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Por O Globo | 09 de Fev de 2021, 16h33
Doria pede afastamento de Aécio Neves do PSDB
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Governador de São Paulo atribui ao deputado mineiro traições durante eleição da presidência Câmara; líder da bancada do PSDB diz que expulsão não é cogitada

O governador João Doria pediu o afastamento do deputado mineiro Aécio Neves do PSDB durante reunião com correligionários e líderes da sigla na noite de segunda-feira no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. As declarações de Doria expuseram uma divisão dentro do partido. O líder do PSDB na Câmara, Rodrigo de Castro (MG), disse que a discussão sobre a expulsão de seu aliado não é "sequer cogitada" pela bancada tucana em Brasília. Aécio declarou que a atitude do governador paulista foi um "destempero", ocasionado por uma "fracassada tentativa de se apropriar do partido", em nome de "projetos pessoais cada vez menos críveis".

MudançaVitória de Lira afasta DEM de Doria e afeta sucessão em São Paulo

Doria atribui a Aécio um movimento que teria levado a uma série de traições na bancada do PSDB na eleição à Câmara dos Deputados, na semana passada, quando o partido apoiava formalmente Baleia Rossi (MDB-SP), que acabou derrotado na disputa. Aécio nega ter atuado a favor de Arthur Lira (PP-AL), cuja candidatura tinha o apoio do presidente Jair Bolsonaro e acabou vitoriosa. Doria e Bolsonaro travam embates diários com vistas às eleições de 2022.

Para pessoas próximas de Doria, a ação de Aécio seria uma retaliação ao movimento do governador para tirá-lo da sigla. Em agosto de 2019, quando o PSDB rejeitou o pedido de expulsão do mineiro, Doria afirmou que o “velho PSDB esconde sujeiras” e que iria “até o fim” para expulsar Aécio, investigado na Lava-Jato.

O tucano conseguiu se livrar da punição com 33 votos a seu favor na Executiva e apenas três contra, provando o seu cacife interno. O relator do processo interno, que descartou a punição, foi o deputado Celso Sabino (PA), que, recentemente, defendeu publicamente a candidatura de Lira.

Em coletiva de imprensa na manhã desta terça-feira (9), quando anunciou a ampliação de estações do metrô da capital, Doria confirmou sua nova ofensiva contra Aécio.

– Pedi o afastamento (...) O PSDB não deve abrir espaços para comportamentos desse tipo. Mas você não pode ter dissidências num partido que se posiciona com clareza a favor da vida, em defesa da democracia, da saúde e do meio ambiente. E deputados e senadores defendendo o oposto. Isto não é partido. Então aqueles que tenham pensamento distinto que tenham dignidade e coragem e peçam pra sair. Se tiverem coragem que saiam. É a atitude que se espera de alguém com o mínimo de dignidade. É o que se espera de um parlamentar, que foi eleito pelo voto popular. Então respeite o voto e a democracia e saia – afirmou Doria

Réu por corrupção e obstrução de Justiça, o mineiro é acusado de receber propina do empresário Joesley Batista. Ele nega os crimes. Procurado, Aécio ainda não se manifestou.

No meio da tarde, o líder do PSDB na Câmara se pronunciou por meio de nota. Declarou que Aécio tem o seu respeito, além de "experiência valiosa e contribuições importantes à bancada". "Seu afastamento do PSDB já foi objeto de deliberação da Executiva Nacional e, assim, essa discussão não é sequer cogitada no âmbito da bancada federal”, afirmou Castro, em referência à votação que livrou Aécio da expulsão em 2019.

Aécio também reclamou da postura de Doria. Segundo o deputado tucano, durante jantar ocorrido na noite de segunda-feira, o governador paulista demonstrou que pretendia "afastar o atual presidente Bruno Araújo, para que ele próprio (Doria) assumisse a presidência do PSDB."Política não se faz  com arroubos pela imprensa e nem se resume a ações sucessivas de marketing", escreveu Aécio, em nota enviada à imprensa.

Na opinião de Aécio, Doria tenta criar um "conflito artificial" para alimentar "projetos pessoais cada vez menos críveis". "Se o Sr João Dória, por estratégia eleitoral, quer vestir um novo figurino oposicionista para tentar apagar a lembrança de que se apropriou do nome de Bolsonaro para vencer as eleições em São Paulo, através do inesquecível Bolsodoria, que o faça, sem utilizar indevidamente e de forma oportunista outros membros do partido."

Enquanto busca ampliar seu espaço no PSDB para uma eventual candidatura em 2022, Doria também tem atuado para atrair parte do DEM, que vive um racha interno e cuja direção nacional se nega a fazer oposição a Bolsonaro. A estratégia do tucano passaria pela filiação do deputado Rodrigo Maia e do seu vice, Rodrigo Garcia, que comanda a sigla no estado de São Paulo.

A ideia de Doria sempre foi emplacar Garcia para sucessão no governo estadual em troca de apoio do DEM numa eventual candidatura ao Planalto. Agora, porém, diante da incerteza sobre o posicionamento da sigla, a solução seria filiar Garcia ao PSDB. Os tucanos pretendem manter a hegemonia no governo do estado mais rico do país, onde governam há quase 25 anos ininterruptamente.

Nos últimos dias, Maia se insurgiu contra o presidente do DEM, ACM Neto, e acusa o antigo aliado de abandonar o bloco de Baleia Rossi na eleição da Câmara e se aliar ao governo Bolsonaro. 

Doria vai receber ACM Neto nesta noite para um jantar no Palácio dos Bandeirantes. Mais cedo, Doria negou estremecimento na relação com o DEM.

– Não há distanciamento na relação com ACM Neto, tanto que o receberemos junto com o ex-deputado e ex-ministro Mendonça Filho. Não rompemos esta relação, mas o nosso alinhamento sempre foi com o deputado Rodrigo Maia - disse Doria.

 

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