Opinião
Por | 20 de Nov de 2020, 16h33
Reitor da UFS provoca intervenção do MEC
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[*] Rodorval Ramalho

Como diz a sabedoria popular, o melhor desinfetante é o sol. Exposto à luminosidade solar da democracia, o processo sucessório na Universidade Federal de Sergipe tem espantado a população de pagadores de impostos que a sustenta. Qualquer observador atento chegará à conclusão de que as vísceras da instituição estão em péssimo estado. 

Sob o tacão do mesmo grupo desde 1996, com mais de dois mil processos na Justiça Federal, moralmente degradada, administrativamente terceirizada; com estatísticas que não “batem” com o cotidiano da sala de aula, assaltada pelo tráfico de drogas e suas consequentes violências, dirigida por uma horda de bajuladores (que se apresentam vergonhosamente por ordem alfabética); apartada do mundo empresarial, artístico, intelectual e esportivo do Estado, movimentada por um clientelismo centralizador, confusa e impotente em seus deveres estratégicos. Conduzida com a transparência de uma chapa de aço e resistente à alternância de poder, eis o que resultou desses 24 anos de mandonismo de um mesmo grupo.

Como se tudo isso fosse pouco, o último reitor, Ângelo Antoniolli, resolveu brincar de senhor feudal, tratando o seu processo sucessório ao seu bel e autoritário prazer. Esforçando-se para dar continuação à linhagem que lhe pariu, o simpático descendente de italianos encarnou a sua ascendência mais longínqua e tenebrosa, o maquiavelismo.

Primeiramente, boicotou abertamente a Medida Provisória publicada pela Presidência da República, que tirava o poder dos famigerados Conselhos Universitários e determinava que a própria comunidade acadêmica escolhesse a sua lista tríplice. Essa hostilidade do reitor à democracia no campus foi bem-sucedida, pois a MP “caducou” e as pretensões dinásticas continuaram.    

Em seguida, o Maquiavel de gabinete boicotou a consulta promovida pelas entidades sindicais e estudantis, que acabou não ocorrendo pela falta das listas dos membros, ativos e inativos, da universidade, que a Reitoria se negou a conceder. 

Ato contínuo, o nada magnífico dirigente da maior instituição de ensino superior do Estado de Sergipe organizou uma eleição de fancaria, na qual não havia regras eleitorais, quem recebia e contava os votos era um assessor regiamente comissionado, onde os mais de mil professores doutores eram candidatos sem saber. Não se debateu os programas dos candidatos - enfim, onde o escândalo, o casuísmo e a manipulação se tornaram normalidade. 

Desprezando completamente os conselhos do Ministério Público Federal, bem como os melhores princípios da administração pública, partiu para Brasília com os resultados eleitorais (dignos do coronelismo da República Velha), com o seu sucessor dinástico debaixo do sovaco e catapultado, alegremente, pelo grupo com o qual se manteve encordoado ao longo de mais de duas décadas.

Na capital do país, porém, encontrou uma pedra no caminho,  uma chuva de denúncias de vários tipos, incluindo os documentos do MP, solicitando esclarecimentos acerca da engenharia eleitoral de submundo protagonizada pela longeva administração. Diante de tamanho descalabro, o Ministério da Educação “devolveu” a lista tríplice e espera os devidos esclarecimentos dos atores dessa tragicomédia, enquanto a Justiça Federal também avalia o caso.

Foi assim, vergonhosa e melancolicamente, que chegou ao fim a mais vetusta dinastia de poder acadêmico de que se tem notícia no Brasil. Depois de tanta irresponsabilidade, manipulação, boicote e otras cositas más, espera-se que o Governo Federal intervenha nomeando um reitor pró-tempore para organizar a bagunça e coordenar eleições limpas, honestas, transparentes e isonômicas. 

Nunca, antes, na história da UFS, passamos por tal constrangimento - uma intervenção federal, mesmo que pontual e com data marcada para acabar. Mas foi esse o presente de despedida do magnífico reitor Ângelo Antoniolli.      

[*] É antropólogo e professor da Universidade Federal de Sergipe.