram da emoção de adentrar nele depois de 40, 50 anos. Eu fiz um livro para minha gente e meu lugar. Nunca fui afeita a lugares glamurosos. Mas penso que o “canto da minha aldeia” deve ecoar por toda a cidade, pelo Estado, pelo país, pelo mundo.

JLPolítica - Qual é o caminho do livro a partir de agora? A senhora planeja lançamentos em outros espaços e até em outras cidades do Estado, para além de Aracaju?
TCCG -
Nunca lancei um livro meu duas vezes. Mas, se surgir propostas interessantes, estou aí para divulgá-lo.
 

Tereza Cristina Cerqueira em ação com seus pares do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe
DO ARIBÉ PARA OS DO ARIBÉ
“Um livro sobre o Aribé ser lançado em outro espaço que não no Aribé não teria sentido. Eu queria que meus depoentes, especialmente os mais velhos e os mais humildes, pudessem se sentir em casa. Além disso, o espaço do Jardim Garcez Vieira é arborizado, amplo e muito bonito. Somente lá seria possível um reencontro emocionado como o que o evento promoveu”

JLPolítica - A senhora não acha que Sergipe é meio somítico, ou avaro, no campo de produção dessa literatura memorialística e evocativa dos seus e de um passado a ser contado?
TCCG -
Acredito que nos últimos anos a produção historiográfica do cotidiano da gente sergipana vem se ampliando bastante, especialmente com monografias, dissertações e teses. Vi trabalhos sobre Jovem Guarda, Chorinho, Teatro de Vanguarda, Feira das Trocas, Lambe-lambes, Bodegas, Barbeiros e Barbearias, Rasgadinho... Pena que poucos são publicados. Até porque publicar e vender livros em Sergipe não é fácil. Embora não tenha me utilizado, fiquei entusiasmada com a recente Lei Aldir Blanc que trouxe à público trabalhos importantes nessa direção.

JLPolítica - Mas a senhora identifica algum escritor contemporaneamente com esse olhar?
TCCG -
Diria que hoje Murilo Mellins é um nosso grande memorialista. Mas há outros com pesquisas e textos amparados em fontes diversas. Isto é, com uma base mais historiográfica e teoricamente mais aprofundados. Não quero citar nomes para não cometer injustiças.

JLPolítica - O que difere a Tereza Cristina de Pés-de-Anjo e Letreiros de Neon: ginasianos na Aracaju dos Anos Dourados da de Malinos, Zuadentos, Andejos e Sibites: o Aribé nos anos 70 e 80?
TCCG -
Pés-de-Anjo foi uma dissertação de mestrado da UFS em 1998, cujo foco é a relação escola-cidade. São os adolescentes dos anos 1950-60 em trânsito entre a casa, a escola e os points da cidade - cinemas, praças, retretas, bailes. Meu orientador, o professor Jorge Carvalho, me deu ampla liberdade, mas, dentro dos limites acadêmicos: tinha que citar sicrano, beltrano, analisar isto e aquilo. Com Malinos não tenho esse compromisso. Deixo as análises para o leitor. Em “Malinos” sou apenas uma contadora de histórias. O Pés-de-anjo me mostrou o caminho; o Malinos me arrastou ladeira acima. De agora em diante, só traquinagens de jovens. Aguardem o próximo!

JLPolítica - Então há fôlego para a produção de um novo volume, prestigiando os quietos, silenciosos e caseiros como o grande poeta Santo Souza, a historiadora negra Beatriz Nascimento e tantas outras figuras especiais do Aribé?
TCCG -
Sinceramente, não. Gosto dos silenciosos, mas me afino mais com os barulhentos. Ademais, não me sinto capaz de entrar na seara da poesia da literatura. O Aribé tem gente muito mais gabaritada que eu para fazer isso. Continuo com projetos de escrever sobre barulhentos do Siqueira e de outras plagas.


 

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