ATENDIMENTO PSICOSSOCIAL
Por Ascom PMA | 18 de Set de 2017, 12h44
Aracaju foi pioneira na extinção de manicômios
De acordo com o coordenador da Rede de Atenção Psicossocial (Reaps) da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Dalmare Sá, em todos os relatos podemos perceber as semelhanças com o que o regime nazista fazia
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Dalmare compara os manicômios ao regime nazista, muito diferente da assistência prestada hoje

Uma realidade semelhante ao holocausto. Essa é a descrição de quem vivenciou os extintos hospitais psiquiátricos brasileiros, também chamados de hospícios e manicômios, com rotinas de cativeiro, torturas e falta de higiene. Aracaju foi uma das cidades pioneiras na mudança dessa situação. O cuidado humanizado oferecido às pessoas que necessitam de uma atenção especial iniciou em 2001, ainda antes da implantação da Lei de Reforma Psiquiátrica, através da abertura do primeiro Centro de Atenção Psicossocial (Caps) na cidade.

De acordo com o coordenador da Rede de Atenção Psicossocial (Reaps) da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Dalmare Sá, em todos os relatos podemos perceber as semelhanças com o que o regime nazista fazia. "Não existia nenhuma humanidade, as famílias não queriam cuidar e o Estado entendia que tinha que isolar essas pessoas da sociedade. Não apenas os loucos ou usuários de drogas que eram internados, mas todos aqueles que eram considerados indesejáveis e excluídos da sociedade, como os homossexuais, por exemplo", explica.

Em Sergipe, existiam três locais para abrigar as pessoas que eram excluídas do convívio social: os hospitais Adauto Botelho, Santa Maria e Garcia Moreno. Mas, com a instituição da Lei Paulo Delgado nº 10.216 em 2001, iniciou a mudança do modelo de tratamento psiquiátrico no Brasil e Aracaju entendeu prontamente a importância da transição do modelo.

O primeiro Caps da capital aracajuana foi fundado por uma organização não-governamental antes de a legislação brasileira exigir o fechamento dos hospitais psiquiátricos. Logo em seguida, através de um convênio com a Prefeitura, a unidade passou a integrar a Rede, que hoje conta com seis equipamentos para atendimento psicossocial disponíveis à população, seja adulto, adolescente ou criança.

O atual modelo oferece um atendimento completamente distinto dos manicômios. "É uma mudança muito importante, tanto para os usuários como para os trabalhadores, que vivenciaram esse sofrimento em hospitais psiquiátricos e a quebra de paradigma. Quando lembramos o quanto essas pessoas sofreram e a evolução nos tratamentos que temos hoje, é que percebemos o quanto é importante que o cuidado seja extremamente humanizado, baseado no afeto e na liberdade", comemora o coordenador da Reaps.

Legislação

A Lei Paulo Delgado nº 10.216, de 6 de abril de 2001, foi inspirada na luta pelo fim dos manicômios do psiquiatra italiano Franco Basaglia, precursor do movimento de reforma psiquiátrica italiano. Foi só após a visita do médico ao hospício de Barbacena (MG) e a declaração de que o local parecia um campo de concentração nazista, ainda na década de 70, que o Brasil começa a despertar e caminhar para o fim desse período de horror.

A Lei defende o tratamento com humanidade e respeito de pessoas com qualquer tipo de transtorno mental, no interesse exclusivo de beneficiar a saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade. Segundo Dalmare, "a lei busca a liberdade dessas pessoas para que elas retornem ao convívio social. Para isso, não precisamos utilizar uma tecnologia avançada. É a tecnologia humana, do cuidado mais próximo ao cidadão", afirma.

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