Opinião
Por | 06 de Out de 2020, 16h11
As eleições 2020 são para retomar a democracia no Brasil
Compartilhar

[*] João Daniel 

Em um ano atípico, pautado por uma pandemia que nos afasta do convívio social, estamos envolvidos em um processo eleitoral para escolher prefeitos e vereadores em 5.570 municípios brasileiros, sendo 75 deles em nosso Estado de Sergipe. Uma eleição muito importante, dadas as suas características de escolha dos governantes e legisladores que estão mais próximos do eleitorado, os quais poderão contribuir para uma mudança efetiva no quadro político nacional.

Será uma eleição na qual, com pé no presente e, para escolhermos aqueles em quem vamos votar, precisamos olhar o que tem marcado suas lutas em defesa do povo e se foram capazes de denunciar o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. É necessário que procuremos saber quem está denunciando os crimes que este governo Bolsonaro tem cometido contra o meio ambiente, contra trabalhadores e trabalhadoras e contra a soberania nacional, entregando todo o patrimônio brasileiro, privatizando empresas estruturadoras da economia, e se submetendo, como capacho, às regras ditadas pelo presidente americano. É preciso também ver quais as propostas dos candidatos e se elas caminham no sentido atender as demandas reais dos nossos municípios e apontam para a retomada do desenvolvimento político, social e econômico do país. 

Não adianta nos enganarmos ou tentarmos esquecer: vivemos um golpe continuado desde o impeachment da presidenta Dilma, seguido de uma eleição à base de mentiras e fake news, da prisão sem ter nenhuma prova e retirada da candidatura do presidente Lula e impedindo que o Brasil pudesse ter se reencontrado, em 2018, com um projeto de desenvolvimento econômico e social, em especial voltado para o cuidado dos mais pobres.

As eleições de 2020 não podem esconder todo esse processo. Há dois lados: o dos que defenderam a democracia e a Constituição, contra o golpe contra a presidenta Dilma e a defesa do presidente Lula, e o dos que apoiaram o golpe ou que foram omissos frente a todo esse golpe. Por isto esta eleição está dentro deste processo, o processo da luta, da história da civilização humana daqueles que defendem um Estado com verdadeira democracia e o lado dos que usam as eleições para golpear o povo e utilizar a estrutura do Estado em defesa dos interesses pessoais e econômicos.

Esta é uma eleição marcada pela proximidade, na qual votaremos em muita gente que conhecemos de perto e que têm menos chance de nos enganar. Podemos também, quando for o caso, pesquisar as suas atuações na Câmara dos Deputados, no Senado, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras de Vereadores. Por mais que queiram se apresentar como novo, teremos condições de checar seus discursos, seus projetos e suas ações. Por mais que usem de mentiras na internet, temos condição de checar. O candidato ou candidata que se apresente como não político pode ser tão perigoso como aqueles conhecemos e já os descartamos pelas suas histórias. 

Mas também precisamos entender que esta não é uma eleição solta. Faz parte do processo histórico que vivemos e que se encaixa na tomada do Brasil por uma elite conservadora, influenciada por um segmento ruralista que se uniu aos donos das mídias e dos bancos, para romper com o processo de construção de uma sociedade menos desigual do que vivemos. Criou-se uma conspiração contra um partido que surge das bases para congregar trabalhadores urbanos e rurais e buscar mudar o roteiro de nossa história de escravidão e “passa a representar uma demanda por igualdade nessa sociedade perversamente desigual”, como diz Jessé Souza em seu livro “A Elite do Atraso”. Elite esta que nunca aceitou as políticas públicas implementadas para a população mais pobre do Brasil durante o governo Lula, que nunca engoliu a popularidade do ex-presidente, que deixou o governo com um elevado índice de aprovação por parte dos brasileiros, nunca antes visto no Brasil. Popularidade esta que pode ser percebida, por exemplo, durante a Caravana realizada por Lula que percorreu todo país, tendo sido muito bem recebido, especialmente no Nordeste.

Toda esse roteiro já conhecemos, inclusive foi isso que levou ao golpe da presidenta Dilma Rousseff que levou Dom Pedro Casaldáliga a denunciar em “Carta Aberta às Comunidades Sobre a Atual Conjuntura Política do Brasil”, em abril de 2016: “No Brasil, a conjuntura atual é caracterizada por uma profunda crise política institucional, rompendo com o pacto social realizado nas últimas décadas, bem como o respeito aos valores humanos básicos.” 

Em que deu isso? São quatro anos de golpe, iniciado, inclusive, um tempo antes, que levou à deposição de Dilma, à ascensão de Temer e toda uma linha de entreguismo e de arrocho em cima dos mais pobres, a proibição de investimentos sociais, a total desorganização dos sistemas de saúde e educação e desestruturação do nosso sistema de proteção trabalhista e social. Trouxe mais, e pior, um processo eleitoral marcado pela inconstitucionalidade e pela perseguição, com a prisão de Lula, numa campanha feita de mentiras, toleradas pelas autoridades, uma ação político-eleitoral da Lava Jato e, enfim a eleição desse presidente que tem o papel de atender de destruir todas as proteções sociais e ambientais, agindo abertamente contra o povo, mentindo descaradamente ao dizer em todos os fóruns, inclusive na ONU, que o Brasil é o país que mais respeita o meio ambiente, que tem um política em defesa dos mais vulneráveis e outra mentiras facilmente comprovadas. São milhares de mortes, resultado da Covid-19, os incêndios florestais criminosos ocorridos na Amazônia e no Pantanal, o desmantelamento dos órgãos fiscalizadores, do número de miseráveis que passaram a viver desempregados, na rua e com fome, uma vez que as ações passaram a ser unicamente para atender as necessidades mais básicas da população de miseráveis que cresceu nos últimos quatro anos.

Uma política suportada pela grande mídia que consegue, em alguns casos criticar o presidente, mas dá suporte a sua política econômica de proteção aos bancos e as grandes empresas, nacionais e estrangeiras. Isso demonstra o quanto é importante o trabalho de enfrentamento de desmascaramento das ações de Bolsonaro contra os jovens, principalmente, por dificultar o ensino – coisa que se resgatou nos governos Lula e Dilma –, com redução de oportunidades nos ensinos técnicos básicos e superiores, deixar de investir em novos empregos, desfazer-se das nossas principais empresas públicas lucrativas, e também dificultar para todos e todas, os direitos à seguridade social e aos acessos aos serviços de qualidade.

Este é o quadro que temos a obrigação de mudar nessa eleição, escolhendo candidatos que se comprometam com a reconstrução do país, com a retomada da superação da desigualdade, e a volta da solidariedade e da alegria do nosso povo. Essa eleição pode ser um grande passo para a nossa retomada por um desenvolvimento sustentável e um país justo e igualitário.

O nosso partido, o Partido dos Trabalhadores, jamais se curvará, num processo eleitoral, de debater com o povo sergipano e brasileiro os verdadeiros problemas e as causas dos problemas históricos desse sistema em curso no nosso país e lutará com toda sua militância e os candidatos e candidatas a vereadores, prefeitos e vice-prefeitos, para estar junto com o povo, ouvindo, debatendo e construindo um projeto de participação popular. Que as eleições sirvam para reafirmar nosso compromisso com a democracia e os direitos dos mais pobres e em especial da classe trabalhadora.

[*] É deputado federal e presidente estadual do PT/SE.

Foto: Lula Marques