Opinião
Por [*] Luiz Eduardo Costa | 14 de Set de 2017, 17h10
Do facão de Gualberto ao punhal de Ana Lúcia
[*] Luiz Eduardo Costa
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Do facão de Gualberto ao punhal de Ana Lúcia

[*] É jornalista e já foi secretário de Estado da Comunicação.

O facão, ferramenta útil de trabalho, poderá ser também arma ostensiva que, empunhada, logo torna explícita a intenção de defesa ou de ataque, sem subterfúgios, fingimentos ou hesitações. O facão não se disfarça, nem se esconde. É arma bem visível, cujo manuseio dispensa sutilezas. 

Não há previsibilidade, muito menos premeditação, no uso de uma ferramenta transformada em arma por força de circunstâncias imprevisíveis. O facão, poder-se-ia dizer: é explícito. Já o punhal é sorrateiro.

O punhal é sempre arma, e traz em si o próprio simbolismo de traições, vinditas, maldades, vilezas. O punhal, arma sutil, pode ser facilmente oculto, e tem formas variadas, adaptadas até ao tipo de uso que dela se pretenda fazer. 

Punhais e venenos enriquecem a literatura policial, e fazem parte das cortes, dos palácios por onde rondavam as conspirações, as desconfianças, o andar silencioso do ódio reprimido.

De forma alguma, no texto que segue, se terá a ideia de relacionar o facão ao deputado Chiquinho Gualberto, ou o punhal à deputada Ana Lúcia, apenas se tratará de um embate político que deixa evidentes comportamentos bem diversos.

Nas acaloradas discussões travadas na Assembleia antes da aprovação final da fusão da Previdência, a deputada Ana Lúcia fez referências evidentemente desprimorosas ao colega de partido, o deputado Chiquinho Gualberto. 

Lembrou de um controverso episódio em que o parlamentar, velho lutador pelos direitos dos trabalhadores, e a autonomia dos seus sindicatos, quase recentemente, num confronto com Nivaldo, o combativo presidente do Sepuma, o teria ameaçado com uma “surra de panada de facão” daquelas que deixam gravadas na pele da vítima as marcas da Tramontina. O suposto episódio nem sequer foi efetivamente comprovado.

Ana Lúcia requentou o caso na tentativa bisonha e grosseira de desqualificar um companheiro de partido, e com uma biografia rica de participação nas lutas sociais e democráticas. Por coisas assim, entre o facão e o punhal, se torna imprescindível a lembrança de alguns episódios, até recentes.

Corria o ano de 2012, o governador Marcelo Déda internado num hospital estava, todos sabiam disso, em fase terminal do sofrimento com o câncer devastador, que vencia os esforços da medicina, e dele próprio, na tentativa corajosa de sobreviver.

Em Aracaju, o Sintese, como sempre encabeçado pela deputada petista Ana Lúcia que Déda muito prestigiou, e por duas vezes a fez importante secretária de Estado, fazia manifestações que ultrapassavam todos os limites da razoabilidade. 

Prejudicava os estudantes das escolas públicas, onde estudam, em grande maioria, filhos de pais pobres. O Sintese começou a adotar ações que, de tão repulsivas, deveriam ser contidas por quem conservasse um mínimo de bom senso, alguma dose, ou algum sentimento, por mais recôndito que fosse, de respeito ao ser humano. 

A deputada desfilou à frente dos cortejos que conduziam o “caixão luxuoso de Déda”. Montaram em frente ao palácio do Governo um túmulo e dentro dele colocaram o caixão, com um boneco simulando Déda. A “viúva de Déda”, uma bruxa envolvida num xale sebento e escuro, debruçava-se chorando sobre o túmulo, e havia um coro de vaias entrecortados da galhofa de choros e soluços de bufões.

Naquela Comédia da Morte, talvez ária sinistra de uma Ópera de Truões, entra a deputada Ana Lúcia, como solista principal. Três meses depois, naquele mesmo lugar da sepultura infamemente agourenta, estava o caixão modesto, daquela vez real, que guardava o cadáver do governador Marcelo Déda.

Ana Lúcia insistiu em desempenhar até o final o papel que a fez meticulosamente descuidada de ser cristã: aproximou-se e derramou lágrimas de vitríolo sobre a figura hirta e digna do morto ilustre, cuja visão altruísta e sentimentos humanos estavam muito acima daquela escória que o sepultara em vida.

Naquele momento, teria surgido o punhal manchado de fel e maldade, pela última vez cravado, agora, no corpo de um homem morto.

[*] É jornalista e já foi secretário de Estado da Comunicação.

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