Opinião
Por | 03 de Jul de 2021, 16h25
Dois anos sem João Oliva, meu pai
Compartilhar
Dois anos sem João Oliva, meu pai

[*] Luiz Eduardo Oliva

Escrever é um ato complexo, sobretudo se quem escreve busca a isenção da parcialidade. Por mais que se tente, todavia, fazer juízo de valor isento de paixão é extremamente difícil quando você escreve com o afeto de quem vai falar sobre o próprio pai. É natural que filhos exaltem a figura paterna,. Mas se vou dizer do meu pai, posso buscar até a isenção de dizer de um homem extraordinário, fora de curva, que deixou um legado para além da própria família, cujo reconhecimento é visível na manifestação de muitos desde que ele partiu, há exatos dois anos (03/07/2019): João Oliva, o jornalista, o escritor, o incansável defensor da democracia, o homem de fé.

De uma escola que teve em Orlando Dantas o principal mestre, o velho Oliva fez parte de uma época romântica dos grandes jornalistas, forjados nas redações dos jornais, onde o aprender a manejar com as facetas da arte do jornalismo se fazia no auto-didatismo ou na troca de informações e idéias com os companheiros de redação. Cresci  ouvindo o ritmado som  das teclas de uma  velha e portátil máquina Olivetti, varando madrugadas para dar conta de editoriais e artigos que  ele escrevia para jornais e rádios de Aracaju. Nas redações, meu pai encontrava-se com sua própria alma – alma de escrevinhador diário das coisas da terra, do seu país e do mundo. E, naturalmente reforçava o já combalido orçamento doméstico naqueles anos difíceis de modesto funcionário público, que tinha a carga de educar e manter  (ao lado de minha mãe Maria)  onze  filhos.

É fato que sempre tive a dimensão da sua grandeza. Mas o amor de filho tende a camuflar muito e hoje, depois que ele partiu, vejo que dimensionei até para menos. Há um reconhecimento quase unânime com relação ao valor e legado de João Oliva, nas infindáveis manifestações de intelectuais, escritores, admiradores do grande jornalista e escritor que ele foi. Ancelmo Góis acostumado a viver no meio dos maiores intelectuais brasileiros, ele que é uma das principais referências do jornalismo brasileiro sendo um dos principais colunistas do jornal “O Globo”, ao saber do seu falecimento disse à Folha de São Paulo: “João Oliva foi um dos mais importantes intelectuais que conheci; na época, havia [em Aracaju] um jornalismo voltado às questões locais, quase paroquial. Ele se diferenciava ao olhar para fora. Reunia generosidade e brilhantismo.”.

Luiz Eduardo Costa, referência do maior do jornalismo sergipano escreveu: “esse cidadão, jornalista, advogado escritor, poeta, um frade sem envergar o hábito, viveu profundamente a fé, mourejou no seu dia a dia a prática virtuosa da solidariedade que deve ser o âmago da consciência cristã. João Oliva foi o cidadão de uma época e um exemplo para todas as épocas”. O romancista Francisco C. Dantas, autor de “Os Desvalidos” (Companhia das Letras) e seu conterrâneo do Riachão do Dantas disse: “os textos de Oliva valorizavam o progresso ao mesmo tempo em que buscavam repor as bases da tradição sergipana”.

Vivemos tempos terríveis, obscuros, à busca de luzes. Não que seja algo novo viver tempos assim. As vezes quero crer que o “eterno retorno” de que falava o filósofo Nietzsche é de fato uma categoria que persiste na história da humanidade. Mas é preciso também acreditar que em tempos sombrios, homens e mulheres se sobressaem para combater o ordinário, o banal, o estúpido, ou como dizia São Paulo: combater o bom combate. Meu pai foi uma dessas personalidades, daí o dizer de Luiz Eduardo Costa que ele foi o cidadão de uma época e um exemplo para todas.

Hoje, lendo os textos que saíam daquela velha máquina de escrever, observo o esforço que o velho fazia para camuflar dos censores e dos  “linha-dura” do regime militar  o que pretendia dizer, na luta incessante para reafirmar suas convicções democráticas, na esperança pela humanização da vida. Não era fácil ser editorialista numa ditadura e defender com fé inabalável a democracia. Há textos até que parece concessão aos opressores e eu um dia lhe perguntei: “porque meu pai?” Ele me respondeu: “Driblar a censura não era fácil. É como alguns jogos. Às vezes você recua duas casas para depois avançar dez, sem sair do jogo”

Que dizer então, como filho, sobre a pessoa que o encaminhou para o pensamento democrático, para não aceitar as injustiças, para trilhar a vida com ética e dignidade? Tento, de forma trôpega, seguir os passos do velho pai, quando escrevo textos para serem publicados, ultimamente mantendo uma rotina quinzenal no Jornal da Cidade.  Às vezes sinto faltar a fé, sobretudo na humanidade, num mundo de mentiras e desilusões. Mas quando leio meu pai e lembro o seu exemplo, e vejo como sua fé era inabalável e tinha um olhar para além do seu tempo, percebo o quanto é difícil e ao mesmo tempo um privilégio ser filho de João Oliva. Então ponho o ceticismo de lado e de imediato renovo a  esperança na humanidade, e passo a acreditar que o otimismo é uma energia mais que necessária  em tempos tão incertos como os atuais,  e  que nunca é demais acreditar.  João Oliva para além de ser meu pai é voz permanente a sussurrar em meu ouvido: não desista, a vida não é fácil, lutar é mais que necessário, lutar é viver!

[*] É advogado, ex-secretário de Estado dos Direitos Humanos de Sergipe,  poeta e membro da Academia Sergipana de Letras Jurídicas.

Deixe seu Comentário

*Campos obrigatórios.